segunda-feira, 22 de maio de 2017

Criança Engomada

Era mais um dia ali
Da rotina de trabalho,
Bem como todos os dias,
Sentia-me já sufocado
- Emocionalmente não –
Sufocado pelos trajes.

Estava de social,
Movimentos limitados,
Com os sapatos bem largos
E falsa cara de sério.
Um exército de engomados
A honrar o falso império

Ai, que saudades da infância...
Era linda a ingenuidade,
Quando brincar até tarde
Já era sinal de atenção.
E ao sair para o colégio,
À mãe pedíamos benção.

Eu sou criança engomada,
Com a ingenuidade de antes,
Uma alma antiga errante,
A rir de todos na estrada.
Minha criança não morre,
Nesta dura caminhada!



Felipe Leonardo

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Soneto dos Sete Meses

Princesa angelical de áurea calma
Enfeitiça-me a pele escura,
Tens tu tropical formosura
A esbanjar suas cores da alma.

Sete estrofes já foram vividas,
Explorando contigo a cidade,
Tenho sempre a mesma saudade,
Em ti descubro o charme da vida.

Meu bem, minha mão quero que segure,
Enquanto as balança quero que jure,
Sentimento em nós não há de faltar.



Felipe Leonardo

Minha casa



Aqui da minha janela
Debruçado a olhar o mundo,
Ouço um som separado.
Há bem-te-vis em meu telhado,
E os que aqui cantam alegres,
Longe daqui não cantam igual,
Pois aqui têm um cantar inspirado!

Aqui da minha janela,
O mundo parece o caos,
Sou expectador longínquo
Da humanidade vil e banal,
Que parecem mais irracionais,
Que qualquer animal.

Minha casa é a fortaleza,
Onde mora a calmaria,
Uma bolha de silêncio,
Uma senhora Poetiza,
Onde ninguém sujo pisa.



Felipe Leonardo

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Moça

Disseste-me:
- Essa moça é linda!
O que é linda?

Disseste-me que são os cabelos lisos,
A escorrer pela magra nuca,
Ou as finas pernas de pinça,
Tal qual a da saracura.

Disseste-me que é a pele clara,
Branca como o leite,
Ou os finos lábios,
Que para ti é um deleite.

E a moça atrás do balcão
Da cor da noite e cabelos em caracol,
Teria ela a mesma beleza,
Da moça da cor do sol?

Por quê, esta segunda mencionada
Tratas com devido desprezo,
E a primeira devidamente citada,
Mencionas com êxito?

Moça, saia desse balcão,
Não escute estes rapazes,
Beba a cerveja que trazes,
Senta-te ao sofá... Largue mão.
Que tu só por ser mulher,
És linda por presunção. 



Felipe Leonardo

domingo, 7 de maio de 2017

Amigos





Pessoas afins me seguem,
Nunca estou aqui sozinho,
Ao longo da caminhada,
Eis minh’alma de menino.

O que penso sempre atraio,
Amigos bons e banais,
Pedem ajuda a ajudá-los,
Por vezes largam-me atrás...

Os que são mais influentes,
São os que não posso tocar,
Sempre estão aqui comigo,
A pesar e iluminar.

Desses os que mais me apego,
São os que comigo se riem,
Cuidam. Carregam-me ao colo.
Os que o tédio me abreviem.

Dançam, escrevem e pensam.
Dançam este som que escuto,
Auxiliam-me a escrever,
Pensam que não sou astuto.

Da rotina participam
Onipresentes em mim
Amo-os e os quero bem perto,
Como o soar de um clarim.

Com o mover das cortinas
O ingênuo vento as balança,
És tu, minha linda amiga!
Cecília. A amiga criança.



Felipe Leonardo

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Décimas al Río / O abandono do rio (Alejo Garcia) - Tradução




Segue o rio envenenado,
Sem alento pelo mundo
Com seu canto bem profundo
Mas não parece revoltado.
Os xamãs lhe têm rezado,
Para curá-lo tantas vezes,
Tantas mortes. Não mereces...
Ah! Tu sabias, triste rio,
Beberam-te. Roubaram-te o brio,
E seu choro me estremece.

Anda o rio entristecido,
Perguntando pelos mares,
Conhecia seus cantares,
E agora seco está perdido.
Recorda-se já crescido,
Com sua água compassada,
Serpenteando, Delgada.
Dando vida sem fronteiras,
Mais além de suas beiras,
Está sua amante salgada.

Segue o rio já sem toada,
Com suas águas já detidas,
Silenciosa despedida,
Não poderá ver sua amada.
Suas margens desoladas,
Sem as árvores de outrora,
Já não há relvas redentoras
Nem a onça com sua bravia,
Nem os pássaros vigias,
Nem as correntes canoas.



 Tradução de Felipe Leonardo