terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Casa dos meus avós



Pobre velha casa dos meus avós...
Casa da minha infância.
Já não restam senão sombras
Do que fostes quando criança.

Já não restam senão vestígios
Do calor e afeto que tinhas.
Hoje só vejo escombros de amor
E a árvore podre que não dá mais pinhas.

Tuas risadas altas em família
Escondem-se em névoas de escuridão,
E os ecos das datas festivas
Em minha mente sempre se recordarão.

Tua alma baiana cheia de sóis.
Colorida, e cheia de vida,
Sangra e sangra até a morte.
Desejas depressa a hora da partida

Teu semblante é um olhar marejado
Como quem sabia o caminho e está perdida.
De tanta vida, já esgotada,
Apressas a despedida.

Ah, casa dos meus avós...
Tua alma é um caminhão descendo a ladeira,
Abandonado e guiado pelos instintos.
Uma lavoura que orgulho cultivou,
Colhes hoje o que outrora plantou.

[O rádio ao som de Roberto Carlos.
O sol se pondo às dezenove no verão.
O vapor a sair da cuscuzeira.
As brincadeiras de esconde-esconde.
As visitas às vizinhas.
Os desenhos na TV. Os crochês.
O balançar na rede depois da jantinha...
Quanta alegria!]

As rugas são sinônimas de vida.
Viver é sentir saudades,
E a vida é rara como um preá albino.
Maria,
Maria,
Maria...



(Felipe Leonardo)

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Hipnose feminina



Ah se tu soubesses,
O poder sombrio que teus cabelos guardam.
A brisa passava e teus fios flutuavam
Semblante puro como um anjo em prece.

Ah se tu soubesses,
O poder hipnótico que tua nuca possui.
Aos mais belos poemas teu cheiro me intui,
Deixe-me abraçar-te assim sem que esperes.

Sinta meus braços a envolver teu ventre
E meu coração a pulsar em tuas costas.
Minha respiração ofegante já notas,
A subir arrepios ardentes.

És um mistério em forma humana.
A mão direita segura o vinho.
A esquerda se apoia em um armarinho...
- Não tens noção da energia que emana!

- Sim, flor de jasmim!
Semblante fundo na penumbra,
Teu olhar de jabuticaba deslumbra...
Já não respondo por mim.



(Felipe Leonardo)

Beijo Suicida




Beijas porque finges.
Beijas porque foges.
Beijas porque é a maneira que podes,
Abreviar a morte em vida que vive.

Beijas, pois assim cessa o silêncio da alma,
Beijas, pois assim te abrevias de falar,
Beijas, pois tens preguiça de pensar,
Beijas, pois assim tua mente se acalma.

Beijas irracionalmente,
Beijas sem interesse,
Beijas como se esquivasse
De beijar apaixonadamente.


No ato do teu beijo suicida,
Morres em cada lábio que beijas.
E o amor que tanto desejas,
É sepultado nos bares da vida.



(Felipe Leonardo)

domingo, 17 de dezembro de 2017

Só a alma vê



Minha alma tapa-me os olhos
E me faz caminhar sem ver.
Sou dois a dirigir um só corpo.
Sinto o vento frio do abismo
Ou talvez a brisa do almejado paraíso?

Fico cego de vista
Mas com o olhar nítido da alma
Caminho por onde nunca pisei,
E confio nos passos involuntários do espírito.

Meu destino é uma bússola quebrada
Seus ponteiros irregulares apontam-me direções.
E quando às pessoas peço opiniões,
Apontam-me sempre o outro lado.
[ Por vezes confundo o lodo podre e enxofre,
Com algodões brancos e perfumados...
Chamam meu nome... Eu os escuto!
- Deixem-me ser quem sou!
Quero conhecer-me antes de descobrir vocês!]


Caminho de olhos vendados
A um destino que só minha alma conhece.
Ela mostra-me um mapa, sempre.
Meu olhar perdido no horizonte
É minha concentração atenta
A tudo o que ela diz.
Meu coração a bater mais forte
São sinais de grandes emoções
Que minha alma pressente.
E minhas risadas aleatórias
É ela contando-me piadas
E a fazer comentários indevidos...

Sigamos a intuição
Como um filho que escuta seu pai.
A alma tem sempre a razão,
Se a bússola do destino se foi,
Ela nos segura pela mão.



(Felipe Leonardo)

O céu é cobertor



O céu de noite sem estrelas
Na sua quieta escuridão
É como um cobertor
Que silencia a multidão
E a faz ninar.

O céu noturno é uma manta negra
Que o sol puxa quando vai embora.
Tudo emudece.
Tudo é eco,
E nostalgia,
E breu.

A noite é escura, preguiçosa e cega.
Como meus olhos fechados a dormir.
Como a alma das metrópoles, que hesitam em existir.



(Felipe Leonardo)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Gestantes da Poesia


Ali está o poeta,
Em silêncio a interpretar o mundo.
Em teu interior há um mistério em transformação,
Pela inspiração foi fecundado,
E em tua mente há a poesia em gestação.

Cada metáfora forma-se ao natural.
A poesia cria rosto, pernas e braços,
Cria prosa, rimas e ritmo,
Cria alma, sons e abraços.

Quando se vê, já é impossível
Suportá-la dentro de ti.
Os versos ocupam teu inconsciente,
E te impedem de outras coisas sentir.

A mente do poeta pesa.
Precisa urgentemente parir as palavras,
Anseia ardentemente libertá-las,
Para vê-las nascidas em teu caderno.

A parteira - tinta milagrosa,
Que invade o pálido papel,
Dá à luz o que não se esperava,
A recém nascida, vinda do céu!

E o assombro da alma comovida,
É o milagre do que nasce,
E a poesia olha-nos, como que se chorasse,
Com os olhos lacrimejados de vida!





(Felipe Leonardo)

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Deixem Chorar



Ah, deixem-na chorar...
A exprimir no pranto
Os pesados fardos que carregou.
As lágrimas que outrora hesitou,
Escorrem livres por enquanto...

Sim, deixe-a chorar...
Que este soluço compulsivo
É o suspiro da alma renascida,
Que respira já sem os grilhões que a prendia,
E tira do peito o veneno nocivo.

Chore como nunca! Deságue.
E molhe meu ombro com esta água benta,
Pois este choro sincero, tua alma acalenta,
E que tuas mágoas em águas profundas naufrague.





(Felipe Leonardo)
(Pintura - Fausto Hurtado - Un charco de lágrimas)

domingo, 12 de novembro de 2017

Olhares Humanos



No mistério de um olhar humano
Há profundidades assustadoras.
Há a ansiedade latente
De uma alma encarcerada.

No marasmo de um olhar humano
Silenciado no horizonte,
Há uma essência não-humana
Que beira o divino.

Recuso-me a olhar-te de frente
Tuas pupilas ameaçam engolir-me.
São como um par de ímãs
A sugar minha alma a um buraco negro...

Assusto-me com o quanto diz teu olhar,
E o eco que soa do teu interior!
Dizem coisas que meus ouvidos nunca escutaram,
Expressam sensações que só os olhos percebem.

Tuas córneas transformam-se em janelas
Para tua alma debruçar-se a olhar.
Percebo-a mirando o vazio,
Como namoradeiras que olham além do vidro.
Buscam achar algo, mas não encontram nada além de paisagem.
Anseiam ver o que não podem ver,
E aspiram encontrar sonhos que só existem da janela para dentro.

Sim, as almas têm vocabulário próprio
E conversam entre si inconscientes!
E a beleza de todo mistério
É este silêncio que palavra nenhuma descreve.
São olhares, suspiros e sensações,
E suposições de algo no fundo.



(Felipe Leonardo)
Pintura: R. Magritte - O Falso Espelho

domingo, 29 de outubro de 2017

Estrofe do Abismo



Entre mim e eu há um abismo,
Faço da poesia minha ponte de travessia.
Psicografo o que diz minha alma,
E leio-me descobrindo o que ainda não existia.



(Felipe Leonardo)
Pintura: Frida Khalo - Las dos Fridas

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Rios Ciganos



Em minhas veias pulsa um sangue latino;
Um vermelho de cor clandestina.
Corre como um rio e invade gramáticas;
É um Rio Tejo que desce a Espanha e respira Portugal.

Mas sob o Trópico de Câncer, a vida é mais bela!
Melhor dizer – Minha alma é um Rio Amazonas, 
Que navega os Andes e respira o Brasil.

Os andinos são uma Espanha colorida e guerreira.
E o Brasil é um Portugal sorridente e sem fado.
Por isso louvo os sotaques, atabaques de couro,
O Deserto, a montanha, os cantos Mouros;
Nas veias carrego o legado.

Sou todas as águas ciganas,
Uma tormenta sob urubus e condores,
O amor nos tempos da cólera,
Um mandacaru carregado de flores.



(Felipe Leonardo)

sábado, 21 de outubro de 2017

Do Romantismo


Trago no peito algumas feridas
De amores eternos que nunca foram
E os sinos na madrugada que soam
Retumbam na alma as dores das partidas

Não há nada mais reconfortante
Que consolar a mulher desolada.
- Toma meus braços, fazes de almofada,
Não te preocupes com o relógio na estante.

E quando eu menos esperar,
Meu peito se abrirá novamente
E se erguerá em mim a vontade insistente,
Que todos meus atos serão para te agradar.

O romantismo move vidas
Pois o coração humano é feito de drama,
Ridiculamente ridículo na frente de quem ama,
A engolir palavras antes de serem ditas.

O romantismo tem valia
Porque enobrece a alma do homem,
E nessa hora todas tuas fúrias somem
E vem à tona o divino humano que padecia.



(Felipe Leonardo)
Pintura: J. Helguera - La flor y la mujer

Sono é Embriaguez



O sono é embriaguez,
É ter a alma no além e o corpo em terra.
É estado de graça em câmera lenta
Mistério sutil que o despertar encerra.

A embriaguez é um sono alegre,
O sono de cansaço é mais triste.
Sonolências natas da alma,
Que rejeitam o dedo do mundo em riste.

A embriaguez alcoólica te dói a cabeça
A embriaguez de sono restaura-te ao fim,
Ambas servem para fugir do mundo,
Espelho refletido que se mostra a si.

No transe do momento que me desperto,
Abro os olhos e vejo os sonhos...
Aquele momento hipnótico em que vivo os dois mundos,
É uma das poucas verdades que sei:
Ora puxa-me para o lado de lá,
Ora venho e sinto que despertei.



(Felipe Leonardo)
Pintura: Salvador Dali - O sono

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Monstros

Não sou tão bom quanto pensam...
Pensamentos macabros passam-me à mente,
Nas raras vezes que experimento,
A explosão de meus limites.

É como um monstro adormecido
Que bufa como uma fera,
Querendo possuir meus atos
Quando este é menosprezado.

Mas sei que este não sou eu.
Alguém rouba minha fala na fúria!
Esse alguém não sou eu...
Porque eu não levanto a voz. (E nem gosto de levantá-la)

Este monstro não sou eu,
Pois estes maus pensamentos passam
Como um mau cheiro do cigarro infeliz,
Que me tira a calma,
Mas passa...E esqueço-o.
Mas o avalio, antes de esquecê-lo,
E o julgo como ruim.
E assim o é.

Todos nós temos este monstro,
Pois céu e inferno só existem dentro de nós.



(Felipe Leonardo)