quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Goela abaixo





Ele entra em casa ofegante.

Bêbado, de olhos arregalados

Até as canelas sujas de lama

Tropeçando nos tapetes de linho 


Cumprimenta as almas que o rodeiam,

Fala com as paredes para se escutar.

Umidades para todo tipo de relevo;

Ferrugens para todo tipo de ferro.


Se limpa com cacos de telha

Para tirar as rufas de sujeira.

Não há necessidade de tirar sangue

Mas a dor é consequência.


Molha seu pão no café

Afogando o pão, para desafogar-se.

Metendo ele goela abaixo,

Metendo-se goela abaixo.


[O mineiro tinha razão

Viver é rasgar-se e remendar-se,

E quando não dá pra se costurar

Nasce novamente,

Nasce todos os dias.]



Felipe Leonardo