domingo, 30 de setembro de 2018

O Abismo de Flores



O amor me atrai sempre.
Sou frequentemente arrastado
Sem nenhum tipo de contestação,
Para esse abismo de flores e cores.

Sinto frios que sobem pela barriga
Cordas vocais trêmulas
Vácuos que pairam sobre a cabeça
E brisas cheirosas que do abismo sobem.

Chego a sua beira e o admiro.
Arregalo os olhos como criança nova,
E sonho felicidades antecipadas.
Em meu coração ponho terra fértil,
E em meu peito crescem flores.




(Felipe Leonardo)

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Escravo do vento



Quando em dias cinzas
Nas horas fatigantes em que o tempo para,
O vento ranzinza me espreita
E cospe em meu rosto,
Como um beijo de até logo.
O frio é pontual e bambeia os ossos.
(Os da alma, precisamente.)

O vento roubou-me a voz
E me deixou olhos grandes para vê-lo.
Em dias de sol, com ele brinco e danço,
Nos cinzentos, entala-me na goela o medo.

Prometeram-me liberdade
Quando entusiasmado,
Rompi o ventre de minha mãe.
Mas ao abrir os olhos e ver o mundo,
Prenderam-me ao vento,
Senti-me alheio e escravo,
Um estrangeiro de olhos arregalados.

O sereno da madrugada
Prometeu me soltar...
Serei livre pela manhã,
Quando o sol me beijar!




(Felipe Leonardo)

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Poeta e Poesia







Fecho a janela e as cortinas.
Do mundo, ao fim do dia,
Restamos eu e minha poesia.

Ela é sempre abusada comigo.
Encara-me na penumbra do quarto
Olhando-me fixamente,
Esperando a confissão.

Atira-me sorrisos de canto,
Como quem sabe o que está por vir,
E deita-se ao meu lado,
Sorrindo como criança para o teto.

Dormimos.
O silencio forra o ar,
Com um manto de veludo
E tudo emudece.
O silêncio é a poesia,
Calada e encolhida,
Nas vésperas de nascer.




(Felipe Leonardo)