As memórias mais quentes que tenho em mente, dos
tempos de criança pequena, eram os filmes de faroeste que meu pai e meus
tios viam naquele tubo brilhante hipnotizador. Nas noites de domingo aquilo era
sagrado quase como lei. Na penumbra da
sala, as sombras que as lamparinas de querosene faziam, tremulavam na parede, e
o cheiro da fuligem me remetia à guerra. Cavalos, chapéus, barulhos de balas resvalando
em tudo que é lado, e a luz da TV refletida nas retinas de todos atentos.
Me chamo Pedro
dos Santos e Deus quis que eu nascesse em uma país gigante pela própria
natureza, assim como diz o hino. Mas às vezes não me sinto brasileiro. O país
de verdade fica nos litorais e nas capitais. Lá sim é cheio de gente. Vai ver esse
povo é mais esperto, como quem sabendo dos problemas que existem, prefere viver
perto do mar porque é mais fácil de fugir.
O Brasil que importa é o dos prédios altos, dos
ternos e vestidos luxuosos, do egoísmo acumulado, onde o dinheiro vive. O resto
é resto. Moro na terra onde a lei quem faz é quem possui mais bala na agulha.
Moro no norte do Brasil, o velho oeste dos trópicos.
Fui nascido e criado na cidade de Jirau, interior
de Rondônia, pra mim o mundo sempre foi esse. Mato, calor, riachos e as
conversas que ouvia de meus tios. Conversas na maioria das vezes um tanto
violentas. Mas quando menino, tudo pra gente é romantizado e bonito.
Lembro-me
quando num desses dias dezenove de abril na escola, a turma toda se mobilizou
com o incentivo da diretoria para comemorar o dia do índio. Aprendi nas festas de família e nas rodas de
conversa em casa de que índio não era bem vindo. Meu tio Galdino sempre
comentava com alguém quando lia os jornais:
- Esses índios são todos vagabundos. Só dançam e
gritam. Ocupam terra e não deixam a gente trabalhar pra ganhar nosso pão!
Chegando à escola, perguntei para a professora o
motivo dessa celebração, se ninguém gostava de índio... Minha professora em
questão naquele dia chorava enquanto nos ajudava a fazer alguns pequenos
cocares em comemoração ao dia. Ela morava num lugar que naquela época nunca
soube ao certo, lá depois do rio Madeira. Atravessava as águas num barco pra
nos ensinar. Tinha sobrenome estranho. Aruá. Sônia Aruá.
Ela
chorava, pois dizia que seu pai havia sido assassinado na noite anterior por
defender terras indígenas. Dizia isso baixinho quase como em segredo. Como se o
mundo ao redor não pudesse ouvir um choro de dor. Ela desabava enquanto me ajudava
a fazer os artesanatos. Descobri naquele
dia que a professora que mais gostava na escola era indígena. Se meus pais
soubessem disso, arrumariam encrenca na hora. Em minha cabeça ainda jovem, tudo
se embaralhou. Mas a indagação ainda pairou por muito tempo em minha mente. Por
que ninguém gostava dessa gente cor de cobre e olhos puxados?
Conforme cresci, ganhei lucidez. Com uns doze anos
de idade, a ingenuidade e a doçura aos poucos foram dando lugar à nitidez de
vista e a necessidade de trabalhar pra ajudar a família. Não nasci em família
rica, ao contrário de meu colega na época, o Julinho. Ele era filho de um
grande fazendeiro da região, muito bem falado, que comandava boa parte das
terras vizinhas, e cada ano que passava, aparecia mais rico. Uma camionete nova
aqui, com a fivela mais brilhante ali, com um dente de ouro aqui... Era o Seu Cristóvão,
sujeito esse que futuramente iria mostrar todos seus dentes.
Julinho em questão era todo metido. Não gostava de
brincar no barro, e quando sujava, voltava pra fazenda pra mãe trocar sua
camiseta. Meus pais prezavam muito pela nossa amizade, e na época descobri. Ter
essa proximidade com a família mais poderosa da região era promessa de coisa
boa pra nós. Mas na realidade, Julinho pra mim nem fedia nem cheirava. Brincava
com ele pois calhava.
Às tardes
quando terminávamos de almoçar, saíamos pra caçar lebre. Nós mesmos fazíamos as
arapucas com pedaço de madeira, restos de rede de pescador e pedrinhas.
Deixávamos pronta de modo que quando viéssemos no outro dia, o bichinho já
estivesse lá. Chegando à arapuca no dia seguinte de manhãzinha, ainda estava escuro
na penumbra do dia. Júlio meteu a mão sem ver na sua armadilha e encontrou uma
lebre grande! Quando foi minha vez, meti a mão e senti tudo mole que nem barro.
Julinho ria com uma maldade estranha que eu nunca havia visto. Ele tinha
colocado bosta de vaca na minha arapuca só pra me ver mal. Depois daquele dia
nunca mais nos vimos. Essa gente endinheirada suporta pobre até certo ponto,
porque no fundo sempre se riem de nós.
Meu pai e
tios trabalhavam pra família do pai do Julinho. O tal do seu Cristovão era o
cabeça de tudo. A maneira de ganhar dinheiro honesto por essa região é escassa.
Ou você cria gado, ou trabalha pra esses fazendeiros tirando frutas da época.
Mas ninguém fica rico de uma hora pra outra vendendo frutinha.
Conforme
virei moço ajudava em casa e tirava meus trocados pra me divertir. Trabalhava
na lavoura de seu Cristóvão três vezes por semana catando laranja começando antes
de o sol sair. Iniciava às cinco horas, continuava até às treze terminando com várias
caixas cheias. Eram duzentos reais. Metade dava a meu pai, a outra metade
gastava no baile de fim de semana porque ninguém é de ferro.
Foi em um desses bailes que conheci a mulher mais
linda do norte. Tinha a pele dourada que quando o sol refletia, ficava a cor
mais linda do mundo. Sorriso cambaleante, desses que se você olhar por muito
tempo cambaleia junto, e um sotaque doce. Cabelos lisos e longos que quando balançados,
subia-se um cheiro de manga verde. Um olhar fundo. Olhar que só quem possui
chagas na alma tem. Era Moema Aruá.
Quase sem perceber me envolvi e o tempo voava
rápido como vento na serra. A única coisa que ainda me deixava encabulado era o
fato dela ser indígena. Não sabia se confiava por completo. Nunca convivi com
esse povo. Certo dia, comentei que trabalhava pra Seu Cristóvão.
- Akuanduba me deixe longe disso! – Disse Moema
rápido e de uma vez, como quem tem pressa.
- Pra onde você vai? O que te disse?
Moema
virou as costas e apressou os passos rumo a sua aldeia. Eu a segui gritando seu
nome. Alguns minutos caminhados por fim chegamos à pequena comunidade onde os
Aruás viviam.
- Se realmente me ama quero que me escute e entenda.
– Fez uma pausa e continuou – Todos nós aqui lutamos por uma causa, a
causa que vocês todos querem destruir. Se quiser estar comigo todos os dias,
tem que escolher um lado.
Naquele
momento tudo veio à tona. A conversa com minha professora na infância e as
lágrimas que vi naquela época, via nos olhos lacrimejados de Moema e de seus
pais. Tinham todos olhos fundos como os dela. Olhar de quem possuía chagas na
alma.
Decidi ficar. Pela primeira vez meu coração decidia
algo. Nunca o escutava, pois meu pai, Galdino e meus outros tios nunca ligaram pra
questões íntimas. Foram dias de liberdade os que vivi.
Uma semana convivi com todos eles. Sete dias ouvi histórias,
aprendi cantos, ri, dancei e amei Moema como nunca tivera amado alguém. Os
donos do Brasil sabiam conviver em harmonia. Eram organizados e habilidosos.
Compreensíveis e políticos. Estudiosos da vida sem nunca ter pisado em
universidades. Nesses dias de auto-exílio me senti filho da terra como todos
eles eram. Descobri o Brasil.
Quando estava prestes a voltar pra casa, eu já não
era mais o mesmo. Meu pai e tios seguramente estariam me caçando pela região
armados até os dentes. E assim estavam. Mas não necessariamente atrás de mim.
Saindo com uma ultima excursão pela região, escutei
tiros para o alto. Os Aruás ficaram todos alvoroçados. Mães chorando correndo
em desespero com seus filhos no colo e os homens com olhos estatalados, como
quem já está acostumado àquilo, sempre prontos pra guerra. Queria ajudá-los de
alguma forma.
Moema se aproximou de mim e me contou a história
que parecia que estava tentando evitar me dizer. Me contou a história mais
triste e nojenta que pude escutar. De que a família de Seu Cristóvão eram tipos
de grileiros. Pessoas que se apropriam de terras ilegalmente. Colocavam fogo na
região protegida por lei dos Aruás, a fim de tomarem o território, passando por
cima de quem lá estivesse. Fiquei abobado e estático e só acreditei quando
olhei ao longe. Vi meus tios e meu pai junto de Seu Cristóvão com seu filho
Julinho. Todos juntos em comboio. Meu pai e tios na saveiro. Seu Cristóvão e
filho na Toyota quatro por quatro. O mesmo sangue de pistoleiros que tinham, eu
tinha. Mas minha cabeça já tinha escolhido um lado.
Segui os camaradas indígenas. Moema veio comigo.
Ela não temia bala. Paramos todos com uma distância de uns trezentos metros,
encarando-se num campo afastado. Os inimigos mais antigos do Brasil. Brancos e Índios.
Olhando-se como nos filmes de velho oeste, com as sobrancelhas franzidas, o
silêncio amazônico e os ecos das araras. Quem olhasse de longe e me visse,
pensaria que estivesse no lado errado. Mas minha alma era cor de cobre. Sempre
foi.
- Aquele lá não é seu filho delicado metido a índio?
– Falava seu Cristóvão provocando meu pai.
- Não esperava isso nunca de você, rapaz! Nunca
mais apareça em minha casa. – Respondeu irreconhecivelmente meu pai.
Quando eu pensei que o circo já estava pronto,
surge uma ventania forte que balançava que nem chicote a copa das araucárias.
Era um helicóptero que pousava ligeiro. Surgiu no meio de nós. Descia dele um
caboclo que já havia visto na TV. Todo pomposo de camisa social no meio da Amazônia.
Era o Prefeito da cidade. Estava montada a gangue dos pistoleiros dos trópicos.
- Vocês já atrapalharam nossa vida demais. Tentamos
levar na conversa, mas vocês não colaboram.
– Dizia o prefeito.
Moema levantou a voz:
- Saiam vocês daqui. Que essa terra é abençoada e
só sairemos mortos.
Todos do lado de lá carregaram suas espingardas e
rifles e apontaram pra nós. Os índios atiravam pedras e alguns com arco e
flechas grandes, tentavam a sorte. Moema tinha um revolver escondido, sacou e o
apontou. Num milésimo de segundo ouviu-se um tiro. A correria e a poeira
vermelha subiram e um corpo caiu ao chão. Entre gritarias e estalos vi o
sorriso mais cambaleante do mundo deitado, com os olhos fundos me olhando. Sua
pele na guerra brilhava ainda mais bonita. O mundo parou naquele momento.
Arrastei Moema para trás das árvores e escutei suas últimas palavras.
- Morro feliz, Pedro. Morri lutando.
E se foi com um sorriso que nunca esquecerei.
Os Aruás perderam aquela batalha e muitos amigos indígenas
faleceram. Perdemos um bocado de terra, mas a esperança nunca. Enquanto as leis
neste ponto do Brasil forem feitas à bala, resistiremos. - Este solo é sagrado
e quem o amaldiçoa, está condenado. - Os Aruás dizem.
Ainda estamos de pé.
(Felipe Leonardo)

