Foi como
acordar de um longo sonho. Desses que não nos lembramos como são...
Como haverei de explicar-lhes, senhores?
Despertei-me em um pesadelo, como se viesse
de tobogã junto
com a água
lodosa que me acompanhava. Um frio na barriga e um suspiro me vieram de
imediato, como quem dorme e lhe é jogado um balde gelado na cara.
O breu que trazia em vida, se estendeu ao pesadelo.
-
Enlouqueci, seguramente!
Sentia frio, fome e um estranho gosto de
remédio
amargo na garganta que me corroia o estômago simultaneamente... Sim!
Recordo-me!
Havia tomado o tal remédio
mortal, desses que os ratos tomam com o fim de me abreviar o pesadelo e o choro
infinito que vivia. Estava na lama junto com os ratos. Faziam companhia a mim deste lado.
Minhas últimas recordações eram
vazias. Fui professor de filosofia. Cético e solitário. Nunca me apaixonei por mulher ou homem
nenhum. Esses poetas românticos sempre me deram sono. Escrevi como muitos intelectuais fazem. Embora
nunca tenha gostado de minhas obras, estas me tiravam momentaneamente a ideia de ir
morar com os ratos do lado de cá. A filosofia que tantas alegrias me deu me
encurralou em seus labirintos da razão e me fez desistir da vida.
Que tipo de filosofia explica este sobrenatural?
A metafísica de
Kant me deixou com as calças na mão nessas horas! Minha razão e orgulho esbarraram em terras
lamacentas e ratos cobertos de musgos verdes. Depois de algumas semanas preso
nessa angústia repetitiva, tive a certeza de que havia morrido.
A morte nos acompanha a cada suspiro que
damos em vida. Ela nos espreita como aquele primo brincalhão que
nos espera atrás da porta, prestes a dar-nos o susto. Neste caso específico que
por aqui discorro, decidi ir ao encontro dela deliberadamente. Deixo gravado
neste papel amassado, minhas caligrafias cor de sangue. Decidi por vontade própria
trocar a morte que tinha em vida, pela curiosidade da morte do lado de lá, e
enlouqueci.
Que outra explicação eu
teria? Qual dimensão é a real, senhores? A dos sonhos ou a da carne?
Caixa misteriosa essa que carregamos presa
ao pescoço! Nosso
mundo está dentro dessa massa encefálica. Um mestre como eu rendido
ao inexplicável. Preso na dimensão do além.
Dizem que quando escrevemos buscamos a
verdade. Como crianças recém nascidas com os braços estendidos, ansiosos a tatear o novo.
Escrevemos aspirando revelações, senhores. E assim creio que daqui
sairei.
Permaneço a tatear o invisível em
meus umbrais, mas já não sinto o amargo na boca. Vejo um pequeno ponto brilhante no céu. Há de ser
o sol!
Graças a
Deus! Graças a Deus?
(Felipe Leonardo)

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