Esse céu pelado
e esse sol ardido são testemunhas eternas de sujeitos valentes. Quem sobrevive por essas
bandas, de duas uma: Ou é forte de nascença, com a alma já calejada, ou é porque cresceu com leite de cabra. Leite de cabra tem pelos quatro
cantos da região. Dá menos gasto criar a bichinha do que uma vaca leiteira.
Moro por aqui desde que nasci.
Imagino que eu seja forte. Na verdade essa história, finada mainha quem contava!
- O sol
brilha aqui mais forte porque Deus escolheu o nordeste, meu filho! Essa terra
tem que brilhar mais que qualquer uma outra!
A vizinhança sempre foi amistosa. Cidade de
interior é assim. Todo sábado, no fim de tarde, quando a bola de fogo já não queima
e o vento começa a balançar as mangueiras, tem baião na praça.
Ritinha, filha de Dona Severina sempre foi minha menina dos olhos. Nunca a
convidei pra dançar. Um dia tomo coragem.
Moça valente, de uma voz firme e
doce. Povo diz que ela é neta de cangaceiro, por isso não abaixa o queixo pra macho
nenhum. De cabelos longos, umas pernas finas que nem a da seriema, e um
remelexo da gota.
Só nunca fui com a cara de uns narizes empinados que volta e meia chegam por essas bandas, todos engomados cheirando a
creolina. Parece que só porque vivem na capital, tem um lugar no céu
diferente do nosso. A Virgem Maria há de julgar isso.
Normalmente chegam por aqui tentando convencer
os camaradas a vender terra pra plantarem os maquinários a
fim de caçar algum minério. Pedrinha colorida tem de monte, mas água é raridade.
Que eu saiba essas pedrinhas não matam a sede, mas algum valor há de
existir.
Um desses cabras, chamado Afonso, se engraçou pros
lados de Ritinha. Jurou em vida que se um dia ficasse rico levaria a moça embora
pra capital. Nós, os moços do sertão, saímos sempre em desvantagem com esses sujeitos. Atiçam a
curiosidade de todas as meninas daqui com suas formas diferentes de falar,
cheios de moda no corpo. Como aqueles pavões que se enchem de cor pra se
destacar.
Camisa de seda leve, com umas estampas até muito
vistosas. Uma calça alinhada e um sapato brilhoso. Bonito realmente. Só trocaria
o sapato por uma sandália de couro, e a alma podre por uma alma nova, daí o cabra
se renova!
Ritinha por sua vez era moça
esperta, pensava à frente de suas amigas. Parece que tinha uma parte do coração em
forma de homem, porque entendia as maldades e malandragens masculinas só com um
olhar. Aquela não se enganava.
Mas todas minhas esperanças um
dia foram por água abaixo quando o sujeito convidou a moça pro
forró. Foi à casa dela logo depois do meio dia, na hora em que a barriga descansa, pra
entregar uma pulseirinha de concha de presente, junto com o convite. Ritinha
permaneceu em silêncio e agradeceu.
- E esses cabras da capital lá sabem
dançar forró!? – Pensei.
Confesso que fiquei meio acabrunhado. Minha
alegria maior era dançar ao som da zabumba no sábado à noite,
e quando não, gostava de ver a moça dançando com o vento. Cada volta que
ela dava parecia suspender no ar. Como o beija-flor que só de
balançar as
asinhas, flutua. Aquele vestido rodado era as asinhas dela.
O tal do Afonso por vezes me via na cidade.
Quando o sujeito é ruim a gente reconhece no olhar. Que nem bicho ruim do mato. Algo me
dizia que ele sabia de meu interesse na moça. Cortejava Ritinha escancaradamente
só por
pirraça.
Por fim a data do baile chegou. O dia havia
sido quente, mas a brisa que nunca se esquece de vir, refrescava todo o povo.
Sou sempre um dos primeiros a chegar à praça, me
arrumo pra ir à missa e depois dançar. Mato dois coelhos numa cajadada só!
Quando
os cantores já haviam começado a festa, o sujeito chegou. Com suas roupas alinhadas e seu sapato
brilhoso. Sentou-se no banco como quem já espera a vitória.
Ritinha vinha com seu vestido de
beija-flor, e a pulseira de conchas. Por onde ela passava, deixava o rastro de
perfume que só ela tinha. Passadas firmes, olhar mirando o longe, como aqueles pássaros
do sertão em
busca da presa. Ela era minha pedrinha colorida.
Estava vidrado em seu caminhar e mal notei sua
presença vindo
em minha direção. O compasso do xote combinava certinho com as passadas dela. Vinha
como num clipe, desses que a gente vê no cinema. Parou em minha
frente e disse:
- Bonita essa tua sandália...combinou
com tua camisa, visse?
Agradeci
com a cara abobada, e retribuí o elogio. Mal pude terminar quando ela me
retrucou:
- Bora dançar comigo?
Acho que
a sede havia me deixado delirante. Não era possível.
Aceitei de imediato!
Perguntei
sem entender:
- Tu não ía dançar com o
doutor ali?
- E esses cabras da cidade lá sabem
dançar forró!?
(Felipe Leonardo)

