domingo, 28 de agosto de 2022

O caso de Dona Maria e o sujeito que enganou a morte

   



Nesse mundo tem jeito para tudo, só não tem jeito para morte. O sono último, a hora irremediável que ninguém foge.

Pois que na história do mundo ocidental, os contos mais conhecidos de homens que venceram a morte, são de Jesus e Lázaro. Mas isso é pouco, perto das histórias populares que se passam nas entrelinhas do mundo e nas esquinas desconhecidas. 


- Pois já vi homem virar lobo na minha frente e cobra pequena se esticar até engolir gente!

Dizia Dona Maria aos seus netos, toda sexta feira à noite. Contando histórias assombradas só porque os meninos pediam.

- Mas e aí, vó? A senhora já trombou um Lobisomem mesmo, sem tremer?

- Tremia igual vara verde, menino. Foi quando eu era do tamanho de vocês, e minha mãe me pediu pra ver que escarcéu as galinhas estavam fazendo no poleiro. Já era tarde da noite e de claridade era só minha lamparina e a lua cheia prateando a estrada. Foi quando vi um bichão parecido com gente, peludo, maior que seu pai, andando de cócoras fugindo rumo ao riacho. Dizem que essa coisa matou um homem a duas léguas dali…

Essas histórias deixavam os meninos de boca aberta. No fundo o que era mentira ou verdade, era mistério. Para quem é muito novo, e não conhece a morte, qualquer história paranormal já vira espetáculo.

Mas o que Dona Maria mantinha em segredo - pois era o único caso que arrepiava sua espinha - foi a história do seu vizinho que morreu e desmorreu de um dia para o outro, e a vizinhança inteira é testemunha.

Seu Ceará era uma figura respeitada no Vilarejo por ser um dos mais antigos moradores. Era vizinho de Dona Maria há anos, e pouco aparecia na rua, exceto nos domingos de missa e pelas manhãs para varrer a calçada e cumprimentar uma meia dúzia que passava. Tinha fama de ser calado e mau humorado, mas isso as pessoas imaginavam por suposição. 

Houve um dia em que o neto de Mané Deodato deixou cair uma bola dentro do quintal do homem, e o menino inocente juntou as mãozinhas para bater palma. Pela falta de respostas, o garoto decidiu pular o murinho rapidamente sem que ninguém o visse. Quando ia voltando percebeu uma sombra saindo de dentro da casa e batendo a porta com força:

- Quem tá aí no meu quintal?

O berro do homem fez o menino pular o murinho de volta na carreira, levantando terra vermelha. Ele conseguiu pegar a bola, mas nunca mais se atreveu a jogar ali novamente.

Espalhou pros amigos todos que o Seu Ceará era um homem de 3 metros que cuspia prego pela boca e que tinha uma sombra três vezes maior que ele.

Mas deixe estar que até o fim dessa história a criançada teria motivos justos de temer o homem.

Em uma madrugada fresca -  dessas que a gente agradece a lua por não queimar como o sol -  Dona Maria preparou seu chá de camomila com bolacha de água e sal, fez sua reza e foi se deitar como sempre fazia. O silêncio era tanto que os gatos não namoravam, e a coruja ecoava no vilarejo inteiro. 

Por volta das dez da noite, o susto; um barulho forte de algo pesado caindo no chão, seguido de panelas e sons de madeira, vindo da casa do Seu Ceará. O som foi tão estridente que Dona Maria estava com os olhos pescando e arregalou na hora. Logo depois os cachorros do vilarejo latiam em coro uníssono.

Ela levantou-se com cuidado, custou a achar os chinelos no escuro para calçar, e se debruçou na janela para buscar ouvir algum resquício de som, mas em vão. A noite já havia voltado a ser o marasmo que era, com seu silêncio colossal.

No domingo seguinte, quando a missa já estava prestes a terminar, dona Maria olhou para a fileira da frente e não encontrou Seu Ceará no seu lugarzinho de costume. Aquele homem era mais assíduo que o Padre, algo de muito estranho deveria ter ocorrido. Quando a hóstia já havia sido entregue e o vigário dispensou a multidão, foi o tempo de Dona Maria fazer o sinal da cruz, se despedir do templo, e puxar fofoca com Dona Carmen:


- Mas e o Seu Ceará que não veio hoje, mulher. Tu soubesse dele?

- Sei não. Tu que mora do lado dele deveria estar mais sabida que eu!


Quando dona Maria pensou em comentar sobre o que ouviu na noite passada, uma outra irmã se aproximou e começou a tricotar a história que se firmou:

- Vocês não tão sabendo não?

- Mas conte logo pelo amor de Deus, mulher!

- Seu Ceará morreu, minha fia. Essa madrugada escutei uma zoada na casa dele, olhei mais tarde pela janela e um carro preto desses compridos de funerária estava saindo. Só vi a sombra do caixão atrás.

Pronto, a história estava feita, e uma hora depois o vilarejo todo já sabia da morte de Seu Ceará. Ninguém sabia ao certo como a tragédia tinha ocorrido; alguns comentavam que ele tinha pacto com o cramunhão e havia caído esturricado na sala, outros diziam que poderia ter sido a pressão por já ter certa idade… 

O que todos tinham certeza era que, como sua família era da capital, o enterro provavelmente não seria no vilarejo. 


O culto aos mortos nas cidades pequenas sempre foi mais intenso e melancólico que nas cidades. O clima se sente nas capelinhas das estradas que relembram os que padeceram, junto das rezas que se misturam entre o catolicismo e as religiões africanas, tornando-se algo híbrido e vivo, com ladainhas que se estendem por dias, mesmo após a morte do sujeito. 

Um sentimento de respeito, fé e misticismo paira no ar, fazendo com que o vilarejo entre em transe, com os fantasmas imaginários dominando a realidade. 

Fantasmas estes que se perpetuam por gerações entre avós, bisavós e tataravós, que sempre juraram de pé junto sua veracidade.


Três dias se passaram e a casa de Seu Ceará permanecia trancada às escuras. Foram colocadas velas e flores em frente da casa pelas irmãs da paróquia em memória ao morto, o que deixava o ambiente mais medonho do que já era. As crianças evitavam passar na frente da casa, e até os adultos faziam o sinal da cruz. Em uma dessas noites pós falecimento, muito se dizia que eram ouvidos passos pela casa, e sons de gemidos ecoados. Dona Maria que tinha fé redobrada até dobrou o dízimo e reza para evitar pensamentos ruins. Por mais que gostasse de contar histórias de terror, fugia de fantasmas como o diabo foge da cruz.

Cinco dias se passaram e Dona Carmen, moradora da vizinhança presenciou algo que arrepiou sua espinha e a traumatizou.

Estava anoitecendo no Vilarejo e o céu se alaranjava devagar como querendo adiar a escuridão silenciosa da noite. As corujas e os grilos já começavam sua sinfonia que serviria de embalo para o que iria ocorrer. Na subida do açude, na entrada da cidade, Dona Carmen viu um vulto caminhando devagar, quase mancando. A lua cheia refletida fazia sombra à cruz da igreja que se espelhava no asfalto, enquanto aquela silhueta vinha em sua direção, cambaleante. Quando o homem chegou perto da luz do poste, o susto; Era Seu Ceará completamente vivo em carne e osso.


- Valei-me minha Nossa Senhora! - Gritou Dona Carmen com a voz trêmula de desespero.


Voltou correndo como pôde à sua casa e trancou a porta, já pegando o celular para avisar Dona Maria que havia visto o morto-vivo.


- Mas minha fia, você tem certeza que viu o homem? Amanhã mesmo levo você pra se benzer com o padre. - Dizia Dona Maria.


Dona Maria estava duvidando da amiga, e decidiu ver a movimentação da casa do falecido. Se amoitou e logo viu Seu Ceará vivinho chegando em casa. Ele olhou aquelas velas e flores no portão por alguns segundos e não entendeu patavinas. Adentrou em sua casa e descansou o fim de mais um dia com normalidade.


No dia seguinte a missa era cedo, e o escarcéu que foi aquilo, era literalmente algo de outro mundo. O homem entrou na igreja e as irmãs gritaram e saíram em disparada pros fundos da paróquia. Era chinelos perdidos, irmãs correndo descalças aos trupicões, bíblias largadas, e até o padre hesitou e pensou se corria ou não.

Quando os ânimos se acalmaram, o vigário chamou Seu Ceará para ter uma séria conversa na salinha dos fundos.

Seu Ceará disse que na realidade ele não tinha sofrido um acidente, o homem foi viajar com a família, e enquanto fazia a mala, ela acabou caindo da estante e derrubando alguns utensílios. Enquanto isso, seus filhos vieram buscá-lo com uma Caravan preta, que de fato, depois de colocadas as malas e naquela hora da noite, parecia um carro funerário. 

Depois de voltar da viagem, seus filhos o deixaram na entrada da cidade para caminhar até sua casa.


O mito do homem-morto-vivo estava caído por terra. Seu Ceará morreu e desmorreu em alguns dias e virou lenda no vilarejo. Se de fato aquela história era verdade, só Deus poderia dizer. Ainda hoje ninguém soube explicar o motivo dos barulhos noturnos naquela casa, mas o mistério daquele homem, e sua presença no vilarejo ainda causam arrepios nos mais supersticiosos.