sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Cada homem é uma janela



Cada homem é uma janela,

E o sol estala as de alumínio

E resseca as de madeira


Os dois mundos se dividem entre si;

Cômodos e quintais.

A interna essência. A externa aparência. 


A luz que vem de fora, 

Reflete no lindo girassol do parapeito,

E uma sombra sinistra nasce na parede.


Cada fechadura geme à sua maneira;

Dores ou prazeres.

Suporta pesos e ventanias


Cada homem é uma poética janela.

E todos bem sabem disso.



(Felipe Leonardo)


terça-feira, 6 de outubro de 2020

Passo a passo




Primeiro, escuta o teu silêncio.

Recolhe as migalhas de milho,

E liberta teu pássaro-preto que canta.


Senta-te à mesa pela primeira vez.

Olha o fundo do outro. Veja-se espelhado,

E penteie seu cabelo.


Depois, respire aliviado.

Ria como se fosse morrer,

Das piores cócegas.


Recupere o fôlego.

Deixe as risadas sujarem a casa

E jogue as gaiolas pela janela.



(Felipe Leonardo)

terça-feira, 15 de setembro de 2020

A menina dos chocolates

     



No meio dos Gerais, lá pra cima de Belo Horizonte, depois de muita estrada adentro, vive Dona Fátima. Todos na região a conhecem como a Portuguesinha; apelido carinhoso que deram à lusitana.

No vilarejo a parcela de população idosa é grande, então eles bem se entendem juntos. Resmungos, risadas fanhas, e frases que não podem ser tão longas pois falta-se ar; quando chegamos ao fim da vida, somos mais reticentes. Por vezes intolerantes e ansiosos. Como quem sente o cheiro do fim de tudo, e alterna entre nostalgia dos bons tempos, e ansiedades de querer fazer o que nunca fizeram. Quem julga os adolescentes em fase de descobrimento, é porque nunca viu um velhinho ansioso pro almoço às onze e meia da manhã.

Pouco se sabe sobre Dona Fátima, exceto seu sotaque puxado de colonizadora. Às vezes tem de se pedir para repetir as frases, mas nada que sua grande paciência não permita. Aos noventa e cinco anos de idade, ela carrega consigo uma paciência equivalente a sua idade. Se lembra de pouca coisa de sua vida, mas vive o agora com uma vivacidade ímpar. É sincera e transparente como água fria. Ainda que tenha vindo de Portugal com somente 15 anos, de família muito humilde, e não tenha tido estudos, tem uma prosa de filósofa sabichona que poucas em sua idade têm.

Uma coisa curiosa que ninguém entende é um texto grande que está enquadrado em sua parede. Um texto escrito à mão com um papel já amarelado pelo tempo, em uma moldura mais velha ainda. Os amigos que vão visitá-la aos domingos e as irmãs de missa, sempre fazem a mesma pergunta:

- E esse monte de escritos aí nessa parede, Fátima. Você não sabe ler, por que deixa isso aí, uai?

E com uma voz cansada e reticente, sempre responde com orgulho:

- Foi um presente de um amigo famoso que tive em Portugal, já disse. Era um moço magro de óculos e bigode. Eu sempre brincava na porta de uma barbearia, e ele sempre me levava chocolates quando eu era criança. Um dia me entregou esse texto grande e nunca mais o vi. Neste último dia ele leu pra mim o que estava escrito. E eu achei tão bonito porque eu estava no meio das palavras. Me senti importante.

Ao perguntar o nome desse amigo famoso, ela não se recordava. Só dizia que era um tipo de poucas palavras e vivia escrevendo. A vizinhança adorava ouvir as histórias de Dona Fátima. Era como se a senhora estivesse sempre envolta em contos de fadas e conversas cheias de fábulas portuguesas. Ninguém de seus colegas da vizinhança sabia decifrar os escritos. Era quase como uma maldade do destino Dona Fátima não saber ler. Mas isso era um detalhe, pois ela se perdia contando suas histórias mesmo assim. A memória bastava.

Mas tudo na vida tem um momento certo, e o clímax uma hora vem, pra levar frios na barriga aos descrentes.

Há uns meses atrás, no aniversário de noventa e seis anos de Dona Fátima, um grupo de estudantes da Universidade de Minas visitou o vilarejo para estudos de caso e entrevistas com os moradores.

Diego, estudante de jornalismo, e que era apaixonado por literatura, entrou na humilde casa da portuguesinha com os olhos virgens e atentos a tanta vida. Olhou os mofos nas paredes, e o tempo a por cabelo branco nas senhoras. Mirou as janelas, e suas paisagens reais, observou um cinzeiro velho na ponta da cômoda, observou os cachorros, que também existem. Tudo aquilo lhe pesava e lhe parecia estrangeiro. Um excesso de metafísica.

Ao olhar o famoso papel enquadrado na parede, enrugou os olhos e se esforçou para ler alguns versos de uma letra um tanto exótica. Quando terminou de ler, deu uma gargalhada de criança que descobre algo novo. Não entendia o que estava acontecendo. Naquele papel amarelo estava um trecho do poema Tabacaria de Fernando Pessoa. Algumas quatro estrofes.

Chamou seus colegas para ver aquilo e todos ficaram surpresos. Não resistiram em fazer a pergunta à Dona Fátima:

- Então a senhora gosta de Fernando Pessoa! Olha que grata surpresa!

Dona Fátima não se recordava desse nome. Mas como perguntaram sobre o famoso papel na parede, ela não se importava em dizer a história toda, pelo contrário, se enchia de pompa ao dizer sobre o presente.

Ao fim do relato da senhora, todos os estudantes se entreolharam boquiabertos. Diego não se aguentou. Olhou novamente uma estrofe em específico. A que dizia: 

(Come chocolates, pequena;

Come chocolates!

Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.

Come, pequena suja, come!

Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!

Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,

Jogo tudo para o chão, como tenho jogado a vida.)

 

Os olhos de Diego se encheram de lágrimas. A senhora era a própria menina dos chocolates do famoso poema, em carne e osso. O semblante dela enquanto todos a endeusavam era impagável. Dona Fátima não entendia nada. O grupo de estudantes fez questão de contar a história toda. A versão que o mundo todo conhecia, menos Dona Fátima. Contaram sobre Fernando Pessoa, sobre seu bigode, sobre sua fama, sobre Álvaro de Campos. Fizeram naquele momento uma troca de histórias.

A senhora que sempre foi apaixonada por chocolates desde pequena - e que hoje sofria com a diabetes e não come mais - se levantou com os olhos marejados. Foi até seu quarto, abriu uma gaveta escondida muito velha, e retirou uma caixinha. Ao chegar de novo à sala com os chinelinhos arrastando, abriu-a e disse:

- Essa caixinha guardei sempre. São todos os papéis dos chocolates que comi e ganhava de presente desse moço escritor. Guardei em minha  memória o momento em que estive numa história de verdade. O momento em que mais existi.

O orgulho que Dona Fátima sentia naquela hora era único. E a devoção dos estudantes naquele momento era ímpar. Ao fim do encontro, todos fizeram questão de tirar uma foto com a “Menina dos chocolates” do Pessoa. Decidiram manter o segredo literário.

Os papéis de prata de folhas de estanho estavam bem guardados. Vivos na memória e ainda exalando poesia. A verdade com que dona Fátima comia os chocolates e levava a vida inspirou o poeta. E a vida daquela humilde Portuguesinha do interior de Minas, inspirou a todos. 

Tudo isso, seja o que for, se pode inspirar, que inspire!




(Felipe Leonardo)

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Terra de Vera Cruz




O fogo que se sustenta na vela
Tremula inseguro como a pátria
Um sopro: e breu.


A luz faz sombras cambaleantes
Fogo raso e farsante
Um sopro: e o frio.


O colorau do jantar fino
É o mesmo urucum que envermelha o índio.
Um sopro: e o vazio


[As roupas que sacodem no varal da laje, têm rasgos;
Rasgos pequenos, grandes, redondos...
Pra quê tantos rasgos, meu Deus?]


O olhar permanece fixo num horizonte confuso,
E no peito dos homens
A ânsia em ser Deus sem esforço.



(Felipe Leonardo)

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Sotaques de São João




     Na verdade o ano deveria começar em junho e acabar em junho do ano que vem, pra fazer mais sentido por aqui. Na metade do ano, em época de São João a comida é mais farta, as pessoas ficam mais simpáticas e até o tempo fica mais fresquinho. Quando essa época chega parece que uma euforia diferente toma conta do povo; minha mãe fica mais paciente e lava a casa escutando baião, eu mais meu irmão nem saímos tanto no tapa, meu pai compra roupa nova pra todo mundo, e meu cachorro Malaquias chora menos, e dá pulos abestados pro ar, como que já ansioso por pular a fogueira.
É a época em que até o cabra mais duro, afirma com confiança que sabe dançar forró.

    O meu primo Deusdete que mora no Rio de Janeiro me disse na última viagem que fez aqui pra Paraíba, que a época mais esperada pelas crianças lá é o natal. Me disse que muita gente se veste de Papai Noel, penduram guirlandas com “feliz natal” em língua estrangeira, e montam pinheirinho de mentira dentro de casa. Me lembro de uma época que minha mãe viu na TV e tentou fazer o mesmo aqui em casa, mas o calor fez a gente mudar de ideia. A gente no máximo pendura umas luzinhas na espada de São Jorge e já fica bem bonito.
    Esse meu primo me disse também rindo, que meu sotaque era arrastado e que a gente falava diferente. Eu nunca parei pra pensar na forma como a gente fala. A gente fala assim pois todo mundo fala. Ele que era diferente, falando parecendo que a boca estava cheia de xis.

    Depois que ele voltou pro Rio eu fiquei muito pensativo. Mas logo meu pai me explicou que o Brasil era gigante, e que em cada canto o povo fala a mesma língua de um jeito diferente. Como o sarapatel de vó Cleusa, - meu pai disse. O sarapatel de vó Cleusa é a mesma receita do sarapatel do tio Cícero, mas tem gostos diferentes. Naquele dia entendi que o sotaque é o tempero da língua.

    Não sei pro resto do povo, mas aquela descoberta mudou meu jeito de ver tudo. Pra mim o mundo todo era João Pessoa e Paraíba, e o São joão de Campina Grande era o maior evento do mundo, embora só havia visto o São João de Campina pela TV. 
O clima de todas as festas juninas que vivi eram com muitas risadas, bombas, fogueiras, as roupas mais bonitas que tínhamos, perfumes, Luiz Gonzaga na caixa de som, e comida a rodo. Tia Carmen cada ano inventava uma comida diferente com milho, além de ser a tia que desvirtuava os sobrinhos, segundo minha mãe.

    Em uma dessas festas, quando já estávamos entupidos de comer, sempre sentávamos no sofá, todos juntos, ligando a TV pra acompanhar ao vivo o São João de Campina Grande. Eram trinta dias de festa por lá. Se no sudeste as escolas de samba tomavam conta, aqui as quadrilhas são quase como religião. Todo ano tínhamos a nossa favorita e a gente torcia igual doido.

Naquele dia minha tia puxou eu e meu irmão de lado e anunciou um negócio que fez minhas pernas bambearem na hora. Ela perguntou aos meus pais:

- Esse ano queria dar um presente pros meninos. Vou levar eles pra ver a festa em Campina. Vocês deixam?

    Eu olhei meu irmão assim com o olho arregalado e, sincronizados, olhamos de volta meus pais com uma cara de cachorro pidão. Eu queria mesmo era sair pulando igual o Malaquias naquela sala, quando meus pais balançaram a cabeça aprovando nossa viagem a Campina Grande.

    Saímos trupicando nos tapetes da sala em direção ao quarto a fim de arrumar nossa mala. Pense numa alegria e num griteiro!
    Meu irmão Juninho arrumou a mala em dois tempos. Enquanto eu tava pensando em quantas cuecas ia levar, ele já tava na frente da porta me apressando. Lembrei de um caderninho que sempre anotava nele os dias mais especiais pra mim. Nele estavam escritos poucas coisas; o dia que ganhei o Malaquias de aniversário, o dia que meu pai me levou no estádio pra ver o Botafogo, e quando beijei uma menina pela primeira vez. Peguei um lápis velho e meti tudo na mala. 

    A viagem levava algumas horinhas. A ideia era passar o fim de semana na casa da tia e aproveitar o domingo no São João. Na estrada a ansiedade era grande. Olhava a paisagem e mirava o horizonte com espanto. Existiam espécies de árvores que nunca tinha visto, com uns troncos grossos, umas espécies de passarinhos coloridos, e mandacarus tão altos e diferentes que nem pareciam plantas. Me lembrei da conversa que tive com meu pai do tamanho do mundo. Talvez essas árvores, bichos e mandacarus sejam os mesmos, só tenham um sotaque diferente dos outros. 
    Ao chegar na casa da Tia Carmen a ansiedade não diminuía. Pra ser sincero, na noite de véspera de irmos nem consegui dormir. Enchi o saco do pobre do Juninho:

- Juninho, será que vai ter canjica igual a da vó Cleusa?
- Ah sei não...
- E milho? Será que vai ter uns pratos de milho que a gente nunca viu antes?
- Olhe o milho é um só, visse. É melhor tu dormir, vá.

    No domingo a festa começava só no finzinho da tarde. Fomos conhecer a cidade junto da tia. Passeamos pela praça, vimos os centros históricos de Campina. Mas a situação mais interessante foi quando paramos pra tomar um caldo de cana e ouvi uma conversa do lado, de uma menina muito da bonita aliás. Ela falava como que de um jeito diferente. Ela puxava o erre com tanta força pra falar que eu tinha que fazer força pra entender a palavra. Sotaque daquele era diferente do primo Deusdete de longe.
    Tomamos o caldo de cana e voltamos para, por fim, nos arrumarmos pra festa. Mas a voz da menina me ficou na cabeça e nem tive tempo de prosear.

    Botei a roupa mais bonita que meu pai tinha comprado, meti um perfume invocado e fui.
    Ao chegar lá me arrepiei todinho. Tinha tanta gente que sem dúvidas todas as pessoas do mundo estavam ali. O som era umas quinhentas vezes maior que o de casa. Me senti parte de todos. Me senti confiante vendo o tanto de gente que gostava da mesma coisa que eu!
    Tinha quadrilha de tudo que é jeito; com roupa de matuto, com roupa colorida bufante, roupa com pelos esvoaçando. Eu fiquei besta vendo tudo aquilo de perto.

    Mais besta ainda fiquei quando vi uma barraca do lado e a moça do sotaque diferente que eu tinha visto no centro estava lá. Curioso que sou, fui logo me aprochegando e dando as boas noites. A resposta dela foi um boa noite bem empolgado. Ainda que o sotaque dela fosse diferente, ele não era feio, era até charmosinho. Saindo da boca dela ficava bonito.
    Fomos proseando boa parte da festa e descobri que ela era do interior de São Paulo, estava de viagem por aqui a turismo. Fiquei espantado porque ela disse que pras bandas dela também tinha São João, e que também tinha todas as comidas de milho e vinho quente. A diferença que era menor, segundo ela, e que a família dela rezava o terço na sala e depois soltava as bombas.

    A lua brilhava tanto. Eu olhava as bandeirinhas afunilando lá em cima e eu parecia que estava em sonho. Tudo rodava com a sanfona e a zabumba tocando todos os sotaques do mundo. 
Perguntei à menina se na terra dela também tinha baião. Ela me respondeu que por lá a moda de viola reinava. Fiquei imaginando aquele sotaque cantado. Devia ser curioso realmente. E confesso que não imagino uma terra se baião...
Na hora do xote, claro que convidei a menina pra dançar comigo. Eu não sabia dançar, mas como sou cabra ligeiro fui logo dizendo que sabia. Como ela não sabia também, nem desconfiou. Aproveitamos da mesma forma.
    Pra ver como sou cabeça de vento nem perguntei o nome dela. Os pais a chamaram pra ir embora e fiquei lá chupando o dedo caçando o Juninho de novo.

    “Saudade o meu remédio é cantar’’. No meio da muvuca um som de Luiz Gonzaga me deixou nostálgico. Sentia saudade do que ainda nem tinha acabado. Só saí pulando e torcendo pra que junho ficasse pra sempre.

    De volta pra casa, no carro de tia Carmen, eu anotei esse momento marcante na minha vida; O melhor São João que tinha ido até então. Deixei escritinho no meu caderno especial pra nunca mais esquecer. Eu tinha mudado mais ainda. Dentro de mim eu me estendia para além de mim. Como se me espichasse e fosse do tamanho do mundo. Descobri aliás que a festa de São João é diferente em cada partinha do país. Talvez o resto do mundo seja uma Campina Grande com sotaques e temperos diferentes.



(Felipe Leonardo)

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Poema em branco





Num dia branco como foi ontem,
E como foram os últimos dois meses,
Olhei para cima, e o céu se confundiu 
Com o teto branco do quarto.


Um branco sujo e tedioso.
Um céu cansado. Um teto cansado.
Já esgotado de tantas lutas.
Já esgotado de tantos egos.


Tudo um tanto claro, mas não nítido.
Tudo acima de mim permanecia míope e turvo.
Branquíssimo, covarde e incerto,
Como um voto branco em outubro.


Felipe Leonardo

quinta-feira, 9 de abril de 2020

O abraço cura

 



    - Não posso te abraçar mais não, Cléo, agora em diante é todo mundo pro seu canto.
Assim me despedi da escola onde trabalho como professora. Recusando abraços de minhas companheiras de trabalho por causa da pandemia. E a gente era tão grudada. Abraço de cumprimento, abraço de despedida, abraço pra brincadeira. Dessa última vez quase que dou sem poder.
     A prefeitura adiantou nossas férias, então o clima era de metade alegria, e metade tristeza. Um misto de liberdade encarcerada. Pra mim a apreensão era um pouco maior pois eu levava uma pessoinha no ventre. Estava grávida de 8 meses do Gabriel, e contava os dias pra ele nascer. Isso lá era hora de aparecer essa doença doida pra me preocupar mais ainda?
Preocupação dobrada quando me deparava com meu companheiro de vida que me esperava em casa.
- Boa noite, Denise. Por que você sempre demora pra chegar em casa?

Nossa relação ao longo dos anos foi se deteriorando aos poucos. Quando eu pensava seriamente em pedir o divórcio, a semente do Gabriel apareceu em mim. Minha cabeça não pensou duas vezes em continuar nessa prisão em que vivia. Quem sabe, ele não muda. Quem sabe com a chegada da criança ele fica mais compreensível. O Gabriel me encheu de esperanças.

Um mês antes desse reboliço todo de Covid eu cheguei na escola como todos os outros dias pela manhã. Sentei no refeitório e logo ouvi um comentário:
- Nossa, Denise, o que foi esse roxo no seu braço, pelo amor de Deus?
- Ah, menina, você sabe que eu esbarro em um monte de lugar e me aparecem os roxos… - eu disse com a voz mais sem graça do mundo. Por sorte elas não me perguntaram mais.

     Existem momentos na nossa vida que temos que tomar decisões precisas. São horas decisivas que vão definir pra sempre o destino e nossas rotinas. Momentos que temos que escolher quem ficará do nosso lado. Momentos que teremos que escolher quem irá nos segurar quando o chão desabar. Em minha casa, o marido carinhoso e prestativo que beijei no dia do casamento, desmoronava em um tipo de pessoa que a cada dia, se tornava mais desconhecido. Isso me assustava.

     Por incrível que pareça, a quarentena me obrigou a ficar mais tempo com meu marido, e o que deveria ser prazeroso, se tornou quase uma fobia antecipada.


     Na sala de aula o ambiente era sempre lindo. Por mais que meus alunos gritassem e volta e meia eu tivesse que chamar atenção, eles deixavam eu falar. Se por algum motivo eu fosse interrompida, um grito meu, ou uma chamada de atenção e todos me olhavam com um olhar de assustado, um olhar de respeito ou até mesmo envergonhado.
Nas discussões em casa, quando eu tentava me impor, a voz dele sempre se sobressaía. Como era difícil falar. Como era difícil viver enjaulada. Como se minha voz fosse amarrada antes mesmo de sair da garganta. Minhas palavras eram descartadas e jogadas no lixo. Me sufocava cada vez mais.

Num desses domingos monótonos quando estava sentada no sofá eu olhava para o rosto dele esparramado no outro sofá, vendo futebol reprisado. Há quanto tempo eu não abraçava meu marido? Antes mesmo da pandemia já fazia muito tempo. O que aconteceria se eu abraçasse ele neste exato momento? Que poder um abraço tem?

Eu não tinha vontade de abraçá-lo, e isso era o que mais me preocupava. O problema maior era quando íamos dormir. Na cama se não obedecesse ao que ele quisesse, os gritos berrantes no meu ouvido se faziam aparecer, isso quando não se tornavam agressões físicas.
- Sorte sua que o moleque tá dentro de você! - Dizia.

Já tinha se passado quase um mês de quarentena, a barriga ficava cada vez maior, e as pontadas cada vez mais evidentes. Os momentos de luz era quando eu falava ao telefone com minha mãe. Ela é minha confidente. Desabafava a ela todas minhas angústias. Meu medo que meu marido escutasse era tão grande que eu falava quase cochichando.
- Você precisa olhar a sua volta, minha filha.Tome uma atitude e se liberte desse traste.

Ela dizia e parecia tão fácil. Mas pra mim não parecia, tinha um pouco dele dentro de mim. O Gabriel era um pouco do meu marido misturado comigo. Uma criança nova, ingênua que nasceria no meio do caos. A pandemia dentro da minha casa já ocorria fazia tempo.

Os dias se passavam e a barriga estava grande como nunca. Sentia os cotovelos do Gabriel a todo momento pra lá e pra cá. Na última consulta a médica me havia dito que poderia nascer a qualquer momento.
Numa dessas noites eu sentei no sofá e chorei muito. Chorava de soluçar. Às vezes choramos e nem sabemos, naquele momento me sentia sozinha como nunca, misturado com um sentimento de grande ansiedade. No meio dos meus olhos marejados, eu olhava meu marido. Ele me mirava com uma cara de assustado e impaciente. No início ele até perguntou o que era, mas quando eu desabafei, as discussões surgiram, e como uma bomba relógio previsível, sua voz se alterou e ele se irritou. Preferi subir e chorar sozinha. Como eu precisava de um abraço naquele momento. A quarentena me enlouquecia.

Naquela mesma noite a dor se estendeu. Parecia que tinha migrado do coração para o útero. O colchão ficou molhado. A bolsa havia estourado.
Gritei do quarto com uma voz de desespero e meu marido logo desconfiou. Subiu as escadas num salto, me pegou no colo e me levou ao hospital.

     Ao chegar por lá, todas as enfermeiras de máscara, somente o andar da maternidade parecia tranquilo. Ao redor do hospital filas enormes e pessoas se agonizando em dor. Para gestantes haviam regalias. Pegamos o elevador por trás para evitar contatos. Um lugar calmo por fim.

     Todo o processo de se trocar até chegar na sala de parto foi como um filme passando pela cabeça. Tudo se passava em câmera lenta. Imaginava meu filho crescendo, eu sozinha somente com minha mãe. Imaginava ele crescendo com o pai, brincando e correndo pelo quintal. Eu chorava de ansiedade e de dor. A respiração ofegante contrastava com a médica que segurava minha mão, e pedia que eu respirasse pelo nariz e soltasse pela boca.
Ao entrar na sala somente as conversas dos médicos. Meu marido que ficou lá fora resmungava algo e mesclava palavras de preocupação.
Decidi pelo parto normal. Na hora de se fazer força, pus toda minha raiva e ansiedade pra fora. Soltei tudo o que eu tinha por dentro num grito tão alto e estridente que o quarteirão inteiro deve ter ouvido. Todos me ouviram. Por fim todos me ouviram. 
Junto do meu grito, o Gabriel aparecia. Junto do grito eu tirava um peso da alma.

As lágrimas rolavam pelas bochechas naturalmente como numa cena clichê ensaiada. O choro do Gabriel soava ecoante na sala enquanto os médicos sorriam todos juntos. Há quanto tempo eu não via tantos sorrisos num lugar só!
Por fim o Gabriel me foi entregue. Naquele oásis em meio à pandemia, colocaram-o ao lado do meu rosto. Ele veio de braços abertos, de mãozinhas estendidas procurando desesperadamente tatear algo, ansioso para me dar o abraço mais esperado da vida.



(Felipe Leonardo)

terça-feira, 31 de março de 2020

Pandemia de periferia




    Já tinha passado uma semana quando eu soube que todo mundo deveria ficar em casa. No caminho que levo de segunda a sábado pro apartamento de dona Sônia eu percebi a mudança. A movimentação da rua parecia como se fosse um eterno feriado, ou aqueles dias de jogo do Brasil na copa. Em dois mil e catorze foi bem assim.
Nem o seu Celso que vende amendoim em frente à estação estava mais lá. Eu fiquei é muito preocupada. Pensei que ele tivesse adoecido. Pensei que a cidade toda tivesse adoecido.
    O caminho que levo pra casa da patroa não é curto. Duas horas pra ir, duas pra voltar. Meus filhos dizem que eu já não tenho idade pra ficar trabalhando de doméstica na casa dos outros ainda mais longe do jeito que é, mas dona Sônia eu respeito e tenho apreço, nunca me desrespeitou ou destratou. Sempre pagou tudo certinho nesses dez anos que trabalho por lá, e enquanto eu estiver viva podendo andar, prefiro trabalhar. Ocupar a cabeça com algo útil é sempre bom, ainda mais nessa idade.

    Nesse dia quando cheguei no prédio dela até o próprio condomínio estava vazio. Cumprimentei o seu Alves com um aceno, esse sempre presente na portaria, me retribuiu com uma tristeza meio escondida. Um certo desânimo. De fato as coisas não pareciam estar normais.

    Ao abrir a porta naquela segunda silenciosa, os meninos dela ainda estavam dormindo. Aqueles acordam lá pelas onze horas. Dona Sônia e seu marido estavam sentados na mesa, os dois com máscara dessas que dentista usa antes de abrir nossa boca. Eu achei foi engraçado. Dei o bom dia e fui pra cozinha tocar meu serviço. A patroa percebeu meu cumprimento com um pouco de demora e me respondeu quando eu já estava longe. Pareciam muito ocupados. Fui respondendo da cozinha mesmo. 

   - Bom dia, Clarice! A senhora está boa?
   - Tô sim, dona Sônia. E vocês como vão?
   - Estamos trabalhando de casa a partir de hoje! Com essa pandemia não podemos dar mole não.

    Eu achei que tava ficando doida. Primeiro porque tinha visto os dois de máscara de dentista numa segunda feira em casa, segundo pois ela tinha falado uma palavra que nunca tinha ouvido. Trouxe o pão na chapa com café deles, e aproveitei pra fazer as perguntas:

   - Viu dona Sônia, por qual motivo vocês estão com essas máscaras aí. Na rua eu vi um povo também usando…

    Eles se entreolharam. O marido deu um gole no café, esperaram uns dois segundos e me disseram o que estava ocorrendo. Que uma gripe poderosa vindo da China estava no Brasil. Que já tinha gente morrendo até. Por esse motivo eles estavam com a máscara e trabalhando com o computador deles de casa. Me falaram também que em breve iriam ver o que fariam comigo, vai que eu tivesse que ficar em casa também, disseram.

    Me lembro de mobilizações assim. Na época da vaca louca, da gripe suína, até do medo que o PCC botou no povo uns tempos atrás impedindo de sairmos na rua. Confesso que naquela hora não liguei muito não. 
Ao longo do dia, conforme fui fazendo meus afazeres fui pensando mais nesse assunto. As paranóias foram surgindo. Os meninos dela acordaram, se vestiram, botaram a máscara e nem tomaram café direito.

   - Amor, vai lá ligando o carro, coloca os meninos dentro que já vamos! Clarice, a gente já volta - Gritava dona Sônia com uma pressa estranha.

    Eu olhava tudo calada observando aquela movimentação aleatória. Terminei de limpar a casa já era pra lá da hora do almoço, e eles ainda não tinham voltado. 
Fiquei pensando na minha cabeça sobre essa loucura de doença. E meu menino em casa como estaria? Por que lá no meu bairro continuava tudo mais normal do que aqui? Por que esse povo com dinheiro são os que sempre inventam moda?

Dona Sônia chegou já era quase fim do meu horário. Me disse que foi correndo deixar os meninos dela que são asmáticos pra uma tia que mora no interior. Eles ficariam por lá até que a tal pandemia acabasse. Me despedi deles com uma cara de dúvida.


- Até amanhã, Clarice. E cuidado com o trem. É cheio de gente no trem essa hora.


    Fechei meu expediente e voltei no trem pensando nas barbaridades que tinha ouvido e visto. Quando cheguei em casa, já de noitinha a rotina parecia ser a mesma. O bar do seu Ermelino cheio, as crianças jogando bola na rua. Parecia uma noite quente de domingo. Que tipo de realidade aquele povo da zona sul vive, que aqui ainda não chegou?

    Foi meu filho Júnior que me comentou também logo depois da janta sobre essa pandemia. Ele me explicou com mais calma o que era essa gripe perigosa e como ela é transmitida. Dona Sônia e o marido não me falaram metade do que Junior me disse. Às vezes até penso que esse povo rico pensa que a gente é besta, e encurta o assunto pensando que a gente não entende.
Junior tem bronquite. Ele se encaixa nesse tal grupo de risco que dizem. Eu nem dormi a noite preocupada com o menino. A diferença é que a gente que é pobre não tem cabeça pra esse tipo de preocupação. A gente se preocupa com o básico, se a Sabesp não vai cortar nossa água, se na janta vai ter uma mistura melhor, ou se vai ser só ovo. A gente se preocupa se o dinheiro do fim do mês vai dar pra pagar o aluguel. Não temos tempo de lembrar de por máscara de dentista. E isso nem é culpa nossa. A gente só sobrevive, e isso nem é culpa nossa.

    A semana correu normalmente, o transporte público estava ficando cada vez mais vazio e meu coração cada vez mais apertado. Na quarta feira enquanto eu preparava o almoço da Dona Sônia, eu comecei a tossir. Tossia atrás do cotovelo, como mandava nos jornais. Só ouvia a patroa cochichando com o marido. Pior que com a máscara nem ler os lábios a gente consegue. 

    Foi batata. No fim do expediente eles pediram pra eu ficar sem ir trabalhar. Disseram que não sabiam se ainda voltariam a me contratar porque o mundo era outro. Disseram que as questões salariais conversariam depois. Fiquei triste como se tivesse levado um tapa na cara. No fundo nem estavam preocupados comigo. Estavam preocupados mais com eles, senão eu já estaria usando máscara por lá. 
Eles por fim mostraram quem eram. De fato nunca pagaram nada atrasado nem nunca me trataram mal. Mas na hora do aperto é que conhecemos as pessoas. Fui pra casa depois de todo mundo, mas fui. Só não continuei trabalhando porque eles ainda não descobriram como faz comida home Office.

    Chegando em casa me preocupei com a tosse. Ela aparecia seca e funda. Meu filho fez questão de comprar uma máscara pra mim e pediu pra usar. A partir dali eu quase não fazia nada. Junior não me deixava. O sentimento de impotência me tomou conta. Eu daria tudo pra que meu filho estivesse isolado na casa de alguma tia, como os filhos asmáticos de dona Sônia. Perguntava a Deus se a bronquite de Junior era pior que a asma dos filhos da patroa. Por que meu filho continuava sem máscara, botando pão na mesa agora, e os dela isolados? Era como se os dez anos de trabalho pra dona Sônia desabassem com telhado e tudo em minha cabeça.

    Semanas se passaram e meu filho entrava em casa chorando comentando sobre mortes de seus amigos de infância e de senhores do bairro. A situação tomava controle desproporcional. O tempo deitada na cama voava, e já não sabia quando era sábado, quando era segunda...

    Quando eu achava que iria enlouquecer, abri os olhos. O sol na minha cara era tão forte que demorei a tomar consciência. Ouvia as pessoas gargalhando na rua, o carro do ovo com a gravação repetida passando lentamente em frente de casa. Parecia tudo tão normal e tranquilo, e realmente estava. Eu estava sem máscara, respirava tranquila e sem nenhum tipo de tosse. Meu filho gritava na janela perguntando quantos pães eu queria naquele dia... 
    Não era possível, eu havia sonhado o pesadelo mais sombrio e real da vida! Graças a Deus aquela loucura não era verdade. Despertei com a consciência mais sensata que pude ter. No mesmo dia no fim de tarde, como num impulso de quem tem uma certeza inata, pedi demissão à Dona Sônia. Ela não entendeu nada e até tentou me fazer mudar de idéia, disse que precisava de mim. Minha vida começou depois desse santo pesadelo.





(Felipe Leonardo)