sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Morrer de duas mortes

 

   


   

   Eu tava comentando com Compadre Dagobé esses dias mesmo como o arraial andava parado, sem causo nenhum pra se contar. O último rebuliço que se deu foi quando Dona Alberta inventou de fazer fogueira de São João e convidou toda a moçada. Foi dar ração para os bodes, tropeçou no bicho e caiu em cima da brasa. Foi um Deus nos acuda; griteiro e cachorro latindo. Por sorte o povo foi rápido e tirou ela sem ferimento grave.  

Mas mudando de assunto, te conto que esses dias, sentado em frente da venda do Seu Dagobé, eu pensei que tinha chegado minha hora. 

Era por volta das onze horas, minha barriga roncava esperando o almoço, e o guisado de Dona Selma já cheirava tanto que puxava pelo nariz qualquer um que passasse em frente. Essas horas que arrodeiam o almoço são traiçoeiras; o cabra já guardou a peixeira, e a carabina fica encostada atrás da porta; tudo e todos rendidos. Se por um acaso um agourento mal-encarado chega, a gente fica de calça curta.

Era um fim de manhã quente de dezembro, nenhum vento balançava nenhum umbuzeiro. Até a planta mais levinha era inerte igual mandacaru. O sol enrijecia sobrancelhas, estalava madeiras, e a água escorria da testa do transeunte.

De cima do monte, um grupo de três cavaleiros descia a estrada de terra levantando poeira vermelha, trotando de peito aberto em direção à venda. Eu mais meia dúzia estávamos com a cabeça no guisado de Dona Selma, fomos perceber os cabras já embaixo do nosso nariz.

- Dia! Seu Dagobé anda por aí?

Eram os três jagunços mais temidos da região. Os homens eram unha e carne com o Coronel e o Senador. Aquele tipo de gente não era flor que se cheire, e pra evitar confusão a gente mudava até de calçada. 

O da esquerda de chapéu de vaqueiro era Zé Boné; dizem que chamam ele assim ironicamente, pois quando ele tira seu chapéu e olha pro cabra, esse é o último movimento antes dele mandar o futuro defunto pra terra do pé junto.

O do meio era Tião Cabaceiras; o homem veio de lá quando era criança, e dizem ser neto de cangaceiro. Tem a pestana junta e o nariz redondo igual umbu. Não é de muitas palavras.

O terceiro era o líder do bando. O porta voz de todos, carregava um punhal de lá, e um trinta e oito de cá. O queixo do homem era largo e chegava antes dele. Jararaca era seu apelido.

Os três eram jagunços conhecidos do Coronel e faziam todo tipo de serviço sujo da região; pode crer que a visita deles assim, e ainda perguntando pelo Seu Dagobé, arrepiava a gente todinho. Eu olhei para meu amigo de canto de olho, indicando com a cabeça para que chamasse o dono da venda.

Jararaca de cima do cavalo cuspiu de canto, arrumou o chapéu e disse um obrigado seco olhando o horizonte.

Seu Dagobé junto de sua esposa vendem almoço das onze às duas, e também possuem uma lojinha de reparos de celular. Têm um filho que é entendido de tecnologia e o negócio tem prosperado na região depois do advento da rede social. 

O dono da venda recebeu o chamado dos andarilhos, enxugou as mãos no pano de prato, o colocou nos ombros, e caminhou até a porta com as pernas já meio bambas.


- Dia! - Respondeu Seu Dagobé monossilábico, baixando o chapéu pra esconder o sol que vinha na direção dos olhos. 

Os cabras se entreolharam depois de alguns segundos de silêncio, então Zé Boné disse com a voz cheia de risada.


- Ué cumpade, num vai convidar a gente pra um dedo de prosa com guisado não? 

 

A rapaziada que estava encostada na parede da venda já foi ficando esperta ajeitando a coluna, mas dando os bons dias pros três indesejados enquanto amarravam seus cavalos na frente.


- Bicho bonito hein, Seu Jararaca. Esse seu cavalo de certo que é um Mangalarga, não?

- Cê de certo que não conhece de cavalo. Esse é um Puro-Sangue, a pelagem dele é mais brilhosa. Ganhei do senador fim do ano. Presente de natal, num sabe...

O camarada nosso que fez a pergunta inocente ficou até sem jeito com a resposta, só contorceu o beiço pra baixo condizendo.

A esposa de Seu Dagobé terminava o almoço na cozinha enquanto os homens entravam a passos largos. Essa gente parece que carrega quatro ovos no meio das pernas, onde já se viu andar assim parecendo estar assado; vai vendo a história.

Os três sentaram na mesa maior de seis lugares; um na ponta, e os outros dois um na frente do outro.

Os meninos, amigos nossos que deram as boas vindas na frente da venda, se movimentaram a fim de precaver qualquer imprevisto. Seu Dagobé tinha um revólver e uma Winchester que guardava com muito pó na tuia de café, atrás da venda. Os rapazes trouxeram, mas deixaram ali na frente longe da vista dos homens. 

- Os meninos vão querer o guisado de bode acompanhado de cerveja mesmo, ou uma cachaça? - Perguntou Dona Selma.


- Três copinhos de cachaça por favor Dona. A gente agradece. - Respondeu Jararaca em nome dos outros dois jagunços.


Os parceiros nossos olhavam da porta com desconfiança, pé trocado e braço cruzado. Tião ficou encismado.


- Olha Seu Dagobé, eu não sei o que o senhor tá pensando, mas pode pedir pros seus colegas sentarem um bocadinho. O moço ali tá me olhando como se eu fosse bandido, acha?

- Oceis vão pitar um pouco alí na frente, faz favor. Qualquer coisa chamo oceis. - Dizia Seu Dagobé aos seus colegas recém armados.


O silêncio naquele cômodo era de fazer eco. Dona Selma havia desligado o rádio logo quando os homens chegaram de cavalo. Naquele momento só a rolinha Fogo-Pagô que tagarelava com os sininhos dos bodes no quintal.

Num certo momento, Zé boné quebrou o silêncio vendo seu celular e abrindo um vídeo qualquer de rede social, e soltou uma gargalhada sincera que deixou os outros dois boquiabertos.

- Rapaz o cabra é bobo demais. - Disse Tião

- Olhe isso aqui homem! 

E todos três caíram na risada mais sincera daquele dia. Nos olhávamos com semblante cansado e sério, rezando pra eles saírem dali o mais rápido possível.

Estávamos esperando pelo favor ou problema que apareceria em instantes. A gente já soube de história de moradores da região que desapareceram logo depois de uma visita dessas pestes. Seu Dagobé suava mais que a tampa da panela no fogão. Derretia na sombra. O guisado chegou acompanhado das pingas. Nessa, eu, Dona Selma, e seu Dagobé fomos pra dentro da cozinha para prosear um pouco, e deixarmos os homens à vontade.


- Eu acho que fiz presepada, Dagobé…Eu acho que fiz presepada… - Dizia Dona Selma tensa e tremendo.

- O que foi mulher?

- Eu pus um bocadinho de remédio de rato na comida desses coiso. Eu acho que nestante os três vão cair duro.

- Mulher, a gente vai morrer junto se esses homens baterem as botas. Valha-me minha nossa senhora! - Disse Seu Dagobé com medo.


Eu só tive tempo de olhar pelo balcão e os cabras já tinham devorado o prato com uma fome sem igual. Nessa hora eu já pensei no futuro e vi a gente se lascando todinho. Se esses três morrerem, vão vir uma legião de jagunços atrás da gente por vingança.

Já imaginei ligar pra minha mãe e irmã avisando que as amava, já imaginei passar na paróquia e confessar meus pecados tudinho ao padre, imaginei até fazer promessa pra Padre Ciço caso os homens sobrevivessem…

Enquanto eu olhava o horizonte pela janela, e o bafo quente da tarde batia no rosto, ouvi uma voz de longe me chamando:


- Ei…ei seu moço. Tu não escuta não, é?


Voltei à tona, pisquei os olhos e respondi a Zé Boné que me chamava ali não sei há quanto tempo. Ele veio entregar os pratos, todos vazios. Agradeceu e disse que era o melhor guisado que tinham comido na vida. A vida continuou. Só não sabíamos até que horas.

Jararaca limpava os beiços no guardanapinho que acompanhava o copo da cachaça, quando levantou e começou:


- Mas venha cá, Seu Dagobé, a gente não quer tomar mais o tempo de vocês não. Queríamos era ter um dedo de prosa com o seu filho, ele por acaso está aí?


O dono da venda deu um grito e o menino veio lá do fundo da loja, meio sem jeito, fazer parte da tensão que se criava.

- Posso ajudar, amigo? 

O menino não sabia metade da história que estava acontecendo, e caiu de gaiato no caso.

Jararaca iniciou a prosa:

- É que a gente veio descendo a encosta, dos lados da Vila, e tivemos um problema ruim de resolver…


O cabra parou na frente do filho de Seu Dagobé, foi levantando a camisa deixando o cinto à mostra, e metendo a mão na lateral da calça. Nessa, um dos nossos camaradas na frente da venda foi engatilhando a Winchester que escutei de longe. Eu e Dona Selma demos dois passos pra trás já querendo agachar por detrás do balcão.

Foi quando o miserável sacou pra fora do bolso seu celular e entregou na mão do filho de Seu Dagobé na maior paz.


- Olhe meu rapaz, a gente não ía passar por aqui não, porém hoje de manhã quis fazer uma chamada pra capital e o bendito celular nem sinal de vida deu. Tá tudo preto na tela. Nos dias de hoje a gente fica sem um braço, mas não fica sem celular. É ou num é, Tião!?

- Pior que é, visse…


Os homens começaram a rir, e todos nós começamos a rir também de um alívio que quase fez Dona Selma desmaiar. A bichinha ficou branca igual biju.

Era um riso de alívio misturado com graça e desespero. Naquela hora tudo já tinha ido pelo ralo, porque os homens iriam cair duros de morte matada sem terem feito nada contra a gente.


- Pode deixar, seu moço. Eu dou uma olhada no seu celular e depois de amanhã você pode vir buscar - Respondeu o filho de Seu Dagobé de maneira inocente.


- Na volta a gente acerta a conta. Ou melhor, deixa pendurado que o senhor Coronel acerta.


Os três foram saindo da venda a passos de digestão, foram mascando fumo e montando em seus cavalos com tranquilidade. Dona Selma e Seu Dagobé ficaram segurando o queixo com uma mão, e a outra segurando o cotovelo, enquanto os homens sumiram no estradão.


- Mas tu botou remédio de rato mesmo na comida dos cabra, ou foi açúcar?

- Tô dizendo Dagobé, botei um tantinho que era pra derrubar os três.


Aquele dia terminou tranquilo pra nós e pra família de Seu Dagobé. Mas o que intrigava todos daquela venda era como que os homens saíram vivos. Possivelmente caíram do cavalo a alguns minutos dali? Será que alguém voltaria pra tentar alguma represália conosco?

De qualquer forma, nossos camaradas fizeram sentinela aquela noite em frente da venda, se revezando armados. Antes prevenir que remediar.

A noite passava tranquila. O filho de Seu Dagobé ficou inteirado da história e quase quis matar a mãe com a besteira do veneno de rato. Resolveu na hora mexer no celular do futuro defunto a fim de encontrar algum tipo de informação comprometedora. Arrumou o erro do aparelho e começou a fuçar. E quem abre barriga de urubu, só vai achar carniça.

Havia mensagens de texto entre Seu Jararaca e o Senador comprometedoras. Os homens estavam trabalhando juntos para matar pessoas inocentes num povoado vizinho. Gente que de nada tinha a ver com essas picuinhas políticas.

Por volta das dez da manhã uma brisa leve refrescava o arraial. Dona Selma tinha acabado de pendurar algumas carnes de charque no varal pensando na descoberta das mensagens do celular. Seu Dagobé estava saindo para comprar alguns itens na feira:


- Vai querer alguma coisa de lá, bem?

- Traga duas duzias de laranja, e umas brevidades que você sabe que eu gosto…


Seu Dagobé já estava ligando o carro quando ela chamou-o novamente:

- Ah pois sim, traz três metros de chita, quero fazer um vestido novo…

Ela ficou reflexiva subitamente. Três eram os jagunços, três pratos e três cachaças bem servidas por ela. Lembrou-se do caso do dia anterior, dos três indesejáveis, das mensagens de texto, e do que viria...

No meio da prosa, vinha descendo a encosta dois andarilhos conhecidos por todos nós por adorarem contar um causo novo.


 - Dia, Dona Selma. Dia, Seu Dagobé! Eu aconselho o Senhor a desmontar desse carro e ouvir a história que tenho pra lhe contar, visse. 

Os dois começaram contando algo que muito interessava aquela vendinha.


- A senhora ficou sabendo do que houve com os três jagunços que almoçaram aqui ontem?


Eu Seu Dagobé, seu filho, e todo mundo que bebia umas cachaças na venda, já esticamos a orelha pra ouvir a fofoca.

- Ali perto do riacho grande, duas léguas daqui, os três mal-encarados toparam com uma meia dúzia de justiceiros. Briga grande e antiga, num sabe, Dona… Emboscaram os três e os fizeram descer do cavalo pra modo de matá-los. Assim que engatilharam a cartucheira, Zé Boné, Tião Cabaceiras e Jararaca caíram no chão desmaiados. Quando foram olhar, já estavam mortos. Daí em diante viraram piada no outro grupo por terem morrido de susto, veja só!


- E os infelizes eram tão frouxos assim que caíram duros de susto, foi? - Emendou Seu Dagobé pra abafar a história.

- E foi, homem. Os outros cabras nem careceram de gastar a bala do rifle. 


Os três infelizes já tinham seu destino traçado; iriam morrer de rifle caso o remédio do rato não fizesse efeito, então Deus só adiantou a tarefa. Morreram de duas mortes.

Depois do caso contado, nós e a família de Seu Dagobé tratamos de conversar com Dona Selma. A bichinha tem coração bom, era devota de Padre Cícero, jamais que queria fazer essa desgraça com um cristão. Assassinos, canalhas, amigos de políticos, porém cristãos.



[Felipe Leonardo]

Nenhum comentário:

Postar um comentário