Pobre velha casa dos meus avós...
Casa da minha infância.
Já não restam senão sombras
Do que fostes quando criança.
Já não restam senão vestígios
Do calor e afeto que tinhas.
Hoje só vejo escombros de amor
E a árvore podre que não dá mais pinhas.
Tuas risadas altas em família
Escondem-se em névoas de escuridão,
E os ecos das datas festivas
Em minha mente sempre se recordarão.
Tua alma baiana cheia de sóis.
Colorida, e cheia de vida,
Sangra e sangra até a morte.
Desejas depressa a hora da partida
Teu semblante é um olhar marejado
Como quem sabia o caminho e está perdida.
De tanta vida, já esgotada,
Apressas a despedida.
Ah, casa dos meus avós...
Tua alma é um caminhão descendo a ladeira,
Abandonado e guiado pelos instintos.
Uma lavoura que orgulho cultivou,
Colhes hoje o que outrora plantou.
[O rádio ao som de Roberto Carlos.
O sol se pondo às dezenove no verão.
O vapor a sair da cuscuzeira.
As brincadeiras de esconde-esconde.
As visitas às vizinhas.
Os desenhos na TV. Os crochês.
O balançar na rede depois da jantinha...
Quanta alegria!]
As rugas são sinônimas de vida.
Viver é sentir saudades,
E a vida é rara como um preá albino.
Maria,
Maria,
Maria...
(Felipe Leonardo)





