domingo, 22 de dezembro de 2019

Te ter





Antes de te ter,
Nos dias cinzas e frios,
 O céu era coberto de nuvens tristes,
E o vento gelado eram suas bufadas
De ter de conviver sem cores.

Hoje ao abrir a janela
O cinza me parece contente,
E o vento frio são assovios felizes
Das nuvens todas juntas.
Dançam no céu, abraçadas como algodões fofos.

Te ter mudou-me a realidade.




(Felipe Leonardo)

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Passado cor de poeira


       



  
'La luna pinta de plata
El grande rio y los valles,
Se oye el cantar del coyuyo
Escondido entre las ramas
Y los grillos suenan tristes,
De quien es la falsa calma?'




       Eram sete da noite de um domingo quando Senhor Gonzalo escutou um ronco ao longe. Parecia motor de carro. Seria normal se não fosse o fato de que há cinco dias, nenhum carro de passeio circulava pelos arredores, tirando as máquinas da lavoura da fazenda vizinha. O solitário morador daquela casa abandonada na região, franziu as sobrancelhas e apoiou levemente na mesa o mate que recém havia preparado. A água que pacientemente fervia no fogão à lenha, descia à cumbuca de mate como a luva desce à mão. O frio pelas longas noites nessa época do ano sempre é mais intenso em Cafayate, interior da Argentina. Ao longo do domingo ventou muito e a poeira, que já era característica o ano todo, deixava seus rastros nos móveis da pequena casinha. Provavelmente essa mesma poeira ficaria no mesmo local até o sábado próximo. Com exceção de suas medalhas da época do exército e seu fuzil Mauser, que limpava a cada minuto para tentar preservar o amadeirado brilhante que ele jurava que ainda existia. Mas a sujeira que incomodava Senhor Gonzalo era outra.
       O som do carro foi se aproximando e Juanito, seu cachorro, começou a latir mais alto. O pobre cãozinho quem lhe presenteou foi um amigo, para poder sanar a solidão e trazer um pouco de afago àquela alma já calejada com a vida.
Sua respiração ficou mais agitada, como quem pressente uma ameaça eminente por chegar. Ao levantar da cadeira, Gonzalo tropeçou na quina e teve que se apoiar na poltrona velha pra não ir ao chão. Ao abrir a porta um carro grande, desses utilitários, parou em frente. O farol de milha ligado iluminava a poeira que, levantando, reforçou ainda mais o clima neblinoso e duvidoso. Senhor Gonzalo olhava tudo do batente da porta e quando pensou em dizer algo, o vidro filmado abaixou lentamente.
- Boa noite! O senhor sabe dizer pra que lado fica Tucumán? Precisaria chegar por lá antes das dez...
- Siga sempre reto!
       O morador solitário respondeu brevemente, de maneira firme e desconfiada, e fechou a porta de supetão. Juanito continuou a latir até o carro desaparecer pela estrada de terra.
       Senhor Gonzalo chegou àquela cidade isolada por obrigação. Seus sessenta e quatro anos de vida carregavam histórias, sangue e memórias que nunca se foram. Quando mais jovem, foi um dos militares subordinados do General Rafael Videla que comandou a ditadura no país portenho. Ao fim do regime militar, vivia à base de fortes medicamentos e esporadicamente, tinha alucinações. Ainda assim, tentou seguir a vida com naturalidade com sua esposa e filha. Antes dos tempos sombrios tudo era mais calmo e tranquilo, mas o tempo tende a mudar as pessoas. Ideologias para mentes cegas são venenosas e rasteiras como um bicho peçonhento.
Segundo ele, sofria seguidas perseguições e ameaças de grupos extremos de esquerda que o pressionavam. Dizia que todas as noites, telefones tocavam com mensagens perturbadoras e vozes distorcidas pondo em cheque sua vida e de sua família;
- Boa noite, sargento. Dona Agustina está ansiosa por ver seu filho desaparecido. Diga-nos onde estão todos. Diga-nos!
       Gonzalo com medo do futuro e com um peso cutucando suas entranhas, numa madrugada do ano de 1985, fez suas malas e saiu sozinho em disparada com seu Renault Torino ao encontro do nada. Partiu intuitivamente com a intenção de enterrar as toneladas de consciência que afundavam sua cabeça no travesseiro.
Pela estrada, se entupia de remédios com a intenção de abreviar os maus momentos. Afinal, qual lado era o certo? Quem dizia a verdade?
       Lembrou-se dos tempos áureos, dos quartéis de Buenos Aires, época onde sentia o poder e a humanidade nas mãos. Este poder que o cegava da realidade. O poder que a opressão arrebata sobre as multidões e cala a voz das minorias. Lembrou-se também da oposição, dos baderneiros incansáveis que implicavam com a ordem imposta, com protestos e causas “burras”.
Hoje, este senhor sexagenário, em qual lado jogaria?
       O militar aposentado refez sua vida há quilômetros da capital, naquele vilarejo que ninguém o reconheceria. Casas antigas de alvenaria, poeira marrom da cor das montanhas que se via ao longe, bares, mercearias pacatas, e o folclore local. Não sabia mais quem era. Levou consigo dúvidas e doenças na alma que só o tempo curaria. Deixou pra trás sua família deliberadamente com a intenção de não contaminá-los.

- Mas você é um tipo muito do durão mesmo né, Gonzalo. Todo esse tempo por aqui, e mal sei sobre sua vida! – Perguntou Nicolás, seu único amigo que fizera desde que chegou por essas terras arenosas. O mesmo amigo que o presenteou com o cão Juanito.
- Bom que não saiba, amigo. Ainda estou a descobrindo.
Sua rotina diária era caminhar de sua casa até o bar todos os dias ao fim da tarde. Conhecia todos da vila. Tarefa fácil tendo em vista de que não eram muitos.
       Certo dia enquanto tomava sua cerveja, solitário olhando o pó da estrada, ouviu da mesa ao lado uma conversa estranha. Escutou que havia um grupo de homens que buscava uma pessoa em especial. Ouviram dizer no noticiário de que eram justiceiros em busca de vingança. Não sabiam ao certo por quem procuravam, mas eram violentos e já haviam torturado uma pessoa. Nesse exato momento Gonzalo tremia. Era como se as sensações da época das perseguições voltassem.
Terminou sua cerveja, deixou o pagamento em cima da mesa de aço e saiu em disparada para sua pequena casa. Foi caminhando de maneira rápida ofegante, com os olhos fixos e arregalados no horizonte.
       Ao chegar em casa, começou por fechar todas as janelas, pegou seu cãozinho pelos braços, colocou para dentro e trancou as portas. O cachorro não entendeu muito o que estava acontecendo e o olhava latindo com uma pose interrogativa.
Senhor Gonzalo passou a noite nessa situação. Não comeu e nem o mate se propôs a tomar. Ficou todo o tempo sentado na poltrona olhando para a porta fechada com seu fuzil carregado, tenso e em posição de combate. Enquanto mirava a porta, filmes passavam em sua mente. Lembrou-se de sua família como há tempos não lembrava e se permitiu sentir saudades, sentimento que há tempos não se recordava. Chorou copiosamente.
       O sol já raiava quando Juanito latia de fome. Gonzalo, já cansado, permitiu deixar o fuzil encostado ao lado para alimentar o cachorro.
Recém havia terminado de sentar-se de volta, quando escutou baterem fortemente em uma das janelas. Estava tão nervoso e ansioso que sequer escutou o que a voz dizia depois das batidas. Na terceira batida atirou contra a janela e ouviu gritos. Neste momento abriu a porta levemente e viu dois garotos correrem em disparada assustados, ao olhar para cima do telhado, viu uma pipa enroscada. Por sorte os meninos não foram atingidos.
       Trancou-se novamente em sua casa e voltou a refletir sobre tudo. Relembrou dos tempos de início na cidade de Cafayate quando um padre o convidou para se confessar e participar das missas. Na época a proposta parecia ser uma ajuda para a alma, talvez uma alento para o inexplicável. Um encontro com Deus nessa fase atual em que vivia seria interessante, para talvez ter uma luz ou quem sabe fugir do inferno. Voltou a avaliar a situação mas desistiu rapidamente. Parecia estúpido.
       Já haviam passado uma semana e Senhor Gonzalo mal comia. A casa já começava a ficar em estado fétido e verdadeiramente suja, com garrafas de cerveja largadas pelos cantos. Para Juanito, por sorte não faltava comida, embora mal vissem a luz do dia.
       Pela noite, enquanto dormia em sua cama suja de poeira, sonhava que estava em guerra. Se via numa linha de frente no centro de buenos Aires capturando pessoas e as jogando dentro de caminhões.
- Malditos comunistas, fora da Argentina, fora! Gritava a puros pulmões sonâmbulo.
       Foi em uma dessas gritarias à noite que Nicolás foi bater à porta de seu amigo. Mesmo morando há uma distância considerável de Gonzalo, o eco naquela região era alto e só competia com o som dos grilos. Nicolás chegou tenso, estacionou sua camionete e chamou por seu amigo incansavelmente. Depois de muito silêncio contínuo, só ouvia o latido do cachorro. Por fim arrombou a porta da casa do solitário morador a pontapés.
Encontrou sua casa revirada completamente suja. Senhor Gonzalo estava deitado ao lado do batente da cozinha com garrafas de bebidas e agarrado a frascos de remédios. Estava morto.
       Depois daquele incidente, o cachorro Juanito voltou ao seu dono original, e Nicolás, por respeito, fez questão de fazer um velório digno ao seu amigo que pouco conhecia, mas que tinha muito apreço. Semanas depois, por fim, foram capturados os tais justiceiros assassinos que assombravam a região. Eram matadores de aluguel que caçavam outro sujeito próximo de Catamarca.
       A loucura assombrou o então aposentado do exército Senhor Gonzalo, morto pelo peso insuportável de sua consciência. Perseguido por fantasmas e monstros vermelhos que nunca existiram. Não sabia, mas matava-se aos poucos desde que se alistara. Ideologias para mentes cegas, são venenosas e rasteiras como um bicho peçonhento.




Felipe Leonardo

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

O guerreiro de um olho só na terra de todos os santos




'Eu vi um camaradinho
Na região do cacau
Zombar de um corpo fechado
De reza e de ritual
Cordão de Ouro dizia
Com jeito mais natural
Quem guarda o santo de guarda
Adia o juízo final.'


Toque de Amazonas - P. C. Pinheiro

   


     Na terra de São Salvador o Brasil começa. Bahia de todos os santos, cidade de um corpo fechado por metro quadrado. Terra de pele grossa e calejada, como o couro dos tambores dos terreiros. O sorriso dessa gente é natural e empolgado como os sorrisos dos capoeiras antes do jogo. Como quem desde criança já sabe que a vida foi feita pra gingar, e se a gente bater de frente, ela nos derruba na rasteira. Painho sempre dizia que escorregamos da barriga de nossas mães já sabendo gingar; nossa cor reluz na noite de lua cheia, e brilha ao sol do meio dia. Temos sangue de Orixá. Somos filhos de rei!
    Mainha era devota do Santo Jorge guerreiro, e também amava e muito as festas de São João e não se aguentou, pôs meu nome de Jorge Batista.  As vielas do Pelourinho sempre foram meu quintal. Conheço cada paralelepípedo fincado neste chão. Por aqui a festa é sempre mais farta.  
   Quando eu era ainda menino, aprendi a capoeira com meu tio Tobias. Dizia que a arte era a essência do nosso povo. Povo que luta dançando tem que se respeitar. Me contava as histórias mais bonitas que tinha ouvido. Escutava sua voz grave e rouca no escuro da noite como um farol da alma. Ainda que fosse muito jovem, me identificava com aquelas palavras, e sei que serviriam pra mim num futuro. Histórias de seus avós escravos, dos deuses que tinham a mesma cor que eu, e dos guerreiros da capoeira. Esses últimos com mais intensidade me lembro bem. Me contava muito de Besouro Mangangá, o maior guerreiro de capoeira que já existiu. Tio dizia que Besouro jogava protegido por seus guias, e que não levava desaforo pra casa. Era exímio no jogo de Santa-Maria, jogo perigoso onde ponhava navalha nos pés. Segundo o Tio, Besouro só desafiava sujeitos folgados. Não aceitava injustiça de jeito nenhum, e seus oponentes tomavam é suadouro.
    Tinha na figura de Besouro meu ídolo. Era o super herói justiceiro que sempre sonhei ser. Saía pelas ruas dando rabo de arraia no vento fingindo ser ele. Como se os movimentos das pernas me pudessem fazer voar. Quando se é criança, voar é só questão de crer.  
    Numa dessa noites abafadas, me lembro da primeira vez que escutei um tambor. Era uma quarta-feira e todos em casa juntamente dos meus irmãos mais velhos, vestiam suas roupas brancas. Sempre os via vestidos assim nesse dia. Pela primeira vez, me levavam junto com eles. Eu estava ansioso que não me aguentava pra descobrir afinal o que todos faziam.
- Se aprume, jorge. Que hoje é dia de terreiro! – Dizia meu irmão Ernesto, com um sorriso de canto de boca.
    O semblante de todos era muito alegre e sério ao mesmo tempo, e o clima de respeito era único. Quando o primeiro camarada tocou o atabaque me arrepiei todo e por fim descobri que compareciam todos em comunhão para encontrar os tais Orixás.
    Com o passar do tempo fui me intimidando com aqueles seres que, a maioria das pessoas não via, mas sentia. As roupas brancas, e coloridas representavam minha ancestralidade e podia sentí-las. Sentir as entidades é como quando estamos de olhos fechados e uma pessoa respira perto de nós e sentimos o ventinho no braço, ou quando sentimos o calor delas. As almas estão ao nosso lado o tempo todo. Sem dúvidas, algumas estariam ao meu lado pra me ajudar nas batalhas da vida. Sem dúvidas, outras estariam pra me atrapalhar. Assim é a vida aqui, assim é a vida do lado de lá.
    A grande diferença é que as pessoas de pele e osso que nos atrapalham, nos aborrecem muito mais porque as vemos. Caso do tipo ocorreu em uma das rodas de capoeira que participava todos os sábados de tarde, depois do descanso de almoço. Armamos a roda em uma das esquinas do pelourinho e lá fazemos nossa festa, os turtistas param em peso pra nos ver, uns até querem participar e ficamos lá como uma vitrine cultural. Depois de meia horinha nos juntamos e vamos pro fundo do quintal de meu tio Tobias e lá fazemos nosso jogo. Não mais violento, embora mais sério e bem jogado!
    Nesse dia um rapaz novo havia entrado na roda. Alto, magro, cabelo crespo que nem o nosso, mas branco que nem leite. Recebemos muito bem todos por alí como uma família, mas esse camaradinho tinha algo muito de ruim. Seu olhar era baixo e fixo, quase que não piscava. Enquanto eu tocava o berimbau ele me olhava como que de canto de olho. Quando chegou minha vez de entrar no jogo, ele resolveu entrar também. Percebi a maneira agressiva dele de lutar, e quase que arrumamos confusão. Tio Tobias e o resto do povo tiveram que nos apartar.
- Óh Paí, tu é louco véi!? Onde já se viu meter essa força no pé! – Perguntei impetuoso
    Ele se calou e riu ironicamente saindo de fininho. Não viera sozinho, uns amigos o acompanhavam. Perguntei aos meus chegados mais próximos e nunca tinham visto o sujeito por alí. Só sabiam de seu nome; Tadeu.
    Naquele momento fiquei sem entender mas senti uma presença ruim do meu lado. Quase como uma ameaça. Orei a meus guias pedindo proteção.
    Passou-se a semana inteira e nem sinal do sujeito. Na noite da outra sexta-feita tive um sonho estranho. Me via lutando com ele na roda de capoeira. De seu lado, sombras voavam ao redor e me hipnotizavam. O chão era como se fosse todo em lama, e eu não conseguia parar em pé. Sussurros medonhos me atormentavam. Acordei suado e esbaforido dando rasteira no lençol.
    Ao sábado quando cheguei ele já estava por lá, como quem espera por mim. Nunca senti receio pra ir à roda com alguém. A capoeira era divertimento, tradição e respeito. Depois que o sujeito começou frequentar, fiquei até mais tímido. Povo todo comentava.
    A tarde estava quente e a maresia chegava até nós com a brisa. O mormaço baixou e eu suava mais que o normal. Quando chegou a vez de lutar contra meu carrasco misterioso, o clima não foi amistoso. Dei uma primeira esquiva, senti o pé do moço passar zunindo no meu ouvido. Ele revidou minha meia-lua e na volta me golpeou de supetão no rosto. Antes de apagar, ouvi a gritaria do povo e senti um estouro na vista esquerda tornando tudo branco.
    Nessas horas meu tio Tobias e meu camarada Ernesto que tomaram as rédeas. Eu fiquei caído no chão desacordado, enquanto eles dois corriam atrás do tal Tadeu, que depois do golpe dado, pulou o  muro e se meteu pro meio da mata. Caboclo covarde assim dá até pena. Desistiram de pegar o cabra quando olharam pra mim desacordado. Me levaram ao hospital o mais rápido possível às pressas com o povo todo alvoroçado. Juraram vingar o que fizeram comigo, mas essa vingança era minha, eles que se aquietassem.
    Nos três dias que fiquei internado meu tio e irmão foram prestar queixa na polícia. Na delegacia explicaram exatamente todo o ocorrido, levaram até testemunhas. Os policiais viram todos com roupas de capoeira e pensaram que estivéssemos brincando. Em plena Bahia atual, pra algumas pessoas a capoeira ainda é vadiagem. O negro não é levado a sério.
    Decidiram eles então buscar informação sobre Tadeu. Morava numa pensão pouco mais pro bairro, mas só encontraram um moço que dividia quarto com ele. Com um pouco de aperto o rapaz entregou tudo. Tadeu chegou de Feira de Santana recentemente. Parece que era de família rica, de posses. Veio pra cá meio que revoltoso pois seu pai não concordava com algumas coisas que fazia.
- Oxe, e que coisas assim tão feias ele fazia?
- Olhe, certeza eu não sei, mas povo diz que Tadeu tem a alma escura e mexe com uns santos de esquerda. Aquele lá é perigoso, cheio das magias ruins. Dizem que já matou um cabra lá pelos lados de Feira. Eu mesmo só converso o bom dia e boa noite e basta.
   Tio Tobias e meu irmão Ernesto saíram de lá pensativos. Tudo fazia mais sentido na cabeça deles pois o que eles desconfiavam, agora tinham certeza, esse tal Tadeu devia ter feito algum trabalho pra me lascar. Meus familiares até insinuaram fazer outro pra prejudicá-lo, eu falei que não. O mal feito a alguém, algum dia retornaria ao emissor em dobro. Creio na lei que nos rege e de mim só sai coisa boa.
   No dia da minha alta, os médicos deram o veredito. Perdi a vista esquerda e teria que me acostumar em ver o mundo só com a direita. Fiquei uma semana amoado na cama sem me levantar, olhando a janela do quarto onde o sol batia, escutando o som do carcará que viajava o sertão todo pra cantar na árvore do quintal. Era como se o pássaro me sacudisse com seu canto forte, como se fosse a voz de Ogum me sacudindo. A voz de meus guias sempre me sacudia.
    No sétimo dia tive um sonho. Vi Tadeu numa cabana no meio da mata pouco antes do brejo de São Cosme. Meu espírito de certo foi visitá-lo. Ele estava sozinho em reza com um monte de almas escuras ao redor. Meus guias me disseram que estava agradecendo ao trabalho feito. Ele tinha muita inveja da maneira como eu lutava e não queria me ver bem. Foi difícil pra eu entender isso.
    Acordei como quem já sabe de tudo, nunca dei muita atenção aos meus sonhos mas com o passar dos anos fui ficando ligeiro quanto a isso. Sentia as entidades que me protegiam. Sentir as entidades é como quando estamos de olhos fechados e uma pessoa respira perto de nós e sentimos o ventinho no braço.
    Acordei ansioso antes do sol nascer, preparei meu cuscuz com um café forte, vesti a primeira roupa que vi e fui ao encontro do caboclo. Fui a pé, sem pressa, como quem vai comprar pão. Me banhei de coragem, meus guias me acompanhavam e me sentia com o corpo fechado. Tinha a vista única, mas muitos olhos vigiavam meu caminho.
Ao chegar no local o susto que ele tomou foi tanto que ficou mais branco do que já era.
- Tá lembrado de mim, mano velho?
    Perguntei de maneira irônica e fui me aproximando. Ele foi indo pra trás como aqueles preás que a onça encurrala. Na árvore ao lado dele estava fincado um facão que de supetão ele arrancou e partiu pra cima de mim, cada golpe que ele tentava lançar, eu mesmo caolho, me esquivava com rapidez. Estávamos nós, eu e ele, sozinhos na mata com o dia recém raiado, dividindo o espaço entre pontapés e o canto dos passarinhos. Quem não tem nada a dever pras almas tem a consciência limpa e o pão do dia seguinte garantido. E assim fui para o combate sem temer.
    Na terceira tentativa de enfiar o facão em mim, agarrei seu braço e consegui desarmá-lo, foi quando ele, com um golpe baixo, me chutou entre as pernas. Caí no chão e gritei enquanto ele correu mata adentro.
    Nesse momento de delírio ouvi meus guias. Me disseram para eu esperar alí, naquele mesmo lugar e ter paciência. Por um momento pensei que estivessem brincando comigo. Passaram-se uma hora e meia e eu continuava lá, no esconderijo do cabra, só que sem ele.
    Foi quando a manhã já se aproximava do fim que escutei uns passos atrás da cabana. De duas uma; ou era um bicho perdido, ou o próprio Tadeu perdido. Subi em cima do galho do jatobá e fiquei na espreita. Pro meu espanto era o próprio Tadeu, que tinha andado em círculos e estava à deriva na mata, voltando ao mesmo lugar que saiu. Esperei o momento certo, pulei e o ataquei por cima. O golpe que dei o deixou desacordado. Por fim o peguei!
    Ao voltar pra cidade ninguém acreditava no que eu dissera. Meu tio Tobias apostava que tinha outro homem me ajudando a pegar o sujeito. Só conseguiram acreditar em mim quando o tal Tadeu abriu os olhos, me mirou espantado e começou a tremer. Contou tudo o que aconteceu com os queixos batendo de medo. Disse que eu tinha pacto com espírito ruim porque voava e lutava rápido com um olho só. Falou que Besouro Mangangá havia encarnado em mim.
    Uma semana depois o tal homem sumiu da cidade e nunca mais foi visto. Nas rodas de capoeira eu era chamado de Besouro voador. Por ironia da vida ganhei o apelido de meu ídolo maior. Perdi uma vista, mas ganhei a vigilância dos olhos dos Orixás.




Felipe Leonardo


domingo, 8 de dezembro de 2019

Nosso amor é um ser nascido






Nosso amor é um filho,
Um ser imaterial.
Com carinho e tempo o fizemos
Nós dois o inseminamos,
Nós dois o parimos.

Não tem pernas ou braços
Nem engatinha pelo piso,
Quando ele chora, eu e você choramos juntos,
E as dores se irradiam como raízes de árvores.

Quando ele ri e brinca,
Nosso interior se alegra
E nossos corações se esquentam
Como o aconchego de um chocolate quente.

Ele vive conosco.
Ora aparece sorrindo em suas retinas,
Ora brinca de se esconder em meu sorriso.
Por vezes me abraça com seus braços,
Outras vezes com teus lábios diz as coisas mais ternas.

Sua forma não-humana é delicada,
E sua sutileza divina emociona.
É feito de sentimentos e refinadas energias,
Carece de afeto e respeito constante.

E com o passar dos anos
Ele nos preenche como for.
Quando nos encontramos, levitamos
Deixamos de ser humanos
Para sermos inteiros Amor.




Felipe Leonardo

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Faroeste tropical



    As memórias mais quentes que tenho em mente, dos tempos de criança pequena, eram os filmes de faroeste que meu pai e meus tios viam naquele tubo brilhante hipnotizador. Nas noites de domingo aquilo era sagrado quase como lei.  Na penumbra da sala, as sombras que as lamparinas de querosene faziam, tremulavam na parede, e o cheiro da fuligem me remetia à guerra. Cavalos, chapéus, barulhos de balas resvalando em tudo que é lado, e a luz da TV refletida nas retinas de todos atentos.
    Me chamo Pedro dos Santos e Deus quis que eu nascesse em uma país gigante pela própria natureza, assim como diz o hino. Mas às vezes não me sinto brasileiro. O país de verdade fica nos litorais e nas capitais. Lá sim é cheio de gente. Vai ver esse povo é mais esperto, como quem sabendo dos problemas que existem, prefere viver perto do mar porque é mais fácil de fugir.
    O Brasil que importa é o dos prédios altos, dos ternos e vestidos luxuosos, do egoísmo acumulado, onde o dinheiro vive. O resto é resto. Moro na terra onde a lei quem faz é quem possui mais bala na agulha. Moro no norte do Brasil, o velho oeste dos trópicos.

    Fui nascido e criado na cidade de Jirau, interior de Rondônia, pra mim o mundo sempre foi esse. Mato, calor, riachos e as conversas que ouvia de meus tios. Conversas na maioria das vezes um tanto violentas. Mas quando menino, tudo pra gente é romantizado e bonito.  
   Lembro-me quando num desses dias dezenove de abril na escola, a turma toda se mobilizou com o incentivo da diretoria para comemorar o dia do índio.  Aprendi nas festas de família e nas rodas de conversa em casa de que índio não era bem vindo. Meu tio Galdino sempre comentava com alguém quando lia os jornais:

- Esses índios são todos vagabundos. Só dançam e gritam. Ocupam terra e não deixam a gente trabalhar pra ganhar nosso pão!

    Chegando à escola, perguntei para a professora o motivo dessa celebração, se ninguém gostava de índio... Minha professora em questão naquele dia chorava enquanto nos ajudava a fazer alguns pequenos cocares em comemoração ao dia. Ela morava num lugar que naquela época nunca soube ao certo, lá depois do rio Madeira. Atravessava as águas num barco pra nos ensinar. Tinha sobrenome estranho. Aruá. Sônia Aruá.
    Ela chorava, pois dizia que seu pai havia sido assassinado na noite anterior por defender terras indígenas. Dizia isso baixinho quase como em segredo. Como se o mundo ao redor não pudesse ouvir um choro de dor. Ela desabava enquanto me ajudava a fazer os artesanatos.  Descobri naquele dia que a professora que mais gostava na escola era indígena. Se meus pais soubessem disso, arrumariam encrenca na hora. Em minha cabeça ainda jovem, tudo se embaralhou. Mas a indagação ainda pairou por muito tempo em minha mente. Por que ninguém gostava dessa gente cor de cobre e olhos puxados?

    Conforme cresci, ganhei lucidez. Com uns doze anos de idade, a ingenuidade e a doçura aos poucos foram dando lugar à nitidez de vista e a necessidade de trabalhar pra ajudar a família. Não nasci em família rica, ao contrário de meu colega na época, o Julinho. Ele era filho de um grande fazendeiro da região, muito bem falado, que comandava boa parte das terras vizinhas, e cada ano que passava, aparecia mais rico. Uma camionete nova aqui, com a fivela mais brilhante ali, com um dente de ouro aqui... Era o Seu Cristóvão, sujeito esse que futuramente iria mostrar todos seus dentes.
    Julinho em questão era todo metido. Não gostava de brincar no barro, e quando sujava, voltava pra fazenda pra mãe trocar sua camiseta. Meus pais prezavam muito pela nossa amizade, e na época descobri. Ter essa proximidade com a família mais poderosa da região era promessa de coisa boa pra nós. Mas na realidade, Julinho pra mim nem fedia nem cheirava. Brincava com ele pois calhava.
   Às tardes quando terminávamos de almoçar, saíamos pra caçar lebre. Nós mesmos fazíamos as arapucas com pedaço de madeira, restos de rede de pescador e pedrinhas. Deixávamos pronta de modo que quando viéssemos no outro dia, o bichinho já estivesse lá. Chegando à arapuca no dia seguinte de manhãzinha, ainda estava escuro na penumbra do dia. Júlio meteu a mão sem ver na sua armadilha e encontrou uma lebre grande! Quando foi minha vez, meti a mão e senti tudo mole que nem barro. Julinho ria com uma maldade estranha que eu nunca havia visto. Ele tinha colocado bosta de vaca na minha arapuca só pra me ver mal. Depois daquele dia nunca mais nos vimos. Essa gente endinheirada suporta pobre até certo ponto, porque no fundo sempre se riem de nós.
    Meu pai e tios trabalhavam pra família do pai do Julinho. O tal do seu Cristovão era o cabeça de tudo. A maneira de ganhar dinheiro honesto por essa região é escassa. Ou você cria gado, ou trabalha pra esses fazendeiros tirando frutas da época. Mas ninguém fica rico de uma hora pra outra vendendo frutinha.

    Conforme virei moço ajudava em casa e tirava meus trocados pra me divertir. Trabalhava na lavoura de seu Cristóvão três vezes por semana catando laranja começando antes de o sol sair. Iniciava às cinco horas, continuava até às treze terminando com várias caixas cheias. Eram duzentos reais. Metade dava a meu pai, a outra metade gastava no baile de fim de semana porque ninguém é de ferro.
    Foi em um desses bailes que conheci a mulher mais linda do norte. Tinha a pele dourada que quando o sol refletia, ficava a cor mais linda do mundo. Sorriso cambaleante, desses que se você olhar por muito tempo cambaleia junto, e um sotaque doce. Cabelos lisos e longos que quando balançados, subia-se um cheiro de manga verde. Um olhar fundo. Olhar que só quem possui chagas na alma tem. Era Moema Aruá.
    Quase sem perceber me envolvi e o tempo voava rápido como vento na serra. A única coisa que ainda me deixava encabulado era o fato dela ser indígena. Não sabia se confiava por completo. Nunca convivi com esse povo. Certo dia, comentei que trabalhava pra Seu Cristóvão.

- Akuanduba me deixe longe disso! – Disse Moema rápido e de uma vez, como quem tem pressa.
- Pra onde você vai? O que te disse?

   Moema virou as costas e apressou os passos rumo a sua aldeia. Eu a segui gritando seu nome. Alguns minutos caminhados por fim chegamos à pequena comunidade onde os Aruás viviam.
- Se realmente me ama quero que me escute e entenda. – Fez uma  pausa e continuou – Todos nós aqui lutamos por uma causa, a causa que vocês todos querem destruir. Se quiser estar comigo todos os dias, tem que escolher um lado.
    Naquele momento tudo veio à tona. A conversa com minha professora na infância e as lágrimas que vi naquela época, via nos olhos lacrimejados de Moema e de seus pais. Tinham todos olhos fundos como os dela. Olhar de quem possuía chagas na alma.
    Decidi ficar. Pela primeira vez meu coração decidia algo. Nunca o escutava, pois meu pai, Galdino e meus outros tios nunca ligaram pra questões íntimas. Foram dias de liberdade os que vivi.
Uma semana convivi com todos eles. Sete dias ouvi histórias, aprendi cantos, ri, dancei e amei Moema como nunca tivera amado alguém. Os donos do Brasil sabiam conviver em harmonia. Eram organizados e habilidosos. Compreensíveis e políticos. Estudiosos da vida sem nunca ter pisado em universidades. Nesses dias de auto-exílio me senti filho da terra como todos eles eram. Descobri o Brasil.
    Quando estava prestes a voltar pra casa, eu já não era mais o mesmo. Meu pai e tios seguramente estariam me caçando pela região armados até os dentes. E assim estavam. Mas não necessariamente atrás de mim.
Saindo com uma ultima excursão pela região, escutei tiros para o alto. Os Aruás ficaram todos alvoroçados. Mães chorando correndo em desespero com seus filhos no colo e os homens com olhos estatalados, como quem já está acostumado àquilo, sempre prontos pra guerra. Queria ajudá-los de alguma forma.
    Moema se aproximou de mim e me contou a história que parecia que estava tentando evitar me dizer. Me contou a história mais triste e nojenta que pude escutar. De que a família de Seu Cristóvão eram tipos de grileiros. Pessoas que se apropriam de terras ilegalmente. Colocavam fogo na região protegida por lei dos Aruás, a fim de tomarem o território, passando por cima de quem lá estivesse. Fiquei abobado e estático e só acreditei quando olhei ao longe. Vi meus tios e meu pai junto de Seu Cristóvão com seu filho Julinho. Todos juntos em comboio. Meu pai e tios na saveiro. Seu Cristóvão e filho na Toyota quatro por quatro. O mesmo sangue de pistoleiros que tinham, eu tinha. Mas minha cabeça já tinha escolhido um lado.

    Segui os camaradas indígenas. Moema veio comigo. Ela não temia bala. Paramos todos com uma distância de uns trezentos metros, encarando-se num campo afastado. Os inimigos mais antigos do Brasil. Brancos e Índios. Olhando-se como nos filmes de velho oeste, com as sobrancelhas franzidas, o silêncio amazônico e os ecos das araras. Quem olhasse de longe e me visse, pensaria que estivesse no lado errado. Mas minha alma era cor de cobre. Sempre foi.

- Aquele lá não é seu filho delicado metido a índio? – Falava seu Cristóvão provocando meu pai.
- Não esperava isso nunca de você, rapaz! Nunca mais apareça em minha casa. – Respondeu irreconhecivelmente meu pai.

   Quando eu pensei que o circo já estava pronto, surge uma ventania forte que balançava que nem chicote a copa das araucárias. Era um helicóptero que pousava ligeiro. Surgiu no meio de nós. Descia dele um caboclo que já havia visto na TV. Todo pomposo de camisa social no meio da Amazônia. Era o Prefeito da cidade. Estava montada a gangue dos pistoleiros dos trópicos.

- Vocês já atrapalharam nossa vida demais. Tentamos levar na conversa, mas vocês não colaboram.  – Dizia o prefeito.
Moema levantou a voz:
- Saiam vocês daqui. Que essa terra é abençoada e só sairemos mortos.

    Todos do lado de lá carregaram suas espingardas e rifles e apontaram pra nós. Os índios atiravam pedras e alguns com arco e flechas grandes, tentavam a sorte. Moema tinha um revolver escondido, sacou e o apontou. Num milésimo de segundo ouviu-se um tiro. A correria e a poeira vermelha subiram e um corpo caiu ao chão. Entre gritarias e estalos vi o sorriso mais cambaleante do mundo deitado, com os olhos fundos me olhando. Sua pele na guerra brilhava ainda mais bonita. O mundo parou naquele momento. Arrastei Moema para trás das árvores e escutei suas últimas palavras.

- Morro feliz, Pedro. Morri lutando.
E se foi com um sorriso que nunca esquecerei.

    Os Aruás perderam aquela batalha e muitos amigos indígenas faleceram. Perdemos um bocado de terra, mas a esperança nunca. Enquanto as leis neste ponto do Brasil forem feitas à bala, resistiremos. - Este solo é sagrado e quem o amaldiçoa, está condenado. - Os Aruás dizem.
Ainda estamos de pé.






(Felipe Leonardo)




segunda-feira, 5 de agosto de 2019

O menino dos versos cantados





   O sol nem dá as caras no horizonte, quando Romário Silas se levanta pra lavar o rosto.
Seu pai, que era fanático da seleção brasileira, se empolgou com o título mundial de noventa e quatro e batizou o menino com o nome do jogador. Quando era criança, Romário esperava o galo cantar, mas o tempo lhe deu prática e hoje ele acorda antes do bicho. Bota a água do café pra ferver e liga seu aplicativo na playlist que mais gosta. A que toca versos cantados e toadas de gado. O galo que antes dormia, agora acorda com o barulho da chaleira, que canta e assobia junto com o bicho.
     Romário veio para o interior de Goiás com seus irmãos e pais há uns trinta anos, fugidos com mala e cuia de matadores que confundiram seu pai com um devedor procurado. Encasquetaram que ele era o cabra. Sua família caminhou um bocado e com a ajuda de caronas, saíram da cidade de São Desidério, e se instauraram na cidade de Vão das Almas por puro acaso, pois em uma dessas paradas pra descansar, seu pai reencontrou um amigo antigo que lhe ofereceu casa em troca de trabalho.
     Esse amigo de seus pais era Seu Aloísio. Camarada esperto, ligeiro, galante. Pensava rápido e em qualquer roda de conversa, sempre chamava atenção pelo seu jeito carismático. Romário ao longo dos anos pegou grande apego a ele. Quando tinha dez anos adorava acordar cedo pra vê-lo tocar o gado com aqueles gritos longos e ecoantes. O som hipnotizava o rapazinho que até então, só o observava com encantamento. Nas festas de família, Seu Aloísio também cantava em versos. Emendava cantorias onde as palavras terminavam sempre iguais e se encaixavam na fala direitinho, como se já nascessem prontas antes mesmo do cabra falar.  As palavras cantadas hipnotizavam dessa vez as pessoas, que paravam e olhavam o homem com sorrisos largos e batendo palmas. Romário queria ser um mago das palavras como ele!

- Essas palavras não são minhas, Romário! Eu aprendi com uns cordéis que tenho guardado lá em casa. Um dia lhe levo lá procê ver! – Dizia Aloísio

    Era a primeira vez que o menino ouvia a palavra Cordel.  A palavra tinha o som do nome do carro de um conhecido. Mas logo viu que estava fazendo confusão e que cordel não era corcel.
    Escreveu o nome num caderninho que ganhou da escola. Guardou a palavra na mente como a mais preferida.
Os dias passavam e Romário não largava Seu Aloísio de jeito nenhum. Foi sugando e aprendendo tudo o que podia com o homem. Já era quase um segundo pai.

    Certo dia num fim de tarde, quando o sol se alaranja e o cheiro da noite já se sente de longe, Aloísio chamou Romário a sua casa, revirou alguns papéis na estante e apresentou o cordel ao menino. Não acreditava que tanta genialidade e boniteza no som, pudesse caber naquele tantinho de papel dobrado com umas gravuras. Quando Aloísio começou a ler, a mágica se formou:


"Sou sertanejo da terra,
Raiz de sangue quente
Dos sotaques, variedades,
Que rasga coco no dente
Lugar de gente fiel
Cabra sincero no cordel
Põe no papel tudo que sente.
Eeeeeah"


    Romário percebeu que seu amigo não lia de maneira tradicional. Não lia como a professora fazia nas aulas de leitura, ou quando sua mãe lia os salmos da bíblia antes de dormir, com as palavras todas no mesmo tom. Seu Aloísio transformava os versos em cantoria, como se cada rima dita no tom certo, pudesse dar ao menino a força do mundo inteiro. Poderia trabalhar o dia todo na capina sob sol quente escutando aquilo. O sorriso era instantâneo. Cada rima lhe fazia cócegas na alma.
    Romário foi crescendo e começou a se atrever a escrever. Aos poucos seus primeiros versos foram saindo, e a felicidade quando os próprios cordéis iam nascendo era tamanha, como se ele próprio tivesse dado à luz um ser vivo.
    Seu Aloísio lia os versos que seu pupilo escrevia e sentia um orgulho gigante. Foi dele a ideia de fazer o menino gravar vídeos e postar nas redes sociais, pra divulgar a arte do rapazinho:

- Você filme essas toadas e coloque na internet, fio. Pro povo de longe poder acompanhar essa belezura de cantoria sua!
- Um dia ainda gravo numa produtora! – Dizia o rapazinho empolgado.

    Numa segunda feira cinzenta, dessas atípicas do sertão, Romário ouviu o acauã cantar perto de casa.  Gente mais antiga e sabida nota que quando esse passarinho canta, é mau agouro ou morte vindo na certa. Na rua se estava ouvindo um burburinho. Uma multidão cercava algo que impedia quem estivesse atrás de ver. Era Seu Aloísio caído ao chão, já sem vida. Um boi o atropelou sem que ele visse e cortou um ciclo de aprendizado e alegria junto do rapaz. Romário ficou desolado.
Pensou naquele momento que nada faria mais sentido. Pensou que nunca mais poderia cantar ou escrever, pois não sentia mais vontade. os dias se passaram e seus poróprios pais perceberam a moleza do filho, não sabiam mais por onde ajudar.
  Um mês depois, o rapaz teve um sonho. Viu Aloísio em cima de um boi ao longe, cantando do jeito que só ele cantava. Sentiu uma paz no espírito, como se a partir daquele momento, seu amigo estivesse pra sempre do seu lado. Acordou sorridente e com uma ansiedade boa no peito. Certamente, Aloísio gostaria de escutar versos novos, onde quer que ele estivesse!
    Anos se passaram e Romário recebe um telefonema. Era de um produtor de Goiânia com o interesse de conhecer o rapaz e gravar suas toadas e versos cantados.
Pediu uns trocados emprestado ao pai e partiu com o foco em seu sonho e muito frio na barriga.
Enquanto gravava na sala com o produtor, a imagem de Aloísio lhe aparecia a cada minuto. Como um anjo da guarda que acompanha seu pupilo em todos os lugares.

- Parabéns rapaz! A cultura popular ainda existe! – Dizia o produtor, nostálgico, ao ouvir os versos.
   Por fim, Romário conseguiu o tão almejado contrato e seus versos cantados foram lançados em aplicativos de música. Seu pai não entendeu nada, pensou que viria com CD na mão. Não compreendia os novos tempos!
    Romário acorda pelas manhãs e liga todos os dias a playlist que ele próprio compôs. A chaleira da água pro café canta junto com o galo diariamente, enquanto um quadro com a foto de Aloísio lhe olha sempre sorridente.






(Felipe Leonardo)

terça-feira, 16 de julho de 2019

Águas do sul





A chuva que vem de longe
Chegou hoje cansada.
Bateu minha janela
Como quem pede licença a prosear

Veio apressada, corrida.
A conversar atropelando pingos,
Falando sem pausa por gotas

Um abraço rápido,
Fria e ligeira.
Tec- tec- tec,
E um sotaque tepe do sul.

Democrática ou ditadora?
Sem pedir, como quem chega,
Por onde andou molhou a todos.
Patagônia e cordilheira,
Rio da Prata e Blumenau,
Mantiqueira e minha telha.




(Felipe Leonardo)

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Veneno santo







A jarra de vidro que lhe traziam
Tinha liquido noturno,
Pesava mais do que devia, e cheirava a dor.
Assustou-se.

O temido vidro venenoso,
Tombou pela mesa.  Quebrou.
Rasgou a pele e caiu ao chão.
Tinha a alma ansiosa de cura,
O veneno o fez mais forte.



(Felipe Leonardo)

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Dona Maria e o gato que tinha doença de gente


   






 Na região de Cajazeiras, interior da Paraíba, foi nascida e criada Maria de Seu Antônio.  É de seu Antônio, primeiro porque este era pai dela, e segundo porque a quantidade de Marias por metro quadrado é danada de grande, e é necessário esse método pra exemplificar a coisa.
    É sabido que quando chegamos nesse mundo, confiamos nos mais velhos. Nossos pais sempre têm razão. A oralidade em terras distantes é a literatura que existe. A voz é a espinha dorsal da confiança. Depositam a confiança em seus dizeres e em suas trajetórias a fim de sofrerem menos. E assim está certo. Maria cresceu ouvindo de seus pais as mais diversas histórias. Histórias que criaram sua maneira de pensar, e até moldaram seus medos.
    Certo dia, Maria chegava da escola quando o sol estava alto. Nessa data quase não conseguiu chegar ao colégio, pois na ida pela manhã, se deparou com uma boiada de semblantes antipáticos. Pensou em voltar, mas terminou por ir. A merenda no dia foi ótima. Ao entrar pela porta de casa largou as sandálias aos tropeços e entrou pela casa descalça como sempre fazia. Seu pai vinha atrás e logo a repreendeu.
   - Maria! Venha cá desvirar essas sandálias que desse jeito você está agourando de morte sua mãe!
Maria estatalou os olhos e correu pra desvirar. Jamais queria isso e se sentiu culpada depois. Ao longo dos anos sempre que entrava reparava em deixar as sandálias uma ao lado da outra, ajeitadas. Costume esse, que na idade adulta evoluiu para um TOC.
    Dia curioso também ocorreu quando caía uma forte tempestade de vento. Seu pai chamou todos os filhos para dentro da casa de taboca, juntamente da mãe. Ordenou que todos ficassem debaixo da mesa como forma de segurança.
   - Se enfiem aí pra dentro! Que se a casa cair, protege a cabeça de vocês, visse!
    Logo em seguida, seu pai abriu a porta de casa, o vento forte quase o fez levantar voo com sua magreza. A partir daí começava seu ritual. A mãe de Seu Antônio dizia que para parar tempestade, era necessário jogar sal contra o vento em forma de sinal da cruz. E assim ele fazia. Noventa por cento do sal voltava em seu olho, é certo. Mas segundo ele, a tempestade se acalmava rapidinho.
    Maria de Seu Antônio cresceu e casou-se. Os costumes aprendidos em casa, ela levou consigo. Morando com seu marido levou um gato que uma amiga sua a presenteou. Adorava animais e para sua vida de recém casada, um bichinho de estimação seria ótimo. Nomeou o bichano de Roberto Carlos, pois era fã do cantor.
   - O Roberto parece estranho... Respiração alta, parece até que está resfriado...
    A amiga desconversou. Disse que o gato era esperto e que nunca havia reparado em alguma doença nele.
    As semanas foram passando e o gato ficava amoado, no canto da casa. Parecia meio moco, comia pouco e nem atrás de rato corria. Dona Maria ficou preocupada e levou ao veterinário. Gastou uma grana com ele para o médico dizer que o bichano estava com resfriado, um tipo de bronquite, e que era necessário comprar remédios. Mas eram muito caros.
Chegando em casa, Dona Maria conversou com uma das vizinhas tagarelas que era metida a doutora e tinha cursado enfermagem por dois meses:
   - Não gaste dinheiro com remédio pra bicho não, dona Maria. Você sabe que pra bronquite tem que dar chá de cidreira e trazer uma tartaruga pra viver junto do doente. O contato com a tartaruga ajuda a curar bronquite e essas doenças do pulmão.
    Dona Maria havia escutado aquela simpatia em algum lugar. A tartaruga seria até fácil de arrumar. O que não entrava na cabeça era como o gato se curaria da bronquite se o próprio pelo do gato ataca a bronquite. 
    As semanas foram passando e o gato Roberto foi pegando intimidade com a tartaruga. Mas curar da doença, nada. Paranoias foram surgindo na cabeça de Dona Maria ao longo dos dias:
   - Tenho medo mesmo é do Roberto passar bronquite pra tartaruga, aí danou-se de vez...
   - Oxe, e bronquite é lá contagiosa!? - Respondia o marido confuso.
    Os dias passaram e Roberto espirrava como humano. Alto e ressoante:
   - E esse seu gato além de ter nome de gente, ele espirra que nem gente é, Dona Maria? - Dizia um vendedor de vassouras que passava toda quarta-feira em frente à casa da dona do gato.
    O caso do gato que tinha nome e doença de gente virou notícia por toda a cidade. Todos queriam conhecê-lo. A única que não achava graça era Dona Maria, preocupada com a saúde de Roberto Carlos.
    Certo dia ela resolveu ir ao extremo. Acordou decidida a levar o gato à missa e pedir para o padre Ambrósio benzê-lo. Não seria novidade, pois naquela época, naquelas bandas do sertão, rolavam boatos de que pela primeira vez um membro da igreja havia benzido um cachorro. Era o cachorro de um tal Major Antonio Morais que vivia em Taperoá.
    Depois da missa, chamou o padre de canto e explicou a história. Padre Ambrósio ficou receoso, mas por fim benzeu o gato com sinal da cruz, água benta e tudo. Benzia-se até motor, por que não um bichinho de Deus!?
    Duas semanas após, depois de muita peleja, num dia de sábado de manhã, o gato Roberto corria alegre, brincava com as cabras no quintal e não se ouvia mais nenhum espirro. O marido de Dona Maria disse que de noite, antes de dormir, ouviu um último espirro do gato em que saiu uma enorme quantidade de secreção, maior até que o próprio gato.
    Ninguém soube até hoje o que curou a bronquite de Roberto Carlos. Mas de uma coisa é certa, nesses lados do sertão todos são doutores de nascença, seja em medicina ou filosofia. A vida é a universidade, a natureza professora.