domingo, 12 de abril de 2026

Pessoas velhas e enrugadas são viajantes do tempo

      Uma pessoa velha e antiga traz consigo muitas camadas de vida. Cada ruga no rosto são caminhos de uma vereda que percorreu ao longo de uma existência, e cada sorriso abre um novo vinco entre os pés de galinhas e covinhas recém nascidas. Uma pessoa velha, antiga e enrugada, é uma viajante do tempo.

Suas memórias são uma lista telefônica de palavrinhas pequenas, que custam a enxergar. A miopia da memória se parece com a dos olhos, muitas vezes precisam de óculos. Os óculos da memória são as histórias que contamos uns aos outros nos churrascos de domingo, e nos causos depois de almoços temperados. Adoramos palitar os dentes e contar histórias.

Assim notei quando cheguei na casa da vó maria e olhei o retrato de seu casamento no civil com o vô Albino. Aquela foto pregada na parede do cômodo contava a história do início de um ciclo. Todos trajados com roupas de época, como uma série temática da Netflix. Homens de calça boca de sino, bigodes grossos, e costeletas com cabelos longos, enquanto as mulheres estavam de óculos largos, e vestidos rodados. Aquele quadro na parede é uma janela do passado, que me leva a um tempo que não vivi.

Onde eu estava neste dia? O sangue que eu carrego vem daqueles dois recém casados grudados na parede do quarto de hóspedes. Onde eu estava em maio de sessenta e quatro?

Aquela foto conta uma história minha, ainda que eu não estivesse ali. Talvez estivesse num ventre imaginário numa nuvem qualquer, numa fila de futuros recém nascidos esperando para descer. Sobretudo esperando que minha mãe nascesse primeiro para que de seu ventre eu pudesse chegar.

Repare bem que as mulheres são milagrosas; são borboletas que formam dentro de si casulos que dão a luz a novas borboletas. Repolhos extremamente bonitos que descamam-se entre si, e deles nascem outros repolhos ainda mais bonitos.

O sangue de minha avó, que nasceu no ano de trinta e nove, é o mesmo que carrego hoje em dois mil e vinte e seis. Eu saí de dentro dessa mulher também, de alguma forma. 

Infelizes os homens que não possuem ventre e não podem gerar vida, têm somente na barriga as entranhas comuns e rotineiras que fazem barulho de digestão. Todos pequenos e infantis perto da divindade feminina.

Uma casa de vó é um museu. E o museu existe para que as memórias possam ser vistas sem lentes de contato ou óculos de grau, estão ali disponíveis a olho nu de quem estiver disposto a vê-las.

Meu avô tinha um buda de dez centímetros na estante na frente da porta, ele costumava ficar de costas para quem chegasse, como se estivesse sempre mau humorado e indisposto. Eu quando criança me fazia muitas perguntas, por que a vó e o vô deixam bem evidente uma estátua de um homenzinho gordo na entrada? Eu nunca havia visto aquele homem, talvez fosse amigo do vô, talvez fosse até o próprio vô Albino sempre a andar sem camisa mostrando sua enorme barriga… 

A imagem de Jesus crucificado e pregado na cruz eu já estava acostumado a ver, por serem muito católicos, me acostumei desde pequeno com aquela figura convenhamos muito dolorosa, porém quando descobri que aquela pequena estátua era de Buda, minha cabeça se encheu de nós.

- É sinônimo de prosperidade. Uma amiga minha sabida me deu de presente, disse que Buda virado de costas traz prosperidade. - Dizia minha vó.

A oralidade vinda de pessoas “letradas” foi lei durante muitos anos, sobretudo para aqueles dois que nasceram no interior da Bahia na década de trinta.

A voz de pessoas sabidas montava as memórias, tijolo por tijolo, pavimentando tudo com um cimento de confiança.

Os costumes de matrizes indígenas e africanas sempre estiveram no dia a dia, cujos depois de grande, aprendi a nomeá-los. Por mais que a vó maria pudesse jurar de pé junto que era católica apostólica romana, suas práticas traziam costumes de seus ancestrais. Traziam práticas brasileiras, miscigenadas e vivas. Como sua língua mutante que mistura, brancos, tupis e nagôs.

As folhas do domingo de ramos cruzados sobre os chinelos de cabeça pra baixo afastavam tempestades, a mão sobre a cabeça por muito tempo era agouro de mãe, abrir guarda-chuva de noite trazia má sorte, era proibido assobiar ou bater palma de noite, pois ajudava a chamar o sete-peles, era bom evitar andar para trás que também era mau agouro, além das figas expostas nos armários, que tinham como intenção espantar a inveja de quem chegasse naquela casa.

Talvez a vó Maria ao espalhar fotos, objetos e símbolos, já estivesse fazendo um movimento involuntário de sobrevivência e proteção, tentando deixar pegadas de sua vida e da vida de sua prole pelos cômodos, com a tentativa de que tudo pudesse ficar eternizado, caso nossa memória por algum motivo pisasse em falso. Nosso maior sonho, ainda que inconsciente, é sermos eternos. Sermos lembrados e salvos.

Num domingo de manhã, acordei. Ela estava no corredor, e ainda lembrava meu nome. Fomos até a cozinha, preparei seu café no filtro de pano, fiz o cuscuz com ovo que ela mesma me ensinou a fazer, preparei seu prato com a manteiga do lado, ofereci a ela e comungamos juntos. Eu era um privilegiado naquele domingo de manhã, pois ela lembrava meu nome, e o nome carrega uma imagem sonora de quem fomos.