quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Poema da Partida




Desejo partir
A lua já vai alta,
E o eterno dia seguinte me espera.
Preciso partir, depressa.
Minha alma anseia respirar novos ares
Precisa ouvir novos sotaques,
Para por fim se reinventar.

Partir, sempre.
Essa a ordem que de dentro urge,
Pois as paixões que da alma surgem,
Insistem e não me permitem quedar.

De longe ouço o vento viajante
O sempre bem vindo mensageiro.
Diz-me que me esperam vibrantes,
Com meu incerto futuro faceiro!

Arrumem-me um cavalo!
Desses vorazes e agitados,
Desses que não aguentam ficar parados,
Nesse eu hei de montar!

Levarei as roupas do corpo,
Não carece de tanto. Larguem!
Tudo o que tenho carrego no peito,
Não vendo por mais que me paguem.

Perdoem-me a vista marejada
E as palavras que por vezes calo,
Seguirei bravo, sem cair do cavalo!
O amor é minha última parada.

E quando eu partir em galope no horizonte
E me perder em meio à neblina,
Apaguem a luz da lamparina,
Minha alma já estará feliz e longe!




(Felipe Leonardo)

Que culpa tenho eu?



Grandes almas me acompanham.
Elas me escoltam pelas estradas,
E abrem os braços, ajoelhadas
Para o meu engatinhar da vida.

Mas neste momento, comigo estão enfurecidas.
Estão do outro lado da porta discutindo sobre mim,
Enquanto escrevo estas palavras preocupadas,
E cantarolo uma bossa qualquer...
- Preciso lhes dizer logo, antes que me percebam!

Elas comentam sobre o tamanho do meu coração.
Preocupam-se com o risco que corro,
Ficam indignadas com o caminho que percorro,
Exclamam que gosto de sofrer!

Mas que culpa tenho eu!?
Se me deram peito de poeta,
Se cada olhar gentil, cada gesto febril,
Cada sorriso preguiçoso e cada olhar impetuoso
Penetram-me a alma rasgando tudo por dentro.

Que culpa tenho!?
Se me deram um coração para cada parte do corpo.
Uma mente só, para fingir que não estou morto,
E um pêndulo desigual entre razão e emoção.

Com a sensibilidade que me deram,
Cheguei com grandes intenções.
Encontrei somente fechaduras trancadas,
Portas encadeadas,
E com a chave do lado de dentro.

Com poesia se faz tudo:
Bolos e felicidades,
Música e possibilidades.
Com poesia cria-se mundos.

- Pois bem, elas vêm vindo, preciso ir!
Não sei o que de mim irão dizer,
Ou o que hão de exigir,
A bossa continuará a tocar,
E numa moça continuarei a pensar.




(Felipe Leonardo)

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Razões e corações



Escrever é esculpir.
Talhar idéias
Podar pensamentos
Traduzir o sentir.

E há quem diga que na escrita
Não há metade do que se pensa
Traduzir a confusão da mente é tarefa tensa
Um labirinto onde o alfabeto se encaixa.

E na teia confusa que nossa mente cria,
Equilibram-se razão e coração,
A primeira está em terreno de adoração,
Já o coração, se perde com maestria





(Felipe Leonardo)

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Carta à Inspiração


Há tempos não escrevo.
Ultimamente venho sendo tomado
Por uma agonizante euforia.
Um entusiasmo cego
Que me cega de ser sensível.
Sem sensibilidade, não há poesia!

Abro a janela do alto prédio
E admiro a paisagem de maquete,
E as pessoas que de tão pequenas, parecem inofensivas.
Olho os aviões e seus rasantes
E os montes no horizonte,
Mas não a encontro.
Ouço o vento ligeiro a assobiar,
Mas não a ouço.
Vejo toda a realidade incrivelmente real,
Mas não a vejo.

Inspiração,
Espero-te pacientemente em silêncio,
Dentro de minha alma.
Que em meu coração nasça a calma
Antes de o dia escurecer,
Pois só quando o entusiasmo se vai
E a vida boêmia dorme,
Eu posso escutar seus acordes
E por fim, começar a escrever.



(Felipe Leonardo)


Estação primeira

                                                                       


A primavera que traz as flores,
Traz consigo ares nunca antes sentidos.
Traz dores que machucam os sentidos,
Traz marcantes odores e alguns dissabores.

A luz amarela do candelabro,
Reflete brilhosa em teu olhar marejado.
Tu és fogo a reluzir na escuridão,
A reviver o que estava dilacerado.

- Vem sentir meu coração,
Está batendo novamente!
[E não é de medo.]



(Felipe Leonardo)

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Ansonhedades Juvenis




Em idade de encantamentos como essa,
Somos todos entusiasmo e alegria.
Incorporamos alma de romancista,
Em que a ideia é água corrente e não cessa.

Os ventos da juventude!
Amores promissores,
Ventos sem rumores,
Onde cada caminho é novidade.


[- Não, não é hora de escrever!
Vou sair... Encontrar os amigos!
Rir e dançar! Preciso ir.
Escrevo quando chegar.]

Ah, mas nem tudo é perfume,
Sofro de ansonhedade...
Sonhos ansiosos que me atropelam.
A vida voa em minha frente,
Agarro-a em vão. Ela escorre pela mão.
E sempre tenho a sensação,
De estar atrasado.

[Em mesas de jantar - as poucas que ainda vivem,
Existem grandes filosofias. Filosofias guardadas em segredo.
É falta de educação falar com a boca cheia.]
- Pai, escuta!
Depois que comecei a ler Neruda,
Aprendi a ver o feminino com olhar de poeta!
Pois é delas o mundo e os amores,
"É o coração de uma mulher que faz o mundo girar"

- Mãe, é possível ser novo a vida inteira?
Tenho muitos sonhos para se sonhar,
Preciso de tempo para eles!
Pois o que é do homem sem sonhos?
E preciso de tempo para viver,
Pois o que é do homem sem a vida?
- Minha irmã, passe-me o sal.
Para temperar a rotina, por favor.
Obrigado!

No quarto, ao fim do dia
A agitação e a euforia se aquietam.
Elas dormem como crianças,
Enquanto a alma respira e espera o porvir.
No silêncio me encontro,
E comigo entro em comunhão,
Estes versos são minha eucaristia.
Oremos.




(Felipe Leonardo)