sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Rotina que Cega




A rotina cega.
A alma fica inerte,
E nas vezes que o vento passa,
Não recita mais nada.
Só diz que é vento e permanece mudo
Num ensurdecedor silêncio.

Cegueira de alma é um perigo.
Quando o vento emudece,
As flores se acinzentam, as metáforas somem,
E olho-me com as costas dos olhos.


Se a poesia emudece
Morremos em vida.
Cadáveres prorrogados,
Perdidos na rotina.




(Felipe Leonardo)

Poema de Despedida





Toda despedida é silencio.
E ao fim, nos sobra o mundo mudo.
A memória congelada de tudo
E a saudade alegre no coração.

Toda despedida é breu.
A realidade fica escura,
Cegos a tatear o que estavam à procura,
Sedentos do que já aconteceu.

Toda despedida é reticente.
É lenta e não descola,
O último beijo demora,
Parece não querer ir...

E toda despedida é morte,
Fica mais dura quando há amor.
Mas quando nos vemos, nascemos,
E me esqueço de que senti dor!




(Felipe Leonardo)

Prosador





Os ventos assoviam à noite
Demoram a me tocar.
Percorrem distâncias absurdas,
Penteando aves e aviões.

Eu sou longe.
Os ventos demoram a me encontrar.
E o ar quando entra, ecoa.
Assovia por minhas entranhas,
Em busca de mim.

Diz-me coisas do caminho
Anedotas e histórias fiadas,
Causos, sentimentos e flores,
Rotinas cantadas.

Quem me dera se me contasse
Meus segredos que nem eu sei.
As histórias do mundo afora,
Ao menos hoje, dispensei.



(Felipe Leonardo)