- Égua! Quero que eu fique cego, mas não abençoo essa
união mundana de vocês!
Assim esbravejou Coronel Pedro
Jansen ao ouvir sua filha Luzia dizer de pé junto que se casaria de
qualquer maneira, mesmo sem sua aprovação. Mas este fio da meada retomaremos ao
fim. Comecemos do começo.
Pedro Jansen era sujeito firme
e sistemático, aposentado do 7º batalhão de infantaria do exército no
Pará, e de sangue azul holandês. Sobrenome veio junto com os piratas
na época de colonização – essa parte não gosta de
lembrar. Era desses que tem a sobrancelha junta, a testa curta e uns
olhos fundos que já viram mais sangue que muito açougueiro.
No entanto, a aposentadoria
lhe sossegou os fachos. As carabinas ficavam agora somente expostas na parede,
ameaçando, irônicas, o sujeito homem que cortejasse Luzia, a caçula. Mas desde
então, Coronel Pedro Jansen acalmara o “coração” com a chegada do
primeiro neto que sua filha mais velha trazia no ventre.
- Essa menina honra o sangue
que carrega!
Os elogios e adjetivos
ensolarados eram, como se vê, para a filha que já estava com a vida
alinhada, segundo o pai.
Alinhado é palavra
que varia dependendo da mente de quem diz. Alinhado para
costureira é tecido justo. Para Luzia era uma vida com o coração
limpo. Para o Coronel, alinhado era estar casado e não ter as “frescuras
dos dias atuais”.
Luzia era moça serena. Tinha
amigo homem de tudo quanto é jeito. Dizia que homem tinha amizade
mais sincera. Era de personalidade e de ideias visionárias, mas calada. Devido
aos conflitos em casa, foi buscar ar puro fora do pseudo-lar.
Certa noite, em uma conversa
com os rapazes, comentou-se de um certo cabaré que abriria na região.
Conversas chamadas – masculinas – eram as únicas em
que Luzia era educadamente excluída da roda dos amigos. Num sábado de feriado,
visitou o local por curiosidade-rebeldia.
Esperou o breu se instaurar e a lua sair e saiu junto
com ela. Vestiu-se com um sobretudo a fim de se disfarçar, mas não lembrava que
o calor Paraense castigasse tanto mesmo sem sol. Ao entrar, logo se notou o
clima de festa. Desconhecia tudo. Olhava com olhos de criança curiosa os
rapazes, bebidas, o brega, e principalmente as mulheres, aparentemente felizes,
seminuas cheirando a cerveja.
- Ajudo em algo, meu bem?
A voz que Luzia ouvia vinha de
sua nuca. Voz doce como aquelas que escutava das moças no rádio de manhãzinha.
Na penumbra quando virou-se, uma boca morena e uns olhos grandes escuros que
nem cabra curiosa, lhe observavam.
Luzia apaixonou-se de certo.
Ficara estática e não pudera fazer nada quando a moça lhe pegou pelas mãos e a
levou ao quarto. Chamava-se Angelina.
- Mão macia o senhor tem, seu
moço! – Rindo-se
Chegando ao quarto, Luzia
despiu-se do sobretudo. Pela primeira vez as duas se enfrentavam no olhar.
Ambas espantadas, como duas almas que se cumprimentam nuas com os olhos.
Analisaram-se por mais de um minuto caladas. Dialogaram em beijos inconscientes.
Angelina era filha de boto e
criada só pela mãe que falecera quando moça. Era jovem de tudo, mas conhecia
homem como ninguém. Homem é bicho liso e tem as vistas ocas. O paraíso que
Luzia lhe oferecia, não encontrou nos olhos de homem nenhum. Ao longo de três meses,
as duas se encontravam às escondidas todos os sábados e criavam raiz. Um
pacto íntimo inconsciente, entretidas sob o luar. Ao quarto mês, ambas tomaram
uma decisão.
Conversar com Coronel Pedro
Jansen seria rápido. Já entenderiam a negativa do diálogo. Era avisar e
fugir.
- Papai, esta é Angelina, minha mulher. Com
ela me caso. Mudo-me hoje mesmo para Belém! – Disse a moça antes
mesmo do almoço no domingo.
Estavam presentes a filha mais
velha do coronel junto com seu marido pomposo. Riram-se irônicos, de canto de
boca. Luzia como num ato de impulso jogou o café quente recém preparado no
colo dos dois, com a calma de quem joga o primeiro gole de pinga ao santo.
- Égua! Quero que fique
cego, mas não abençoo essa união mundana de vocês! – Esbravejou o
Coronel.
- Me apaixonei pelos olhos dela, meu pai.
O que tinha entre as pernas de Angelina descobri depois, mas era tarde. Já
tinha os quatro pneus arreados por ela. A alma não tem sexo, e caso-me com ela
sim!
Na mesma noite, as duas
já com suas malas prontas e a passagem comprada, fugiram para a capital.
Partiram como quem busca a felicidade alinhada. Uma semana depois da fuga,
Coronel Pedro Jansen adoeceu de conjuntivite e cegou. Ou quem sabe já era
cego de nascença.
(Felipe Leonardo)







