terça-feira, 1 de julho de 2025

O que surge ao abrir os olhos de dentro



  Lembro da primeira vez que ouvi uma gata miar no cio desesperadamente na laje do vizinho. Aquilo parecia um grito angustiado de pedido de ajuda, como se naquele instante ela estivesse sangrando por dentro, prestes a morrer de agonia e tristeza. Aquilo me assustou e quis na hora ajudar o pobre bichinho, me recordo de ter pedido a minha mãe, mas ela com uma calmaria totalmente avessa ao martírio da gata, disse que ela só estava procurando outro gato.

- Não queira saber depois que o gato penetra a pobrezinha, os gritos são piores, você vai ver.

E de fato, quando ouvi pela primeira vez tive que pesquisar no Google o motivo que a gatinha aparentava sofrer tanto. Será deus que ela sentiria prazer como todos os outros bichos sentem no coito?

Uma vez minha mãe disse que a tia Marcela era triste quando estava em intimidades com o tio Nelson. Sempre tive essa dúvida na cabeça, aproveitei a ocasião pra tirá-la

- Mamãe, a tia então é bem parecida com as gatas, uma vez vi vocês duas falando que a tia ficava triste na cama? O negócio do tio é espinhoso igual ao dos gatos? - perguntei.

Minha mãe me colocou de castigo até o final do dia depois que disse isso, fiquei sem saber do motivo. Cumprir algo ruim sem sabermos o motivo sempre me deixou triste.

No quarto fiquei sozinho com a porta trancada até a voz de liberdade da minha mãe. Tenho medo de ficar sozinho. Mas quando estamos no quarto sozinhos, nunca estamos no fundo sós. O escuro, as portas, as estantes e os insetos pequenos estão ali. Uma vez o padre na catequese também disse que Deus está perto de nós quando ficamos sós, porém tenho minhas dúvidas se ele de fato existe, pois nunca o vi. Algumas pessoas da novela dizem que Deus também está na natureza, nas árvores, no sol e na lua. Se ele de fato morar nessas coisas, aí já faz sentido começar a acreditar. 

Quando olho para o sol próximo da hora do almoço, não consigo olhar por muito tempo. Sou tomado por um embranquecimento que me cega e incomoda os olhos. Talvez o sol seja tímido e preservado por não permitir olharmos tanto pra ele, o que não faz sentido pois ele brilha e é mais amostrado que tudo.

A lua sim se parece mais a um Deus, ela fica ali quieta, muda de forma como um tipo de pokémon, cada semana que a olhamos ela está de um jeito, e sempre quando me debruço na sacada ela parece conversar comigo. É curioso pensar que aquela mesma lua é vista por uma pessoa como eu debruçada na janela a quinhentos quilômetros de distância, e talvez essa pessoa também sinta essa divagação, como se olhar pra lua nos transportasse para outro lugar. Isso pra mim parece magia, e magia me faz lembrar um pouco de Deus. 

Meu pai uma vez me disse que as estrelas também são interessantes, elas ficam paradas no céu e só podemos vê-la pela noite. Elas sim são mais tímidas e só aparecem quando querem. Sem contar as estrelas cadentes que rasgam o céu pegando fogo; são como faíscas de fogueira de São João, sempre saltitantes e felizes.

Quando a noite cai, tudo lá fora fica em completa escuridão. Ninguém enxerga ninguém e parece que ficamos suscetíveis. Talvez para os gatos seja totalmente o contrário. Já ouvi dizer que esses felinos de noite são bem mais espertos que nós. Ver no breu é um super poder que gostaria de ter. Se deuses tem super poderes, o gato também pode ser um deus.

Ao olhar o breu de fora e a luz do meu quarto acesa, me sinto vulnerável, como se todos me vissem, e eu não visse nada. Mas quando apago a luz do quarto, me igualo ao breu lá de fora, e me torno amigo da escuridão. Caminho ao seu lado como dois parceiros fora da lei, e me torno predador quando me igualo ao pretume. Me sinto poderoso; como se por fim conseguisse ver o que ninguém vê, mesmo que não enxergue dois metros adiante. Estou dentro do escuro, e isso me faz seu amigo.

Igualado à amiga escuridão, a cumprimento e pergunto como é a sensação de estar sempre sem luz e invisível. Ela parece sorrateira e só responde as perguntas que quer, parece misteriosa e não gosta de entregar tudo o que sabe, e faz bastante sentido pois se entregasse tudo que sabe, seria clara e não escura.

Quando estava no meio do interrogatório algo cortou minha linha de pensamento; ao longe escuto uma coruja piar, e o canto da coruja me arrepiou dos pés à cabeça. Como era possível um bicho soar um canto mais medonho que da gata no cio? Um lamento ecoado e sofrido, como se fosse um último gemido da noite. Um aviso de que aquele terreno era um tanto hostil pra um menino ingênuo como eu. A noite usou da voz da coruja para falar comigo.

Porém não me senti acanhado, estive próximo de algo que beirava um deus. Toda conversa existe quando há um outro lado que escuta, portanto, naquele instante houve um diálogo, e a mensagem foi passada, apesar do medo.

O medo que senti ao ouvir a resposta da noite já estava dentro de mim, há muito tempo, muito antes de eu nascer. Vieram com meus avós, com os pais dos meus avós, e os avós dos meus avós. A escuridão também estava com cada um deles e os acompanhou por toda vida. Senti naquele momento que era importante ser amigo da sombra, não porque gosto dela ou porque a acho bonita, mas dessa maneira consigo lidar melhor com ela, e aliviar a tremedeira e os calafrios do conhecido medo.

Quando a coruja parou de piar, voltei a pensar melhor. Ouvi uma voz de mulher familiar ao fundo, mas eu hesitava em sair do meu escuro.

Arregalei os olhos de susto com minha mãe me chamando para jantar e acendendo a luz do quarto. Voltei à realidade e até esqueci o motivo de estar ali. 

- Fiz um novo amigo mamãe, mas só consigo vê-lo quando apago a luz!