sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O descobrimento de Dona Vera; a ex-homofóbica



     Confesso que já vi de tudo nessa vida. Homens com doenças de cabeça, mulheres que gostam de homens ruins, filhos que nunca mais saem da saia da mãe, cachorros que conversam com gente e até lobisomem, mas coisas igual as do Seu Carlos, nunca.
     Aqui no Cariri a vida sempre foi a mesma. Cozinhar pro marido, filhos arteiros e os nervosos que passamos no dia a dia. Quando a internet chegou e o zap ficou mais popular, o arrudeio ficou maior, e a gente se inteirou da vida dos outros com maior facilidade. Dona Nézinha sempre ficava na porta da casa, toda abirobada olhando a movimentação da cidade, e de uns meses pra cá nunca mais nem vi. Mas no celular espalha conversa fiada da mesma forma. No fim das contas é como se ela ficasse na porta da casa dela falando mal dos outros igual, mas virtualmente, como diz meu neto.
     Mas o assunto que me intrigou, sem perder o fio da meada, foi o de Seu Carlos. Sempre desconfiei que ele fosse meio desmunhecado pelo jeito dele de andar, e a maneira como conversava com as primas na praça depois da missa. Sujeito bonzinho, é verdade, nunca fez mal pra ninguém, que eu saiba.
     Participava da missa como coroinha de confiança do Padre Robson, sempre muito participativo e conversador com as irmãs. Carregava a hóstia na hora da comunhão com a ponta dos dedos com uma fineza só. No fundo ele sempre foi cuidadoso. Talvez até demais pra um homem.
     Digo isso como exemplo meu marido. Até então nunca tive o que reclamar dele. Tá certo que volta e meia vai no bar do Cido, mas sempre pôs comida na mesa e nunca deixou faltar nada. Tem firmeza na voz, e passa uma brabeza típica de homem. Dia desses ele sem querer me empurrou porque esqueci de fazer algo que ele tinha pedido e ficou aperreado! Sempre foi sem muita conversa, direto e rápido no que tem que fazer. Às vezes até rápido demais mas isso não vem ao caso.
     Eu mais as senhoras da igreja sempre desconfiamos do Seu Carlos e até já chegamos no Padre Robson pra conversar sobre o rapaz. Vai saber se isso não é uma heresia aos olhos de Deus. O Padre tinha que ter ciência. Pra mim era quase certeza que esse tal de zap tinha trazido essas coisas mundanas todas aqui pra cidade.
     Com o passar dos meses a coisa foi ficando pior quando Seu Carlos trazia um homem pra dentro de sua casa. Tudo bem que a casa é dele mas as crianças da cidade não eram obrigadas a ver. Cabra entrava na hora do almoço e só saía de noitinha, sabe-se lá fazendo o quê lá dentro.
     Certo dia meu marido chegava do bar depois de ter voltado do serviço, esfomeado e perguntando da janta. Depois de comer e a bebedeira passar, sentado na mesa ele me comentou:
- Arriegua, mulher! Sabe o Seu Carlos aí da frente?
- Sei sim, pois diga.
- Tão dizendo que casou com outro cabra e adotou um moleque pra criar junto com ele. Vê se pode!
- E é, é?
- Juro por meu Padim Pade Ciço.
     Daí danou-se de vez. Não sei se o povo se empolgava com as coisas que aparecem na novela de noite, se andam com gente que não deve, porque isso assim eu nunca vi. Agora por fim parece que ele assumiu o que sempre foi. Eu pensava que isso era falta de Deus.
No dia seguinte acordei cedo pra lavar a louça da janta e aproveitei pra fazer a feira de manhã. Encontrei os três. Seu Carlos, seu namorado e o tal filho. Fiquei olhando de canto vendo aquela heresia doida. Confesso que todos sorriam numa alegria que nunca vi em ninguém na região. Levantavam o menino pro alto, faziam cócegas. Contavam histórias e corriam até suar. Parecia propaganda de manteiga mesmo.
     Quando foi de noite todos participaram da missa. Minhas amigas ficavam olhando de canto e a cidade toda comentava. Chegavam até a fazer o sinal da cruz pra eles. Eu achei exagero no fundo. Eles também são filhos de Deus.
Ao fim da missa a lua estava bonita que só, e a homilía do padre me deixou tão bem que até esqueci a família estranha. Não resisti e puxei conversa com os três.
- Boa noite, Seu Carlos. Família bonita!
-Ah eu agradeço Dona Vera! A gente aqui causa um pouco de estranheza pro povo. Olham a gente como se fossemos E.Ts.
- Ah mas o importante é estar feliz, né seu Carlos!
- Sim! Agradeço as palavras. As pessoas deviam ser mais livres e fazer o que o coração manda.
     Com essa frase ao fim ele se despediu de mim. Fiquei matutando ela a noite inteira em casa. Pensei com mais profundidade quando meu marido deixou de roncar e pude pensar melhor sem barulho. “Livres e fazer o que o coração manda”. Fui tocada tão dentro quanto a palavra do padre. Talvez mais fundo até. Me virei pro outro lado da cama e chorei. Não sabia de onde vinha aquele choro. Seria a tal depressão e essas doenças novas que vêm junto com a internet?
     Precisava conversar com alguém. Pensei em conversar com as irmãs pra desabafar. Chamei Dona Nézinha pra sair do zap e fofocar pessoalmente comigo. Sentamos e começamos a tomar um café com cuscuz com manteiga. Vi no noticiário esses dias que um cuscuz com manteiga ajuda a liberar uma tal serotonina que deixa a gente mais feliz. Já comecei a conversa preparada, visse!
     Quando comentei que tinha conversado com Seu Carlos e sua família, ela torceu o nariz, mas a conversa andou da mesma forma que sempre andava. A gente sempre terminava por cutucar os outros. Sentia falta que conversássemos coisas sobre nós. Coisas sobre eu, coisas sobre a Dona Nézinha. Me sentia doente no fundo.
     Ao terminar o café, o susto. Minha amiga quando se levantou deixou algo cair de sua bolsa. Fui perceber só quando ela já tinha fechado a porta e me virei de volta à cozinha. Demorei pra acreditar no que eu estava vendo e, assustada, fiz três sinais da cruz.
     Era um objeto de uns vinte centímetros, de primeira parecia uma cobra. Mas quando cheguei perto vi que era o negócio que os homens levam entre as pernas, só que todo de borracha e verde. Parecia o coiso de um E.T.
     Naquela hora tremi toda e corri pra esconder aquilo. Peguei um papel toalha e embrulhei o negócio de modo que ninguém percebesse seu formato e escondi embaixo de minha cama.
Como que a irmã Nézinha trazia aquela coisa dentro da bolsa, gente? Naquele momento todos os meus cinquenta e cinco anos de vida tinham ido pelo ralo. Afinal, quem eramos todos nós?
     Aquilo ficou debaixo da minha cama a semana inteira, não tinha coragem de entregar na mão da irmã. No sábado seguinte encontrei o Seu Carlos de novo na feira. Nos cumprimentamos e puxamos outro assunto em seguida:
- Bom dia, Dona Vera! Vai qualquer dia la´em casa pra tomarmos um café!
- Claro, Seu Carlos!
Eu respondi aquilo de surpresa mas não tinha certeza se iria de fato. Sem dúvidas ele sempre foi um moço muito respeitoso e educado. Afeminado é verdade, mas educado.
Eu estava mudada ultimamente. Jamais que uns anos atrás eu entraria na casa de um sujeito como o Seu Carlos. E pela primeira vez não vi mal algum em ir tomar um café em sua casa.
     Coisas novas nasciam em mim. Ele e seu parceiro me deixavam muito à vontade. Seu filho corria e brincava na esteira dando aqueles gritinhos que criança dá quando fica empolgada. Algo naquela família me inspirava. A liberdade e leveza de todos seguros com o que sentiam era de se perceber de longe. Pela primeira vez em anos eu conversava sobre mim. Era bem diferente das conversas com a Dona Nézinha. Me sentia viva novamente escutando as histórias deles.
A conversa era boa e voava longe:
- Pois então Dona Vera, como vai seu casamento?
- Ah vai bem. Marido está lá dormindo. Por falar nisso preciso voltar pra lavar a louça, que se eu deixar por lá, mais fácil criar bicho.
Eles riram e voltaram a fazer a pergunta, só que com mais malícia. Entendi a intenção e respondi:
- Ahh mas essa coisa é passado, fio. Não tenho mais idade pra fazer isso não. No fundo eu nunca fui tão animada pra isso também.
Percebi logo que respondi um espanto por parte dos dois.
- Mas então a senhora não aproveita a melhor parte da vida?
     Fiquei encucada com essa pergunta deles. Pra mim esses assuntos fogosos não tinham graça. Uma porque era pecado mortal falar disso, e segunda porque nunca me animou muito mesmo. Ao longo da prosa eles me explicaram que na hora do vamo ver a mulher também fica alegrinha igual o homem. Na época em que eu era jovem, meu marido ficava alegre igual um bicho, e logo dormia. Eu nunca fiquei alegrinha como ele ficava...
- Dona Vera, você tem que aproveitar a vida. Corra que ainda dá tempo. Seja feliz e livre!
Saí de lá com esse sermão do Seu Carlos. Pronto, era só o que me faltava. Receber sermão deles.
     Confesso que naquela hora nem sei o que passava na minha mente. Me sentia lesada no fundo. Como se minha felicidade tivesse sido cortada com uma peixeira. Seria pecado tudo isso?
Quando cheguei em casa estava cansada. Mentalmente cansada como se um caminhão tivesse me atropelado. Só tive tempo de requentar um pirão, tomar um banho e deitar.
     A noite estava quente como sempre e meu marido ainda não tinha voltado do serviço. Devia estar no bar igual fazia todos os dias. Deitei na cama e fiquei olhando pro teto pensando nas alegrias que perdi naquele local. Que tipo de alegrias eram aquelas? Por que ninguém nunca me avisou dos prazeres que eu poderia alcançar? Me podaram como um pé de mandacaru velho no sertão.
     Me enraiveci e peguei o negócio de borracha da Dona Nézinha que estava debaixo da cama. As horas a partir dali foram as melhores que vivi naquele local. Sentia como quem desce aquelas montanhas russas dos parques de diversão da cidade. Como um frio na barriga gigante que parece não ter fim. Senti que poderia tocar o céu. Devo ter conhecido meu Padim Ciço e voltado até!
     Nas semanas seguintes as irmãs da igreja me olhavam andando com a família de seu Carlos pra lá e pra cá. Me senti aos poucos excluída do círculo de amizade das irmãs. Fiquei triste, mas alegre por dentro. Redescobria o mundo de novo.
Naquela noite em que descobri prazeres preferi dormir no sofá. Eu e o brinquedo da Dona Nézinha.
Depois de alguns dias a vi caminhando na vizinhança com um tristeza que doía. Um dia tenho que devolver o negócio dela.




Felipe Leonardo

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

A estátua do vô


      






         A tarde era tão quente e gostosa naquele dia em Uberlândia que todos os passarinhos e cachorros da rua pareciam conversar comigo. O vento que levantava a terra vermelha trazia também os olhos dos bichos. Todos os bichos pareciam sorrir para mim e pareciam estar em comunhão, menos as pessoas todas. Em pouco tempo uma multidão de conhecidos e desconhecidos se rodeava perto de algo que parecia ser muito triste e especial. Eu olhava pra cima e todas tão altas, estavam com os olhos a escorrer água, como as nascentes dos rios que meu avô me levava pra conhecer. Era como se seus olhos transbordassem de uma saudade que eu nunca tinha experimentado. Minha mãe me disse isso uma vez; as pessoas se deixam escorrer água pelos olhos quando algo muito grande não cabe mais por dentro.
Quando fui chegando mais perto, ao centro vi meu avô deitado em cima da mesa rodeado de flores como se fosse seu aniversário. Era como se toda aquela gente comemorasse o vô!
    Cantavam hinos de igreja e pareciam até que rezavam uma missa pra ele. Digo isso porque semana passada descobri o que era a missa. Minha mãe me levou no domingo de manhã para aquela casa gigante com pessoas bem arrumadas, de rostos sérios e que passavam muita paz. Via estátuas de mini pessoas com panos rodeados. Não eram crianças, mas estátuas de pessoas adultas pequenas como eu. Todas elas com semblantes tristes ou pensativos, como o rosto da prima Mariana depois de comer a feijoada da tia Selma.
    Creio que até hoje não entendi o por quê daquele homem fincado na cruz a escorrer sangue e todos a verem seu sofrimento. Minha mãe disse que aquele era Jesus e que morreu para salvar todos nós, e que as estátuas das mini pessoas eram os santos que faziam companhia a ele no céu. Jesus deve ser como um herói da Marvel que se sacrificou pra salvar todos os outros heróis. Achei bonito. Um dia compro uma camiseta de Jesus.
    Não conseguia esticar a cabeça para ver o vô mais de perto. A mesa onde o colocaram era muito alta e ainda por cima havia uma caixa onde o meteram dentro. Comecei a rir baixinho pois lembrei-me do Leléu, meu gato que adora meter-se dentro das caixas de madeira que sobram das quitandas.
Puxei o vestido da tia Selma:
- Por que o vô está imitando o Leléu?
Ela me olhou fungando o nariz e a escorrer água pelos olhos, e me mirou com um sorriso de canto de boca:
- O vô está descansando. Vai morar com Jesus.
Que estava descansando eu até suspeitava, mas que ele conheceria o homem da cruz isso foi novidade!
Sempre me diziam que imaginação de criança vai longe, e a minha, confesso que foi até demais. Abaixei a cabeça e me pus a refletir como todos alí estavam e até tive uma tristeza verdadeira. Meu avô se transformaria em estátua e nunca mais me sorriria ou mostraria as nascentes dos rios?
Preocupado, eu consegui tocar em sua cabeça. Ele estava dormindo de um sono tão profundo que tive até medo de acordá-lo. Um dia vi a vó acordando-o depois do almoço na semana, e ele ficou furioso e mau humorado! Jamais eu cometeria esse erro.
Sua testa estava gelada como nunca tinha visto antes. Ao mesmo tempo eu me gelei por dentro e senti um frio que percorreu toda minha espinha. Talvez o vô teria mesmo se transformado naquelas estátuas da igreja!
    Minha mãe me dizia que Jesus havia virado estátua, mas porque ele era duas pessoas. Uma ficava fincada na parede a participar das missas todos os domingos, enfeitando a visão dos fiéis e a lembrá-los da salvação com seu sacrifício. O outro Jesus era como vento que percorria todos os lugares sem se cansar, escutava e via tudo o que todos faziam. Nada escapava ao olhar dele que protegia-nos com seus poderes. Se nos filmes, Thor tinha seu martelo, Jesus devia ter uma arma tão boa quanto!
    Haviam-se passado horas e meu vô alí permanecia. Estava começando a sentir saudades dele pois não ouvia sua voz desde o dia anterior quando me despedi.
- Mãe, vamos acordar o vô, já está tarde, temos que ir!
Minha mãe naquele momento me puxou de canto e me explicou tudo. Me entristeci e senti a saudade escorrer pelos olhos pela primeira vez na vida. Jamais poderei tocar em meu avô de novo porque a estátua dele ficaria debaixo da terra. Como se o plantássemos para que virasse árvore.
Fecharam a caixa de gatos gigante. Todos os tios e primos mais fortes o carregaram nas mãos e fomos em cortejo até o cemitério. Cavaram um buraco de terra para o plantarem e nesse momento todos jogavam mais flores. As flores servem para enfeitar tudo. Desde postas em buquês para entregarmos a quem amamos, para enfeitar casamentos e até pra embelezar o cabelo das meninas e a fazerem mais charmosas. As flores morrem pelos outros. Nesse dia enfeitaram meu vô.
     A morte para os adultos é como uma despedida grande. Como se aquela caixa de gatos gigante fosse a nave espacial que levaria meu vô pra um lugar bem longe, pra além do céu. Ele iria fazer companhia a todos os heróis de lá. Jesus o receberia bem e o incorporaria em alguma liga de super heróis que só existe no céu.
     Quando voltamos para casa já sem a estátua do meu vô, pude entender o que minha mãe disse. O vô também tinha duas partes. Uma virou estátua, a outra viraria vento, estaria em todos os lugares que quiséssemos nos visitando todos os dias ao abrir as janelas.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Queria ser Castro Alves







Meu lado galante
Sempre quis ser Castro Alves.
Tratar as palavras como quem carrega flores
Pensar no amor como embriaguez de licores,
Com canela e mel nas vogais.

Meu lado sofrido
Sempre quis ser Castro Alves
Desassossegado, inquieto,
Que acompanha as dores de perto,
Que quer rasgar o ar com consoantes fortes.

Seu livro impera em minha estante,
Do lado esquerdo, está Vinícius,
Suspeito que os dois saiam à noite a beber.
Do lado direito, Lispector,
Suspeito que vivam um amor escondido.

Suas páginas amareladas,
Leves como bíblia antiga,
Contam histórias sem lê-las;
Falam: folheiam amores,
Tecem: amores em teias

O livro gasto pelo tempo
É meu diálogo com Castro Alves.
Ouço conselhos e desabafos,
E juro que posso ouví-los ao pé do ouvido.
Os livros são espécies de médiuns,
Permitem-nos conversar com os mortos.




(Felipe Leonardo)

Vendaval






Em tempos de ansiedade e angústia,
A chuva gelada congela os ossos.
Fecho as cortinas dos olhos
E um vendaval levanta miolos e pensamentos,
Pondo tudo de cabeças para baixo

Batidas violentas na parede,
Garfos em pratos de porcelana a riscar,
Gargalhadas soam estridentes,
Crianças malcriadas correm e riem,
E seus pais passam atrás a gritar.




(Felipe Leonardo)