Na região de Cajazeiras, interior da Paraíba, foi nascida e criada Maria
de Seu Antônio. É de seu
Antônio, primeiro porque este era pai dela, e segundo porque a quantidade de Marias por
metro quadrado é danada de grande, e é necessário esse método pra
exemplificar a coisa.
É sabido que quando chegamos nesse mundo, confiamos nos mais velhos. Nossos pais sempre têm razão. A oralidade em terras distantes é a
literatura que existe. A voz é a espinha dorsal da confiança.
Depositam a confiança em seus dizeres e em suas trajetórias a fim de sofrerem menos. E
assim está certo. Maria cresceu ouvindo de seus pais as mais diversas histórias.
Histórias que
criaram sua maneira de pensar, e até moldaram seus medos.
Certo dia, Maria chegava da escola quando o sol estava alto. Nessa data quase não
conseguiu chegar ao colégio, pois na ida pela manhã, se deparou com uma boiada de
semblantes antipáticos. Pensou em voltar, mas terminou por ir. A merenda no dia foi ótima. Ao
entrar pela porta de casa largou as sandálias aos tropeços e
entrou pela casa descalça como sempre fazia. Seu pai vinha atrás e logo a repreendeu.
- Maria! Venha cá desvirar essas sandálias que desse jeito você está
agourando de morte sua mãe!
Maria estatalou os olhos e correu pra desvirar. Jamais queria isso e
se sentiu culpada depois. Ao longo dos anos sempre que entrava reparava em
deixar as sandálias uma ao lado da outra, ajeitadas. Costume esse, que na idade adulta
evoluiu para um TOC.
Dia curioso também ocorreu quando caía uma forte tempestade de vento. Seu pai
chamou todos os filhos para dentro da casa de taboca, juntamente da mãe.
Ordenou que todos ficassem debaixo da mesa como forma de segurança.
- Se enfiem aí pra dentro! Que se a casa cair, protege a cabeça de vocês,
visse!
Logo em seguida, seu pai abriu a porta de casa, o vento forte quase o
fez levantar voo com sua magreza. A partir daí começava seu
ritual. A mãe de Seu Antônio dizia que para parar tempestade, era necessário
jogar sal contra o vento em forma de sinal da cruz. E assim ele fazia. Noventa por
cento do sal voltava em seu olho, é certo. Mas segundo ele, a
tempestade se acalmava rapidinho.
Maria de Seu Antônio cresceu e casou-se. Os costumes aprendidos em casa, ela levou
consigo. Morando com seu marido levou um gato que uma amiga sua a presenteou.
Adorava animais e para sua vida de recém casada, um bichinho de estimação seria ótimo.
Nomeou o bichano de Roberto Carlos, pois era fã do cantor.
- O Roberto parece estranho... Respiração alta, parece até que está resfriado...
A amiga desconversou. Disse que o gato era esperto e que nunca havia
reparado em alguma doença nele.
As semanas foram passando e o gato ficava amoado, no canto da casa.
Parecia meio moco, comia pouco e nem atrás de rato corria. Dona Maria
ficou preocupada e levou ao veterinário. Gastou uma grana com ele
para o médico dizer
que o bichano estava com resfriado, um tipo de bronquite, e que era necessário
comprar remédios. Mas eram muito caros.
Chegando em casa, Dona Maria conversou com uma das vizinhas tagarelas que
era metida a doutora e tinha cursado enfermagem por dois meses:
- Não gaste dinheiro com remédio pra bicho não, dona
Maria. Você sabe que pra bronquite tem que dar chá de cidreira e trazer uma
tartaruga pra viver junto do doente. O contato com a tartaruga ajuda a curar
bronquite e essas doenças do pulmão.
Dona Maria havia escutado aquela simpatia em algum lugar. A tartaruga
seria até fácil de
arrumar. O que não entrava na cabeça era como o gato se curaria da bronquite se
o próprio
pelo do gato ataca a bronquite.
As semanas foram passando e o gato Roberto foi pegando intimidade com a tartaruga. Mas curar da doença, nada. Paranoias foram surgindo na cabeça de Dona Maria ao longo dos dias:
As semanas foram passando e o gato Roberto foi pegando intimidade com a tartaruga. Mas curar da doença, nada. Paranoias foram surgindo na cabeça de Dona Maria ao longo dos dias:
- Tenho medo mesmo é do Roberto passar bronquite pra tartaruga,
aí
danou-se de vez...
- Oxe, e bronquite é lá contagiosa!? - Respondia o marido confuso.
Os dias passaram e Roberto espirrava como humano. Alto e ressoante:
- E esse seu gato além de ter nome de gente, ele espirra que nem
gente é, Dona
Maria? - Dizia um vendedor de vassouras que passava toda quarta-feira em frente
à casa da
dona do gato.
O caso do gato que tinha nome e doença de gente virou notícia por
toda a cidade. Todos queriam conhecê-lo. A única que
não achava
graça era
Dona Maria, preocupada com a saúde de Roberto Carlos.
Certo dia ela resolveu ir ao extremo. Acordou decidida a levar o gato à missa e
pedir para o padre Ambrósio benzê-lo. Não seria novidade, pois naquela época, naquelas bandas do sertão,
rolavam boatos de que pela primeira vez um membro da igreja havia benzido um
cachorro. Era o cachorro de um tal Major Antonio Morais que vivia em Taperoá.
Depois da missa, chamou o padre de canto e explicou a história.
Padre Ambrósio ficou receoso, mas por fim benzeu o gato com sinal da cruz, água benta
e tudo. Benzia-se até motor, por que não um bichinho de Deus!?
Duas semanas após, depois de muita peleja, num dia de sábado de manhã, o gato
Roberto corria alegre, brincava com as cabras no quintal e não se
ouvia mais nenhum espirro. O marido de Dona Maria disse que de noite, antes de
dormir, ouviu um último espirro do gato em que saiu uma enorme quantidade de secreção, maior
até que o próprio gato.
Ninguém soube até hoje o que curou a bronquite de Roberto Carlos. Mas de uma coisa é certa,
nesses lados do sertão todos são doutores de nascença, seja em medicina ou filosofia. A vida é a
universidade, a natureza professora.

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