sábado, 30 de junho de 2018

A menina que sorria para o vento





Há uma criança correndo pela relva
Seus passos abafados na grama
Ecoam ao meio dia.

Suas gargalhadas no início de tarde
Soam a quilômetros de distância,
E despertam quem as escuta.

Sua liberdade impressiona!
Seus pés descalços sujos de terra
Desafiam a vizinhança.

Seu olhar entusiasmado,
Parece dar vida a coisas inanimadas,
E a menina passa cumprimentando pedras e rios...

Leva consigo flores numa cesta,
E um livro debaixo dos braços
Para contar histórias aos bem-te-vis.

Ela jura que as aves a entendem.
Diz que o cantar dos pássaros depois das histórias,
São comentários que fazem entre sí.

As crianças da aldeia a julgam de louca.
Dizem que a menina fala sozinha ao pé da arvore,
E que sorri para o vento.

Mas não entendem que a terra quando toca seus pés
E o vento quando encontra seu rosto,
Provocam cócegas insuportáveis.

- Continue, pequena, sorria!
Seja o sol do meio dia.
Flores e historinhas
É o que levaremos dessa vida.



(Felipe Leonardo)

quarta-feira, 27 de junho de 2018

O sonho




Em uma segunda feira atribulada,
Cinzenta como todas as outras,
Deito-me ao comprido na cama
Na breve hora do almoço.

Fecho os olhos na esperança de fugir,
E pela janela entreaberta,
Sinto o vento e o sol a tocar minha pele,
E experimento nesses sentidos
A libertação contente da alma.

Pela mesma janela a alma voa.
Fecho as pálpebras deste mundo
E abro as do além,
E meu paraíso se torna visível.

Lá é sempre sol das nove horas,
Verde e flores por toda parte,
Pássaros coloridos, danças,
Uma calma brisa perfumada,
Sorrisos e vozes mansas.

Ouço uma voz familiar que me chama.
Suspiro. Desperto consciente e humano,
Sacudindo o pó e o sono,
Frustrado de ter voltado.

O paraíso está em nós,
Mas a realidade nos cega.



(Felipe Leonardo)

terça-feira, 26 de junho de 2018

1995





Era pra eu ter nascido louco.
Mas deu-me Deus, uma consciência opaca,
Uma vida de sonhos, e uns olhos míopes,
A fim de não me assustar com a nitidez da vida.

Era pra eu ter nascido louco.
Mas acordei lúcido,
Com os olhos arregalados de susto,
Com o peso de cem vidas passadas,
E com ganas de escrever a qualquer custo.

Era pra eu ter nascido louco.
Mas de última hora me fizeram poeta,
O que não faz muita diferença.



(Felipe Leonardo)