Palavras são um conjunto de riscos que juntas, para muitas pessoas, têm um significado. Como se olhando aquele desenho abstrato de formas distintas, pudéssemos entender a teoria da relatividade e como o tempo passa em diferentes universos, ou até mesmo entender na maior riqueza de detalhes o que se passava com Dom Quixote, que só existiu na cabeça de Cervantes.
Um compilado de garranchos inventados, que juntos formam frases e pensamentos que nunca saíram do nosso lado de dentro. Como é para uma criança entender que tudo o que pensamos, pode ser descrito e lido em voz alta?
Foi quando no dia em que estava sentado no sofá depois de um árduo dia de trabalho. Mente barulhenta, com prazos e tarefas atrasadas a serem feitas, eis que meu filho de cinco anos se volta a mim, com a mão suja de canetinha, me mostrando um caderno com um risco aleatório na horizontal:
- O que está escrito aqui, papai?
- Nada, filho.
Respondo eu, dando uma olhada no pequeno caderno, sem ao menos olhar para o rosto dele.
Ele se voltou para o caderno com uma alegria súbita, como se tivesse descoberto uma lei fundamental da física.
- Está escrito Nada, papai? Você entendeu o que eu escrevi?
- Ah não, filho. Eu quis dizer que não tem nenhuma palavra escrita aí. São somente riscos sem significado.
Nesse instante aquela criança murchou como uma florzinha triste e se encolheu no seu laboratório mental, tentando de qualquer forma um tipo de comunicação comigo de forma escrita. Como se a mente dela fosse um universo à parte, e a minha mente obtusa adulta fosse um terreno alienígena com pretensões de ser conquistada.
Quando somos crianças adoramos desenhar aquele conjunto de rabiscos que simbolizam casas, pessoas de palito, passarinhos e sóis. Quando crescemos mudamos nossa didática e transformamos os desenhos em códigos complexos cheios de acentos, tempos verbais e coesões. Nos esquecemos que são os mesmos desenhos primitivos com intenções de colonizar a mente alheia. Ou ao menos, fazer com que o outro entenda o que se passa dentro de nós.
- Mas papai, tá aqui escrito - árvore - Porque você não consegue entender?
- Nesse rabisco não está escrito - árvore - filho. A partir do ano que vem você vai estar na escolinha e vai poder aprender a escrever igual o papai e a mamãe.
O pior de tudo é que na cabeça genial daquele filhote de homo sapiens, de fato estava escrito - Árvore - no caderno. Ao seu jeito, é verdade. Com seu vocabulário, sem dúvidas. Ora, se Tolkien inventou um alfabeto inteiro pra dar uma linguagem a elfos que sequer existem no mundo físico, quem seria eu pra julgar o alfabeto criado pelo meu filho?
Naquele mesmo dia pela manhã antes de ir trabalhar, abri um livro de poemas do Pessoa, mais especificamente Alberto Caeiro, meu heterônimo preferido, que curiosamente dialogava muito com essa cena:
“A criança que pensa em fadas e acredita em fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as coisas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se aplica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar num ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.”
Me lembrei de um desses dias, quando minha esposa estava sentada na poltrona da sala lendo um livro. Ela costuma fazer isso depois do jantar quase como um ritual. Se levanta da mesa, se espreguiça olhando para a TV, e em seguida caminha até a estante para pegar o livro que lhe interessa, senta na poltrona com uma perna dobrada sob a coxa, e a outra esticada. Enquanto isso, a louça fica a meu encargo, mas nosso filho fica no tapete, aparentemente brincando de lego, porém seus olhos atentos observam a matriarca como um espelho a ser seguido.
Que tipo de assunto deve haver naquelas folhas de papel onde a mamãe não desprende o olhar de lá?
Ele olha para a mãe como se olhasse para sua casa - que de fato foi por nove meses, - mas como se quisesse entender o mistério daquela casa. Como se aquela casa fosse um pouco dele, e nele subitamente despertasse uma vontade imensa de copiá-la e segui-la. A mamãe naquele contexto era o caminho a ser seguido, era o seu guru.
Depois de recordar essa cena, pude entender um pouco a intenção do meu filho quando me mostrou o papel de rabiscos esperando uma aprovação; ele queria falar seu próprio idioma, seguir estando dentro daquela barriga.
