sábado, 31 de março de 2018

A janela




Haveria neste mundo,
Figura mais poética e melancólica
Que uma janela de madeira entreaberta?

Dessas que há no meu quarto.
Dessas antigas que gemem as fechaduras
Quando a mínima brisa passa.
Dessas que batem violentas na parede
Quando a ventania ameaça.
Dessas que conversam com a paisagem
E nos convidam à poesia.
Dessas...




(Felipe Leonardo)

terça-feira, 27 de março de 2018

O Despertar



Minha alma hoje foi atingida por um balde despejado.
Fui acordado do sono que permanecia,
E me vi de olhos arregalados à multidão.
Molhei-me de água fria,
Acordei de estar acordado,
E toda a vida se fez lúcida no momento.

Pasmado, notei que me tornei alheio.
Não me reconheciam.
Só haviam me visto seco de espírito
Nunca ensopado,
E me perdi.

Fui outro à frente deles,
Outro que desconhecia.
Pediu-me permissão para se mostrar
E quando foi embora me deixou molhado, com frio,
E com os deveres da realidade que tanto adiava.

Por fim a segunda-feira se fez presente.



(Felipe Leonardo)

Silêncio de Domingo




Quantas ideias cabem numa reflexão de domingo?
Já que domingo é o silêncio da semana.
O dia da escassez de dia.
O dia que resiste em existir.

Quantas palavras cabem neste silêncio?
O silêncio.  A pausa antes da ação...
Porque há muitos tipos de silêncio;
Este, barulhento por dentro e silencioso por fora.

Mas minha quietude é incompleta,
Porque ainda há ruídos
De obrigações e dúvidas,
Da semana que passou e da que há de vir.

[Cachorro que chora preso às correntes,
Enquanto espera seu dono à noite,
Que quebra o silêncio com uivos ansiosos...
Espera, pois seu dono está amarrado às correntes da consciência!]

Sim, o silêncio!
A morte natural das coisas externas.
De som, somente o eco dominical,
De tentativas e nobres aspirações!



(Felipe Leonardo)

sexta-feira, 23 de março de 2018

Poema nada prático





Benditas sejam as pessoas que sentem!
Riem, choram, erram, sonham,
E admitem-se humanos.

Porém, reflito:
Quão alegre é a vida das pessoas práticas!
Saber viver e não sentir,
Se abdicar dos sonhos para viver o real.
Desconhecer o sensível
E sorrir todo o tempo.

Que praticidade invejável tem as pessoas práticas!
Conservar-se de gelo,
Subornar sem que lhe pese a consciência,
Colocar objetos e coisas à frente de almas,
E viver entre vidros opacos que nunca lhe deixam tocar a vida.

Pois quem sente é sonhador!
Feliz de dia e triste à noite.
E quem não sente, é prático!
Estrategista e alegre sempre.
Manda e governa quem não sente.

Eu, o que vivo é sonho.
Minha mente é um redemoinho,
E as ideias giram em espirais.
Emaranhadas e cacheadas como meus cabelos.

E enquanto escrevo estes versos nada práticos,
Continuo sentindo.
Percebo o vento a mover saias e pipas,
E deixo o sol tocar minha pele.
Contemplo a paisagem do mundo pela janela,
E me reconheço natural.
Sou feliz e triste!




(Felipe Leonardo)