segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Faroeste tropical



    As memórias mais quentes que tenho em mente, dos tempos de criança pequena, eram os filmes de faroeste que meu pai e meus tios viam naquele tubo brilhante hipnotizador. Nas noites de domingo aquilo era sagrado quase como lei.  Na penumbra da sala, as sombras que as lamparinas de querosene faziam, tremulavam na parede, e o cheiro da fuligem me remetia à guerra. Cavalos, chapéus, barulhos de balas resvalando em tudo que é lado, e a luz da TV refletida nas retinas de todos atentos.
    Me chamo Pedro dos Santos e Deus quis que eu nascesse em uma país gigante pela própria natureza, assim como diz o hino. Mas às vezes não me sinto brasileiro. O país de verdade fica nos litorais e nas capitais. Lá sim é cheio de gente. Vai ver esse povo é mais esperto, como quem sabendo dos problemas que existem, prefere viver perto do mar porque é mais fácil de fugir.
    O Brasil que importa é o dos prédios altos, dos ternos e vestidos luxuosos, do egoísmo acumulado, onde o dinheiro vive. O resto é resto. Moro na terra onde a lei quem faz é quem possui mais bala na agulha. Moro no norte do Brasil, o velho oeste dos trópicos.

    Fui nascido e criado na cidade de Jirau, interior de Rondônia, pra mim o mundo sempre foi esse. Mato, calor, riachos e as conversas que ouvia de meus tios. Conversas na maioria das vezes um tanto violentas. Mas quando menino, tudo pra gente é romantizado e bonito.  
   Lembro-me quando num desses dias dezenove de abril na escola, a turma toda se mobilizou com o incentivo da diretoria para comemorar o dia do índio.  Aprendi nas festas de família e nas rodas de conversa em casa de que índio não era bem vindo. Meu tio Galdino sempre comentava com alguém quando lia os jornais:

- Esses índios são todos vagabundos. Só dançam e gritam. Ocupam terra e não deixam a gente trabalhar pra ganhar nosso pão!

    Chegando à escola, perguntei para a professora o motivo dessa celebração, se ninguém gostava de índio... Minha professora em questão naquele dia chorava enquanto nos ajudava a fazer alguns pequenos cocares em comemoração ao dia. Ela morava num lugar que naquela época nunca soube ao certo, lá depois do rio Madeira. Atravessava as águas num barco pra nos ensinar. Tinha sobrenome estranho. Aruá. Sônia Aruá.
    Ela chorava, pois dizia que seu pai havia sido assassinado na noite anterior por defender terras indígenas. Dizia isso baixinho quase como em segredo. Como se o mundo ao redor não pudesse ouvir um choro de dor. Ela desabava enquanto me ajudava a fazer os artesanatos.  Descobri naquele dia que a professora que mais gostava na escola era indígena. Se meus pais soubessem disso, arrumariam encrenca na hora. Em minha cabeça ainda jovem, tudo se embaralhou. Mas a indagação ainda pairou por muito tempo em minha mente. Por que ninguém gostava dessa gente cor de cobre e olhos puxados?

    Conforme cresci, ganhei lucidez. Com uns doze anos de idade, a ingenuidade e a doçura aos poucos foram dando lugar à nitidez de vista e a necessidade de trabalhar pra ajudar a família. Não nasci em família rica, ao contrário de meu colega na época, o Julinho. Ele era filho de um grande fazendeiro da região, muito bem falado, que comandava boa parte das terras vizinhas, e cada ano que passava, aparecia mais rico. Uma camionete nova aqui, com a fivela mais brilhante ali, com um dente de ouro aqui... Era o Seu Cristóvão, sujeito esse que futuramente iria mostrar todos seus dentes.
    Julinho em questão era todo metido. Não gostava de brincar no barro, e quando sujava, voltava pra fazenda pra mãe trocar sua camiseta. Meus pais prezavam muito pela nossa amizade, e na época descobri. Ter essa proximidade com a família mais poderosa da região era promessa de coisa boa pra nós. Mas na realidade, Julinho pra mim nem fedia nem cheirava. Brincava com ele pois calhava.
   Às tardes quando terminávamos de almoçar, saíamos pra caçar lebre. Nós mesmos fazíamos as arapucas com pedaço de madeira, restos de rede de pescador e pedrinhas. Deixávamos pronta de modo que quando viéssemos no outro dia, o bichinho já estivesse lá. Chegando à arapuca no dia seguinte de manhãzinha, ainda estava escuro na penumbra do dia. Júlio meteu a mão sem ver na sua armadilha e encontrou uma lebre grande! Quando foi minha vez, meti a mão e senti tudo mole que nem barro. Julinho ria com uma maldade estranha que eu nunca havia visto. Ele tinha colocado bosta de vaca na minha arapuca só pra me ver mal. Depois daquele dia nunca mais nos vimos. Essa gente endinheirada suporta pobre até certo ponto, porque no fundo sempre se riem de nós.
    Meu pai e tios trabalhavam pra família do pai do Julinho. O tal do seu Cristovão era o cabeça de tudo. A maneira de ganhar dinheiro honesto por essa região é escassa. Ou você cria gado, ou trabalha pra esses fazendeiros tirando frutas da época. Mas ninguém fica rico de uma hora pra outra vendendo frutinha.

    Conforme virei moço ajudava em casa e tirava meus trocados pra me divertir. Trabalhava na lavoura de seu Cristóvão três vezes por semana catando laranja começando antes de o sol sair. Iniciava às cinco horas, continuava até às treze terminando com várias caixas cheias. Eram duzentos reais. Metade dava a meu pai, a outra metade gastava no baile de fim de semana porque ninguém é de ferro.
    Foi em um desses bailes que conheci a mulher mais linda do norte. Tinha a pele dourada que quando o sol refletia, ficava a cor mais linda do mundo. Sorriso cambaleante, desses que se você olhar por muito tempo cambaleia junto, e um sotaque doce. Cabelos lisos e longos que quando balançados, subia-se um cheiro de manga verde. Um olhar fundo. Olhar que só quem possui chagas na alma tem. Era Moema Aruá.
    Quase sem perceber me envolvi e o tempo voava rápido como vento na serra. A única coisa que ainda me deixava encabulado era o fato dela ser indígena. Não sabia se confiava por completo. Nunca convivi com esse povo. Certo dia, comentei que trabalhava pra Seu Cristóvão.

- Akuanduba me deixe longe disso! – Disse Moema rápido e de uma vez, como quem tem pressa.
- Pra onde você vai? O que te disse?

   Moema virou as costas e apressou os passos rumo a sua aldeia. Eu a segui gritando seu nome. Alguns minutos caminhados por fim chegamos à pequena comunidade onde os Aruás viviam.
- Se realmente me ama quero que me escute e entenda. – Fez uma  pausa e continuou – Todos nós aqui lutamos por uma causa, a causa que vocês todos querem destruir. Se quiser estar comigo todos os dias, tem que escolher um lado.
    Naquele momento tudo veio à tona. A conversa com minha professora na infância e as lágrimas que vi naquela época, via nos olhos lacrimejados de Moema e de seus pais. Tinham todos olhos fundos como os dela. Olhar de quem possuía chagas na alma.
    Decidi ficar. Pela primeira vez meu coração decidia algo. Nunca o escutava, pois meu pai, Galdino e meus outros tios nunca ligaram pra questões íntimas. Foram dias de liberdade os que vivi.
Uma semana convivi com todos eles. Sete dias ouvi histórias, aprendi cantos, ri, dancei e amei Moema como nunca tivera amado alguém. Os donos do Brasil sabiam conviver em harmonia. Eram organizados e habilidosos. Compreensíveis e políticos. Estudiosos da vida sem nunca ter pisado em universidades. Nesses dias de auto-exílio me senti filho da terra como todos eles eram. Descobri o Brasil.
    Quando estava prestes a voltar pra casa, eu já não era mais o mesmo. Meu pai e tios seguramente estariam me caçando pela região armados até os dentes. E assim estavam. Mas não necessariamente atrás de mim.
Saindo com uma ultima excursão pela região, escutei tiros para o alto. Os Aruás ficaram todos alvoroçados. Mães chorando correndo em desespero com seus filhos no colo e os homens com olhos estatalados, como quem já está acostumado àquilo, sempre prontos pra guerra. Queria ajudá-los de alguma forma.
    Moema se aproximou de mim e me contou a história que parecia que estava tentando evitar me dizer. Me contou a história mais triste e nojenta que pude escutar. De que a família de Seu Cristóvão eram tipos de grileiros. Pessoas que se apropriam de terras ilegalmente. Colocavam fogo na região protegida por lei dos Aruás, a fim de tomarem o território, passando por cima de quem lá estivesse. Fiquei abobado e estático e só acreditei quando olhei ao longe. Vi meus tios e meu pai junto de Seu Cristóvão com seu filho Julinho. Todos juntos em comboio. Meu pai e tios na saveiro. Seu Cristóvão e filho na Toyota quatro por quatro. O mesmo sangue de pistoleiros que tinham, eu tinha. Mas minha cabeça já tinha escolhido um lado.

    Segui os camaradas indígenas. Moema veio comigo. Ela não temia bala. Paramos todos com uma distância de uns trezentos metros, encarando-se num campo afastado. Os inimigos mais antigos do Brasil. Brancos e Índios. Olhando-se como nos filmes de velho oeste, com as sobrancelhas franzidas, o silêncio amazônico e os ecos das araras. Quem olhasse de longe e me visse, pensaria que estivesse no lado errado. Mas minha alma era cor de cobre. Sempre foi.

- Aquele lá não é seu filho delicado metido a índio? – Falava seu Cristóvão provocando meu pai.
- Não esperava isso nunca de você, rapaz! Nunca mais apareça em minha casa. – Respondeu irreconhecivelmente meu pai.

   Quando eu pensei que o circo já estava pronto, surge uma ventania forte que balançava que nem chicote a copa das araucárias. Era um helicóptero que pousava ligeiro. Surgiu no meio de nós. Descia dele um caboclo que já havia visto na TV. Todo pomposo de camisa social no meio da Amazônia. Era o Prefeito da cidade. Estava montada a gangue dos pistoleiros dos trópicos.

- Vocês já atrapalharam nossa vida demais. Tentamos levar na conversa, mas vocês não colaboram.  – Dizia o prefeito.
Moema levantou a voz:
- Saiam vocês daqui. Que essa terra é abençoada e só sairemos mortos.

    Todos do lado de lá carregaram suas espingardas e rifles e apontaram pra nós. Os índios atiravam pedras e alguns com arco e flechas grandes, tentavam a sorte. Moema tinha um revolver escondido, sacou e o apontou. Num milésimo de segundo ouviu-se um tiro. A correria e a poeira vermelha subiram e um corpo caiu ao chão. Entre gritarias e estalos vi o sorriso mais cambaleante do mundo deitado, com os olhos fundos me olhando. Sua pele na guerra brilhava ainda mais bonita. O mundo parou naquele momento. Arrastei Moema para trás das árvores e escutei suas últimas palavras.

- Morro feliz, Pedro. Morri lutando.
E se foi com um sorriso que nunca esquecerei.

    Os Aruás perderam aquela batalha e muitos amigos indígenas faleceram. Perdemos um bocado de terra, mas a esperança nunca. Enquanto as leis neste ponto do Brasil forem feitas à bala, resistiremos. - Este solo é sagrado e quem o amaldiçoa, está condenado. - Os Aruás dizem.
Ainda estamos de pé.






(Felipe Leonardo)




segunda-feira, 5 de agosto de 2019

O menino dos versos cantados





   O sol nem dá as caras no horizonte, quando Romário Silas se levanta pra lavar o rosto.
Seu pai, que era fanático da seleção brasileira, se empolgou com o título mundial de noventa e quatro e batizou o menino com o nome do jogador. Quando era criança, Romário esperava o galo cantar, mas o tempo lhe deu prática e hoje ele acorda antes do bicho. Bota a água do café pra ferver e liga seu aplicativo na playlist que mais gosta. A que toca versos cantados e toadas de gado. O galo que antes dormia, agora acorda com o barulho da chaleira, que canta e assobia junto com o bicho.
     Romário veio para o interior de Goiás com seus irmãos e pais há uns trinta anos, fugidos com mala e cuia de matadores que confundiram seu pai com um devedor procurado. Encasquetaram que ele era o cabra. Sua família caminhou um bocado e com a ajuda de caronas, saíram da cidade de São Desidério, e se instauraram na cidade de Vão das Almas por puro acaso, pois em uma dessas paradas pra descansar, seu pai reencontrou um amigo antigo que lhe ofereceu casa em troca de trabalho.
     Esse amigo de seus pais era Seu Aloísio. Camarada esperto, ligeiro, galante. Pensava rápido e em qualquer roda de conversa, sempre chamava atenção pelo seu jeito carismático. Romário ao longo dos anos pegou grande apego a ele. Quando tinha dez anos adorava acordar cedo pra vê-lo tocar o gado com aqueles gritos longos e ecoantes. O som hipnotizava o rapazinho que até então, só o observava com encantamento. Nas festas de família, Seu Aloísio também cantava em versos. Emendava cantorias onde as palavras terminavam sempre iguais e se encaixavam na fala direitinho, como se já nascessem prontas antes mesmo do cabra falar.  As palavras cantadas hipnotizavam dessa vez as pessoas, que paravam e olhavam o homem com sorrisos largos e batendo palmas. Romário queria ser um mago das palavras como ele!

- Essas palavras não são minhas, Romário! Eu aprendi com uns cordéis que tenho guardado lá em casa. Um dia lhe levo lá procê ver! – Dizia Aloísio

    Era a primeira vez que o menino ouvia a palavra Cordel.  A palavra tinha o som do nome do carro de um conhecido. Mas logo viu que estava fazendo confusão e que cordel não era corcel.
    Escreveu o nome num caderninho que ganhou da escola. Guardou a palavra na mente como a mais preferida.
Os dias passavam e Romário não largava Seu Aloísio de jeito nenhum. Foi sugando e aprendendo tudo o que podia com o homem. Já era quase um segundo pai.

    Certo dia num fim de tarde, quando o sol se alaranja e o cheiro da noite já se sente de longe, Aloísio chamou Romário a sua casa, revirou alguns papéis na estante e apresentou o cordel ao menino. Não acreditava que tanta genialidade e boniteza no som, pudesse caber naquele tantinho de papel dobrado com umas gravuras. Quando Aloísio começou a ler, a mágica se formou:


"Sou sertanejo da terra,
Raiz de sangue quente
Dos sotaques, variedades,
Que rasga coco no dente
Lugar de gente fiel
Cabra sincero no cordel
Põe no papel tudo que sente.
Eeeeeah"


    Romário percebeu que seu amigo não lia de maneira tradicional. Não lia como a professora fazia nas aulas de leitura, ou quando sua mãe lia os salmos da bíblia antes de dormir, com as palavras todas no mesmo tom. Seu Aloísio transformava os versos em cantoria, como se cada rima dita no tom certo, pudesse dar ao menino a força do mundo inteiro. Poderia trabalhar o dia todo na capina sob sol quente escutando aquilo. O sorriso era instantâneo. Cada rima lhe fazia cócegas na alma.
    Romário foi crescendo e começou a se atrever a escrever. Aos poucos seus primeiros versos foram saindo, e a felicidade quando os próprios cordéis iam nascendo era tamanha, como se ele próprio tivesse dado à luz um ser vivo.
    Seu Aloísio lia os versos que seu pupilo escrevia e sentia um orgulho gigante. Foi dele a ideia de fazer o menino gravar vídeos e postar nas redes sociais, pra divulgar a arte do rapazinho:

- Você filme essas toadas e coloque na internet, fio. Pro povo de longe poder acompanhar essa belezura de cantoria sua!
- Um dia ainda gravo numa produtora! – Dizia o rapazinho empolgado.

    Numa segunda feira cinzenta, dessas atípicas do sertão, Romário ouviu o acauã cantar perto de casa.  Gente mais antiga e sabida nota que quando esse passarinho canta, é mau agouro ou morte vindo na certa. Na rua se estava ouvindo um burburinho. Uma multidão cercava algo que impedia quem estivesse atrás de ver. Era Seu Aloísio caído ao chão, já sem vida. Um boi o atropelou sem que ele visse e cortou um ciclo de aprendizado e alegria junto do rapaz. Romário ficou desolado.
Pensou naquele momento que nada faria mais sentido. Pensou que nunca mais poderia cantar ou escrever, pois não sentia mais vontade. os dias se passaram e seus poróprios pais perceberam a moleza do filho, não sabiam mais por onde ajudar.
  Um mês depois, o rapaz teve um sonho. Viu Aloísio em cima de um boi ao longe, cantando do jeito que só ele cantava. Sentiu uma paz no espírito, como se a partir daquele momento, seu amigo estivesse pra sempre do seu lado. Acordou sorridente e com uma ansiedade boa no peito. Certamente, Aloísio gostaria de escutar versos novos, onde quer que ele estivesse!
    Anos se passaram e Romário recebe um telefonema. Era de um produtor de Goiânia com o interesse de conhecer o rapaz e gravar suas toadas e versos cantados.
Pediu uns trocados emprestado ao pai e partiu com o foco em seu sonho e muito frio na barriga.
Enquanto gravava na sala com o produtor, a imagem de Aloísio lhe aparecia a cada minuto. Como um anjo da guarda que acompanha seu pupilo em todos os lugares.

- Parabéns rapaz! A cultura popular ainda existe! – Dizia o produtor, nostálgico, ao ouvir os versos.
   Por fim, Romário conseguiu o tão almejado contrato e seus versos cantados foram lançados em aplicativos de música. Seu pai não entendeu nada, pensou que viria com CD na mão. Não compreendia os novos tempos!
    Romário acorda pelas manhãs e liga todos os dias a playlist que ele próprio compôs. A chaleira da água pro café canta junto com o galo diariamente, enquanto um quadro com a foto de Aloísio lhe olha sempre sorridente.






(Felipe Leonardo)