terça-feira, 18 de setembro de 2018

Escravo do vento



Quando em dias cinzas
Nas horas fatigantes em que o tempo para,
O vento ranzinza me espreita
E cospe em meu rosto,
Como um beijo de até logo.
O frio é pontual e bambeia os ossos.
(Os da alma, precisamente.)

O vento roubou-me a voz
E me deixou olhos grandes para vê-lo.
Em dias de sol, com ele brinco e danço,
Nos cinzentos, entala-me na goela o medo.

Prometeram-me liberdade
Quando entusiasmado,
Rompi o ventre de minha mãe.
Mas ao abrir os olhos e ver o mundo,
Prenderam-me ao vento,
Senti-me alheio e escravo,
Um estrangeiro de olhos arregalados.

O sereno da madrugada
Prometeu me soltar...
Serei livre pela manhã,
Quando o sol me beijar!




(Felipe Leonardo)

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