segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A morte após a morte





    Foi como acordar de um longo sonho. Desses que não nos lembramos como são... Como haverei de explicar-lhes, senhores?
    Despertei-me em um pesadelo, como se viesse de tobogã junto com a água lodosa que me acompanhava. Um frio na barriga e um suspiro me vieram de imediato, como quem dorme e lhe é jogado um balde gelado na cara. O breu que trazia em vida, se estendeu ao pesadelo.
- Enlouqueci, seguramente!
    Sentia frio, fome e um estranho gosto de remédio amargo na garganta que me corroia o estômago simultaneamente... Sim! Recordo-me!
    Havia tomado o tal remédio mortal, desses que os ratos tomam com o fim de me abreviar o pesadelo e o choro infinito que vivia. Estava na lama junto com os ratos.     Faziam companhia a mim deste lado.
    Minhas últimas recordações eram vazias. Fui professor de filosofia. Cético e solitário.       Nunca me apaixonei por mulher ou homem nenhum. Esses poetas românticos sempre me deram sono. Escrevi como muitos intelectuais fazem. Embora nunca tenha gostado de minhas obras, estas me tiravam momentaneamente a ideia de ir morar com os ratos do lado de cá. A filosofia que tantas alegrias me deu me encurralou em seus labirintos da razão e me fez desistir da vida.
    Que tipo de filosofia explica este sobrenatural? A metafísica de Kant me deixou com as calças na mão nessas horas! Minha razão e orgulho esbarraram em terras lamacentas e ratos cobertos de musgos verdes. Depois de algumas semanas preso nessa angústia repetitiva, tive a certeza de que havia morrido.
     A morte nos acompanha a cada suspiro que damos em vida. Ela nos espreita como aquele primo brincalhão que nos espera atrás da porta, prestes a dar-nos o susto. Neste caso específico que por aqui discorro, decidi ir ao encontro dela deliberadamente. Deixo gravado neste papel amassado, minhas caligrafias cor de sangue. Decidi por vontade própria trocar a morte que tinha em vida, pela curiosidade da morte do lado de lá, e enlouqueci.
    Que outra explicação eu teria? Qual dimensão é a real, senhores? A dos sonhos ou a da carne?
    Caixa misteriosa essa que carregamos presa ao pescoço! Nosso mundo está dentro dessa massa encefálica. Um mestre como eu rendido ao inexplicável. Preso na dimensão do além.
    Dizem que quando escrevemos buscamos a verdade. Como crianças recém nascidas com os braços estendidos, ansiosos a tatear o novo. Escrevemos aspirando revelações, senhores. E assim creio que daqui sairei.
    Permaneço a tatear o invisível em meus umbrais, mas já não sinto o amargo na boca. Vejo um pequeno ponto brilhante no céu. Há de ser o sol!
Graças a Deus! Graças a Deus?




(Felipe Leonardo)

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