quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Bagunça




Meu quarto parece ter vida própria
Já é de mim uma extensão.
Se já não bastassem as letras soltas na mente,
Que avulsas me atormentam,
Tenho que conviver com as palavras soltas onde durmo,
E ouvir as queixas dos móveis que ali estão!

A bagunça por lá anda feia!
Todo dia uma discussão.
Cômodas embriagadas de ler Pessoa,
Cabides discutindo métricas à toa,
Porta retratos desorientados com um tal verso largado,
Gavetas boquiabertas, pasmadas com Jorge Amado,
E janelas apaixonadas de tanto ouvir Castro Alves.
Mal sei por onde ajudá-los!



(Felipe Leonardo)


domingo, 25 de fevereiro de 2018

Sobre o amor e suas leseiras





Amar é entregar-se.
Entregas mútuas de consciência,
Casal de cegos que se agarram em meio ao tiroteio.
Almas embriagadas que pensam sem procedência.

Amar é mistério entre almas,
Livres de gênero ou opção.
Quando se juntam entram em transe
Dançam a mesma música, ainda que não escutem a canção.

Amar é dar morte ao mundo,
Enquanto o universo vive dentro de ti.
É mergulhar deliberadamente
No abismo do sentir.

Amar é o estado puro de alma,
É viver com o estômago cheio de poesia.
É deixar em segundo lugar a malícia,
Enforcar de vez o egoísmo que tinhas.

Amar é renunciar o gênio,
Sentir-se alheio aos outros.
É suicídio da razão.
É abrir mão da realidade.
É a vitória do coração.




(Felipe Leonardo)

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Pela noite adentro




E quando a noite já estiver alta,
Quando o asfalto refletir o sereno
E a lua em seu auge, clarear,
Beije-me para me escurecer.

Quando as pernas se cansarem
De sustentar nossos corpos na dança,
E o cansaço fazer presença,
Beije-me para que eu rejuvenesça.

Quando a noite boêmia,
Em seu marasmo embriagado
O último eco silenciar,
Beije-me para me acordar.

E quando o dia nascer,
A festa morrer,
E a hora da despedida se aprontar,
Beije-me para que eu nunca te despeça.



(Felipe Leonardo)