sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Morrer de duas mortes

 

   


   

   Eu tava comentando com Compadre Dagobé esses dias mesmo como o arraial andava parado, sem causo nenhum pra se contar. O último rebuliço que se deu foi quando Dona Alberta inventou de fazer fogueira de São João e convidou toda a moçada. Foi dar ração para os bodes, tropeçou no bicho e caiu em cima da brasa. Foi um Deus nos acuda; griteiro e cachorro latindo. Por sorte o povo foi rápido e tirou ela sem ferimento grave.  

Mas mudando de assunto, te conto que esses dias, sentado em frente da venda do Seu Dagobé, eu pensei que tinha chegado minha hora. 

Era por volta das onze horas, minha barriga roncava esperando o almoço, e o guisado de Dona Selma já cheirava tanto que puxava pelo nariz qualquer um que passasse em frente. Essas horas que arrodeiam o almoço são traiçoeiras; o cabra já guardou a peixeira, e a carabina fica encostada atrás da porta; tudo e todos rendidos. Se por um acaso um agourento mal-encarado chega, a gente fica de calça curta.

Era um fim de manhã quente de dezembro, nenhum vento balançava nenhum umbuzeiro. Até a planta mais levinha era inerte igual mandacaru. O sol enrijecia sobrancelhas, estalava madeiras, e a água escorria da testa do transeunte.

De cima do monte, um grupo de três cavaleiros descia a estrada de terra levantando poeira vermelha, trotando de peito aberto em direção à venda. Eu mais meia dúzia estávamos com a cabeça no guisado de Dona Selma, fomos perceber os cabras já embaixo do nosso nariz.

- Dia! Seu Dagobé anda por aí?

Eram os três jagunços mais temidos da região. Os homens eram unha e carne com o Coronel e o Senador. Aquele tipo de gente não era flor que se cheire, e pra evitar confusão a gente mudava até de calçada. 

O da esquerda de chapéu de vaqueiro era Zé Boné; dizem que chamam ele assim ironicamente, pois quando ele tira seu chapéu e olha pro cabra, esse é o último movimento antes dele mandar o futuro defunto pra terra do pé junto.

O do meio era Tião Cabaceiras; o homem veio de lá quando era criança, e dizem ser neto de cangaceiro. Tem a pestana junta e o nariz redondo igual umbu. Não é de muitas palavras.

O terceiro era o líder do bando. O porta voz de todos, carregava um punhal de lá, e um trinta e oito de cá. O queixo do homem era largo e chegava antes dele. Jararaca era seu apelido.

Os três eram jagunços conhecidos do Coronel e faziam todo tipo de serviço sujo da região; pode crer que a visita deles assim, e ainda perguntando pelo Seu Dagobé, arrepiava a gente todinho. Eu olhei para meu amigo de canto de olho, indicando com a cabeça para que chamasse o dono da venda.

Jararaca de cima do cavalo cuspiu de canto, arrumou o chapéu e disse um obrigado seco olhando o horizonte.

Seu Dagobé junto de sua esposa vendem almoço das onze às duas, e também possuem uma lojinha de reparos de celular. Têm um filho que é entendido de tecnologia e o negócio tem prosperado na região depois do advento da rede social. 

O dono da venda recebeu o chamado dos andarilhos, enxugou as mãos no pano de prato, o colocou nos ombros, e caminhou até a porta com as pernas já meio bambas.


- Dia! - Respondeu Seu Dagobé monossilábico, baixando o chapéu pra esconder o sol que vinha na direção dos olhos. 

Os cabras se entreolharam depois de alguns segundos de silêncio, então Zé Boné disse com a voz cheia de risada.


- Ué cumpade, num vai convidar a gente pra um dedo de prosa com guisado não? 

 

A rapaziada que estava encostada na parede da venda já foi ficando esperta ajeitando a coluna, mas dando os bons dias pros três indesejados enquanto amarravam seus cavalos na frente.


- Bicho bonito hein, Seu Jararaca. Esse seu cavalo de certo que é um Mangalarga, não?

- Cê de certo que não conhece de cavalo. Esse é um Puro-Sangue, a pelagem dele é mais brilhosa. Ganhei do senador fim do ano. Presente de natal, num sabe...

O camarada nosso que fez a pergunta inocente ficou até sem jeito com a resposta, só contorceu o beiço pra baixo condizendo.

A esposa de Seu Dagobé terminava o almoço na cozinha enquanto os homens entravam a passos largos. Essa gente parece que carrega quatro ovos no meio das pernas, onde já se viu andar assim parecendo estar assado; vai vendo a história.

Os três sentaram na mesa maior de seis lugares; um na ponta, e os outros dois um na frente do outro.

Os meninos, amigos nossos que deram as boas vindas na frente da venda, se movimentaram a fim de precaver qualquer imprevisto. Seu Dagobé tinha um revólver e uma Winchester que guardava com muito pó na tuia de café, atrás da venda. Os rapazes trouxeram, mas deixaram ali na frente longe da vista dos homens. 

- Os meninos vão querer o guisado de bode acompanhado de cerveja mesmo, ou uma cachaça? - Perguntou Dona Selma.


- Três copinhos de cachaça por favor Dona. A gente agradece. - Respondeu Jararaca em nome dos outros dois jagunços.


Os parceiros nossos olhavam da porta com desconfiança, pé trocado e braço cruzado. Tião ficou encismado.


- Olha Seu Dagobé, eu não sei o que o senhor tá pensando, mas pode pedir pros seus colegas sentarem um bocadinho. O moço ali tá me olhando como se eu fosse bandido, acha?

- Oceis vão pitar um pouco alí na frente, faz favor. Qualquer coisa chamo oceis. - Dizia Seu Dagobé aos seus colegas recém armados.


O silêncio naquele cômodo era de fazer eco. Dona Selma havia desligado o rádio logo quando os homens chegaram de cavalo. Naquele momento só a rolinha Fogo-Pagô que tagarelava com os sininhos dos bodes no quintal.

Num certo momento, Zé boné quebrou o silêncio vendo seu celular e abrindo um vídeo qualquer de rede social, e soltou uma gargalhada sincera que deixou os outros dois boquiabertos.

- Rapaz o cabra é bobo demais. - Disse Tião

- Olhe isso aqui homem! 

E todos três caíram na risada mais sincera daquele dia. Nos olhávamos com semblante cansado e sério, rezando pra eles saírem dali o mais rápido possível.

Estávamos esperando pelo favor ou problema que apareceria em instantes. A gente já soube de história de moradores da região que desapareceram logo depois de uma visita dessas pestes. Seu Dagobé suava mais que a tampa da panela no fogão. Derretia na sombra. O guisado chegou acompanhado das pingas. Nessa, eu, Dona Selma, e seu Dagobé fomos pra dentro da cozinha para prosear um pouco, e deixarmos os homens à vontade.


- Eu acho que fiz presepada, Dagobé…Eu acho que fiz presepada… - Dizia Dona Selma tensa e tremendo.

- O que foi mulher?

- Eu pus um bocadinho de remédio de rato na comida desses coiso. Eu acho que nestante os três vão cair duro.

- Mulher, a gente vai morrer junto se esses homens baterem as botas. Valha-me minha nossa senhora! - Disse Seu Dagobé com medo.


Eu só tive tempo de olhar pelo balcão e os cabras já tinham devorado o prato com uma fome sem igual. Nessa hora eu já pensei no futuro e vi a gente se lascando todinho. Se esses três morrerem, vão vir uma legião de jagunços atrás da gente por vingança.

Já imaginei ligar pra minha mãe e irmã avisando que as amava, já imaginei passar na paróquia e confessar meus pecados tudinho ao padre, imaginei até fazer promessa pra Padre Ciço caso os homens sobrevivessem…

Enquanto eu olhava o horizonte pela janela, e o bafo quente da tarde batia no rosto, ouvi uma voz de longe me chamando:


- Ei…ei seu moço. Tu não escuta não, é?


Voltei à tona, pisquei os olhos e respondi a Zé Boné que me chamava ali não sei há quanto tempo. Ele veio entregar os pratos, todos vazios. Agradeceu e disse que era o melhor guisado que tinham comido na vida. A vida continuou. Só não sabíamos até que horas.

Jararaca limpava os beiços no guardanapinho que acompanhava o copo da cachaça, quando levantou e começou:


- Mas venha cá, Seu Dagobé, a gente não quer tomar mais o tempo de vocês não. Queríamos era ter um dedo de prosa com o seu filho, ele por acaso está aí?


O dono da venda deu um grito e o menino veio lá do fundo da loja, meio sem jeito, fazer parte da tensão que se criava.

- Posso ajudar, amigo? 

O menino não sabia metade da história que estava acontecendo, e caiu de gaiato no caso.

Jararaca iniciou a prosa:

- É que a gente veio descendo a encosta, dos lados da Vila, e tivemos um problema ruim de resolver…


O cabra parou na frente do filho de Seu Dagobé, foi levantando a camisa deixando o cinto à mostra, e metendo a mão na lateral da calça. Nessa, um dos nossos camaradas na frente da venda foi engatilhando a Winchester que escutei de longe. Eu e Dona Selma demos dois passos pra trás já querendo agachar por detrás do balcão.

Foi quando o miserável sacou pra fora do bolso seu celular e entregou na mão do filho de Seu Dagobé na maior paz.


- Olhe meu rapaz, a gente não ía passar por aqui não, porém hoje de manhã quis fazer uma chamada pra capital e o bendito celular nem sinal de vida deu. Tá tudo preto na tela. Nos dias de hoje a gente fica sem um braço, mas não fica sem celular. É ou num é, Tião!?

- Pior que é, visse…


Os homens começaram a rir, e todos nós começamos a rir também de um alívio que quase fez Dona Selma desmaiar. A bichinha ficou branca igual biju.

Era um riso de alívio misturado com graça e desespero. Naquela hora tudo já tinha ido pelo ralo, porque os homens iriam cair duros de morte matada sem terem feito nada contra a gente.


- Pode deixar, seu moço. Eu dou uma olhada no seu celular e depois de amanhã você pode vir buscar - Respondeu o filho de Seu Dagobé de maneira inocente.


- Na volta a gente acerta a conta. Ou melhor, deixa pendurado que o senhor Coronel acerta.


Os três foram saindo da venda a passos de digestão, foram mascando fumo e montando em seus cavalos com tranquilidade. Dona Selma e Seu Dagobé ficaram segurando o queixo com uma mão, e a outra segurando o cotovelo, enquanto os homens sumiram no estradão.


- Mas tu botou remédio de rato mesmo na comida dos cabra, ou foi açúcar?

- Tô dizendo Dagobé, botei um tantinho que era pra derrubar os três.


Aquele dia terminou tranquilo pra nós e pra família de Seu Dagobé. Mas o que intrigava todos daquela venda era como que os homens saíram vivos. Possivelmente caíram do cavalo a alguns minutos dali? Será que alguém voltaria pra tentar alguma represália conosco?

De qualquer forma, nossos camaradas fizeram sentinela aquela noite em frente da venda, se revezando armados. Antes prevenir que remediar.

A noite passava tranquila. O filho de Seu Dagobé ficou inteirado da história e quase quis matar a mãe com a besteira do veneno de rato. Resolveu na hora mexer no celular do futuro defunto a fim de encontrar algum tipo de informação comprometedora. Arrumou o erro do aparelho e começou a fuçar. E quem abre barriga de urubu, só vai achar carniça.

Havia mensagens de texto entre Seu Jararaca e o Senador comprometedoras. Os homens estavam trabalhando juntos para matar pessoas inocentes num povoado vizinho. Gente que de nada tinha a ver com essas picuinhas políticas.

Por volta das dez da manhã uma brisa leve refrescava o arraial. Dona Selma tinha acabado de pendurar algumas carnes de charque no varal pensando na descoberta das mensagens do celular. Seu Dagobé estava saindo para comprar alguns itens na feira:


- Vai querer alguma coisa de lá, bem?

- Traga duas duzias de laranja, e umas brevidades que você sabe que eu gosto…


Seu Dagobé já estava ligando o carro quando ela chamou-o novamente:

- Ah pois sim, traz três metros de chita, quero fazer um vestido novo…

Ela ficou reflexiva subitamente. Três eram os jagunços, três pratos e três cachaças bem servidas por ela. Lembrou-se do caso do dia anterior, dos três indesejáveis, das mensagens de texto, e do que viria...

No meio da prosa, vinha descendo a encosta dois andarilhos conhecidos por todos nós por adorarem contar um causo novo.


 - Dia, Dona Selma. Dia, Seu Dagobé! Eu aconselho o Senhor a desmontar desse carro e ouvir a história que tenho pra lhe contar, visse. 

Os dois começaram contando algo que muito interessava aquela vendinha.


- A senhora ficou sabendo do que houve com os três jagunços que almoçaram aqui ontem?


Eu Seu Dagobé, seu filho, e todo mundo que bebia umas cachaças na venda, já esticamos a orelha pra ouvir a fofoca.

- Ali perto do riacho grande, duas léguas daqui, os três mal-encarados toparam com uma meia dúzia de justiceiros. Briga grande e antiga, num sabe, Dona… Emboscaram os três e os fizeram descer do cavalo pra modo de matá-los. Assim que engatilharam a cartucheira, Zé Boné, Tião Cabaceiras e Jararaca caíram no chão desmaiados. Quando foram olhar, já estavam mortos. Daí em diante viraram piada no outro grupo por terem morrido de susto, veja só!


- E os infelizes eram tão frouxos assim que caíram duros de susto, foi? - Emendou Seu Dagobé pra abafar a história.

- E foi, homem. Os outros cabras nem careceram de gastar a bala do rifle. 


Os três infelizes já tinham seu destino traçado; iriam morrer de rifle caso o remédio do rato não fizesse efeito, então Deus só adiantou a tarefa. Morreram de duas mortes.

Depois do caso contado, nós e a família de Seu Dagobé tratamos de conversar com Dona Selma. A bichinha tem coração bom, era devota de Padre Cícero, jamais que queria fazer essa desgraça com um cristão. Assassinos, canalhas, amigos de políticos, porém cristãos.



[Felipe Leonardo]

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Trancar a noite do lado de fora


    As manhãs escuras não pertencem a nós nem ao dia. Ela é uma despedida da noite que teima em não ir embora, e atrasa a cantoria do galo.

As manhãs escuras não são nem dia nem noite. Seu cheiro é de neblina e sereno, misturadas com o caos dos latidos dos cães, aos grilos já roucos, e aos sapos silenciosos.

Essas manhãs escuras, mesmo anos depois, ainda fazem lembrar meu avô.


Eu não tinha idade pra ter um metro ainda, criança de tudo. Em uma dessas manhãs, eu me levantava sem querer num sábado às cinco horas, - não que me levantasse todos os sábados assim, mas por costume da semana pela escola. 

Naquele pedacinho de terra em Joanópolis, o mundo acordava junto com meu avô. O dia e todas as suas coisas exuberantes era obrigado a clarear junto com aquele velho teimoso. As cabras se espreguiçavam obrigatoriamente, junto do galo que cantava assustado quando o patriarca colocava suas chinelas, e as arrastava no piso vermelho. Acendia o fogão à lenha, colocava a água do café, e ligava o rádio na estação que nunca era alterada.


- “Cinco horas e vinte minutos em Joanópolis. Um caminhão carregado de cana de açúcar tombou na BR 236 por volta das onze horas desta quinta feira. O motorista que estava sóbrio, disse ter se distraído com um animal muito grande que atravessou o caminho…”


Meu vô apoiando a cabeça numa mão enquanto a outra segurava o café, olhava fixamente o rádio como que enxergando a notícia do outro lado. E bem parecia que estava enxergando em outro mundo, porque minha avó já o chamava fazia tempo…


- Oh Manel, você não vai tirar o leite da vaca não? Ande logo que os bezerros estão gritando esperando a vez deles.


De supetão o velho volta à realidade piscando duro. Levanta puxando um pigarro, e passa a mão na minha cabeça de um jeito carinhoso. Aquilo me deixava sempre bravo, porque deixava migalhas de pão no meu cabelo.

Quando criança lembramos de coisas bestas que normalmente eram para ser esquecidas. Em contrapartida, a lembrança desses detalhes, cheiros, texturas e cores, me ajudaram a fixar um dos momentos mais assustadores que vivi.


Nesse ano de noventa e sete eu tinha dez anos. Quando criança, nossos olhos virgens assimilam novidades com grande espanto, e não é difícil alcançar o terreno do fantástico. 

Nas noites de outono quando o vento passava mais forte perto de anoitecer, eu começava a ver o mundo de outra forma. O vento varria o dia e levava o sol, e o que sobrava era o medo. 

No campo crescemos acostumados com o som barulhento da noite. Tudo é normal, e tudo faz parte, pelo menos assim falavam meus avós:

- “A mata tem vida própria, menino!”


Meu avô Manel e minha avó Cleusa tinham oito filhos. Meus pais faleceram quando eu tinha nem um ano. Meus tios eu nunca tive notícia até então, e só conhecia um. Em nossa casa vivíamos nós quatro. Eu, minha avó, e o caçula, tio Tonho. 

Cresci convivendo com meu tio Tonho a certa distância. Nessa época pelo menos me lembro dos avisos e olhares receosos de meus avós, conversando baixinho entre si, quando o tio não estava presente. Me lembro que ele andava pela casa com um sino parecido com aqueles que colocamos nas cabras. Pelo som do sino pendurado em seu pescoço sabíamos em qual cômodo da casa ele estava. 

Quantas vezes confundi as cabrinhas com o tio Tonho!

Me recordo de uma tarde quente depois do almoço, acabei pegando no sono no sofá da sala e sonhava com um sino. Sonhava estar perto do riacho de São Cosme brincando com as cabrinhas que não paravam de pular. Mas repentinamente abri os olhos e vi meu tio parado em frente a TV, me olhando fixamente enquanto balançava o sino pendurado em seu pescoço. Aquele olhar esbugalhado nunca me saiu da cabeça.


Nas noites claras, meu tio tinha o costume de chegar tarde da noite e dormir na varanda. Acordava sempre rasgado, com olheiras gigantes e um sono fora do comum. O que ele fazia na gandaia eu não sei, mas nesses dias era melhor nem puxar papo com o homem.


  Pelo menos era isso que meus avós me contavam, e pelo pouco que via. O tio Tonho sempre me deu calafrios.



A casa era grande e abrigaria oito irmãos normalmente. O vazio e o silêncio dela por dentro, aumentava o som medonho de fora. Meus avós eram de família católica, então a missa de domingo era sagrada. Sem contar as diversas imagens e cruzes que enfeitavam cada cômodo da casa.

O quarto do tio Tonho era curioso; havia um altar exclusivo com muitas imagens, crucifixos, jarras de água, e cortinas fechadas. Me recordo muito bem do cheiro de mofo que por vezes vinha de lá. Com os olhares infantis, tudo parecia maior e intimidador.


Certa noite eu brincava na varanda da casa que dava para uma estrada de terra. A lua quando estava cheia, prateava as araucárias e a cadeira de balanço da vó, que servia de repouso a ela todas as tardes. Eu adorava olhar aquela vista e me perdia com o som da cigarra. 

Eu só ia embora quando começava um som muito feio e alto vindo de baixo da sacada. Era batata; dava sete horas da noite, o som surgia. Parecia um grito de desespero de algum bicho. Eu estava me virando pra ir embora quando meu tio Tonho se aproximou devagar e começou uma conversa que mais parecia uma tentativa de monólogo.

- Você sabe de onde vem esse som, criança?S

   -Sei não. -  Respondi seco.

- É o sapo na boca de uma cobra. Quando o sapo vê que não tem mais pra onde fugir, já com metade do corpo engolido, ele grita de desespero…


Eu o olhava com a boca aberta, e com a espinha gelada. Ele continuou.

- Eu quando tinha sua idade não tinha o amor que seus avós dão a você…nem batizado eu fui, sabia?


Um longo silêncio ficou na sacada até ele continuar.

- Mas a cruz que eu carrego ninguém desse sangue precisa carregar mais. Reze direito, menino…


Ele vestiu sua bota, olhou a lua com uma raiva única, como se ela fosse seu objeto de maior desejo e ódio, e saiu correndo pelo estradão balançando seu sino. Corria como se estivesse fugindo da polícia, ou dele mesmo.


Nesse instante meus avós chegavam esbaforidos na sacada aos berros.

- Tonho, Tonho! Volte aqui rapaz!

- O que foi vó?

- Ele fez mal a você meu filho? Ele fez?

- Não vó, só falou umas coisas sem pé nem cabeça e foi embora

Eles se entreolharam e entraram pra dentro de casa.

- Entre também menino, mania besta de ficar aí sozinho olhando a escuridão…


Já estava perto da hora do jantar. Decidi sentar na cadeirinha do lado do filtro de barro e aguardar a comida como sempre fazia todas as noites. Adorava ficar ali ouvindo as histórias que minha avó contava, sentindo o cheiro da cebola refogada na banha.


Mas essa noite o clima estava diferente, não houveram histórias, só a coruja e a cigarra barulhenta. O fato de meu tio ter saído correndo alvoroçado aquela hora naquele dia, não estava nos planos. Meus avós se entreolhavam como que lendo a mente do outro. Um assunto monossilábico e preocupado:

- Essa noite ele não podia sair, Manel. O Padre falou que hoje era perigoso, e olha o clarão que está o céu. Você sabe que não podia… - Dizia minha avó tirando a palha do milho.


- E a culpa é minha? Quando ele encasqueta é ruim de segurar ele. Agora é ficar esperto… - Dizia meu avô ressabiado falando pra dentro.


Às oito e meia, pontualmente o jantar estava na mesa. Quando eu estava na metade do prato, eles já tinham terminado. Me apressaram dizendo que eu deveria dormir logo, pois amanhã seria um dia longo.

- Mas vó, amanhã é sábado, não precisamos ir pra cidade.

- Mas sua vó está mandando e você tem que me obedecer. Menino teimoso!



Caminhando para o meu quarto pude perceber meu avô trancando todas as portas e janelas de casa. Em noites de lua cheia aquelas fechaduras apareciam. Eu não fazia ideia de onde meu avô as guardava. Elas estalavam ao longo dos cômodos trancando a escuridão do lado de fora. Perguntei a meu avô se o tio Tonho dormiria fora mais uma vez?

O Vô desconversou sabiamente:

- Seu tio já é grande. Ele sabe se virar, meu filho. - Dizia ele com um semblante triste e cansado.



Assim que deitei, não demorei a pegar no sono. A noite já ía funda, e os grilos e cigarras já não cantavam. De repente ouvi um barulho muito alto no quintal. Um som de madeiras caindo e as galinhas todas gritando em desespero. Os cachorros dos sítios distantes latiam tão alto que eu podia ouvi-los do quarto. 

Abri os olhos suspirando de susto. Olhei o relógio do lado da cama e marcavam as duas horas da manhã. 

Imaginei que poderia ser o vô, mas ainda era cedo. Talvez algum bêbado da cidade trupicando no poleiro. Não, nenhum bêbado conseguiria caminhar tanto da cidade até o sítio.


Uma única galinha continuou gritando até que se calou subitamente. O silêncio se instaurou novamente e pude escutar um barulho de sino vindo de fora. De duas uma; ou era o Tio Tonho zanzando mais uma vez, ou era alguma cabra perdida no poleiro. Decidi me levantar para ao menos averiguar o que estava acontecendo.


Cacei meus chinelos no escuro e fui me guiando pelos cômodos da casa pela incrível luz da lua que entrava pelas frestas, clareando tudo. Meus avós ainda dormiam, o que parecia muito estranho tendo em vista o sono leve dos dois.


O corredor era comprido até chegar na porta da frente da cozinha. Um vulto grande fez sombra na janela e não pude deixar de ver. Tive um frio na minha espinha e senti que algo não estava certo. Com muito cuidado tentei abrir a porta da frente, mas a fechadura de ferro caiu no chão fazendo um alto barulho. Nesse instante quando olhei a pequena janela vasculante da cozinha, dois olhos vermelhos me olhavam fixos, baforando o vidro e embaçando-os. 

Minhas pernas travaram, e o grito se entalou na garganta demorando a sair. Corri em desespero berrando em direção ao quarto dos meus avós, que já estavam despertos, pelo barulho da fechadura que havia caído.

- Vô tem um alguém lá fora!! - Eu chorava e engasgava minha fala.


Meus avós já estavam com a roupa pronta, e pareciam que se arrumavam para uma guerra que já conheciam.

- Você fique aqui menino, em silêncio. Só faça o que eu mandar.


Meu avô agarrava e segurava uma cruz de ferro que tirou subitamente de uma gaveta trancada. Nós três fizemos silêncio, só nossas respirações rápidas se faziam ouvir.


De repente ouvimos um gemido de porta. Alguém havia entrado pela cozinha. Sons de prato caíam quebrando o silêncio, enquanto pegadas longas e lentas eram ouvidas no chão de madeira.

- Meu bem, precisamos trancar ele no quarto. Lá dentro podemos controlá-lo e acalmá-lo. Dizia minha vó.


A ideia de meus avós era prender o bicho dentro do quarto do tio Tonho. O objetivo daquilo não fazia sentido pra mim, mas eles pareciam seguros.

O som do sino se aproximava de nós e meu coração já estava na ponta da goela, palpitando de medo. Meu avô abriu a porta e, aproveitando que o intruso estava longe, correu abrindo o outro quarto com uma destreza incrível. Nesse instante pude ver o olhar de meu avô de desespero, e pela fresta entreaberta, vi rapidamente no chão a cabeça de um dos nossas cabras, seguida de um rastro de sangue.


Eu e minha vó fechamos nossa porta e nos trancamos novamente. Um grunhido alto e assustador se ouviu de dentro da casa, ecoando por todos os cômodos. Minha avó me abraçava chorando.


Aquela cena parecia um sonho ruim, desses que temos numa noite quente onde não conseguimos dormir nos revirando pela cama. Quem me dera que o que vivi pudesse ser um pesadelo, mas o cheiro de enxofre e cachorro molhado que sentia era mais real do que imaginava.

Eu e minha avó decidimos pular a janela e se esconder no banheiro que ficava do lado de fora. Lá poderíamos sondar a situação e ver o que ocorria pelas frestas mais grossas. Mas antes, era preciso destrancar as barulhentas fechaduras da janela.

Meu avô entrou no quarto do Tio Tonho e esperou o bicho entrar. De caninos enormes e olhos de sangue, o ser peludo entrava sob duas patas, curvado e entortando-se como que sondando a presa. A cruz de ferro que meu avô segurava em uma mão, caiu com uma tremedeira repentina. Foi nessa hora que o bicho avançou e arranhou meu avô de raspão, rasgando sua roupa e tirando sangue.


Conseguimos abrir a fechadura por dentro e pular a janela. Saímos correndo no mato com as pernas bambas para se esconder no tal banheiro. Ofegantes e palpitantes.

- Ai minha nossa senhora, proteja meu Manel! - Rogava minha avó com a voz trêmula.


Alguns segundos mais tarde, ouvimos um grito de dor que não conseguimos distinguir se era de gente ou de lobo. Os urros desafinavam e eram estridentes, podendo-se escutar do sítio todo.

Naquele instante vi meu avô sair cambaleando e mancando pela porta da cozinha.

- Vem, vem! Entra no carro, vamo, vamo!


Nós três entramos na Kombi aos solavancos e meu avô arrancou o carro como se não houvesse amanhã.


Ele estava sujo de sangue, e minha vó em desespero perguntava se estava bem.

- Diga logo homem, diga!! - Gritava


Meus avós sabiam de algo. Eu sempre suspeitei que escondiam algo de mim entre aqueles olhares que conversavam. 


Meu avô ficou por 20 minutos calado dirigindo com o olhar distante, como no momento em que ouvia o noticiário do rádio pelas manhãs. O silêncio era fúnebre.

Talvez o silêncio da mata, aquele silêncio que sempre ouvi e senti, fosse um eterno eco fúnebre. Talvez o som da coruja, grilos e cigarras fosse um lamento naquelas terras. Um grito de socorro que achávamos belo.


A quilômetros dali, ele pode contar. Disse que ao jogar uma jarra de água benta no bicho, ele se contorceu e urrou de dor, foi quando aproveitou e saiu do quarto, trancando- o lá dentro.

Não sabíamos quanto tempo a fechadura aguentaria e decidimos abandonar o sítio. Condenamos o monstro a ficar naquele quarto, pelo resto da vida.


Meus avós voltaram três dias depois ao sítio com um pequeno caminhão de um amigo da vizinhança, para buscar toda a criação. Amontoamos as cabras, vacas e galinhas e levamos embora. Naquela ocasião, o silêncio imperava do lado de dentro da casa.


Transeuntes e vendedores de leite que passavam diariamente pelo sítio ao longo dos dias, diziam ouvir sons de sininho, passos e sons de garras arranhando portas. Outros, diziam que a casa estava amaldiçoada e era habitada pelo coisa ruim.


Algumas semanas depois, um grupo de religiosos que passava de romaria pelo sítio, observou de longe que a janela do quarto do tio Tonho estava destruída. O ser já não estava mais preso.


Tio Tonho nunca voltou do passeio noturno daquela noite na sacada.



[Felipe Leonardo]