quarta-feira, 24 de junho de 2020

Sotaques de São João




     Na verdade o ano deveria começar em junho e acabar em junho do ano que vem, pra fazer mais sentido por aqui. Na metade do ano, em época de São João a comida é mais farta, as pessoas ficam mais simpáticas e até o tempo fica mais fresquinho. Quando essa época chega parece que uma euforia diferente toma conta do povo; minha mãe fica mais paciente e lava a casa escutando baião, eu mais meu irmão nem saímos tanto no tapa, meu pai compra roupa nova pra todo mundo, e meu cachorro Malaquias chora menos, e dá pulos abestados pro ar, como que já ansioso por pular a fogueira.
É a época em que até o cabra mais duro, afirma com confiança que sabe dançar forró.

    O meu primo Deusdete que mora no Rio de Janeiro me disse na última viagem que fez aqui pra Paraíba, que a época mais esperada pelas crianças lá é o natal. Me disse que muita gente se veste de Papai Noel, penduram guirlandas com “feliz natal” em língua estrangeira, e montam pinheirinho de mentira dentro de casa. Me lembro de uma época que minha mãe viu na TV e tentou fazer o mesmo aqui em casa, mas o calor fez a gente mudar de ideia. A gente no máximo pendura umas luzinhas na espada de São Jorge e já fica bem bonito.
    Esse meu primo me disse também rindo, que meu sotaque era arrastado e que a gente falava diferente. Eu nunca parei pra pensar na forma como a gente fala. A gente fala assim pois todo mundo fala. Ele que era diferente, falando parecendo que a boca estava cheia de xis.

    Depois que ele voltou pro Rio eu fiquei muito pensativo. Mas logo meu pai me explicou que o Brasil era gigante, e que em cada canto o povo fala a mesma língua de um jeito diferente. Como o sarapatel de vó Cleusa, - meu pai disse. O sarapatel de vó Cleusa é a mesma receita do sarapatel do tio Cícero, mas tem gostos diferentes. Naquele dia entendi que o sotaque é o tempero da língua.

    Não sei pro resto do povo, mas aquela descoberta mudou meu jeito de ver tudo. Pra mim o mundo todo era João Pessoa e Paraíba, e o São joão de Campina Grande era o maior evento do mundo, embora só havia visto o São João de Campina pela TV. 
O clima de todas as festas juninas que vivi eram com muitas risadas, bombas, fogueiras, as roupas mais bonitas que tínhamos, perfumes, Luiz Gonzaga na caixa de som, e comida a rodo. Tia Carmen cada ano inventava uma comida diferente com milho, além de ser a tia que desvirtuava os sobrinhos, segundo minha mãe.

    Em uma dessas festas, quando já estávamos entupidos de comer, sempre sentávamos no sofá, todos juntos, ligando a TV pra acompanhar ao vivo o São João de Campina Grande. Eram trinta dias de festa por lá. Se no sudeste as escolas de samba tomavam conta, aqui as quadrilhas são quase como religião. Todo ano tínhamos a nossa favorita e a gente torcia igual doido.

Naquele dia minha tia puxou eu e meu irmão de lado e anunciou um negócio que fez minhas pernas bambearem na hora. Ela perguntou aos meus pais:

- Esse ano queria dar um presente pros meninos. Vou levar eles pra ver a festa em Campina. Vocês deixam?

    Eu olhei meu irmão assim com o olho arregalado e, sincronizados, olhamos de volta meus pais com uma cara de cachorro pidão. Eu queria mesmo era sair pulando igual o Malaquias naquela sala, quando meus pais balançaram a cabeça aprovando nossa viagem a Campina Grande.

    Saímos trupicando nos tapetes da sala em direção ao quarto a fim de arrumar nossa mala. Pense numa alegria e num griteiro!
    Meu irmão Juninho arrumou a mala em dois tempos. Enquanto eu tava pensando em quantas cuecas ia levar, ele já tava na frente da porta me apressando. Lembrei de um caderninho que sempre anotava nele os dias mais especiais pra mim. Nele estavam escritos poucas coisas; o dia que ganhei o Malaquias de aniversário, o dia que meu pai me levou no estádio pra ver o Botafogo, e quando beijei uma menina pela primeira vez. Peguei um lápis velho e meti tudo na mala. 

    A viagem levava algumas horinhas. A ideia era passar o fim de semana na casa da tia e aproveitar o domingo no São João. Na estrada a ansiedade era grande. Olhava a paisagem e mirava o horizonte com espanto. Existiam espécies de árvores que nunca tinha visto, com uns troncos grossos, umas espécies de passarinhos coloridos, e mandacarus tão altos e diferentes que nem pareciam plantas. Me lembrei da conversa que tive com meu pai do tamanho do mundo. Talvez essas árvores, bichos e mandacarus sejam os mesmos, só tenham um sotaque diferente dos outros. 
    Ao chegar na casa da Tia Carmen a ansiedade não diminuía. Pra ser sincero, na noite de véspera de irmos nem consegui dormir. Enchi o saco do pobre do Juninho:

- Juninho, será que vai ter canjica igual a da vó Cleusa?
- Ah sei não...
- E milho? Será que vai ter uns pratos de milho que a gente nunca viu antes?
- Olhe o milho é um só, visse. É melhor tu dormir, vá.

    No domingo a festa começava só no finzinho da tarde. Fomos conhecer a cidade junto da tia. Passeamos pela praça, vimos os centros históricos de Campina. Mas a situação mais interessante foi quando paramos pra tomar um caldo de cana e ouvi uma conversa do lado, de uma menina muito da bonita aliás. Ela falava como que de um jeito diferente. Ela puxava o erre com tanta força pra falar que eu tinha que fazer força pra entender a palavra. Sotaque daquele era diferente do primo Deusdete de longe.
    Tomamos o caldo de cana e voltamos para, por fim, nos arrumarmos pra festa. Mas a voz da menina me ficou na cabeça e nem tive tempo de prosear.

    Botei a roupa mais bonita que meu pai tinha comprado, meti um perfume invocado e fui.
    Ao chegar lá me arrepiei todinho. Tinha tanta gente que sem dúvidas todas as pessoas do mundo estavam ali. O som era umas quinhentas vezes maior que o de casa. Me senti parte de todos. Me senti confiante vendo o tanto de gente que gostava da mesma coisa que eu!
    Tinha quadrilha de tudo que é jeito; com roupa de matuto, com roupa colorida bufante, roupa com pelos esvoaçando. Eu fiquei besta vendo tudo aquilo de perto.

    Mais besta ainda fiquei quando vi uma barraca do lado e a moça do sotaque diferente que eu tinha visto no centro estava lá. Curioso que sou, fui logo me aprochegando e dando as boas noites. A resposta dela foi um boa noite bem empolgado. Ainda que o sotaque dela fosse diferente, ele não era feio, era até charmosinho. Saindo da boca dela ficava bonito.
    Fomos proseando boa parte da festa e descobri que ela era do interior de São Paulo, estava de viagem por aqui a turismo. Fiquei espantado porque ela disse que pras bandas dela também tinha São João, e que também tinha todas as comidas de milho e vinho quente. A diferença que era menor, segundo ela, e que a família dela rezava o terço na sala e depois soltava as bombas.

    A lua brilhava tanto. Eu olhava as bandeirinhas afunilando lá em cima e eu parecia que estava em sonho. Tudo rodava com a sanfona e a zabumba tocando todos os sotaques do mundo. 
Perguntei à menina se na terra dela também tinha baião. Ela me respondeu que por lá a moda de viola reinava. Fiquei imaginando aquele sotaque cantado. Devia ser curioso realmente. E confesso que não imagino uma terra se baião...
Na hora do xote, claro que convidei a menina pra dançar comigo. Eu não sabia dançar, mas como sou cabra ligeiro fui logo dizendo que sabia. Como ela não sabia também, nem desconfiou. Aproveitamos da mesma forma.
    Pra ver como sou cabeça de vento nem perguntei o nome dela. Os pais a chamaram pra ir embora e fiquei lá chupando o dedo caçando o Juninho de novo.

    “Saudade o meu remédio é cantar’’. No meio da muvuca um som de Luiz Gonzaga me deixou nostálgico. Sentia saudade do que ainda nem tinha acabado. Só saí pulando e torcendo pra que junho ficasse pra sempre.

    De volta pra casa, no carro de tia Carmen, eu anotei esse momento marcante na minha vida; O melhor São João que tinha ido até então. Deixei escritinho no meu caderno especial pra nunca mais esquecer. Eu tinha mudado mais ainda. Dentro de mim eu me estendia para além de mim. Como se me espichasse e fosse do tamanho do mundo. Descobri aliás que a festa de São João é diferente em cada partinha do país. Talvez o resto do mundo seja uma Campina Grande com sotaques e temperos diferentes.



(Felipe Leonardo)

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Poema em branco





Num dia branco como foi ontem,
E como foram os últimos dois meses,
Olhei para cima, e o céu se confundiu 
Com o teto branco do quarto.


Um branco sujo e tedioso.
Um céu cansado. Um teto cansado.
Já esgotado de tantas lutas.
Já esgotado de tantos egos.


Tudo um tanto claro, mas não nítido.
Tudo acima de mim permanecia míope e turvo.
Branquíssimo, covarde e incerto,
Como um voto branco em outubro.


Felipe Leonardo