sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Capa Preta

   


    Uma lenda Maia muito antiga explica que antes de criar os homens, os deuses criaram as árvores, a vida e os animais. Os animais, no entanto, não foram capazes de invocar os deuses, e por isso foram punidos, sua carne serviria de alimento. Posteriormente com uma mistura de milho e água, os deuses criaram os homens, e estes finalmente conseguiram contatar o sobrenatural e invocar seus deuses. 


Poucas coisas no mundo físico são mais assustadoras do que se sentir nas nuvens. Já estive entre vocês. Tirar os pés do chão e se sentir voando, como se perdêssemos o controle dos movimentos e entrássemos em uma nuvem. O fato de olharmos o abismo abaixo dos pés e sentir o vento frio que sobe, dá um calafrio que remete a um instinto de sobrevivência. 

Quando o homem sonha dormindo, também é possível voar e tirar os pés do chão, como naqueles sonhos misteriosos onde se cai em um buraco, e se sente um frio na barriga iminente. Mas o que me refiro ultrapassa o físico e o sonho. 

Este relato é sobre o menino que conheceu seus deuses numa noite fria de sábado, dia de São João, com a fogueira de Xangô, no meio da mata atlântica.


A casa era mística, um tipo de galpão no meio do mato, rodeado de cadeiras daquelas de vó, ambiente todo enfeitado com bandeirinhas de São João, atabaques de todos tipos e tamanhos, uma fogueira gigante ao centro, e todos a rodeando. O fogo é sagrado, eles diziam. Naquela noite fria, aquele fogo tinha um poder muito mais do que metafísico, convenhamos. 

A proposta era a de um ritual espiritual. No altar, imagens de santos africanos, entidades indígenas, e até hindus. A energia vagava entre algo muito brasileiro, e o menino se sentia em casa. Ele sempre teve sangue de terreiro, e bem sabe disso. Alfazema, defumações, os couros dos tambores se aquecendo e se afinando em volta do fogo de Xangô; homens e Deuses ensaiando sua orquestra que se apresentaria em breve numa noite de gala.


A protagonista da noite? uma bebida que já estava por essas terras muito antes dos ladrões portugueses chegarem; a Ayahuasca. Uma receita indígena amazônica que mescla um arbusto e um cipó. Por vezes reflito a sabedoria dos povos originários em mesclar certos ingredientes que resulta em algo divino. Assim como a maniçoba paraense, que guardada devidas proporções, se não cozida suficientemente pode matar uma pessoa adulta com facilidade.

Mas claro, uma sociedade pavimentada com dogmas europeus, desconhece profundamente a sabedoria da terra. Essa comunhão neste dia era uma tentativa de reconexão a esta ancestralidade, esquecida e boicotada pela geração das telas de vidro.


Formou-se uma roda, tudo remetia a um ritual indígena, e de fato boa porcentagem da intenção era essa. Nessa roda, todos iam em sentido horário em busca do pequeno cálice da bebida de coloração marrom, que uma médium orientadora segurava.

Quando chegou a vez do menino, ele tomou o cálice em suas mãos, a moça o olhou nos olhos e disse:

- Que Deus te guie.


Se pudessem ler a mente daquele menino naquele instante, era com certeza um turbilhão de pensamentos, todos ansiosos. Que tipo de viagem ou visita ocorreria depois daquele estágio?

Todos voltaram aos seus lugares, elevaram seus cálices aos céus, e tomaram todos juntos. Uma grande comunhão ancestral.

O menino refletia, enquanto a bebida com gosto de terra amarga descia pela sua goela pela primeira vez. Quantas gerações de tataravós com seu sangue participaram de rituais do tipo? Ora, se são todos filhos desta terra, são mais feitos disso do que de missas.

A bebida caiu no estômago como um veneno santo. Em poucos minutos o próprio organismo já preparava seu trabalho de expulsar aquela substância suspeita com algumas ânsias. 

O som dos atabaques, as rezas, as cantorias, os aromas, o fogo, tudo isso era muito familiar ao menino. Era familiar a todos os que estavam presentes. A ancestralidade quando vista com respeito e sentida a flor da pele, é instintiva, é selvagem, e consome tudo como fogo.

Um misto de prazer e leveza consumia o menino, que sentado em sua cadeira, olhava o teto e suas bandeirinhas coloridas, se deixando levar pela força da medicina. Certo ponto ele reparou algo estranho caminhando pelo teto, parecia um inseto marrom que há poucos instantes não estava lá. Este inseto parecia dançar ao som da cantoria. Cores extremamente vibrantes se faziam perceber ao seu redor, e um sorriso espontâneo nasceu do menino. Em trinta minutos ele sentiu uma vontade imensa de levantar e ir ao ar livre, precisava muito tocar a terra.

Saiu ao relento como quem escuta o canto de uma sereia com uma voz muito linda, parou em frente ao cruzeiro e agachou. Pôs a mão sobre a terra e acariciou a grama como se fosse o mais terno animal de estimação. Sentia as folhas da grama como se fossem pelos. A terra conversava com ele por meio do coração, e ele se pôs a chorar copiosamente como uma criança de quatro anos. Soluçava e pedia desculpas a si mesmo. Naquele instante, a Ayahuasca se apresentava e o abraçava com uma dose cavalar de amor, como um abraço de mãe.


Ele tirou seus óculos, a miopia não importava. Agora ele enxergava como nunca na vida. Olhava o céu e sentia as estrelas, enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto. Respirava fundo e sentia o ar puro percorrendo todas as entradas do pulmão, e a limpeza sendo feita. A Ayahuasca o segurava no colo como uma mãe que segura o filho recém nascido enquanto dá um banho.

Ele se levantou, sentiu os ombros mais leves, enxugou as lágrimas como de praxe, deu um suspiro, e voltou novamente junto dos outros na fogueira. 


Sentado na cadeira enquanto os pontos eram tocados, misturados com canções indígenas, ele sentia irradiações por todo corpo, as mãos tomavam vida própria e ele se limpava, como um passe em si mesmo. Naquele instante seu espírito antiquíssimo assumia o posto, e limpava seu envoltório corporal como quem se mostra muito experiente na tarefa.

Fazia riscos no vento, como quem desenha com uma pemba imaginária seus campos energéticos. Tudo aquilo para quem visse de fora parecia loucura, mas no fundo do menino, uma semente era plantada.

O menino dividia o corpo com essa energia. Por ora ele se situava, tocava seus braços, rostos, e notava que de fato estava presente, em seguida como um impulso, a força o tomava no colo e ele viajava em seus sonhos; nessa dança ele alternava pela noite. Viajava a outras épocas e dentro de si mesmo. Revivia emoções que sentiu alguma vez em situações específicas quando criança. Emoções essas que, no fundo de seu cérebro, ficaram guardadas com carinho. Sentiu definitivamente que o corpo se trata somente de um envoltório que guarda uma galáxia. Nesta momento, ele teve acesso a um por cento desse universo.

Nesta noite, eu apareceria para ele pela primeira vez. Foi quando o menino decidiu ir ver a noite e o quão bonita ela estava. Ele parou no parapeito de madeira, se apoiou e observou a escuridão brilhante que cintilava dentro dos seus olhos. 

Como numa rajada de energia ele se posturou, cruzou as mãos para trás, e saudou com sua própria voz a minha vinda: 

- Muito boa noite! Pensei que nunca iríamos nos falar. Se não fosse por este chá, as coisas seriam difíceis, não? Quero que escute com atenção o que digo, eu sou seu Exu, e vim te ensinar a falar!


Parecia algum ataque de dupla personalidade onde um homem fala sozinho mirando algo imaginário em sua frente, porém, era um estágio de incorporação, onde naquele instante, Eu usava seu envoltório corporal para expressar minha ideia.

Seus braços estavam arrepiados, seu coração batia com mais força, e sua respiração estava levemente alterada. 

A incorporação é seguramente mais velha do que pensamos, em diversas culturas os deuses já se comunicavam por meio dessa avalanche energética que toma a fala do homem. 

Não poupei palavras para dar conselhos ao jovem. Eu aguardava esse momento com ansiedade. 

- Vamos lá, agora você vai me ouvir e deixar de ser esse teimoso filho da puta. Me espanta como você consegue guardar tanta coisa dentro de si. Inacreditável como pensa tanto nos outros, mas esquece de cuidar de si mesmo. Olha o tamanho do buraco que se meteu desrespeitando a si mesmo!


O menino inconscientemente entendia o que era dito, porém quem tomava a frente por ora era eu. Tudo que seria passado essa noite, seguramente não sairia de sua cabeça tão cedo.

Comecei a explicar a ele suas potencialidades, tudo o que ele deixa de fazer por preguiça, tudo o que empurra para debaixo do tapete e perde em ajudar.

Nesse instante o menino cedeu a suas vontades fisiológicas e se pôs a debruçar para vomitar. Naquele instante começava a limpeza que a medicina proporciona. Aproveitei:


- Isso, bote tudo isso pra fora! Nem que eu ficasse toda a noite com você aqui vomitando, eu limparia a merda toda que você colocou pra dentro!

Entre falas e sons de atabaques, minha risada clareava a escuridão daquele lugar. Por um instante enquanto eu conversava, um Egun se aproximou da energia e quis se intrometer no assunto como se não pensasse que não o perceberia. Mas dos olhos de Capa Preta nada foge. Este obsessor não teve espaço para encostar e quebrar a corrente energética, porém, o menino que estava lúcido, pôde notar tudo.

Sempre que a energia entre eu e o menino se abaixava e perdíamos conexão por alguma distração, um “Laroiè è Mojubá” em alto e bom som resolvia a questão.


- Veja só meu filho, tenha com as pessoas a mesma atenção com que escreve. Olhe nos olhos o máximo que puder. Estamos aqui nessa terra não é pra se orgulhar, ter essa puta vaidade, ou engolir ruindades. Vocês humanos estão aí pregados na terra com a única missão de servir. Sirvam ao próximo que sua missão estará cumprida, simples assim. Quem te diz isso é seu Exu. Veja só, venha por aqui, quero te mostrar uma coisa.


Afastei o menino por um tempo da música e da fogueira, e o levei à tronqueira ali próximo. Era por volta da uma e meia da madrugada, e o breu tomava conta da mata virgem. O vento daquela hora da noite penteava nossos cabelos e eu podia sentir todos os pelos do seu corpo eriçados. Naquele instante, nada nem ninguém ameaçava meu menino. Mostrei a ele na pele a sensação de suas potências. A sensação do poder nato que cada ser humano carrega dentro de si. A sensação de pertencer a um só todo. Éramos aqueles eucaliptos, as araucárias e todos os insetos que caminhavam naquela terra úmida de sereno. Éramos a floresta escura.

- Está vendo aquelas copas de árvores lá longe? - Eu dizia apontando seu dedo.

- Tá vendo essa escuridão, e a maneira como a lua prateia o verde deixando tudo mais melancólico? Eu estava aqui antes mesmo da luz. Eu amo as trevas, mas não me julgue mal por isso. Amo pois a profundeza da alma humana é escura, e eu gosto de cuidar da escuridão dos homens. Exu pisa onde ninguém quer pisar, meu filho. 


Após a limpeza o menino ficou claramente mais leve e pude me aproximar mais de seu perispírito. As ideias puderam ser passadas com mais clareza por sua própria boca.

- Você sabe que eu estou falando desse jeito com você mas eu te amo. Só que Exu fala dessa forma mesmo, a gente trata vocês como aqueles pais ranzinzas onde o filho só escuta com esporro. Mas de uma coisa queria que soubesse. Daqui pra frente sua vida será diferente. Sempre que precisar, você pode pensar em mim que estarei ao seu lado em energia, te sustentando e te dando coragem, meu filho.


O menino se pôs a chorar levemente enquanto fungava de maneira calma. Certo instante a música que tocava no atabaque era conhecida por ele.

O menino começou a sentir uma energia subindo pelos seus pés, e teve vontade de cantar e dançar. Dançamos juntos até ele mostrar um largo sorriso pela boca. 

A alegria nos move nessa vida, e nos livra da dor. Nos obriga a dançar e movimentar energias encostadas. Nos obriga a mexer o açúcar no fundo do copo.

Fiz um buraco em sua áurea, que estava escurecida com pesada tristeza, e ele pode sentir um fio de luz que entrava dentro de si. Aquilo era somente uma pequena vela de toda a luz que poderia irradiar. 

Limpei seus olhos. Mostrei suas sombras, mostrei suas luzes. Faça o que quiser com elas.


segunda-feira, 24 de junho de 2024

A casa cor de sol

 

   Depois de muito tempo distante voltei para a casa que me criou. A casa amarela em que cresci a vida, parece ter vida própria, e para mim posso jurar a todos vocês que tem. Ela me abraçou pela última vez quando saí. Ela foi a primeira a me abraçar quando cheguei, envergonhado com uma mão na frente e outra atrás, corado e sem graça. Ela me olhou nos olhos com aquelas telhas altas e me abraçou com as janelas de madeira.

As janelas me envolveram e me puseram no colo, e todas as madeiras daquela casa me conheciam. A casa sorriu de canto de boca e me deixou à vontade, puxando a cadeira para prosear, como sempre fez.

Eu costumo dizer que a casa é o quinto elemento da família. Meu pai, mãe, irmã, e a casa.

Por vezes me acho bobo de dar vida a um monte de concreto, duro e imóvel desde os anos noventa. Tijolos antigos que servem de abrigo a todo e qualquer tipo de inseto, bicho e fungo. 

Todos moraram ali. Todos chegaram e partiram, eu não fui diferente.

Que tipo de intenção meus pais tiveram quando juntos, fazendo dívidas, decidiram comprar aquela casa gigante, ainda sem móveis, ecoando sons e vozes ao longo dos largos corredores? Tinham a intenção de gestar uma família, você poderá dizer. Correto.

Mas mal sabiam eles que estavam gestando uma casa. Eles pariram também uma casa de concreto maciço.

O fusca do meu pai já era amarelo, quem sabe não foi ele quem inspirou que a casa fosse futuramente da cor do sol.

Eu amo amarelos. Amo a forma que a cor reluz quando o sol vem de encontro a ela, e faz tudo ao seu redor virar sol também. Aquele fusca também era um sol, e reluzia um sonho principiando.

Quando meu pai, sem camisa, naqueles sábados quentes de verão me punha no colo e me colocava a fingir dirigir o fusca, eu me tornava todo amarelo e era verdadeiramente feliz.

Eu suspeito que se a alegria tiver uma cor, ela seja amarela.


Depois de alguns anos o fusca foi embora, e seu amarelo passou para as paredes da enorme casa.

Ela naquele bairro destoava de tudo, era sem dúvidas a casa mais bonita da rua com suas janelas que observavam a vizinhança, além das telhas altas. Aquele telhado era um grande chapéu que fazia a casa ainda mais charmosa, como aqueles adornos que pomos quando vamos encontrar alguém muito especial.

O amarelo ultravioleta escorria pelas telhas, e pintavam suas paredes de sol.


Me lembro bem um dia quando criança,  fiquei muito feliz depois de minha mãe deixar eu dormir na casa de um amigo. Eu pulava de alegria, e no terceiro pulo, escorreguei e quebrei o dente.

Eu chorava de dor e desespero porque depois daquilo, eu sabia que não iria mais dormir na casa do meu amigo. Eu subi ao meu quarto chorando, desolado, rendido e triste. Subia as escadas, andava pelos corredores passando a mão pelas paredes e a casa me consolava. Posso jurar a vocês que a casa passava a mão nos meus cabelos e dizia que ficaria tudo bem.

E assim foi com todas as desilusões, dores, frustrações e tristezas que vivi sob aquele teto. 

Quando a tristeza me abatia, eu olhava pra cima, via os fungos do teto, via os gessos já não tão brancos com o passar do tempo, e tudo conversava comigo. Eles me consolavam e falavam que tudo ficaria bem, que a vida vale a pena, e que aqueles tijolos, madeiras, pisos, gessos e cimento já tinham vivido muita coisa bonita, portanto tinham argumentos para me tranquilizar.

Quando eu poderia imaginar que aquelas madeiras antigas, já começando a serem corroídas pelos cupins, fizeram parte de árvores mais antigas ainda. Ou que aquele granito do parapeito tinha visto mais coisas que muita gente nesse mundo…

Eu ficava até sem graça de se lamentar na frente dela. O mundo é muito maior, e a casa me dizia isso.


Com o passar dos anos a casa sofria reformas e foi mudando de forma, assim como a gente quando cresce e estica as pernas, ganhamos pelos no corpo ou alongamos o nariz parecendo adulto aos poucos. A casa foi ficando mais madura do que já era.

Quando os pedreiros quebravam seus pisos, destruíam paredes, me doía como se machucassem alguém que amasse. Mas quando recolocavam o chão, erguiam as paredes e a pintavam novamente, eu me apaixonava mais uma vez. A admirava como quando revemos aquelas namoradinhas de infância que cresceram e ficaram mais bonitas do que já eram. Assim me apaixonava sempre.


Por muito tempo pensei que a casa era mal assombrada. Quando criança via vultos, escutava barulhos, estalos em cômodos afastados, e aquilo me deixava perigosamente curioso. Na verdade aquela casa sempre foi bem-assombrada. Digo isso porque os assombros nunca me deram medo. Pra mim aquelas manifestações eram a casa falando por si só; cadeiras que balançavam sozinhas, portas que rangiam levemente sem vento…tudo isso era a forma que a casa tinha para se comunicar com alguém de carne e osso. Ela avisava quando tudo estava bem, ou quando algo deveria ser feito.

Certa noite estávamos contando piadas e casos engraçados na sala de jantar, rindo bastante. De repente uma colher escorregou do suporte de louças caindo no chão. A conversa na sala parou instantaneamente e olhamos uns aos outros e demos uma risada sem graça. Tivemos medo.

Aquela colher caindo no chão era a casa rindo dos nossos causos, querendo participar da conversa também. Ela também gargalhava conosco do jeito dela.


O quintal, longo e grande, sempre teve plantas que meu pai cultivava. Porém uma era a mais especial, ocupava um lugar privilegiado no meio; era o famoso pé de limão galego. Aquele pé de limão chegou primeiro que eu neste mundo. Ele ajeitava as caipirinhas do meu pai aos domingos, e na semana também ajudava a alegrar os bebuns da rua que por vezes paravam em frente de casa, me viam jogando bola no quintal, e pediam alguns limões emprestado.

Claro que a função do limoeiro não era só alcoólica, também temperava saladas, o pernil de natal, sucos geladinhos…


Aquele pé de limão foi um tipo de filho que a casa teve. Ele nasceu da terra da casa, logo, o pé de limão também era parente nosso. Depois de um tempo, o limoeiro mais famoso da rua morreu e foi uma perda para nós. Porém alguns anos depois, meu pai plantou um pé de acerola no mesmo lugar do finado limoeiro, e até hoje dá as acerolas mais doces que já provei. O pé de acerola é neto da casa e filho do limoeiro.


Eu por vezes fico imaginando como as árvores são próximas a nós. Elas cientificamente também devem ter lá o grau de parentesco conosco. O seu início é pela terra, o nosso fim é pela terra. Elas se erguem firmes e altivas da terra úmida, e nós somos comidos pela terra, caímos com a gravidade, frágeis e inertes. É um ciclo muito próximo, não?

As árvores tem muito mais de humanos do que nós pensamos. 


Nós humanos temos mania de dar vida a coisas inanimadas, e também tiramos humanidade de humanos com a mesma facilidade, quando cometem atrocidades, ou quando roubam comida do mercado. 

Damos humanidade a coisas para não nos sentirmos sozinhos. Detestamos ficar sozinhos. Até o mais introvertido do ser, no fundo, bem no fundo, detesta ficar sozinho. Temos medo de ficarmos em nossa própria companhia, porque somos nosso maior mistério.

Vemos olhos, bocas e sobrancelhas em todo lugar. Meu primo uma vez me disse que via rostos nos carros: os faróis eram olhos, as grades da frente eram o sorriso, o parabrisa era a testa, e a placa eram os dentes. O fusca amarelo do meu pai tinha um semblante terno, não porque eu queria, mas porque os faróis eram redondos e ternos. Ele estava sempre com cara de disposto a nos levar pra passear a hora que quiséssemos.


Eu suspeito que se a alegria tiver uma cor, ela seja amarela. 

Amarela da cor daquela casa.


sexta-feira, 8 de março de 2024

O caso de Dona Piedade e o coentro que não era tempero


   



    Quando a vizinhança daqui de Chorrochó escuta falar o nome de Dona Piedade, já logo arrumam a postura e a orelha fica esperta. A vista se arregala e um sorriso natural amanhece no rosto do sujeito.

Desde que o mundo é mundo, a casinha de Dona Piedade está lá na esquina. Na virada do milênio, a casinha já estava lá. No fim da segunda guerra? Também estava lá. Dizem até que quando Dom Pedro visitou por aqui a região do São Francisco, a casinha da velha senhora já estava presente.

A casa de telhas altas, janelas pontualmente localizadas, e a portinha estreita - que escolhe quem entra - parece ter vida própria. É como uma fortaleza que protege e ilumina a cidade. Como o Farol da Barra lá de Salvador, que alumiava os navios em noites de lua nova. A casa de Dona Piedade alumia os sertanejos de Chorrochó.

Assim que o primeiro clarão do dia aparece no horizonte, cortando a escuridão da noite, os vendedores da feira se mexem; ferros de todos os tipos que se rangem, lonas que estapeiam o silêncio, e fofocas que começam baixas, mas que lá pras sete ficam altas e viram risadas frouxas. 

A feira rodeia a casa de dona Piedade, assim como a água do rio que rodeia uma pedra muito grande. A multidão de ambulantes contorna a casa da velha senhora num movimento todo natural e inconsciente. Se por algum motivo a casa de Dona Piedade sumisse dali de um dia pro outro, iria causar uma falta danada.

 - Oxe, que diabo de ideia é essa, menino? Como que de um dia pro outro aquele casarão sumiria?

 - Eu que sei!? Esses dias mesmo o papagaio de seu Eusébio não começou a falar tabuada com dois dias de treino? Uma casa sumir no espaço não me espantaria hoje em dia.

Totonho é o menino que tem andorinhas nas ideias, e voa longe sempre que dão muita trela. O povo pensa que talvez não bata bem da cabeça. Sua professora lhe disse uma vez que pode ser TDAH e que está na moda hoje em dia. Embora também não podemos descartar o sol na moleira que judia diariamente.

A rotina da feira é quase sempre parecida. Só não digo que é tudo igual porque cada dia uma novidade aparece para o povo. Conforme o dia amadurece, a feira parece tomar vida própria e tagarela sozinha. Grita oferecendo frutas, esperneia dizendo como o umbu está fresco, e nem tem receio de anunciar que a galinha botou tantos ovos, que está quase de graça. Faz lembrar até aquela bolsa de valores antigamente. Até estapeamento gratuito volta e meia acontece, quando algum espertinho resolve levar fiado e não paga. 

Totonho costuma ajudar seu tio na barraca do orégano, coentro e salsinha. Demorou nada uns cinco anos pra diferenciar coentro de salsinha, e até hoje fica perdido. Seu tio comenta que a raíz é diferente, que as folhinhas são diferentes, que até o cheiro é distinto, porém é mais fácil diferenciar pilantra de picareta, do que identificar essas duas plantas.

Próximo das dez e meia da manhã, Dona Piedade já inicia o almoço. Nesse costume diário,ela tem um acordo com o verdureiro, tio de Totonho. Um acordo inconsciente de longa data que não carece de explicação, como a mão esquerda e a direita; toda quinta feira sempre é deixado no parapeito de sua janela um punhado de coentro macerado e orégano, a fim de temperar certas receitas. O negócio é tão ensaiado que se numa quinta feira o transeunte passar embaixo da janela de Dona Piedade e não sentir o cheiro do baião de dois exalando coentro, tem alguma coisa errada. Dizem as línguas que seu João-barriga-de-mula que mora na rua de cima passou uma vez embaixo dessa janela, e sua barriga roncou tão alto que parecia um equino parindo. Aí já viu, agora todos só conhecem o homem pelo codinome citado.

Mas deixe estar. Numa quinta feira dessas, pertinho do horário do almoço ouviu-se um reboliço e uma meia dúzia de polícia saiu correndo atrás de um menino. Quando o moleque virou a esquina, deixou um pacote com algumas folhas maceradas em cima do parapeito da senhora, e saiu aperreado.

A situação deu a entender que o menino havia roubado o costume do verdureiro.

O tio de Totonho passou em frente ao muro de Dona Piedade alguns minutos mais tarde e viu que já havia um maço de ervas no local que sempre deixou, e por um segundo pensou que estava doido.

 - Oxe, e eu já passei por aqui foi? - Pensou alto

Nessa, como a rotina naquele dia estava desassossegada, o dia passou e o pacote misterioso continuou no parapeito da senhora, até dar a hora de temperar o baião.

Era quinze pra meio dia e Dona Piedade já estava saindo da cozinha secando as mãos no pano de prato. A boia estava pronta, e bocas se aguavam naturalmente com o cheiro.

Pontualmente nesse horário, Totonho adentrou a porta da senhora. Ele sempre fazia uma marmitinha para ele e seu tio, uma camaradagem por conta dos temperos cedidos.

 - Bom dia Dona Piedade, como a Senhora vai? 

 - Oi meu filho, tudo na paz de Deus. Só esse baião que ficou com cheiro estranho hoje.  

 - Coentro que teu tio deixou na janela pareceu mais escuro, me lembrou até orégano. Até o cheiro tá mais fresco. Depois tu prove pra ver se lhe agrada.

 - Carece não Dona Piedade, que esse baião aqui fica bom com o tempero que for.

O menino saiu aguado descendo as escadas da casa da senhora, caminhando a passos rápidos com as duas trouxinhas de panos de prato. Enquanto isso, Dona Piedade sentou-se no sofá, pra modo de ver o jornal da hora do almoço. Quase que caiu no chão pisando em um boneco de brinquedo que seu neto deixou largado na sala. Praguejou pros sete ventos, e continuou a pacata rotina.

O almoço de feirante é dinâmico. Vinte minutos pra comida chegar na barriga, uma laranjinha pra ajudar, mais cinco minutos de digestão que são acompanhados de uma prosa com a barraca ao lado, e dependendo do movimento, de volta à labuta.

A questão era que aquela tarde pós almoço não parecia ser uma tarde qualquer. Os fregueses foram chegando e tudo parecia diferente aos olhos de Totonho e seu tio.

 - Opa Totonho, como vai, menino?! Me vê um punhado dessa salsinha por favor. - Disse um vizinho, já pedindo e entregando o trocado ao tio.

O menino pegou o punhado de salsinha na mão e cheirou profundamente. Sentiu a textura das folhas e por um instante ficou paralisado olhando o horizonte, como se estivesse em um tipo de viagem astral.

 - Adiante aí por favor, menino, que preciso chegar em casa. 

Ele arregalou os olhos e entregou as folhas ao freguês.

Totonho decidiu olhar seu tio, a fim de perguntar se ele também estava levemente alterado. Quando virou-se, ele estava debruçado em cima do coentro gargalhando, contando um causo a outro freguês como se fosse a maior piada do universo.

Os dois estavam mais bobos do que nunca. Riso frouxo, falas lentas, olhares preguiçosos. A pergunta que não queria calar era; que presepada tinha naquele baião.

Nessa, Totonho sentou na cadeira e ligou o rádio. Lhe deu uma vontade grande de escutar música, ele nunca fez isso na hora do almoço. Ligou um piseiro que gostava de escutar e em seguida, seu tio já começou a dançar sozinho embaixo da barraca.

Nest’ante um freguês que passava perto mudou a estação, e agora tocava espumas ao vento de Fagner, em alto e bom som.

 - Deixe nessa, deixe nessa que agora eu choro de saudade! - Dizia o tio de Totonho.

 - Vôte! Que hoje vocês dois tão virados na moléstia hein - Dizia João-barriga-de-mula rindo ao ver a cena.

 - Seu João, deixe eu lhe fazer uma pergunta - Perguntou Totonho com o olho pequeno e vermelho.

 - Quando você passou embaixo da janela de Dona Piedade aquele dia, e sua barriga roncou igual uma mula, quem foi o descarado que lhe deu esse apelido?

De uma só vez, a roda em torno da barraca caiu em gargalhada. Era homem caindo no chão de tanto rir. Todos absolutamente rendidos. A energia mesclava entre viagens psicodélicas, conversas profundas, e gargalhadas estridentes. Uma grande zoada no meio da tarde.

Lá pelas três da tarde já era hora de recolher as lonas e preparar a volta pra casa. O descanso merecido teria de vir. O mais absurdo foi que depois de uma horinha do almoço, os dois já pensavam num café da tarde e lambiam o beiço só de imaginar um cuscuz e café com leite que poderia estar rolando em algum conhecido.

 - Meu tio, vou indo na casa de Dona Piedade pra ver o que tem de bom por lá. Chegando te passo um zap. 

Totonho caminhou até o fim da rua, passou em frente das barracas de seus amigos, cumprimentou todos, sorrindo pra Vila toda como se tivesse ganhado na loteria. Passou na banca de Seu Bento que sempre vendia jerimum azedo que ninguém gostava, e julgou como sempre. Passou na frente da granja de seu Manel, olhou as galinhas atrás das gaiolas e teve uma pena enorme. Sentiu vontade de chorar quando se aproximou da bichinha e olhou nos olhinhos dela; era como se ele sentisse a aflição do bicho de saber que, em alguns dias, viraria guisado na mesa de algum morador. 

Todo esse trajeto de aproximadamente trezentos metros parecia uma viagem interminável, quando finalmente virou a esquina e olhou pra cima, o susto; onde estava a casa de Dona Piedade?

Por Deus que o menino olhava pros quatro cantos e não encontrava a casa da mulher. Seria possível?

 - E a casa de Dona Piedade sumiu no espaço, foi? - Dizia o menino com os miolos dando nó.

Totonho decidiu sentar no meio fio e pensar a respeito. Talvez estivesse ficando louco de verdade. Talvez a professora tivesse razão e o TDAH estivesse mais forte do que se imagina. Ou talvez o menino tivesse de fato ido para uma outra dimensão depois de comer o baião da senhora.

Passou-se coisa de meia hora e seu tio topou de frente a rua vendo Totonho jogado na sarjeta.

 - Menino, tu não ía na casa de dona Piedade atrás de um cafezinho? Se eu soubesse tinha ido na frente.

Com esforço, o tio levantou o menino que aparentemente caía de leseira. Naquele momento ele não empurrava um prego num mamão maduro. Totonho tinha incrivelmente se perdido na vila de meia dúzia de habitantes.

Chegando os dois varados de fome na casa da mulher, repararam algo inusitado; subindo as escadas da varanda, foram adentrando a casa. Um silêncio tomava conta do lugar. Virando o cômodo onde tinha um altar em que a senhora fazia orações, o susto; Dona Piedade rezava com as duas mãozinhas juntas em direção a dois bonecos de brinquedo do Senhor dos Anéis, que eram de seu neto. Ela olhou pra trás e sorriu igual criança com os olhos vermelhos miúdos que nem pitanga, dizendo calmamente:


 - Rapaz, esse teu coentro é virado na peste, viu!?