sábado, 4 de setembro de 2021

Uma história Portenha

    



      Existem ocasiões aleatórias da nossa rotina que nos remetem a mais profunda memória, que por algum motivo, está escondida em algum cantinho da cabeça. Em um domingo à tarde como esse, com o sol das dezesseis horas ameaçando se pôr, e as árvores secas balançando com o vento do Rio da Prata, tudo veio à minha mente.

Comentando hoje mesmo com meu irmão mais novo, no churrasco em família, essa foi a conversa que mais rendeu; o dia em que ganhei um abraço do meu pai, pela primeira vez.


Na realidade o estalo da memória se fez mais forte quando vi meu filho, passando com o choripán na mão, vestido com a camisa do nosso clube de coração, o Argentinos Juniors.

Quantos aromas, quantos socos na alma aquele combo de sensações me trazia, junto daquela camisa vermelha.


Quando comecei a falar involuntariamente de forma poética no meio de todos, as expressões se enrijeceram e todos me olhavam com semblante de atenção. Sobrancelhas fixas, com as carnes e cervejas em mãos.


No ano de 1985 eu tinha dez anos, verdinho de tudo. O que me importava era ir à escola pela manhã, e jogar bola de gude e futebol à frente do portão pela tarde. Me recordo do clima leve que pairava sobre o bairro de Villa Crespo, onde cresci. Há dois anos a ditadura militar do covarde Ditador Rafael Videla havia terminado na Argentina, e sorrisos aos poucos vazavam dos semblantes anônimos. Era como se o sol saísse após anos de tormenta.


Até então eu era filho único. As maiores memórias dos meus pais eram sempre com aquele sol brando das nove horas entrando pela cozinha e rebatendo na mesa, o cheiro de café sempre pronto, e meu pai apressado na porta com o pão. Sabíamos que o pão estava quente, quando chegava gritando: “¡Pan caliente solo para miii!”.


Meu pai sempre foi muito seco; nas primeiras horas do dia ele até parecia ser amoroso, mas daí em diante era impaciente e calado. Ele me passava um excesso de respeito que beirava o medo.

Logo após os cafés, ele me deixava no colégio, se despedindo com um beijo rápido. - “Hasta luego pibe”. Talvez essa fosse a maior frase que ele dizia pra mim.


As duas paixões da família eram a política e o futebol. Os dois eram sempre muito ativistas e tudo era comemorado com churrasco. Me lembro da festa quando a democracia voltou.

Naquele ano, o time o Argentinos Juniors jogava pela primeira vez a Copa Libertadores. Meu pai, torcedor fanático desse time de bairro, com origens anarquistas, e que revelou ao mundo Diego Armando Maradona - Isso ele comentava com todos os amigos com muito orgulho - .

Eu, mimado pela mãe, sendo zoado na escola pelos amiguinhos pelo meu pai torcer para um clube pequeno. Eu ainda pouco conhecia sobre essa paixão nacional.


Às quartas-feiras e domingos observava meu pai se vestir com o uniforme do clube, pegar a chave do Fiat apressado, encontrar os amigos e partir para um lugar que eu nunca sabia. Pra mim aquele ritual era misterioso. Imaginava quase como algo obrigatório, como o trabalho dele na borracharia. A camisa vermelha era seu segundo uniforme; a diferença é que ele ia muito mais empolgado para esse segundo emprego.




Recebia muitos abraços da minha mãe. Aquele aconchego era único; acalmava aflições, sarava ralados no joelho, e deixava tudo um pouco mais quente por dentro, como se o abraço fosse uma coisa inteira de veludo que esquentasse a pele e um pouco mais. 


Quando íamos à escola e me despedia, eu olhava meus colegas de classe abraçando seus pais diariamente. Que tipo de mágica aqueles pais tinham que o meu não? Que tipo de gosto teria aquele abraço paterno? 


Em uma segunda, antes dele me deixar na escola, meu pai me deu aquele beijo breve, e quando eu já tinha aberto a porta e posto um pé para fora, ele me chamou e disse:

- Mirá, hijo, semana que viene Argentinos Juniors jugará la final de la copa libertadores por primera vez. ¿Vamos juntos a ver el partido, sí?”


Eu nunca tinha ido a um jogo de futebol. Pouco conhecia, e confesso que não era tão apaixonado como meu pai e meus colegas da escola, mas aquele convite me deixou mudo por uns cinco segundos, e respondi um “sim” com animação! Meu pai me devolveu o sorriso mais sincero que havia visto em seu rosto.


O dia inteiro da escola, as coisas ditas pela professora entraram por um ouvido e saíram pelo outro, e até tive licença poética pra isso, cá entre nós.


Cheguei em casa e comentei com a minha mãe sobre o convite. Ela ficou preocupadíssima e deu uma bronca em meu pai quando ele chegou do trabalho. Conversaram por muito tempo. Tive a certeza que de fato iria pro jogo, quando minha mãe abriu a porta do quarto e disse, terminando uma frase:

- ...bueno, mañana comprá una camiseta para el. ¡Cuidado ustedes eh!


A partir daí, até o dia do jogo, a ansiedade tomou conta de mim. O jogo era em um domingo. Na sexta, meu pai me acordou com uma camiseta do Argentinos, novinha! Quando eu a vesti e me olhei no espelho, me sentia como meu pai. Era como se eu vestisse a roupa do super herói que sempre quis ser. Nesse mesmo dia, fui ao colégio e levei a camiseta escondida na mochila para vesti-la e andar pelo pátio. Desfilei pela escola com o peito estufado. 


Por fim chegou o dia do jogo. Naquela tarde de domingo peguei a chave do Fiat e entreguei ao meu pai empolgado, e saímos juntos. O estádio era na grande Buenos Aires; as ruas estavam cheias de gente, muita buzina, cantos, gente de todo tipo com bandeiras gigantes e camisas vermelhas como a minha.


No caminho ao Estádio meu pai comentava comigo sobre a história do Argentinos Juniors, celeiro de craques, e sobre a primeira vez que meu avô levou meu pai pra ver um jogo. Me disse que era um time a favor do povo, e contra a ditadura, e eu sabia que a ditadura era uma coisa muito ruim. Eu só sabia ficar de boca aberta olhando meu pai falar. Meu pai era outro, vestido de vermelho.


Ao subir as escadas do estádio e olhar pela primeira vez aquele gramado gigante, com arquibancadas cheia de gente pulando e cantando, me arrepiei. Minhas pernas tremiam e eu só conseguia cantar junto de todos. Meu pai me puxou pelo braço e me levou até nossos assentos. Lá estavam mais alguns amigos dele. Tudo era novo pra mim; as arquibancadas rodeando o gramado parecia a qualquer momento engolir o verde e todos os jogadores, como se todos fossem bichos ansiosos de olhos arregalados.

- ¡Oooh, vamos bichos vamos, pongan huevos, que ganamos!


Assim como a música dizia, se houvesse raça, se houvesse vontade a gente ganharia. Curiosamente cresci ouvindo esse ditado em casa, essa parte da canção que parecia uma oração para todos nós. Pessoas pobres sem grandes vantagens ou oportunidades. Se não buscássemos nosso pão todos os dias, se não tivéssemos vontade de ganhar e de mudar, não estaríamos nem ali. Me senti parte de um todo pela primeira vez.


Quando o jogo estava prestes a terminar, nosso jogador recebeu uma bola despretensiosa sozinho. Todos nos erguemos juntos e cabeceamos inconscientes, como que torcendo para ele acertar o gol. O estádio explodiu em alegria! Gol do Argentinos Juniors!

Meu pai pulou meio metro, e me abraçou pela primeira vez. Foi tão apertado que, com certeza, valeu por todos aqueles anos sem abraços. Aquele abraço tinha um gosto diferente da mamãe. Era como algo explosivo que corria pelas veias e eriçava dos pés à cabeça. Ele me ergueu como um troféu e chorou olhando pra mim.  - ¡Somos campeones hijo!


Daí em diante era como se eu tivesse desbloqueado uma parte do meu pai que não conhecia, e talvez nem ele conhecesse. Passamos a nos conversar muito mais e começamos a compartilhar mais a paixão chamada futebol. As paixões nos uniram.

Meu pai agora me abraçava como todos os pais dos meninos do colégio. Duvido que o abraço deles fosse tão bom quanto o do meu.


Um ano mais tarde. A seleção argentina foi campeã mundial na copa de 86. Como choramos e como comemoramos aquela vitória em cima da Inglaterra. A mesma Inglaterra que matou nossa gente na guerra das Malvinas. Meu pai gritou feito doido de alegria quando Maradona driblou meio time e correu com o punho erguido ao alto, como um justiceiro vingando uma nação inteira. 


Meu pai me ensinou que as paixões futebol, política e amor se misturam, e podem moldar caráter e alegrias ao longo do tempo. Minha vida neste bairro, foi pavimentada por esse combo.


Alguns anos mais tarde, meu pai faleceu por problemas de saúde. Deus havia separado lindas alegrias e lindos abraços antes de sua ida. Abracei a vida antes de abraçar meu pai.