quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Deixem Chorar



Ah, deixem-na chorar...
A exprimir no pranto
Os pesados fardos que carregou.
As lágrimas que outrora hesitou,
Escorrem livres por enquanto...

Sim, deixe-a chorar...
Que este soluço compulsivo
É o suspiro da alma renascida,
Que respira já sem os grilhões que a prendia,
E tira do peito o veneno nocivo.

Chore como nunca! Deságue.
E molhe meu ombro com esta água benta,
Pois este choro sincero, tua alma acalenta,
E que tuas mágoas em águas profundas naufrague.





(Felipe Leonardo)
(Pintura - Fausto Hurtado - Un charco de lágrimas)

domingo, 12 de novembro de 2017

Olhares Humanos



No mistério de um olhar humano
Há profundidades assustadoras.
Há a ansiedade latente
De uma alma encarcerada.

No marasmo de um olhar humano
Silenciado no horizonte,
Há uma essência não-humana
Que beira o divino.

Recuso-me a olhar-te de frente
Tuas pupilas ameaçam engolir-me.
São como um par de ímãs
A sugar minha alma a um buraco negro...

Assusto-me com o quanto diz teu olhar,
E o eco que soa do teu interior!
Dizem coisas que meus ouvidos nunca escutaram,
Expressam sensações que só os olhos percebem.

Tuas córneas transformam-se em janelas
Para tua alma debruçar-se a olhar.
Percebo-a mirando o vazio,
Como namoradeiras que olham além do vidro.
Buscam achar algo, mas não encontram nada além de paisagem.
Anseiam ver o que não podem ver,
E aspiram encontrar sonhos que só existem da janela para dentro.

Sim, as almas têm vocabulário próprio
E conversam entre si inconscientes!
E a beleza de todo mistério
É este silêncio que palavra nenhuma descreve.
São olhares, suspiros e sensações,
E suposições de algo no fundo.



(Felipe Leonardo)
Pintura: R. Magritte - O Falso Espelho