domingo, 22 de dezembro de 2019

Te ter





Antes de te ter,
Nos dias cinzas e frios,
 O céu era coberto de nuvens tristes,
E o vento gelado eram suas bufadas
De ter de conviver sem cores.

Hoje ao abrir a janela
O cinza me parece contente,
E o vento frio são assovios felizes
Das nuvens todas juntas.
Dançam no céu, abraçadas como algodões fofos.

Te ter mudou-me a realidade.




(Felipe Leonardo)

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Passado cor de poeira


       



  
'La luna pinta de plata
El grande rio y los valles,
Se oye el cantar del coyuyo
Escondido entre las ramas
Y los grillos suenan tristes,
De quien es la falsa calma?'




       Eram sete da noite de um domingo quando Senhor Gonzalo escutou um ronco ao longe. Parecia motor de carro. Seria normal se não fosse o fato de que há cinco dias, nenhum carro de passeio circulava pelos arredores, tirando as máquinas da lavoura da fazenda vizinha. O solitário morador daquela casa abandonada na região, franziu as sobrancelhas e apoiou levemente na mesa o mate que recém havia preparado. A água que pacientemente fervia no fogão à lenha, descia à cumbuca de mate como a luva desce à mão. O frio pelas longas noites nessa época do ano sempre é mais intenso em Cafayate, interior da Argentina. Ao longo do domingo ventou muito e a poeira, que já era característica o ano todo, deixava seus rastros nos móveis da pequena casinha. Provavelmente essa mesma poeira ficaria no mesmo local até o sábado próximo. Com exceção de suas medalhas da época do exército e seu fuzil Mauser, que limpava a cada minuto para tentar preservar o amadeirado brilhante que ele jurava que ainda existia. Mas a sujeira que incomodava Senhor Gonzalo era outra.
       O som do carro foi se aproximando e Juanito, seu cachorro, começou a latir mais alto. O pobre cãozinho quem lhe presenteou foi um amigo, para poder sanar a solidão e trazer um pouco de afago àquela alma já calejada com a vida.
Sua respiração ficou mais agitada, como quem pressente uma ameaça eminente por chegar. Ao levantar da cadeira, Gonzalo tropeçou na quina e teve que se apoiar na poltrona velha pra não ir ao chão. Ao abrir a porta um carro grande, desses utilitários, parou em frente. O farol de milha ligado iluminava a poeira que, levantando, reforçou ainda mais o clima neblinoso e duvidoso. Senhor Gonzalo olhava tudo do batente da porta e quando pensou em dizer algo, o vidro filmado abaixou lentamente.
- Boa noite! O senhor sabe dizer pra que lado fica Tucumán? Precisaria chegar por lá antes das dez...
- Siga sempre reto!
       O morador solitário respondeu brevemente, de maneira firme e desconfiada, e fechou a porta de supetão. Juanito continuou a latir até o carro desaparecer pela estrada de terra.
       Senhor Gonzalo chegou àquela cidade isolada por obrigação. Seus sessenta e quatro anos de vida carregavam histórias, sangue e memórias que nunca se foram. Quando mais jovem, foi um dos militares subordinados do General Rafael Videla que comandou a ditadura no país portenho. Ao fim do regime militar, vivia à base de fortes medicamentos e esporadicamente, tinha alucinações. Ainda assim, tentou seguir a vida com naturalidade com sua esposa e filha. Antes dos tempos sombrios tudo era mais calmo e tranquilo, mas o tempo tende a mudar as pessoas. Ideologias para mentes cegas são venenosas e rasteiras como um bicho peçonhento.
Segundo ele, sofria seguidas perseguições e ameaças de grupos extremos de esquerda que o pressionavam. Dizia que todas as noites, telefones tocavam com mensagens perturbadoras e vozes distorcidas pondo em cheque sua vida e de sua família;
- Boa noite, sargento. Dona Agustina está ansiosa por ver seu filho desaparecido. Diga-nos onde estão todos. Diga-nos!
       Gonzalo com medo do futuro e com um peso cutucando suas entranhas, numa madrugada do ano de 1985, fez suas malas e saiu sozinho em disparada com seu Renault Torino ao encontro do nada. Partiu intuitivamente com a intenção de enterrar as toneladas de consciência que afundavam sua cabeça no travesseiro.
Pela estrada, se entupia de remédios com a intenção de abreviar os maus momentos. Afinal, qual lado era o certo? Quem dizia a verdade?
       Lembrou-se dos tempos áureos, dos quartéis de Buenos Aires, época onde sentia o poder e a humanidade nas mãos. Este poder que o cegava da realidade. O poder que a opressão arrebata sobre as multidões e cala a voz das minorias. Lembrou-se também da oposição, dos baderneiros incansáveis que implicavam com a ordem imposta, com protestos e causas “burras”.
Hoje, este senhor sexagenário, em qual lado jogaria?
       O militar aposentado refez sua vida há quilômetros da capital, naquele vilarejo que ninguém o reconheceria. Casas antigas de alvenaria, poeira marrom da cor das montanhas que se via ao longe, bares, mercearias pacatas, e o folclore local. Não sabia mais quem era. Levou consigo dúvidas e doenças na alma que só o tempo curaria. Deixou pra trás sua família deliberadamente com a intenção de não contaminá-los.

- Mas você é um tipo muito do durão mesmo né, Gonzalo. Todo esse tempo por aqui, e mal sei sobre sua vida! – Perguntou Nicolás, seu único amigo que fizera desde que chegou por essas terras arenosas. O mesmo amigo que o presenteou com o cão Juanito.
- Bom que não saiba, amigo. Ainda estou a descobrindo.
Sua rotina diária era caminhar de sua casa até o bar todos os dias ao fim da tarde. Conhecia todos da vila. Tarefa fácil tendo em vista de que não eram muitos.
       Certo dia enquanto tomava sua cerveja, solitário olhando o pó da estrada, ouviu da mesa ao lado uma conversa estranha. Escutou que havia um grupo de homens que buscava uma pessoa em especial. Ouviram dizer no noticiário de que eram justiceiros em busca de vingança. Não sabiam ao certo por quem procuravam, mas eram violentos e já haviam torturado uma pessoa. Nesse exato momento Gonzalo tremia. Era como se as sensações da época das perseguições voltassem.
Terminou sua cerveja, deixou o pagamento em cima da mesa de aço e saiu em disparada para sua pequena casa. Foi caminhando de maneira rápida ofegante, com os olhos fixos e arregalados no horizonte.
       Ao chegar em casa, começou por fechar todas as janelas, pegou seu cãozinho pelos braços, colocou para dentro e trancou as portas. O cachorro não entendeu muito o que estava acontecendo e o olhava latindo com uma pose interrogativa.
Senhor Gonzalo passou a noite nessa situação. Não comeu e nem o mate se propôs a tomar. Ficou todo o tempo sentado na poltrona olhando para a porta fechada com seu fuzil carregado, tenso e em posição de combate. Enquanto mirava a porta, filmes passavam em sua mente. Lembrou-se de sua família como há tempos não lembrava e se permitiu sentir saudades, sentimento que há tempos não se recordava. Chorou copiosamente.
       O sol já raiava quando Juanito latia de fome. Gonzalo, já cansado, permitiu deixar o fuzil encostado ao lado para alimentar o cachorro.
Recém havia terminado de sentar-se de volta, quando escutou baterem fortemente em uma das janelas. Estava tão nervoso e ansioso que sequer escutou o que a voz dizia depois das batidas. Na terceira batida atirou contra a janela e ouviu gritos. Neste momento abriu a porta levemente e viu dois garotos correrem em disparada assustados, ao olhar para cima do telhado, viu uma pipa enroscada. Por sorte os meninos não foram atingidos.
       Trancou-se novamente em sua casa e voltou a refletir sobre tudo. Relembrou dos tempos de início na cidade de Cafayate quando um padre o convidou para se confessar e participar das missas. Na época a proposta parecia ser uma ajuda para a alma, talvez uma alento para o inexplicável. Um encontro com Deus nessa fase atual em que vivia seria interessante, para talvez ter uma luz ou quem sabe fugir do inferno. Voltou a avaliar a situação mas desistiu rapidamente. Parecia estúpido.
       Já haviam passado uma semana e Senhor Gonzalo mal comia. A casa já começava a ficar em estado fétido e verdadeiramente suja, com garrafas de cerveja largadas pelos cantos. Para Juanito, por sorte não faltava comida, embora mal vissem a luz do dia.
       Pela noite, enquanto dormia em sua cama suja de poeira, sonhava que estava em guerra. Se via numa linha de frente no centro de buenos Aires capturando pessoas e as jogando dentro de caminhões.
- Malditos comunistas, fora da Argentina, fora! Gritava a puros pulmões sonâmbulo.
       Foi em uma dessas gritarias à noite que Nicolás foi bater à porta de seu amigo. Mesmo morando há uma distância considerável de Gonzalo, o eco naquela região era alto e só competia com o som dos grilos. Nicolás chegou tenso, estacionou sua camionete e chamou por seu amigo incansavelmente. Depois de muito silêncio contínuo, só ouvia o latido do cachorro. Por fim arrombou a porta da casa do solitário morador a pontapés.
Encontrou sua casa revirada completamente suja. Senhor Gonzalo estava deitado ao lado do batente da cozinha com garrafas de bebidas e agarrado a frascos de remédios. Estava morto.
       Depois daquele incidente, o cachorro Juanito voltou ao seu dono original, e Nicolás, por respeito, fez questão de fazer um velório digno ao seu amigo que pouco conhecia, mas que tinha muito apreço. Semanas depois, por fim, foram capturados os tais justiceiros assassinos que assombravam a região. Eram matadores de aluguel que caçavam outro sujeito próximo de Catamarca.
       A loucura assombrou o então aposentado do exército Senhor Gonzalo, morto pelo peso insuportável de sua consciência. Perseguido por fantasmas e monstros vermelhos que nunca existiram. Não sabia, mas matava-se aos poucos desde que se alistara. Ideologias para mentes cegas, são venenosas e rasteiras como um bicho peçonhento.




Felipe Leonardo

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

O guerreiro de um olho só na terra de todos os santos




'Eu vi um camaradinho
Na região do cacau
Zombar de um corpo fechado
De reza e de ritual
Cordão de Ouro dizia
Com jeito mais natural
Quem guarda o santo de guarda
Adia o juízo final.'


Toque de Amazonas - P. C. Pinheiro

   


     Na terra de São Salvador o Brasil começa. Bahia de todos os santos, cidade de um corpo fechado por metro quadrado. Terra de pele grossa e calejada, como o couro dos tambores dos terreiros. O sorriso dessa gente é natural e empolgado como os sorrisos dos capoeiras antes do jogo. Como quem desde criança já sabe que a vida foi feita pra gingar, e se a gente bater de frente, ela nos derruba na rasteira. Painho sempre dizia que escorregamos da barriga de nossas mães já sabendo gingar; nossa cor reluz na noite de lua cheia, e brilha ao sol do meio dia. Temos sangue de Orixá. Somos filhos de rei!
    Mainha era devota do Santo Jorge guerreiro, e também amava e muito as festas de São João e não se aguentou, pôs meu nome de Jorge Batista.  As vielas do Pelourinho sempre foram meu quintal. Conheço cada paralelepípedo fincado neste chão. Por aqui a festa é sempre mais farta.  
   Quando eu era ainda menino, aprendi a capoeira com meu tio Tobias. Dizia que a arte era a essência do nosso povo. Povo que luta dançando tem que se respeitar. Me contava as histórias mais bonitas que tinha ouvido. Escutava sua voz grave e rouca no escuro da noite como um farol da alma. Ainda que fosse muito jovem, me identificava com aquelas palavras, e sei que serviriam pra mim num futuro. Histórias de seus avós escravos, dos deuses que tinham a mesma cor que eu, e dos guerreiros da capoeira. Esses últimos com mais intensidade me lembro bem. Me contava muito de Besouro Mangangá, o maior guerreiro de capoeira que já existiu. Tio dizia que Besouro jogava protegido por seus guias, e que não levava desaforo pra casa. Era exímio no jogo de Santa-Maria, jogo perigoso onde ponhava navalha nos pés. Segundo o Tio, Besouro só desafiava sujeitos folgados. Não aceitava injustiça de jeito nenhum, e seus oponentes tomavam é suadouro.
    Tinha na figura de Besouro meu ídolo. Era o super herói justiceiro que sempre sonhei ser. Saía pelas ruas dando rabo de arraia no vento fingindo ser ele. Como se os movimentos das pernas me pudessem fazer voar. Quando se é criança, voar é só questão de crer.  
    Numa dessa noites abafadas, me lembro da primeira vez que escutei um tambor. Era uma quarta-feira e todos em casa juntamente dos meus irmãos mais velhos, vestiam suas roupas brancas. Sempre os via vestidos assim nesse dia. Pela primeira vez, me levavam junto com eles. Eu estava ansioso que não me aguentava pra descobrir afinal o que todos faziam.
- Se aprume, jorge. Que hoje é dia de terreiro! – Dizia meu irmão Ernesto, com um sorriso de canto de boca.
    O semblante de todos era muito alegre e sério ao mesmo tempo, e o clima de respeito era único. Quando o primeiro camarada tocou o atabaque me arrepiei todo e por fim descobri que compareciam todos em comunhão para encontrar os tais Orixás.
    Com o passar do tempo fui me intimidando com aqueles seres que, a maioria das pessoas não via, mas sentia. As roupas brancas, e coloridas representavam minha ancestralidade e podia sentí-las. Sentir as entidades é como quando estamos de olhos fechados e uma pessoa respira perto de nós e sentimos o ventinho no braço, ou quando sentimos o calor delas. As almas estão ao nosso lado o tempo todo. Sem dúvidas, algumas estariam ao meu lado pra me ajudar nas batalhas da vida. Sem dúvidas, outras estariam pra me atrapalhar. Assim é a vida aqui, assim é a vida do lado de lá.
    A grande diferença é que as pessoas de pele e osso que nos atrapalham, nos aborrecem muito mais porque as vemos. Caso do tipo ocorreu em uma das rodas de capoeira que participava todos os sábados de tarde, depois do descanso de almoço. Armamos a roda em uma das esquinas do pelourinho e lá fazemos nossa festa, os turtistas param em peso pra nos ver, uns até querem participar e ficamos lá como uma vitrine cultural. Depois de meia horinha nos juntamos e vamos pro fundo do quintal de meu tio Tobias e lá fazemos nosso jogo. Não mais violento, embora mais sério e bem jogado!
    Nesse dia um rapaz novo havia entrado na roda. Alto, magro, cabelo crespo que nem o nosso, mas branco que nem leite. Recebemos muito bem todos por alí como uma família, mas esse camaradinho tinha algo muito de ruim. Seu olhar era baixo e fixo, quase que não piscava. Enquanto eu tocava o berimbau ele me olhava como que de canto de olho. Quando chegou minha vez de entrar no jogo, ele resolveu entrar também. Percebi a maneira agressiva dele de lutar, e quase que arrumamos confusão. Tio Tobias e o resto do povo tiveram que nos apartar.
- Óh Paí, tu é louco véi!? Onde já se viu meter essa força no pé! – Perguntei impetuoso
    Ele se calou e riu ironicamente saindo de fininho. Não viera sozinho, uns amigos o acompanhavam. Perguntei aos meus chegados mais próximos e nunca tinham visto o sujeito por alí. Só sabiam de seu nome; Tadeu.
    Naquele momento fiquei sem entender mas senti uma presença ruim do meu lado. Quase como uma ameaça. Orei a meus guias pedindo proteção.
    Passou-se a semana inteira e nem sinal do sujeito. Na noite da outra sexta-feita tive um sonho estranho. Me via lutando com ele na roda de capoeira. De seu lado, sombras voavam ao redor e me hipnotizavam. O chão era como se fosse todo em lama, e eu não conseguia parar em pé. Sussurros medonhos me atormentavam. Acordei suado e esbaforido dando rasteira no lençol.
    Ao sábado quando cheguei ele já estava por lá, como quem espera por mim. Nunca senti receio pra ir à roda com alguém. A capoeira era divertimento, tradição e respeito. Depois que o sujeito começou frequentar, fiquei até mais tímido. Povo todo comentava.
    A tarde estava quente e a maresia chegava até nós com a brisa. O mormaço baixou e eu suava mais que o normal. Quando chegou a vez de lutar contra meu carrasco misterioso, o clima não foi amistoso. Dei uma primeira esquiva, senti o pé do moço passar zunindo no meu ouvido. Ele revidou minha meia-lua e na volta me golpeou de supetão no rosto. Antes de apagar, ouvi a gritaria do povo e senti um estouro na vista esquerda tornando tudo branco.
    Nessas horas meu tio Tobias e meu camarada Ernesto que tomaram as rédeas. Eu fiquei caído no chão desacordado, enquanto eles dois corriam atrás do tal Tadeu, que depois do golpe dado, pulou o  muro e se meteu pro meio da mata. Caboclo covarde assim dá até pena. Desistiram de pegar o cabra quando olharam pra mim desacordado. Me levaram ao hospital o mais rápido possível às pressas com o povo todo alvoroçado. Juraram vingar o que fizeram comigo, mas essa vingança era minha, eles que se aquietassem.
    Nos três dias que fiquei internado meu tio e irmão foram prestar queixa na polícia. Na delegacia explicaram exatamente todo o ocorrido, levaram até testemunhas. Os policiais viram todos com roupas de capoeira e pensaram que estivéssemos brincando. Em plena Bahia atual, pra algumas pessoas a capoeira ainda é vadiagem. O negro não é levado a sério.
    Decidiram eles então buscar informação sobre Tadeu. Morava numa pensão pouco mais pro bairro, mas só encontraram um moço que dividia quarto com ele. Com um pouco de aperto o rapaz entregou tudo. Tadeu chegou de Feira de Santana recentemente. Parece que era de família rica, de posses. Veio pra cá meio que revoltoso pois seu pai não concordava com algumas coisas que fazia.
- Oxe, e que coisas assim tão feias ele fazia?
- Olhe, certeza eu não sei, mas povo diz que Tadeu tem a alma escura e mexe com uns santos de esquerda. Aquele lá é perigoso, cheio das magias ruins. Dizem que já matou um cabra lá pelos lados de Feira. Eu mesmo só converso o bom dia e boa noite e basta.
   Tio Tobias e meu irmão Ernesto saíram de lá pensativos. Tudo fazia mais sentido na cabeça deles pois o que eles desconfiavam, agora tinham certeza, esse tal Tadeu devia ter feito algum trabalho pra me lascar. Meus familiares até insinuaram fazer outro pra prejudicá-lo, eu falei que não. O mal feito a alguém, algum dia retornaria ao emissor em dobro. Creio na lei que nos rege e de mim só sai coisa boa.
   No dia da minha alta, os médicos deram o veredito. Perdi a vista esquerda e teria que me acostumar em ver o mundo só com a direita. Fiquei uma semana amoado na cama sem me levantar, olhando a janela do quarto onde o sol batia, escutando o som do carcará que viajava o sertão todo pra cantar na árvore do quintal. Era como se o pássaro me sacudisse com seu canto forte, como se fosse a voz de Ogum me sacudindo. A voz de meus guias sempre me sacudia.
    No sétimo dia tive um sonho. Vi Tadeu numa cabana no meio da mata pouco antes do brejo de São Cosme. Meu espírito de certo foi visitá-lo. Ele estava sozinho em reza com um monte de almas escuras ao redor. Meus guias me disseram que estava agradecendo ao trabalho feito. Ele tinha muita inveja da maneira como eu lutava e não queria me ver bem. Foi difícil pra eu entender isso.
    Acordei como quem já sabe de tudo, nunca dei muita atenção aos meus sonhos mas com o passar dos anos fui ficando ligeiro quanto a isso. Sentia as entidades que me protegiam. Sentir as entidades é como quando estamos de olhos fechados e uma pessoa respira perto de nós e sentimos o ventinho no braço.
    Acordei ansioso antes do sol nascer, preparei meu cuscuz com um café forte, vesti a primeira roupa que vi e fui ao encontro do caboclo. Fui a pé, sem pressa, como quem vai comprar pão. Me banhei de coragem, meus guias me acompanhavam e me sentia com o corpo fechado. Tinha a vista única, mas muitos olhos vigiavam meu caminho.
Ao chegar no local o susto que ele tomou foi tanto que ficou mais branco do que já era.
- Tá lembrado de mim, mano velho?
    Perguntei de maneira irônica e fui me aproximando. Ele foi indo pra trás como aqueles preás que a onça encurrala. Na árvore ao lado dele estava fincado um facão que de supetão ele arrancou e partiu pra cima de mim, cada golpe que ele tentava lançar, eu mesmo caolho, me esquivava com rapidez. Estávamos nós, eu e ele, sozinhos na mata com o dia recém raiado, dividindo o espaço entre pontapés e o canto dos passarinhos. Quem não tem nada a dever pras almas tem a consciência limpa e o pão do dia seguinte garantido. E assim fui para o combate sem temer.
    Na terceira tentativa de enfiar o facão em mim, agarrei seu braço e consegui desarmá-lo, foi quando ele, com um golpe baixo, me chutou entre as pernas. Caí no chão e gritei enquanto ele correu mata adentro.
    Nesse momento de delírio ouvi meus guias. Me disseram para eu esperar alí, naquele mesmo lugar e ter paciência. Por um momento pensei que estivessem brincando comigo. Passaram-se uma hora e meia e eu continuava lá, no esconderijo do cabra, só que sem ele.
    Foi quando a manhã já se aproximava do fim que escutei uns passos atrás da cabana. De duas uma; ou era um bicho perdido, ou o próprio Tadeu perdido. Subi em cima do galho do jatobá e fiquei na espreita. Pro meu espanto era o próprio Tadeu, que tinha andado em círculos e estava à deriva na mata, voltando ao mesmo lugar que saiu. Esperei o momento certo, pulei e o ataquei por cima. O golpe que dei o deixou desacordado. Por fim o peguei!
    Ao voltar pra cidade ninguém acreditava no que eu dissera. Meu tio Tobias apostava que tinha outro homem me ajudando a pegar o sujeito. Só conseguiram acreditar em mim quando o tal Tadeu abriu os olhos, me mirou espantado e começou a tremer. Contou tudo o que aconteceu com os queixos batendo de medo. Disse que eu tinha pacto com espírito ruim porque voava e lutava rápido com um olho só. Falou que Besouro Mangangá havia encarnado em mim.
    Uma semana depois o tal homem sumiu da cidade e nunca mais foi visto. Nas rodas de capoeira eu era chamado de Besouro voador. Por ironia da vida ganhei o apelido de meu ídolo maior. Perdi uma vista, mas ganhei a vigilância dos olhos dos Orixás.




Felipe Leonardo


domingo, 8 de dezembro de 2019

Nosso amor é um ser nascido






Nosso amor é um filho,
Um ser imaterial.
Com carinho e tempo o fizemos
Nós dois o inseminamos,
Nós dois o parimos.

Não tem pernas ou braços
Nem engatinha pelo piso,
Quando ele chora, eu e você choramos juntos,
E as dores se irradiam como raízes de árvores.

Quando ele ri e brinca,
Nosso interior se alegra
E nossos corações se esquentam
Como o aconchego de um chocolate quente.

Ele vive conosco.
Ora aparece sorrindo em suas retinas,
Ora brinca de se esconder em meu sorriso.
Por vezes me abraça com seus braços,
Outras vezes com teus lábios diz as coisas mais ternas.

Sua forma não-humana é delicada,
E sua sutileza divina emociona.
É feito de sentimentos e refinadas energias,
Carece de afeto e respeito constante.

E com o passar dos anos
Ele nos preenche como for.
Quando nos encontramos, levitamos
Deixamos de ser humanos
Para sermos inteiros Amor.




Felipe Leonardo