Na verdade o ano deveria começar em junho e acabar em junho do ano
que vem, pra fazer mais sentido por aqui. Na metade do ano, em época de
São João a comida é mais farta, as pessoas ficam mais simpáticas e até o tempo
fica mais fresquinho. Quando essa época chega parece que uma euforia diferente
toma conta do povo; minha mãe fica mais paciente e lava a casa escutando baião,
eu mais meu irmão nem saímos tanto no tapa, meu pai compra roupa nova pra todo
mundo, e meu cachorro Malaquias chora menos, e dá pulos abestados pro ar, como
que já ansioso por pular a fogueira.
É a época em que até o cabra mais duro, afirma com confiança que
sabe dançar forró.
O meu primo Deusdete que
mora no Rio de Janeiro me disse na última viagem que fez aqui pra Paraíba, que
a época mais esperada pelas crianças lá é o natal. Me disse que muita gente se
veste de Papai Noel, penduram guirlandas com “feliz natal” em língua estrangeira,
e montam pinheirinho de mentira dentro de casa. Me lembro de uma época que
minha mãe viu na TV e tentou fazer o mesmo aqui em casa, mas o calor fez a
gente mudar de ideia. A gente no máximo pendura umas luzinhas na espada de São
Jorge e já fica bem bonito.
Esse meu primo me disse
também rindo, que meu sotaque era arrastado e que a gente falava diferente. Eu
nunca parei pra pensar na forma como a gente fala. A gente fala assim pois todo
mundo fala. Ele que era diferente, falando parecendo que a boca estava cheia de
xis.
Depois que ele voltou
pro Rio eu fiquei muito pensativo. Mas logo meu pai me explicou que o Brasil
era gigante, e que em cada canto o povo fala a mesma língua de um jeito
diferente. Como o sarapatel de vó Cleusa, - meu pai disse. O sarapatel de vó
Cleusa é a mesma receita do sarapatel do tio Cícero, mas tem gostos diferentes.
Naquele dia entendi que o sotaque é o tempero da língua.
Não sei pro resto do
povo, mas aquela descoberta mudou meu jeito de ver tudo. Pra mim o
mundo todo era João Pessoa e Paraíba, e o São joão de Campina Grande era o
maior evento do mundo, embora só havia visto o São João de Campina pela
TV.
O clima de
todas as festas juninas que vivi eram com muitas risadas, bombas, fogueiras, as
roupas mais bonitas que tínhamos, perfumes, Luiz Gonzaga na caixa de som, e
comida a rodo. Tia Carmen cada ano inventava uma comida diferente com milho,
além de ser a tia que desvirtuava os sobrinhos, segundo minha mãe.
Em uma dessas festas,
quando já estávamos entupidos de comer, sempre sentávamos no sofá, todos
juntos, ligando a TV pra acompanhar ao vivo o São João de Campina Grande. Eram
trinta dias de festa por lá. Se no sudeste as escolas de samba tomavam conta,
aqui as quadrilhas são quase como religião. Todo ano tínhamos a nossa favorita
e a gente torcia igual doido.
Naquele dia minha tia puxou eu e meu irmão de lado e anunciou um
negócio que fez minhas pernas bambearem na hora. Ela perguntou aos meus pais:
- Esse ano queria dar um presente pros meninos. Vou levar eles pra
ver a festa em Campina. Vocês deixam?
Eu olhei meu irmão assim
com o olho arregalado e, sincronizados, olhamos de volta meus pais com uma cara de cachorro pidão. Eu queria mesmo era sair pulando igual
o Malaquias naquela sala, quando meus pais balançaram a cabeça aprovando nossa
viagem a Campina Grande.
Saímos trupicando nos
tapetes da sala em direção ao quarto a fim de arrumar nossa mala. Pense numa
alegria e num griteiro!
Meu irmão Juninho
arrumou a mala em dois tempos. Enquanto eu tava pensando em quantas cuecas ia
levar, ele já tava na frente da porta me apressando. Lembrei de um caderninho
que sempre anotava nele os dias mais especiais pra mim. Nele estavam escritos
poucas coisas; o dia que ganhei o Malaquias de aniversário, o dia que meu pai
me levou no estádio pra ver o Botafogo, e quando beijei uma
menina pela primeira vez. Peguei um lápis velho e meti tudo na mala.
A viagem levava algumas
horinhas. A ideia era passar o fim de semana na casa da tia e aproveitar o
domingo no São João. Na estrada a ansiedade era grande. Olhava a paisagem e
mirava o horizonte com espanto. Existiam espécies de árvores que nunca tinha
visto, com uns troncos grossos, umas espécies de passarinhos coloridos, e
mandacarus tão altos e diferentes que nem pareciam plantas. Me lembrei da
conversa que tive com meu pai do tamanho do mundo. Talvez essas árvores, bichos
e mandacarus sejam os mesmos, só tenham um sotaque diferente dos
outros.
Ao chegar na casa da Tia
Carmen a ansiedade não diminuía. Pra ser sincero, na noite de véspera de irmos
nem consegui dormir. Enchi o saco do pobre do Juninho:
- Juninho, será que vai ter canjica igual a da vó Cleusa?
- Ah sei não...
- E milho? Será que vai ter uns pratos de milho que a gente nunca
viu antes?
- Olhe o milho é um só, visse. É melhor tu dormir, vá.
No domingo a festa
começava só no finzinho da tarde. Fomos conhecer a cidade junto da tia.
Passeamos pela praça, vimos os centros históricos de Campina. Mas a situação
mais interessante foi quando paramos pra tomar um caldo de cana e ouvi uma
conversa do lado, de uma menina muito da bonita aliás. Ela falava como que de
um jeito diferente. Ela puxava o erre com tanta força pra falar que eu tinha
que fazer força pra entender a palavra. Sotaque daquele era diferente do primo
Deusdete de longe.
Tomamos o caldo de cana
e voltamos para, por fim, nos arrumarmos pra festa. Mas a voz da menina me
ficou na cabeça e nem tive tempo de prosear.
Botei a roupa mais
bonita que meu pai tinha comprado, meti um perfume invocado e fui.
Ao chegar lá me arrepiei
todinho. Tinha tanta gente que sem dúvidas todas as pessoas do mundo estavam
ali. O som era umas quinhentas vezes maior que o de casa. Me senti parte de
todos. Me senti confiante vendo o tanto de gente que gostava da mesma coisa que
eu!
Tinha quadrilha de tudo que é jeito; com roupa de matuto, com
roupa colorida bufante, roupa com pelos esvoaçando. Eu fiquei besta vendo tudo
aquilo de perto.
Mais besta ainda fiquei
quando vi uma barraca do lado e a moça do sotaque diferente que eu tinha visto
no centro estava lá. Curioso que sou, fui logo me aprochegando e dando as boas
noites. A resposta dela foi um boa noite bem empolgado. Ainda que o sotaque
dela fosse diferente, ele não era feio, era até charmosinho. Saindo da boca
dela ficava bonito.
Fomos proseando boa
parte da festa e descobri que ela era do interior de São Paulo, estava de
viagem por aqui a turismo. Fiquei espantado porque ela disse que pras bandas
dela também tinha São João, e que também tinha todas as comidas de milho e
vinho quente. A diferença que era menor, segundo ela, e que a família dela
rezava o terço na sala e depois soltava as bombas.
A lua brilhava tanto. Eu
olhava as bandeirinhas afunilando lá em cima e eu parecia que estava em sonho.
Tudo rodava com a sanfona e a zabumba tocando todos os sotaques do mundo.
Perguntei à menina se na terra dela também tinha baião. Ela me
respondeu que por lá a moda de viola reinava. Fiquei imaginando aquele sotaque
cantado. Devia ser curioso realmente. E confesso que não imagino uma terra se baião...
Na hora do xote, claro que convidei a menina pra dançar comigo. Eu
não sabia dançar, mas como sou cabra ligeiro fui logo dizendo que sabia. Como
ela não sabia também, nem desconfiou. Aproveitamos da mesma forma.
Pra ver como sou cabeça
de vento nem perguntei o nome dela. Os pais a chamaram pra ir embora e fiquei
lá chupando o dedo caçando o Juninho de novo.
“Saudade o meu remédio é
cantar’’. No meio da muvuca um som de Luiz Gonzaga me deixou nostálgico. Sentia
saudade do que ainda nem tinha acabado. Só saí pulando e
torcendo pra que junho ficasse pra sempre.
De volta pra casa, no
carro de tia Carmen, eu anotei esse momento marcante na minha vida; O melhor São João que tinha ido até então. Deixei
escritinho no meu caderno especial pra nunca mais esquecer. Eu tinha mudado
mais ainda. Dentro de mim eu me estendia para além de mim. Como se me
espichasse e fosse do tamanho do mundo. Descobri aliás que a festa de São João é
diferente em cada partinha do país. Talvez o resto do mundo seja uma Campina
Grande com sotaques e temperos diferentes.
(Felipe Leonardo)

