Parte 1 - A missão reparadora
Assim como a peste que de século em século insiste em voltar para assombrar a humanidade, os grandes acontecimentos históricos inacabados voltam do passado, em pendência com os homens.
Assim nos disse Mestre Irineu, nosso guia espiritual em nossa última sessão de Vila das Pedras, interior baiano. Disse isso em alto e bom som para todos que o escutavam naquela casinha do lado do rio. Eu era uma das mulheres do “exército dos eleitos” que estava preparada para a grande missão. Trinta homens e vinte mulheres. A missão que Mestre Irineu nos passou quando soubemos que fomos abandonados pelo nosso governo.
Todos nós estávamos de quarentena sem sair da cidade há três meses. Por três meses ninguém entrava e ninguém saía de Vila das Pedras. Com diálogo e com a ajuda de nossos ancestrais, começamos a matutar nosso futuro.
Quando o relógio da igreja bateu as doze badaladas, fomos em fila indiana, todos tocaiados na baixada da encosta da BR-116, esperando o carregamento de vacinas que, segundo o noticiário, estava indo a Brasília. Segundos depois, chegaria o resto da turma com nosso Mercedinho pra levar a mercadoria. Ensaiamos o ataque por uma semana no quintal de Dona Sebastiana, e mesmo assim, minha espinha estava eriçada como onça brava antes do bote. As pernas se bambeavam igual vara verde quando comecei ouvir o som do caminhão.
Eu mais meus amigos, Amélia e Pedro, éramos os responsáveis por vigiar alguma possível escolta. Fizemos uma barreira curta de pneus para forçar a brecada do
caminhão, e não deu outra. Estava com o motorista e mais duas pessoas na carona. Nesse país as coisas não são tão difíceis, então não utilizamos armas. Mestre Irineu deixou claro que não era pra usar armas por ora. A turma toda rodeou o caminhão e tiramos o povo da cabine. Capitão Virgulino, nosso líder de frente, amarrou os três enquanto a galera muquiava as caixas de vacina na nossa carretinha. Prestes a irmos, ele desamarrou os cabras, pediu pra seguirem viagem, e entregou uma carta com a mensagem que Mestre Irineu escreveu:
“Senhor presidente, estamos aqui. Continuamos vivos mesmo com algumas baixas da pandemia. O vírus é só mais uma seca. Sabemos lidar. Por mais que vocês se esforcem para nos esquecer, estaremos aqui firmes como um mandacaru velho. O sertanejo, antes de tudo, é um forte.”
A trama toda não durou mais de 10 minutos, e por sorte de Deus nenhum carro passou por perto durante a ação. Somente a lua cheia que prateava a estrada e deixava todo mundo brilhando igual aço. Éramos de aço pela primeira vez na vida naquele momento, e conseguimos provar. Mas quando o alvoroço e nossa empolgação cessaram por uns segundos, antes de ligar o Mercedinho, se pôde ouvir os grilos e o canto agourador do Acauã. Todos se olharam com medo.
Ao chegarmos em Vila das Pedras de volta, fomos recebidos com griteiro e festa. Era como se o papai noel chegasse pela primeira vez para adultos e crianças. Um papai noel que trazia vida e esperança.
As crianças e adultos tinham os mesmos olhares ansiosos e brilhantes. Nosso papel era o de descarregar e levar para as geladeiras que nossas enfermeiras prepararam meio que improvisadas. No vilarejo ao todo tínhamos somente um médico, além de Mestre Irineu, nosso xamã.
Desde que soubemos da notícia oficial de nosso abandono, começamos nosso mês de quarentena fervorosa. Juntamos mantimentos, o pouco do que sobrava de nosso trabalho e da esmola que o governo dava de auxílio emergencial, e aos poucos criamos nossa própria forma de subsistência, criando nossa carne, criando nosso algodão, criando nossa vida. Após nossa reclusão, nosso nível de baixas devido a COVID-19 se reduziu a zero. Vila das Pedras era nosso Brasil dentro do Brasil.
Dois dias após a missão, passei em frente a casa de Pedro e vi sua mãe vendo o jornal do meio dia. A manchete do jornal regional era garrafal: “Vândalos assaltam carregamento de vacinas no interior da Bahia”. O âncora nos insultava sem muita expressão, sentado em sua cadeira sob o ar condicionado.
Dona Clara, mãe de Pedro, começou a chorar em desespero e saiu no pátio xingando alto o Mestre e Capitão Virgulino.
- Vôte, Viramos ladrões, vocês viram!? Vocês viram o que nos tornamos?
Todos aos poucos começaram a sair de suas casas olhando espantados o alvoroço daquela mulher, com Pedro atrás dela tentando acalmá-la.
- Desgrude de mim menino, que eu quero falar com eles!
Mestre Irineu estava em oração como sempre fazia antes do almoço e foi interrompido pelo griteiro da mulher.
- Sente-se aqui, Dona Clara. Vamos conversar sobre o que te atormenta.
A mulher adentrando a casa santa, de supetão foi se acalmando e colocando a respiração no lugar. Sentou na cadeira que o Mestre puxou.
- Olhe, Mestre Irineu, eu lhe respeito muito e acima de você só Padim Ciço e meu senhor Jesus, mas o que vocês fizeram esses dias envergonhou Vila das Pedras perante o mundo. Tu viu no jornal agorinha há pouco?
Mestre Irineu com seu ar santificado tomou seu copo de chá na mão, deu um gole, baixou a visão, e respirou fundo. Olhou a mulher com os olhos fundos de vivência e humildade, e começou a falar com a paciência de quem ensina uma criança:
- Minha amiga Dona Clara, pra plantar uma colheita nova, antes temos que destruir nossos restos, tratar a terra com paciência e muito adubo, pra no futuro sermos coroados pelo mundo. Nosso mestre Jesus e nosso compatriota Antonio Conselheiro morreram como ladrões nessa terra, para se tornarem heróis. Tome esse chá e descanse minha amiga.
Dona Clara como que hipnotizada tomou o chá e se transformou. Não era mais a angustiada que veio bater à porta poucos minutos atrás.
Foi uma semana com uma mistura de sentimentos de herói com vilão. Me sentia um pouco nas histórias que minha vó me contava de Lampião e seu bando. O que no fundo era legal e o que era ruindade, era a pergunta que pairava.
Pra piorar, ao longo dos dias fomos notando nossa fama pelo Brasil. Éramos chamados até de comunistas. Como já estávamos no fim do ano, boa parte do país estava vacinada. De barriga cheia fica mais fácil julgar. Fomos nos tornando os vilões do Brasil. O que o povo de fora não entendia é que a gente não era letrado, a gente não queria fazer revolução, a gente não lia Marx. A gente só tinha fome e desespero.
Apesar de estarmos “isolados”, buscávamos nos manter informados do mundo. A Amélia por exemplo recebeu até ameaças no instagram. Resolveu compartilhar um post apoiando nossa luta em Vila das Pedras. A rede social e os jornais eram diários e as principais reportagens eram compartilhadas entre todos da vila. Fake news por exemplo passava por pente fino e não entrava, e se entrasse, teria uma conversa calorosa com Capitão Virgulino.
Por falar no Capitão, ele mesmo era um mistério entre nós, mas a gente confiava nele pelo respeito de seu passado. Ele serviu ao exército brasileiro durante um tempo e se aposentou. Dizem que se abdicou dos salários e do cargo, e se alguém toca no assunto hoje em dia, ele vira uma fera. Depois de aposentado, ele decidiu levar uma vida mais pacata na vila, mas quando o cabra nasce pra luta, a luta acaba achando ele em algum canto. Chamam ele de Virgulino remetendo ao Lampião, porque o som das balas saindo de seu fuzil, clareava até o dia.
Duas semanas após a missão, minha amiga Amélia me chamou mostrando seu celular com outra mensagem xenofóbica e odiosa. O de Pedro também estava, e o celular de mais uma dúzia de pessoas estavam com os mesmos textos ameaçadores. Chamamos Mestre Irineu e Capitão pra uma reunião. Precisávamos estar atentos, pois a proporção que o ato havia tomado era altíssima.
- O que fizemos nessa altura da história iria causar alvoroço. Sabíamos disso. Agora temos de ter paciência e cuidado pra saber se mover, minha gente. - dizia Mestre Irineu, como quem joga um xadrez.
Amélia levantou a voz e disse:
- Se o Brasil soubesse o que fizeram com a gente, estariam do nosso lado.
- O governo só liga pro deles, não sabem que existimos, assim como dezenas de cidades pelo país - respondeu Dona Lourdes.
As reuniões semanais nos davam segurança e esclareciam nossas ações. Tentávamos nos organizar e nos inspirar na calma de nosso Mestre Irineu. Mas o que mais nos assustava nas mensagens é que, ao fim delas, eles deixavam uma data. Como se fosse uma data para ficarmos espertos. Se era blefe ou não, não podíamos pagar pra ver.
Parte 2 - Lume lúgubre da morte
O olhar de todos nós naquela hora era de ansiedade. Sabíamos que não tinha mais volta. A guerra estava chegando até nós.
Eu respirava fundo e olhava pra cima. Olhava o céu estrelado feito igualzinho pra todo mundo, aquela lindeza toda não custava nada, era de graça. O mesmo céu cobrindo o bem e o mau, pontos de vistas diferentes vistos de cada olho. Me sentei em frente a árvore principal da praça e tentei ler um pouco, mas o silêncio do lado de fora, era o contrário do barulho da minha cabeça. De longe vi a luz da casa de Mestre Irineu acesa, decidi ir lá conversar. Ele também servia de psicólogo.
Ele ouvia um samba de coco com uma rabeca bem afinada.
- Licença Mestre. Eita que descobri o segredo dessa calmaria toda. Renata Rosa é boa né!
- Olhe só quem chegou! Sente aí minha menina.
Perguntei a ele sobre essa loucura toda que estava acontecendo. Ele só escutando e tomando seu chá com o olhar fixo no infinito. Parecia que estava na lua.
Quando eu estava no meio da explanação ele me interrompeu ignorando meu assunto:
- Faça silêncio e escute só essa letra de Renata Rosa com Suassuna, que mistério...
Eu olhei pra cara dele sem entender nada, me aquietei, e o som ficou claro junto dos grilos da noite:
“Dizem que uma sombra escura
Com duas pontas na testa
Por donde o Donzel caminha
Ao lado se manifesta
O Doutor vela de sebo
Sinal dos magos errôneos
Lume lúgubre da morte
Lampadário do demônio.”
Em seguida ele continuou:
- Conheci Suassuna antes dele falecer. Cabra bom aquele. Esse país é feito de terra e água boa. Caminhamos em cima de nossos tataravós. Eles se misturaram com a terra e as folhas e pavimentam nosso chão. A gente precisa andar pelo caminho certo, pra honrar a passagem deles, minha menina. A sombra escura nos persegue e nos ilude ao longo da vida, mas temos que nos lembrar do cheiro da terra. De nossos ancestrais. Você ainda vai comandar esse país, menina.
Ele terminava essas frases e voltava em si, era como se estivesse em transe.
Logo após, me ofereceu seu chá, e finalizou:
- O Demônio falso profeta, vestido de salvador, está no controle. Mas Deus está conosco.
Estudamos posteriormente a origem das mensagens maldosas que nos mandaram, e conseguimos identificar que era de um grupo nacionalista de Salvador que adorava o governo. Em princípio pareciam ser independentes, mas perigosos. Não tínhamos tantas armas no vilarejo. Somente um Bacamarte guardado do avô de Pedro, que era usado no São João, e dois fuzis Mauser, antigos que só a peste também.
Na noite de treze de dezembro, um dia antes da tal data que supostamente invadiriam nossa cidade, deixamos as armas a postos com nossos homens mais experientes. Tentamos não mostrá-las às crianças pequenas pra evitar as assustarem. Entraram duas camionetes pela estradinha principal de Vila das Pedras, foram passando devagar com uns cabras com a cara pra fora encarando nosso povo todo. De supetão, Capitão Virgulino mais os homens saíram pra fora de casa com as armas ao lado, observando de precaução. Das janelas dos carros, os jagunços sacaram o celular pra fora e tiraram fotos. Mulheres com olhares curiosos, meninos atrás das saias das mães, e nossos três homens com cara de maus, armados com armas sofridas. Saíram cantando pneu.
A partir daí já se pode deduzir o que aconteceu.
O mais curioso é que dois dias após esse caso, nossas fotos estavam no principal jornal de São Paulo, com o presidente comentando em cima e tudo.
- Rapaz, a barriga de dona Lourdes tá grande nessa foto hein. - Dizia Amélia sarcástica, abrindo a matéria antes de ler.
Nossa foto que estampava a matéria, estava em preto e branco e mostrava retirantes ignorantes, mal encarados e egoístas. Fomos notícia nas rodas de universidades, bares e twitter, e uma parte do Brasil, voltou-se contra nós.
Na TV vimos algumas manifestações, o povo vestido de verde e amarelo com a bandeira do país, com todas as estrelas na bola azul, nenhuma estrela daquela era de Vila das Pedras.
Nas faixas da passeata, pediam militares em nossa vila. Pediam com ódio que devolvêssemos as doses da vacina. A maioria pediam nossa morte, os mais sensatos, nossa prisão.
Mas de supetão me lembrei do dia da missão das vacinas, quando o Acauã cantou perto do caminhão. Senti o mesmo pressentimento ruim daquele dia. A sensação de angústia e prisão que sempre vivíamos se duplicou, e dentro da minha garganta uma bola ficou entalada.
A gente nunca estudou muito, mas a vida nos ensinava quando o perigo ou a morte estavam por perto.
A gente sentia tudo como bicho na espreita, arrepiado da cabeça aos pés. Com o preto dos olhos grandes, e a respiração rapidinha. Encurralados e ofegantes.
Terminamos de conversar sobre a matéria depois do almoço, eu, Mestre Irineu e Capitão. Se eu soubesse que seria a última vez que os veria, teria ficado mais, teria perguntado o que tinha naqueles chás, perguntaria o segredo daquela calmaria e sabedoria toda, perguntaria mais sobre os detalhes das missões do Capitão Virgulino, e o que ele via no fundo dos olhos de seus inimigos.
Mas as duas caminhonetes passaram novamente pela vila, voando baixo como o carcará. Atiraram em Mestre Irineu e Capitão Virgulino desarmados, ainda sobrou tiro assassinando mais outros dois moradores. Mataram nossos líderes assim como sempre mandou a cartilha. Cortaram a vida do Mestre e do Capitão assim como cortaram a vida de Marielle, assim como mataram Antônio Conselheiro. A cabeça de Vila das Pedras foi exposta na escadaria da justiça, junto da de Lampião.
Nos dobramos em joelhos se debruçando sobre a terra e sobre os corpos. Com as lágrimas irrigando o chão seco. Com seus corpos em nossas mãos. Marias segurando seus messias.
Vinte e quatro horas após o assassinato, a polícia chegou a vila das Pedras e deu voz de prisão a todos os moradores, estávamos mortos por dentro. Me prenderam como “A líder dos revolucionários”. Fui levada em um carro separadamente. Disseram que eu era de alta periculosidade e era essencial que eu não me misturasse com os demais. Os adultos foram levados pra prisão aguardando julgamento, as crianças para um orfanato enquanto o julgamento não saía.
Mas o sertanejo antes de tudo é um forte. Fui tomada por um lume de liderança e descendo da viatura chegando a Salvador, avistei um muro de jornalistas de todo país. Todos sedentos por notícias. Jornais tendenciosos e imparciais, todos presentes. Desci do carro algemada, correndo em direção ao primeiro microfone que aparentemente estava ao vivo.
- Peguem a vagabunda! Ela está fugindo! - Dizia o fardado.
Ofegante e decidida, olhei pra câmera e disse as palavras que estavam entaladas por nossos moradores.
- Vila das Pedras não estava nos planos do presidente! Foi feito um corte de gastos e algumas cidades do país ficarão sem vacinas! As nossas vacinas foram cortadas. Descobrimos esse plano do próprio prefeito! Não roubamos, tomamos o que era nosso por direito! Nos escutem por favor! Mataram nossa gente, estão matando todos nós!
Sem mal conseguir terminar meu grito, fui tomada pelo braço e levada pra dentro da delegacia. Só não levei uma pisa dos policiais no quartinho porque minha amiga Amélia interveio e começou a gritar.
Me chamo Dandara. Espero que minhas palavras tenham ecoado pelo país. Sei que foram. Mestre Irineu e capitão Virgulino estarão em minha mente. Meu peito está tranquilo e lúcido. O primeiro passo foi dado, mas a guerra não acabou. Erguemos as mãos e fomos vistos.
Assim como a peste que de século em século insiste em voltar para assombrar a humanidade, os grandes acontecimentos históricos inacabados voltam do passado, em pendência com os homens.
[Felipe Leonardo]
