domingo, 12 de abril de 2026

Pessoas velhas e enrugadas são viajantes do tempo

      Uma pessoa velha e antiga traz consigo muitas camadas de vida. Cada ruga no rosto são caminhos de uma vereda que percorreu ao longo de uma existência, e cada sorriso abre um novo vinco entre os pés de galinhas e covinhas recém nascidas. Uma pessoa velha, antiga e enrugada, é uma viajante do tempo.

Suas memórias são uma lista telefônica de palavrinhas pequenas, que custam a enxergar. A miopia da memória se parece com a dos olhos, muitas vezes precisam de óculos. Os óculos da memória são as histórias que contamos uns aos outros nos churrascos de domingo, e nos causos depois de almoços temperados. Adoramos palitar os dentes e contar histórias.

Assim notei quando cheguei na casa da vó maria e olhei o retrato de seu casamento no civil com o vô Albino. Aquela foto pregada na parede do cômodo contava a história do início de um ciclo. Todos trajados com roupas de época, como uma série temática da Netflix. Homens de calça boca de sino, bigodes grossos, e costeletas com cabelos longos, enquanto as mulheres estavam de óculos largos, e vestidos rodados. Aquele quadro na parede é uma janela do passado, que me leva a um tempo que não vivi.

Onde eu estava neste dia? O sangue que eu carrego vem daqueles dois recém casados grudados na parede do quarto de hóspedes. Onde eu estava em maio de sessenta e quatro?

Aquela foto conta uma história minha, ainda que eu não estivesse ali. Talvez estivesse num ventre imaginário numa nuvem qualquer, numa fila de futuros recém nascidos esperando para descer. Sobretudo esperando que minha mãe nascesse primeiro para que de seu ventre eu pudesse chegar.

Repare bem que as mulheres são milagrosas; são borboletas que formam dentro de si casulos que dão a luz a novas borboletas. Repolhos extremamente bonitos que descamam-se entre si, e deles nascem outros repolhos ainda mais bonitos.

O sangue de minha avó, que nasceu no ano de trinta e nove, é o mesmo que carrego hoje em dois mil e vinte e seis. Eu saí de dentro dessa mulher também, de alguma forma. 

Infelizes os homens que não possuem ventre e não podem gerar vida, têm somente na barriga as entranhas comuns e rotineiras que fazem barulho de digestão. Todos pequenos e infantis perto da divindade feminina.

Uma casa de vó é um museu. E o museu existe para que as memórias possam ser vistas sem lentes de contato ou óculos de grau, estão ali disponíveis a olho nu de quem estiver disposto a vê-las.

Meu avô tinha um buda de dez centímetros na estante na frente da porta, ele costumava ficar de costas para quem chegasse, como se estivesse sempre mau humorado e indisposto. Eu quando criança me fazia muitas perguntas, por que a vó e o vô deixam bem evidente uma estátua de um homenzinho gordo na entrada? Eu nunca havia visto aquele homem, talvez fosse amigo do vô, talvez fosse até o próprio vô Albino sempre a andar sem camisa mostrando sua enorme barriga… 

A imagem de Jesus crucificado e pregado na cruz eu já estava acostumado a ver, por serem muito católicos, me acostumei desde pequeno com aquela figura convenhamos muito dolorosa, porém quando descobri que aquela pequena estátua era de Buda, minha cabeça se encheu de nós.

- É sinônimo de prosperidade. Uma amiga minha sabida me deu de presente, disse que Buda virado de costas traz prosperidade. - Dizia minha vó.

A oralidade vinda de pessoas “letradas” foi lei durante muitos anos, sobretudo para aqueles dois que nasceram no interior da Bahia na década de trinta.

A voz de pessoas sabidas montava as memórias, tijolo por tijolo, pavimentando tudo com um cimento de confiança.

Os costumes de matrizes indígenas e africanas sempre estiveram no dia a dia, cujos depois de grande, aprendi a nomeá-los. Por mais que a vó maria pudesse jurar de pé junto que era católica apostólica romana, suas práticas traziam costumes de seus ancestrais. Traziam práticas brasileiras, miscigenadas e vivas. Como sua língua mutante que mistura, brancos, tupis e nagôs.

As folhas do domingo de ramos cruzados sobre os chinelos de cabeça pra baixo afastavam tempestades, a mão sobre a cabeça por muito tempo era agouro de mãe, abrir guarda-chuva de noite trazia má sorte, era proibido assobiar ou bater palma de noite, pois ajudava a chamar o sete-peles, era bom evitar andar para trás que também era mau agouro, além das figas expostas nos armários, que tinham como intenção espantar a inveja de quem chegasse naquela casa.

Talvez a vó Maria ao espalhar fotos, objetos e símbolos, já estivesse fazendo um movimento involuntário de sobrevivência e proteção, tentando deixar pegadas de sua vida e da vida de sua prole pelos cômodos, com a tentativa de que tudo pudesse ficar eternizado, caso nossa memória por algum motivo pisasse em falso. Nosso maior sonho, ainda que inconsciente, é sermos eternos. Sermos lembrados e salvos.

Num domingo de manhã, acordei. Ela estava no corredor, e ainda lembrava meu nome. Fomos até a cozinha, preparei seu café no filtro de pano, fiz o cuscuz com ovo que ela mesma me ensinou a fazer, preparei seu prato com a manteiga do lado, ofereci a ela e comungamos juntos. Eu era um privilegiado naquele domingo de manhã, pois ela lembrava meu nome, e o nome carrega uma imagem sonora de quem fomos. 



terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A casinha de Tanabi

Numa rua isolada e calma da cidade de Tanabi, interior de São Paulo, existe uma casinha respeitosa. É uma casa idosa, não de velha ou de antiga, feita nos anos setenta ou coisa assim, mas idosa no sentido de aromas, toques, sabores. A casa é recente na cidade, azulejos novos, batentes frescos, plantas bebês no jardim com abacaxis pequenos brotando, mas exala alfazema e cheiro de vó. 

Próximo das onze horas um cheiro de almoço refogado em banha de porco toma conta da cozinha, do quintal, do quarteirão. Arroz e feijão frescos, que de tão simples e cheirosos pareciam ter vida própria na louça de cor laranja escuro.

Quem come por aquelas bandas diz que senta-se à mesa para o almoço comer a gente, não o contrário. 

O banquete humilde surpreende a quem o aprecia. Como hipnose, a receita feita sobre a mesa enfeitiça qualquer um pelo cheiro e pelo gosto. Sensações psicoativas são proferidas a quem saboreia aquelas iguarias, como se uma viagem astral começasse. Um almoço entre amigos ou em família, se torna uma viagem psicodélica com facilidade. 

Há relatos de jantares entre primos que até hoje, nunca mais voltaram de tal destino, além de relatos de uma ceia de natal onde bisavós e tataravós por comerem demais, ficaram presos num tempo espaço paralelo a serem sempre bisavós e tataravós.

Cientistas da Universidade de Rio Preto fizeram estudos, e comprovaram que nenhuma substância psicoativa estava presente naqueles banquetes.


Os moradores humanos daquela casa são três. Dona Aparecida, Seu Ivo e Seu Palmiro. Os primeiros dois citados eram casados, já o último havia sobrado.

A magia acontecia pelas mãos da matriarca, feiticeira nata, fazia alquimia em suas refeições, e atraía toda a família para a mesa que mais parecia um buraco negro que sugava seus visitantes para o espaço.

Diz a lenda que Dona Cida tinha contatos diretos com o além. Conversava com o outro lado como quem conversa com o dono da quitanda comprando um alface. 

Um dia desses, Zé Pipoca passava com seu carrinho pela rua, e viu Dona Cida cochichando sozinha com a estátua da Preta Velha ao pé do oratório. Olhava no fundo dos olhos da imagem e oferecia café com pãozinho, pedindo conselhos e ouvindo queixas. As almas de lá também costumam desabafar, e Dona Cida era toda ouvidos.

Esse mesmo Zé Pipoca que passava com seu carrinho vendendo aos finais de semana, e que frequentava terreiros, tinha uma teoria de que Dona Cida era uma entidade encarnada em terra. De que do lado de cá, ela era a preta velha, e que do lado de lá, a imagem pedia intuição a ela. Ambas entidades em universos distintos. 


Os dois homens da casa eram meros coadjuvantes em relação a senhora. Seu Palmiro tinha toques absurdos. Andava pela vasta casa como um guarda, catava as folhas mortas do chão, uma a uma com a mão, com a paciência de quem ainda tem cem anos pela frente. Saía ao portão, olhava o marasmo da rua, conferia se seu Corcel II azul calcinha estava de fato trancado, cumprimentava os cachorros, e voltava.

Quando se entediava, ligava o rádio num volume alto, escolhia uma estação que estivesse tocando a moda de violão mais bonita, deitava no sofá e ali ficava.

Quando a frequência chiava e desaparecia, se levantava furioso, e puxava o fio da tomada.

- Cachorro louco. - Dizia.


Seu Ivo já tinha muita idade, e o Alzheimer o acometeu com violência. A memória nessa etapa da vida é uma das poucas coisas que se sobra, e perdê-la é um castigo tremendo. Certo dia ele sentou-se na cadeira, iniciou uma prosa relembrando os tempos de quando era jogador de futebol de várzea. No meio do assunto seu olhar se perdeu no vazio, e um silêncio encerrou o assunto. A ideia foi embora com o vento que soprava no início da tarde

O Alzheimer é como um fantasma que insiste em calar a boca do vivo. Um pêndulo entre um fantasma que apressa a morte, e um vivo que a rejeita.

Mas naquela casa muitas coisas tinham boca. Muitas coisas relembravam o que seu Ivo se esquecia.


O relógio ali, sem dúvidas era o patriarca. Somente ele vencia os moradores em termos de tempo de vida.

O mais antigo ser era feito de madeira, imponente e austero, olhava tudo de cima para baixo, tiquetaqueava o tempo há mais de cem anos, contando e marcando os minutos de vida de cada ser a sua volta. Ele marcava o compasso de tudo o que era vivo. Naquela casa, tudo vivia há muito tempo.

Os moradores se estapeavam entre objetos vivos, fotos antiquíssimas, rádios tagarelas e cadeiras espaçosas, sedentas por alguém que procurasse se espreguiçar nelas.

Cadeiras feiticeiras, agarravam suas presas pela preguiça e as abraçavam feito plantas carnívoras, aconchegando, acarinhando, e roubando horas do dia de quem cedesse aos encantos dela.

Há quem diga que tudo isso é mentira, que é invenção de gente maluca, ou efeito alucinógeno de algum cogumelo que só nasce por ali, mas a magia sempre existiu naquele lugar. Um dia que estiver livre posso te levar por aquelas bandas.

Quem saberá dizer quantas portas se abrem, quantos mistérios, e quantas vozes existem na profundidade daquela casinha de esquina em Tanabi.


Talvez todos os adultos sejam asmáticos

Conheci um menino que morava em Cajazeiras; não a cidade do interior da Paraíba, mas o bairro que tem esse mesmo nome na região metropolitana de Salvador.

  Ele era magrinho, franzino de tudo. Fui almoçar na casa de sua mãe num domingo quente de fevereiro a convite da família que conheci numa dessas viagens pelo sertão. 

Esse mês em específico na capital baiana, o espírito de carnaval sobrevoa a cidade como aquelas brisas que dão a volta no Farol da Barra, e traz pra orla da praia um cheiro de maresia e dendê que paira pela cidade. Minto, a magia deve começar lá pelo dia dois, quando Iemanja dá as boas vindas aos seus filhos, no dia da lavagem das escadarias.


Esse menino a quem me refiro, curiosamente nasceu também no dia dois de Fevereiro, dia da rainha do mar. Cheguei em sua casa no dia primeiro e já se via em seu semblante a ansiedade infantil de quem vai ficar mais velho no dia seguinte. 

- Tio, sabia que amanhã vou fazer dez anos?

E eu todo sem graça cheguei de mão abanando pro menino. Fiquei devendo.

Os aniversários para crianças são carregados de magia e euforia, me lembro bem quando eram os meus de menino. Que tipo de magia esses dias tem quando somos crianças? Que tipo de mágica ocorre quando crescemos e a tudo some, se esconde atrás da árvore e fica lá pra sempre. Nunca mais a vemos.

Os olhos brilhando do menino com a iminente presença do seu aniversário que se escondia no dia seguinte, me deixou nostálgico.


Depois de me cumprimentar, o garoto saiu num pinote correndo pelo quintal, abriu o portão e foi jogar bola na rua.

Entre tropeços, gritos, chutes no vento e uns arranhões, após duas horas, ele entrou todo sujo pra almoçar.

- Vá tomar banho antes de se sentar à mesa, não pense que vai comer todo afobado assim não. - Dizia sua mãe.


Me lembro da última vez que havia visitado aqueles amigos, o menino era mais novo e tinha ataques frequentes de asma.

- Olhe eu não sei o que se passa, já levei na médica e depois da última lua de janeiro, ele sempre começa a ficar espevitado, fica assim o mês todo respirando direito. é só acabar fevereiro que a falta de ar volta. - Replicou a mãe.

- Agora deu, Iemanja tira a asma do menino todo começo de fevereiro, só pode. - Disse eu na mesa ,e todos caíram no riso.


O papo de adulto seguiu normalmente durante esse dia, tudo muito agradável e caloroso, muitos sorrisos, lorotas, casos, comida boa e aromas de memórias. Mas os assuntos que mais me interessam sempre são os mágicos; desses que os adultos não conseguem explicar, ou na verdade já perderam a paciência de entender.

Enquanto os pais dos meninos conversavam comigo olhando em meus olhos, sobre negócios de adultos, minha cabeça estava no mistério do menino. Infelizmente não sei se é o tdah, mas este assunto da mesa estava menos interessante. 

Uma escritora famosa que agora me falha a memória, disse uma vez: O real dá-me asma.

Vivemos a vida toda sentindo tudo à carne, dores, arrepios e ventos frios. Quando fazíamos aniversário na infância, a mágica aparecia e nos tornavamos parte do vento, voávamos com a maresia ao encontro do que realmente somos, espíritos livres em liberdade. Por alguns dias nos permitíamos estar longe da realidade. A realidade nos deixa sem ar? 

As vezes penso que sim, é como uma mão de ferro que segura em nosso pescoço e asfixia nossos sonhos, mesmo depois de adultos. A rotina e o medo nos cegam por dentro nos obrigando a fugir pra algum lugar remoto dentro de nós, a fim de buscar essa infância escondida dentro de cada um. Quando a angústia nos enforca e tira nosso ar, fugimos pra esses lugares ensolarados da memória. Talvez todos os adultos tenham asma, só não sabem.


Queria ser aquele menino correndo descalço na rua, respirando fundo, sentindo no ar sua liberdade entrando nas bexigas coloridas dos seus pulmões, inflando e murchando, seguindo seu rumo numa eterna festa com coxinhas e balas de coco embaladas. Correr e pular, era a alegria daquele menino.

Depois de adultos, recriamos nossas festas de aniversários em outras tarefas. Ficamos o resto da vida a procurar essa liberdade que ficou escondida atrás da árvore da infância.


No dia seguinte, saí cedo pra comprar seu presente. Rapidamente reparei que no olhar brilhante do menino com aquele sorriso largo de dentinhos separados, notei que estava ansioso. O sorriso dele murchou quando abriu o pacote e viu que era uma camisa do Bahia. Seus pais não me avisaram que o menino era torcedor do Vitória.


sexta-feira, 7 de novembro de 2025

A maldição do Bacurau

 


O dia dois de novembro é rodeado de névoa de leite, daquelas que descem no fim de tarde e se comunicam com estranheza. O dia em que os mortos caminham por onde não podem mais caminhar. A noite crua é agitada, e o silêncio não existe, na verdade pode até existir, mas ele é uma noiva vestida de branco, com colares brilhantes de vagalumes. Tem saltos altos que ao caminhar ressoam a sapos coaxando em coro uníssono.

Grilos e cigarras em legiões tomam conta do escuro, e cada som, por mais longínquo que seja, nos intimida. 

A coruja que canta do outro lado do lago ecoa assustadora. Seu piar correu as águas profundas e chegou até mim como se fosse uma brisa noturna. Estava em um camping me preparando para dormir em minha barraca quando ouvi um canto familiar. Tentei me lembrar de onde havia ouvido aquele piar, mas foi em vão. Era o Bacurau, ave de cantar triste e medonho.

Uma lenda famosa sobre essa ave, muito contada nos sertões do Brasil, é que o bacurau seria na verdade a alma de alguém que morreu sem descanso. Dizia-se que essas almas vagavam em forma de ave, cantando a noite como um pedido de socorro ou arrependimento.

Sempre fui muito curioso e decidi andar pela trilha próximo ao camping, para poder ouvir o canto do pássaro mais de perto.

Tomei minha lanterna, pus uma bota e saí devagar como um menino que quer desbravar a mata escura. As araucárias gigantes reluzidas na luz da lanterna faziam sombras sinistras por detrás e pareciam se mover com a luz, que em minha mão se tremia levemente também. Pássaros passavam por cima da minha cabeça e só sentia ventos próximos. Talvez poderiam ser morcegos. 

O cheiro de sereno que descia vagarosamente nas folhas mortas da mata, era o perfume da floresta, misturado com ervas selvagens que enfeitavam a escuridão. Eu já havia andado dez minutos de trilha e o canto do Bacurau nunca chegava perto suficiente, uma mágica ancestral para pegar meninos ingênuos?

Subitamente fiquei arrepiado, não sabia o que era. Olhava para esquerda, pra direita e não via nada. Somente as cigarras e os sapos barulhentos próximo do lago. Foi quando mirei o facho da lanterna distante, há uns vinte metros reto em minha direção, vi algo que parecia uma árvore medonha de semblante humano. Ela parecia se mover vagarosamente como um predador que espreita para agarrar sua presa. Parei por alguns segundos tentando decifrar o que poderia ser aquilo, que tinha olhos em formato de folhas verdes fluorescentes, e uma boca triste e negra. Fiquei gelado como um defunto, e todos os pelos do meu corpo ficaram em pé.

Em questão de segundos aquilo ganhou luz e o que iluminava o resto da floresta não era minha lanterna, mas sim aquela coisa flutuante de olhos brilhantes na minha frente. Num piscar de olhos, aquilo desapareceu e somente minha pobre lanterna encarava a noite sem lua.

Ali a noite barulhenta se calou e só restou meus passos apressados pisando nas folhas, e minha respiração ofegante, que ofuscava os grilos e as cigarras. Quando o medo nos abate, o mundo lá fora fica em silêncio, e escutamos nossas entranhas primatas voltando a ser selvagens, como uma presa que foge da morte.

Caminhava ansioso com pressa em chegar a minha barraca, enquanto aquela imagem fantasmagórica não saia da minha cabeça. Tentava decifrar o que eu tinha acabado de ver. Era um sonho, ou era real?

Quanto mais eu caminhava, mais o canto do bacurau ficava alto, eu o sentia mais perto, mais próximo, o sentia na minha nuca.

Parei e olhei pra trás, num lume de coragem iluminando tudo à minha volta, mas nada, Quando me voltei novamente adiante, aquela coisa me mirava no fundo dos olhos e começou a chorar copiosamente. Era um choro de homem adulto. Naquele instante desmaiei e senti meu corpo caindo em cima de uma raiz de árvore.

Acordei assustado no meio da noite, ofegante e de olhos arregalados. Olhei para o relógio e eram duas horas da manhã. Se tratava de um sonho. Respirava aliviado como quem se livra do pior.

O que eu não contava é que, quando voltei a pegar no sono, sonhei novamente com a mesma situação. Parecia um looping, eu saía da barraca, percorria a mata escura, via aquele ser medonho, desmaiava, e acordava de susto. Eu gritava na mata, porém ninguém me escutava. Eu gritava, e minha voz soava como o Bacurau.

Não sei por quanto tempo eu vivi a essa noite interminavel, parecia uma tortura que não me deixava sair por nada.

Foi quando durante o sonho encontrei uma terceira pessoa. Ela vestia branco e trazia consigo folhas de reza, além de um prato com algumas oferendas. Essa pessoa não me via de jeito nenhum, por mais que eu esperneasse e acenasse. Ela se assentou na mata escura, rezou tão profundamente que enquanto ela proferia palavras uma aura clara a rodeava, como se fosse a minha lanterna iluminando. 

Naquele instante eu senti um prazer e uma leveza como nunca senti antes, e por fim pude voltar a minha eterna casa. Nunca mais precisei da minha barraca.


terça-feira, 2 de setembro de 2025

O idioma dos deuses


Palavras são um conjunto de riscos que juntas, para muitas pessoas, têm um significado. Como se olhando aquele desenho abstrato de formas distintas, pudéssemos entender a teoria da relatividade e como o tempo passa em diferentes universos, ou até mesmo entender na maior riqueza de detalhes o que se passava com Dom Quixote, que só existiu na cabeça de Cervantes.

Um compilado de garranchos inventados, que juntos formam frases e pensamentos que nunca saíram do nosso lado de dentro. Como é para uma criança entender que tudo o que pensamos, pode ser descrito e lido em voz alta?

Foi quando no dia em que estava sentado no sofá depois de um árduo dia de trabalho. Mente barulhenta, com prazos e tarefas atrasadas a serem feitas, eis que meu filho de cinco anos se volta a mim, com a mão suja de canetinha, me mostrando um caderno com um risco aleatório na horizontal:

- O que está escrito aqui, papai? 

- Nada, filho.

Respondo eu, dando uma olhada no pequeno caderno, sem ao menos olhar para o rosto dele.

Ele se voltou para o caderno com uma alegria súbita, como se tivesse descoberto uma lei fundamental da física.

- Está escrito Nada, papai? Você entendeu o que eu escrevi?

- Ah não, filho. Eu quis dizer que não tem nenhuma palavra escrita aí. São somente riscos sem significado.

Nesse instante aquela criança murchou como uma florzinha triste e se encolheu no seu laboratório mental, tentando de qualquer forma um tipo de comunicação comigo de forma escrita. Como se a mente dela fosse um universo à parte, e a minha mente obtusa adulta fosse um terreno alienígena com pretensões de ser conquistada.

Quando somos crianças adoramos desenhar aquele conjunto de rabiscos que simbolizam casas, pessoas de palito, passarinhos e sóis. Quando crescemos mudamos nossa didática e transformamos os desenhos em códigos complexos cheios de acentos, tempos verbais e coesões. Nos esquecemos que são os mesmos desenhos primitivos com intenções de colonizar a mente alheia. Ou ao menos, fazer com que o outro entenda o que se passa dentro de nós.


- Mas papai, tá aqui escrito - árvore - Porque você não consegue entender?


- Nesse rabisco não está escrito - árvore - filho. A partir do ano que vem você vai estar na escolinha e vai poder aprender a escrever igual o papai e a mamãe.


O pior de tudo é que na cabeça genial daquele filhote de homo sapiens, de fato estava escrito - Árvore - no caderno. Ao seu jeito, é verdade. Com seu vocabulário, sem dúvidas. Ora, se Tolkien inventou um alfabeto inteiro pra dar uma linguagem a elfos que sequer existem no mundo físico, quem seria eu pra julgar o alfabeto criado pelo meu filho?


Naquele mesmo dia pela manhã antes de ir trabalhar, abri um livro de poemas do Pessoa, mais especificamente Alberto Caeiro, meu heterônimo preferido, que curiosamente dialogava muito com essa cena:


“A criança que pensa em fadas e acredita em fadas

Age como um deus doente, mas como um deus.

Porque embora afirme que existe o que não existe

Sabe como é que as coisas existem, que é existindo,

Sabe que existir existe e não se aplica,

Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,

Sabe que ser é estar num ponto

Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.”



Me lembrei de um desses dias, quando minha esposa estava sentada na poltrona da sala lendo um livro. Ela costuma fazer isso depois do jantar quase como um ritual. Se levanta da mesa, se espreguiça olhando para a TV, e em seguida caminha até a estante para pegar o livro que lhe interessa, senta na poltrona com uma perna dobrada sob a coxa, e a outra esticada. Enquanto isso, a louça fica a meu encargo, mas nosso filho fica no tapete, aparentemente brincando de lego, porém seus olhos atentos observam a matriarca como um espelho a ser seguido.

Que tipo de assunto deve haver naquelas folhas de papel onde a mamãe não desprende o olhar de lá?


Ele olha para a mãe como se olhasse para sua casa - que de fato foi por nove meses, - mas como se quisesse entender o mistério daquela casa. Como se aquela casa fosse um pouco dele, e nele subitamente despertasse uma vontade imensa de copiá-la e segui-la. A mamãe naquele contexto era o caminho a ser seguido, era o seu guru.


Depois de recordar essa cena, pude entender um pouco a intenção do meu filho quando me mostrou o papel de rabiscos esperando uma aprovação; ele queria falar seu próprio idioma, seguir estando dentro daquela barriga. 


terça-feira, 1 de julho de 2025

O que surge ao abrir os olhos de dentro



  Lembro da primeira vez que ouvi uma gata miar no cio desesperadamente na laje do vizinho. Aquilo parecia um grito angustiado de pedido de ajuda, como se naquele instante ela estivesse sangrando por dentro, prestes a morrer de agonia e tristeza. Aquilo me assustou e quis na hora ajudar o pobre bichinho, me recordo de ter pedido a minha mãe, mas ela com uma calmaria totalmente avessa ao martírio da gata, disse que ela só estava procurando outro gato.

- Não queira saber depois que o gato penetra a pobrezinha, os gritos são piores, você vai ver.

E de fato, quando ouvi pela primeira vez tive que pesquisar no Google o motivo que a gatinha aparentava sofrer tanto. Será deus que ela sentiria prazer como todos os outros bichos sentem no coito?

Uma vez minha mãe disse que a tia Marcela era triste quando estava em intimidades com o tio Nelson. Sempre tive essa dúvida na cabeça, aproveitei a ocasião pra tirá-la

- Mamãe, a tia então é bem parecida com as gatas, uma vez vi vocês duas falando que a tia ficava triste na cama? O negócio do tio é espinhoso igual ao dos gatos? - perguntei.

Minha mãe me colocou de castigo até o final do dia depois que disse isso, fiquei sem saber do motivo. Cumprir algo ruim sem sabermos o motivo sempre me deixou triste.

No quarto fiquei sozinho com a porta trancada até a voz de liberdade da minha mãe. Tenho medo de ficar sozinho. Mas quando estamos no quarto sozinhos, nunca estamos no fundo sós. O escuro, as portas, as estantes e os insetos pequenos estão ali. Uma vez o padre na catequese também disse que Deus está perto de nós quando ficamos sós, porém tenho minhas dúvidas se ele de fato existe, pois nunca o vi. Algumas pessoas da novela dizem que Deus também está na natureza, nas árvores, no sol e na lua. Se ele de fato morar nessas coisas, aí já faz sentido começar a acreditar. 

Quando olho para o sol próximo da hora do almoço, não consigo olhar por muito tempo. Sou tomado por um embranquecimento que me cega e incomoda os olhos. Talvez o sol seja tímido e preservado por não permitir olharmos tanto pra ele, o que não faz sentido pois ele brilha e é mais amostrado que tudo.

A lua sim se parece mais a um Deus, ela fica ali quieta, muda de forma como um tipo de pokémon, cada semana que a olhamos ela está de um jeito, e sempre quando me debruço na sacada ela parece conversar comigo. É curioso pensar que aquela mesma lua é vista por uma pessoa como eu debruçada na janela a quinhentos quilômetros de distância, e talvez essa pessoa também sinta essa divagação, como se olhar pra lua nos transportasse para outro lugar. Isso pra mim parece magia, e magia me faz lembrar um pouco de Deus. 

Meu pai uma vez me disse que as estrelas também são interessantes, elas ficam paradas no céu e só podemos vê-la pela noite. Elas sim são mais tímidas e só aparecem quando querem. Sem contar as estrelas cadentes que rasgam o céu pegando fogo; são como faíscas de fogueira de São João, sempre saltitantes e felizes.

Quando a noite cai, tudo lá fora fica em completa escuridão. Ninguém enxerga ninguém e parece que ficamos suscetíveis. Talvez para os gatos seja totalmente o contrário. Já ouvi dizer que esses felinos de noite são bem mais espertos que nós. Ver no breu é um super poder que gostaria de ter. Se deuses tem super poderes, o gato também pode ser um deus.

Ao olhar o breu de fora e a luz do meu quarto acesa, me sinto vulnerável, como se todos me vissem, e eu não visse nada. Mas quando apago a luz do quarto, me igualo ao breu lá de fora, e me torno amigo da escuridão. Caminho ao seu lado como dois parceiros fora da lei, e me torno predador quando me igualo ao pretume. Me sinto poderoso; como se por fim conseguisse ver o que ninguém vê, mesmo que não enxergue dois metros adiante. Estou dentro do escuro, e isso me faz seu amigo.

Igualado à amiga escuridão, a cumprimento e pergunto como é a sensação de estar sempre sem luz e invisível. Ela parece sorrateira e só responde as perguntas que quer, parece misteriosa e não gosta de entregar tudo o que sabe, e faz bastante sentido pois se entregasse tudo que sabe, seria clara e não escura.

Quando estava no meio do interrogatório algo cortou minha linha de pensamento; ao longe escuto uma coruja piar, e o canto da coruja me arrepiou dos pés à cabeça. Como era possível um bicho soar um canto mais medonho que da gata no cio? Um lamento ecoado e sofrido, como se fosse um último gemido da noite. Um aviso de que aquele terreno era um tanto hostil pra um menino ingênuo como eu. A noite usou da voz da coruja para falar comigo.

Porém não me senti acanhado, estive próximo de algo que beirava um deus. Toda conversa existe quando há um outro lado que escuta, portanto, naquele instante houve um diálogo, e a mensagem foi passada, apesar do medo.

O medo que senti ao ouvir a resposta da noite já estava dentro de mim, há muito tempo, muito antes de eu nascer. Vieram com meus avós, com os pais dos meus avós, e os avós dos meus avós. A escuridão também estava com cada um deles e os acompanhou por toda vida. Senti naquele momento que era importante ser amigo da sombra, não porque gosto dela ou porque a acho bonita, mas dessa maneira consigo lidar melhor com ela, e aliviar a tremedeira e os calafrios do conhecido medo.

Quando a coruja parou de piar, voltei a pensar melhor. Ouvi uma voz de mulher familiar ao fundo, mas eu hesitava em sair do meu escuro.

Arregalei os olhos de susto com minha mãe me chamando para jantar e acendendo a luz do quarto. Voltei à realidade e até esqueci o motivo de estar ali. 

- Fiz um novo amigo mamãe, mas só consigo vê-lo quando apago a luz!

sexta-feira, 7 de março de 2025

Esmeralda benzedeira




    Há muito tempo na região de Curvelo, no começo dos Gerais de Minas, existiu uma bruxa de nome Esmeralda. Bonita dos olhos, como dessas ciganas que Machado descreveu bem; oblíquos e dissimulados. 

Me refiro àquela mulher como bruxa, mas podemos nomeá-la de feiticeira ou catimbozeira, dependendo do lugar. Normalmente ninguém se autodenomina feiticeira, as pessoas que dão essa alcunha ao sujeito, como se esse fosse dotado de poderes mágicos capazes de fazer ruindades ou bonanças. Na maioria das vezes sempre é de teor negativo pelo medo. O medo isola as pessoas em um lugar frio e úmido das ideias, impedindo de seguir seus amores.

No fundo aquela mulher misteriosa carregava consigo dons que séculos de ciência ainda não puderam decifrar. O instinto de enxergar com seus próprios olhos, coisas que ninguém via, mas que sim, com todas as forças, podemos admitir que estavam ali.


Dizem que Esmeralda nasceu de um casamento proibido entre dois primos, sua mãe fugiu com o parente de casa, se instalou em um povoado perto da cidade, e ali deu à luz a menina que, apesar dos agouros da família, nascera com saúde ao meio dia de um domingo. 

Desde pequena, Esmeralda demonstrou ser uma criança atípica, não me refiro a algum tipo de esquizofrenia, mas uma diferença nítida que saltava dos seus olhos. Esmeralda via pessoas e coisas com um ponto de vista distinto. Enxergava vibrações saindo de pedras, escutava a respiração das plantas, e até podia sentir sentimentos de animais. 

A menina nunca se esqueceu do dia em que seu pai matou um porco pela primeira vez no quintal para a ceia de fim de ano. Ao olhar o porco amarrado prestes a ser degolado, olhou no fundo dos olhos do bicho e sentiu o medo dele. O medo do porco era o mesmo medo que sentiu no dia em que quebrou a imagem de nossa senhora e sua mãe lhe bateu com chinelo. Era medo e desespero.



Desde muito pequena Esmeralda ouvia vozes, e via pessoas em seu quarto. Quando sua mãe perguntava, dizia que eram amigos antigos. Uma menina de seis anos com amigos antigos era no mínimo estranho.

Sua mãe notou esse fenômeno quando uma noite antes de dormir ouviu Esmeralda falar sozinha altas horas da noite, rindo e argumentando coisas que uma criança de seis anos argumenta. No dia seguinte ao ser perguntada sobre com quem falava:

- Eu tava falando com meu amigo grande do chapéu branco, mamãe.


A menina foi crescendo e o costume de falar sozinha a acompanhava pelos anos. Foi quando ela já adolescente, viu seu pai acamado e instintivamente foi no jardim buscar algumas ervas. Recolheu arruda, algumas folhas de guiné, uma raíz da época que parecia açafrão, e levou para o quarto. Ralou a raíz, juntou os galhos, se prostrou na frente do pai e iniciou uma reza. Percorria as folhas pelo corpo do pai enquanto assoprava a raiz ralada. Cochichava palavras repetidas e fazia gestos como uma magia muito antiga; a menina parecia que fazia aquilo há anos com tamanha precisão de movimentos. A enfermidade do pai aliviou bruscamente em poucos dias depois da reza. 

- De onde aprendeu isso, Esmeralda?

- Meus amigos me ensinaram, mamãe.


O costume de curar pessoas fazia fama no arraial, e aos poucos a menina começou a fazer rezas para pessoas acamadas e à beira da morte. O doente saía das orações com uma vitalidade mudada em minutos. A cena era no mínimo curiosa e intimidava suas amizades que por medo se afastavam.


A criança cresceu sem muitos amigos físicos. As amizades de outro mundo domaram sua rotina e afastaram seus possíveis amiguinhos da escola, que corriam de medo e tinham pesadelos de encontrá-la nos corredores do recreio.

Serginho por exemplo, filho de seu Manuel, uma vez encontrou a amiga no caminho de volta da escola, andando pelo estradão. Ele mantinha distância de meia légua, só observando seus passos. Numa curva, caminhando tranquilamente, algo pareceu chamar atenção da garota, Esmeralda virou e sumiu. O menino continuou a caminhada em direção de casa, porém a minutos dali, viu a menina em cima de um jatobá.

O menino custou a acreditar que era sua amiga da escola em cima do galho alto, olhou pra cima e pensou que fosse lobisomem. Serginho correu tão depressa que sem dúvidas preferia que fosse um.


Quando cresceu, a juventude assolou seus dias e Esmeralda sentia coisas novas da idade. Dizem os vizinhos que quando fez dezoito anos andava pelas ruas medindo todos os homens da cidade, olhava de cima a baixo, como quem escolhe uma presa para devorar. Cortejava homens com uma astúcia que deixavam eles próprios intimidados, sem contar a já fama de feiticeira que tinha desde a infância que afastava possíveis pretendentes.

Seu Teodoro, um de seus vizinhos, comentava que em noites frias de lua nova, onde tudo nada se via, e os galhos balançavam barulhentos, ouvia-se um gemido agudo no fundo da casa da menina, quase como uma onça no cio. Um cheiro de dama da noite pairava pelos quintais e assombrava todo o quarteirão. Esmeralda se retorcia na sua solitude guardando a fogueira dentro de si como um bicho feroz que anseia fugir da jaula.


Mas dessa angústia sofreu pouco. Meses dali um estrangeiro chegava para visitar parentes e observou Esmeralda conversando com sua mãe na janela da esquina. Era um homem alto, forte, sisudo, sem cabelos na cabeça, e um cavanhaque de pistoleiro. A moça olhava o homem, e o homem retribuía o olhar com a mesma voracidade, algo que ela nunca havia sentido. Em três meses, o forasteiro e a ciganinha estavam casados no papel.

No fundo a moça queria dominar aquele homem e se sentir mulher pela primeira vez. Mas o que ao certo seria se sentir mulher, se nem ao menos ela conseguia se sentir Esmeralda.

Ser mulher era poder ser ela própria, sem grandes julgamentos. Poder falar sozinha com suas vozes, rir de boca aberta, sentar sem fechar as pernas e fazer suas rezas.


Depois de sua primeira vez, Esmeralda ficou decepcionada com o homem. Dizia em voz alta todo dia pela manhã que seus próprios dedos eram melhores, e que se aquele homem não soube satisfazê-la, nenhum outro mais poderia fazer. A moça ficou condenada a renunciar ao mundo físico. Todo seu universo ficava do lado invisível.

Esmeralda era uma estrangeira em terras encarnadas, vagando como uma alma penada em corpo de mulher, sem saber seu rumo.



Após seis meses seu marido faleceu de causas misteriosas. Boatos de que não era um homem calmo, vivia agitado, ciumento e brigador. Foi encontrado no fundo do bar de olhos arregalados e com o cavanhaque mal feito, sujo de batom vermelho. 

Esmeralda se tornou a viúva mais conhecida dos Gerais. Tinha energia de pombo-gira, gargalhadas altas e espalhafatosas, aparecia nas missas de domingo vestida com saias despreocupadas, estava presente também nos terreiros e nas giras de quarta feira. 

Apesar de seu sorriso insinuante e olhar marcante, nenhum homem jamais se aproximou dela. Rezava a lenda que ela tinha uma armadilha de pegar tatu entre as pernas, e que havia matado seu marido depois de um coito emocionado. 


Eis o dilema em que a moça estava metida, a linha tênue entre a benzedeira que rezava em prol dos outros, e a misteriosa assombração que assustava o vilarejo.


Já com seus vinte e três anos, numa noite de neblina baixa onde só os vultos tomam conta, uma dessas nuvens lhe encontrou no seu quarto e sussurrou no seu ouvido. Era um velho amigo seu, o do chapéu branco que aparecia para a menina quando criança. 

Em sonho este amigo lhe disse que em breve sua vida mudaria da água para o vinho, e que era urgente ela se preparar. 


Esmeralda despertou do sono como de um grande coma, suspirou forte com os olhos estatelados, com uma ideia fixa na cabeça, como se fosse uma necessidade fisiológica.

Tomou um papel e escreveu de supetão sete páginas, todas em sequência como um gigantesco passo a passo. A moça terminou a escrita e soltou o lápis, caindo ao chão já mole como um prédio que desaba. Dizem que neste momento toda Curvelo estremeceu com um terremoto de segundos; era o fim da carne de Esmeralda em terra.


Em seis páginas desse papel, estavam escritos segredos e farsas de muitas pessoas do vilarejo que se faziam de santo. Uma lista completa de traições, vinganças enrustidas, falsas promessas, e intenções negativas de muitos. Na outra página que restou, estava uma reza de cura fortíssima, um passo a passo do trabalho que ela própria fazia. Não demorou para que seu legado fosse inspirador para outras meninas, e seu trabalho benzedor fosse passado para gerações.


Em seu túmulo, crescem flores vermelhas diariamente, e um funcionário do cemitério tem de aparar incessantemente o arbusto de rosas que termina por encobrir até os outros túmulos. Pela noite, quando a neblina está baixa, pode-se ver o homem de chapéu branco caminhando ao redor de sua lápide.

Nos dias atuais, todas as benzedeiras da região se dizem filhas de Esmeralda com orgulho. Rezadeiras, bruxas e mulheres.