O dia dois de novembro é rodeado de névoa de leite, daquelas que descem no fim de tarde e se comunicam com estranheza. O dia em que os mortos caminham por onde não podem mais caminhar. A noite crua é agitada, e o silêncio não existe, na verdade pode até existir, mas ele é uma noiva vestida de branco, com colares brilhantes de vagalumes. Tem saltos altos que ao caminhar ressoam a sapos coaxando em coro uníssono.
Grilos e cigarras em legiões tomam conta do escuro, e cada som, por mais longínquo que seja, nos intimida.
A coruja que canta do outro lado do lago ecoa assustadora. Seu piar correu as águas profundas e chegou até mim como se fosse uma brisa noturna. Estava em um camping me preparando para dormir em minha barraca quando ouvi um canto familiar. Tentei me lembrar de onde havia ouvido aquele piar, mas foi em vão. Era o Bacurau, ave de cantar triste e medonho.
Uma lenda famosa sobre essa ave, muito contada nos sertões do Brasil, é que o bacurau seria na verdade a alma de alguém que morreu sem descanso. Dizia-se que essas almas vagavam em forma de ave, cantando a noite como um pedido de socorro ou arrependimento.
Sempre fui muito curioso e decidi andar pela trilha próximo ao camping, para poder ouvir o canto do pássaro mais de perto.
Tomei minha lanterna, pus uma bota e saí devagar como um menino que quer desbravar a mata escura. As araucárias gigantes reluzidas na luz da lanterna faziam sombras sinistras por detrás e pareciam se mover com a luz, que em minha mão se tremia levemente também. Pássaros passavam por cima da minha cabeça e só sentia ventos próximos. Talvez poderiam ser morcegos.
O cheiro de sereno que descia vagarosamente nas folhas mortas da mata, era o perfume da floresta, misturado com ervas selvagens que enfeitavam a escuridão. Eu já havia andado dez minutos de trilha e o canto do Bacurau nunca chegava perto suficiente, uma mágica ancestral para pegar meninos ingênuos?
Subitamente fiquei arrepiado, não sabia o que era. Olhava para esquerda, pra direita e não via nada. Somente as cigarras e os sapos barulhentos próximo do lago. Foi quando mirei o facho da lanterna distante, há uns vinte metros reto em minha direção, vi algo que parecia uma árvore medonha de semblante humano. Ela parecia se mover vagarosamente como um predador que espreita para agarrar sua presa. Parei por alguns segundos tentando decifrar o que poderia ser aquilo, que tinha olhos em formato de folhas verdes fluorescentes, e uma boca triste e negra. Fiquei gelado como um defunto, e todos os pelos do meu corpo ficaram em pé.
Em questão de segundos aquilo ganhou luz e o que iluminava o resto da floresta não era minha lanterna, mas sim aquela coisa flutuante de olhos brilhantes na minha frente. Num piscar de olhos, aquilo desapareceu e somente minha pobre lanterna encarava a noite sem lua.
Ali a noite barulhenta se calou e só restou meus passos apressados pisando nas folhas, e minha respiração ofegante, que ofuscava os grilos e as cigarras. Quando o medo nos abate, o mundo lá fora fica em silêncio, e escutamos nossas entranhas primatas voltando a ser selvagens, como uma presa que foge da morte.
Caminhava ansioso com pressa em chegar a minha barraca, enquanto aquela imagem fantasmagórica não saia da minha cabeça. Tentava decifrar o que eu tinha acabado de ver. Era um sonho, ou era real?
Quanto mais eu caminhava, mais o canto do bacurau ficava alto, eu o sentia mais perto, mais próximo, o sentia na minha nuca.
Parei e olhei pra trás, num lume de coragem iluminando tudo à minha volta, mas nada, Quando me voltei novamente adiante, aquela coisa me mirava no fundo dos olhos e começou a chorar copiosamente. Era um choro de homem adulto. Naquele instante desmaiei e senti meu corpo caindo em cima de uma raiz de árvore.
Acordei assustado no meio da noite, ofegante e de olhos arregalados. Olhei para o relógio e eram duas horas da manhã. Se tratava de um sonho. Respirava aliviado como quem se livra do pior.
O que eu não contava é que, quando voltei a pegar no sono, sonhei novamente com a mesma situação. Parecia um looping, eu saía da barraca, percorria a mata escura, via aquele ser medonho, desmaiava, e acordava de susto. Eu gritava na mata, porém ninguém me escutava. Eu gritava, e minha voz soava como o Bacurau.
Não sei por quanto tempo eu vivi a essa noite interminavel, parecia uma tortura que não me deixava sair por nada.
Foi quando durante o sonho encontrei uma terceira pessoa. Ela vestia branco e trazia consigo folhas de reza, além de um prato com algumas oferendas. Essa pessoa não me via de jeito nenhum, por mais que eu esperneasse e acenasse. Ela se assentou na mata escura, rezou tão profundamente que enquanto ela proferia palavras uma aura clara a rodeava, como se fosse a minha lanterna iluminando.
Naquele instante eu senti um prazer e uma leveza como nunca senti antes, e por fim pude voltar a minha eterna casa. Nunca mais precisei da minha barraca.
