O sol nem dá as caras no horizonte, quando Romário
Silas se levanta pra lavar o rosto.
Seu pai, que era fanático da seleção brasileira, se
empolgou com o título mundial de noventa e quatro e batizou o menino com o nome do jogador. Quando
era criança, Romário esperava o galo cantar, mas o tempo lhe deu prática e hoje
ele acorda antes do bicho. Bota a água do café pra ferver e liga seu aplicativo
na playlist que mais gosta. A que toca versos cantados e toadas de gado. O galo
que antes dormia, agora acorda com o barulho da chaleira, que canta e assobia
junto com o bicho.
Romário
veio para o interior de Goiás com seus irmãos e pais há uns trinta anos,
fugidos com mala e cuia de matadores que confundiram seu pai com um devedor
procurado. Encasquetaram que ele era o cabra. Sua família caminhou um
bocado e com a ajuda de caronas, saíram da cidade de São Desidério, e se
instauraram na cidade de Vão das Almas por puro acaso, pois em uma dessas
paradas pra descansar, seu pai reencontrou um amigo antigo que lhe ofereceu
casa em troca de trabalho.
Esse
amigo de seus pais era Seu Aloísio. Camarada esperto, ligeiro, galante. Pensava
rápido e em qualquer roda de conversa, sempre chamava atenção pelo seu jeito
carismático. Romário ao longo dos anos pegou grande apego a ele. Quando tinha dez anos adorava acordar cedo pra vê-lo tocar o gado com aqueles gritos longos e
ecoantes. O som hipnotizava o rapazinho que até então, só o observava com
encantamento. Nas festas de família, Seu Aloísio também cantava em versos. Emendava
cantorias onde as palavras terminavam sempre iguais e se encaixavam na fala
direitinho, como se já nascessem prontas antes mesmo do cabra falar. As palavras cantadas hipnotizavam dessa vez
as pessoas, que paravam e olhavam o homem com sorrisos largos e batendo palmas.
Romário queria ser um mago das palavras como ele!
- Essas palavras não são minhas, Romário! Eu
aprendi com uns cordéis que tenho guardado lá em casa. Um dia lhe levo lá procê
ver! – Dizia Aloísio
Era a
primeira vez que o menino ouvia a palavra Cordel. A palavra tinha o som do nome do carro de um
conhecido. Mas logo viu que estava fazendo confusão e que cordel não era
corcel.
Escreveu
o nome num caderninho que ganhou da escola. Guardou a palavra na mente como a
mais preferida.
Os dias passavam e Romário não largava Seu Aloísio de
jeito nenhum. Foi sugando e aprendendo tudo o que podia com o homem. Já era
quase um segundo pai.
Certo dia
num fim de tarde, quando o sol se alaranja e o cheiro da noite já se sente de
longe, Aloísio chamou Romário a sua casa, revirou alguns papéis na estante e
apresentou o cordel ao menino. Não acreditava que tanta genialidade e boniteza
no som, pudesse caber naquele tantinho de papel dobrado com umas gravuras.
Quando Aloísio começou a ler, a mágica se formou:
"Sou sertanejo
da terra,
Raiz
de sangue quente
Dos
sotaques, variedades,
Que rasga
coco no dente
Lugar
de gente fiel
Cabra
sincero no cordel
Põe no
papel tudo que sente.
Eeeeeah"
Romário
percebeu que seu amigo não lia de maneira tradicional. Não lia como a
professora fazia nas aulas de leitura, ou quando sua mãe lia os salmos da
bíblia antes de dormir, com as palavras todas no mesmo tom. Seu Aloísio
transformava os versos em cantoria, como se cada rima dita no tom certo,
pudesse dar ao menino a força do mundo inteiro. Poderia trabalhar o dia todo na
capina sob sol quente escutando aquilo. O sorriso era instantâneo. Cada rima
lhe fazia cócegas na alma.
Romário
foi crescendo e começou a se atrever a escrever. Aos poucos seus primeiros
versos foram saindo, e a felicidade quando os próprios cordéis iam nascendo era
tamanha, como se ele próprio tivesse dado à luz um ser vivo.
Seu
Aloísio lia os versos que seu pupilo escrevia e sentia um orgulho gigante. Foi
dele a ideia de fazer o menino gravar vídeos e postar nas redes sociais, pra
divulgar a arte do rapazinho:
- Você filme essas toadas e coloque na internet,
fio. Pro povo de longe poder acompanhar essa belezura de cantoria sua!
- Um dia ainda gravo numa produtora! – Dizia o
rapazinho empolgado.
Numa
segunda feira cinzenta, dessas atípicas do sertão, Romário ouviu o acauã cantar
perto de casa. Gente mais antiga e
sabida nota que quando esse passarinho canta, é mau agouro ou morte vindo na
certa. Na rua se estava ouvindo um burburinho. Uma multidão cercava algo que
impedia quem estivesse atrás de ver. Era Seu Aloísio caído ao chão, já sem vida.
Um boi o atropelou sem que ele visse e cortou um ciclo de aprendizado e alegria
junto do rapaz. Romário ficou desolado.
Pensou naquele momento que nada faria mais sentido. Pensou que nunca mais poderia cantar ou escrever, pois não sentia mais vontade. os dias se passaram e seus poróprios pais perceberam a moleza do filho, não sabiam mais por onde ajudar.
Um mês depois, o rapaz teve um sonho. Viu Aloísio em cima de um boi ao longe, cantando do jeito que só ele cantava. Sentiu uma paz no espírito, como se a partir daquele momento, seu amigo estivesse pra sempre do seu lado. Acordou sorridente e com uma ansiedade boa no peito. Certamente, Aloísio gostaria de escutar versos novos, onde quer que ele estivesse!
Pensou naquele momento que nada faria mais sentido. Pensou que nunca mais poderia cantar ou escrever, pois não sentia mais vontade. os dias se passaram e seus poróprios pais perceberam a moleza do filho, não sabiam mais por onde ajudar.
Um mês depois, o rapaz teve um sonho. Viu Aloísio em cima de um boi ao longe, cantando do jeito que só ele cantava. Sentiu uma paz no espírito, como se a partir daquele momento, seu amigo estivesse pra sempre do seu lado. Acordou sorridente e com uma ansiedade boa no peito. Certamente, Aloísio gostaria de escutar versos novos, onde quer que ele estivesse!
Anos se
passaram e Romário recebe um telefonema. Era de um produtor de Goiânia com o
interesse de conhecer o rapaz e gravar suas toadas e versos cantados.
Pediu uns trocados emprestado ao pai e partiu com o
foco em seu sonho e muito frio na barriga.
Enquanto gravava na sala com o produtor, a imagem
de Aloísio lhe aparecia a cada minuto. Como um anjo da guarda que acompanha seu
pupilo em todos os lugares.
- Parabéns rapaz! A cultura popular ainda existe! –
Dizia o produtor, nostálgico, ao ouvir os versos.
Por fim, Romário conseguiu o tão almejado contrato
e seus versos cantados foram lançados em aplicativos de música. Seu pai não
entendeu nada, pensou que viria com CD na mão. Não compreendia os novos tempos!
Romário acorda pelas manhãs e liga todos os dias a playlist que ele próprio compôs. A
chaleira da água pro café canta junto com o galo diariamente, enquanto um quadro
com a foto de Aloísio lhe olha sempre sorridente.
(Felipe Leonardo)

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