segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Sapato fino no sertão é sandália de couro





   Esse céu pelado e esse sol ardido são testemunhas eternas de sujeitos valentes. Quem sobrevive por essas bandas, de duas uma: Ou é forte de nascença, com a alma já calejada, ou é porque cresceu com leite de cabra. Leite de cabra tem pelos quatro cantos da região. Dá menos gasto criar a bichinha do que uma vaca leiteira.
    Moro por aqui desde que nasci. Imagino que eu seja forte. Na verdade essa história, finada mainha quem contava!
- O sol brilha aqui mais forte porque Deus escolheu o nordeste, meu filho! Essa terra tem que brilhar mais que qualquer uma outra!
    A vizinhança sempre foi amistosa. Cidade de interior é assim. Todo sábado, no fim de tarde, quando a bola de fogo já não queima e o vento começa a balançar as mangueiras, tem baião na praça. Ritinha, filha de Dona Severina sempre foi minha menina dos olhos. Nunca a convidei pra dançar. Um dia tomo coragem.
    Moça valente, de uma voz firme e doce. Povo diz que ela é neta de cangaceiro, por isso não abaixa o queixo pra macho nenhum. De cabelos longos, umas pernas finas que nem a da seriema, e um remelexo da gota.
    Só nunca fui com a cara de uns narizes empinados que volta e meia chegam por essas bandas, todos engomados cheirando a creolina. Parece que só porque vivem na capital, tem um lugar no céu diferente do nosso. A Virgem Maria há de julgar isso.
   Normalmente chegam por aqui tentando convencer os camaradas a vender terra pra plantarem os maquinários a fim de caçar algum minério. Pedrinha colorida tem de monte, mas água é raridade. Que eu saiba essas pedrinhas não matam a sede, mas algum valor há de existir.
   Um desses cabras, chamado Afonso, se engraçou pros lados de Ritinha. Jurou em vida que se um dia ficasse rico levaria a moça embora pra capital. Nós, os moços do sertão, saímos sempre em desvantagem com esses sujeitos. Atiçam a curiosidade de todas as meninas daqui com suas formas diferentes de falar, cheios de moda no corpo. Como aqueles pavões que se enchem de cor pra se destacar.
    Camisa de seda leve, com umas estampas até muito vistosas. Uma calça alinhada e um sapato brilhoso. Bonito realmente. Só trocaria o sapato por uma sandália de couro, e a alma podre por uma alma nova, daí o cabra se renova!
    Ritinha por sua vez era moça esperta, pensava à frente de suas amigas. Parece que tinha uma parte do coração em forma de homem, porque entendia as maldades e malandragens masculinas só com um olhar. Aquela não se enganava.
    Mas todas minhas esperanças um dia foram por água abaixo quando o sujeito convidou a moça pro forró. Foi à casa dela logo depois do meio dia, na hora em que a barriga descansa, pra entregar uma pulseirinha de concha de presente, junto com o convite. Ritinha permaneceu em silêncio e agradeceu.
 - E esses cabras da capital lá sabem dançar forró!? – Pensei.
   Confesso que fiquei meio acabrunhado. Minha alegria maior era dançar ao som da zabumba no sábado à noite, e quando não, gostava de ver a moça dançando com o vento. Cada volta que ela dava parecia suspender no ar. Como o beija-flor que só de balançar as asinhas, flutua. Aquele vestido rodado era as asinhas dela.
    O tal do Afonso por vezes me via na cidade. Quando o sujeito é ruim a gente reconhece no olhar. Que nem bicho ruim do mato. Algo me dizia que ele sabia de meu interesse na moça. Cortejava Ritinha escancaradamente só por pirraça.
    Por fim a data do baile chegou. O dia havia sido quente, mas a brisa que nunca se esquece de vir, refrescava todo o povo. Sou sempre um dos primeiros a chegar à praça, me arrumo pra ir à missa e depois dançar. Mato dois coelhos numa cajadada só!
Quando os cantores já haviam começado a festa, o sujeito chegou. Com suas roupas alinhadas e seu sapato brilhoso. Sentou-se no banco como quem já espera a vitória.
    Ritinha vinha com seu vestido de beija-flor, e a pulseira de conchas. Por onde ela passava, deixava o rastro de perfume que só ela tinha. Passadas firmes, olhar mirando o longe, como aqueles pássaros do sertão em busca da presa. Ela era minha pedrinha colorida.
    Estava vidrado em seu caminhar e mal notei sua presença vindo em minha direção. O compasso do xote combinava certinho com as passadas dela. Vinha como num clipe, desses que a gente vê no cinema. Parou em minha frente e disse:
 - Bonita essa tua sandália...combinou com tua camisa, visse?
Agradeci com a cara abobada, e retribuí o elogio. Mal pude terminar quando ela me retrucou:
 - Bora dançar comigo?
Acho que a sede havia me deixado delirante. Não era possível. Aceitei de imediato!
Perguntei sem entender:
 - Tu não ía dançar com o doutor ali?
 - E esses cabras da cidade lá sabem dançar forró!?



(Felipe Leonardo)


A morte após a morte





    Foi como acordar de um longo sonho. Desses que não nos lembramos como são... Como haverei de explicar-lhes, senhores?
    Despertei-me em um pesadelo, como se viesse de tobogã junto com a água lodosa que me acompanhava. Um frio na barriga e um suspiro me vieram de imediato, como quem dorme e lhe é jogado um balde gelado na cara. O breu que trazia em vida, se estendeu ao pesadelo.
- Enlouqueci, seguramente!
    Sentia frio, fome e um estranho gosto de remédio amargo na garganta que me corroia o estômago simultaneamente... Sim! Recordo-me!
    Havia tomado o tal remédio mortal, desses que os ratos tomam com o fim de me abreviar o pesadelo e o choro infinito que vivia. Estava na lama junto com os ratos.     Faziam companhia a mim deste lado.
    Minhas últimas recordações eram vazias. Fui professor de filosofia. Cético e solitário.       Nunca me apaixonei por mulher ou homem nenhum. Esses poetas românticos sempre me deram sono. Escrevi como muitos intelectuais fazem. Embora nunca tenha gostado de minhas obras, estas me tiravam momentaneamente a ideia de ir morar com os ratos do lado de cá. A filosofia que tantas alegrias me deu me encurralou em seus labirintos da razão e me fez desistir da vida.
    Que tipo de filosofia explica este sobrenatural? A metafísica de Kant me deixou com as calças na mão nessas horas! Minha razão e orgulho esbarraram em terras lamacentas e ratos cobertos de musgos verdes. Depois de algumas semanas preso nessa angústia repetitiva, tive a certeza de que havia morrido.
     A morte nos acompanha a cada suspiro que damos em vida. Ela nos espreita como aquele primo brincalhão que nos espera atrás da porta, prestes a dar-nos o susto. Neste caso específico que por aqui discorro, decidi ir ao encontro dela deliberadamente. Deixo gravado neste papel amassado, minhas caligrafias cor de sangue. Decidi por vontade própria trocar a morte que tinha em vida, pela curiosidade da morte do lado de lá, e enlouqueci.
    Que outra explicação eu teria? Qual dimensão é a real, senhores? A dos sonhos ou a da carne?
    Caixa misteriosa essa que carregamos presa ao pescoço! Nosso mundo está dentro dessa massa encefálica. Um mestre como eu rendido ao inexplicável. Preso na dimensão do além.
    Dizem que quando escrevemos buscamos a verdade. Como crianças recém nascidas com os braços estendidos, ansiosos a tatear o novo. Escrevemos aspirando revelações, senhores. E assim creio que daqui sairei.
    Permaneço a tatear o invisível em meus umbrais, mas já não sinto o amargo na boca. Vejo um pequeno ponto brilhante no céu. Há de ser o sol!
Graças a Deus! Graças a Deus?




(Felipe Leonardo)