sexta-feira, 8 de março de 2024

O caso de Dona Piedade e o coentro que não era tempero


   



    Quando a vizinhança daqui de Chorrochó escuta falar o nome de Dona Piedade, já logo arrumam a postura e a orelha fica esperta. A vista se arregala e um sorriso natural amanhece no rosto do sujeito.

Desde que o mundo é mundo, a casinha de Dona Piedade está lá na esquina. Na virada do milênio, a casinha já estava lá. No fim da segunda guerra? Também estava lá. Dizem até que quando Dom Pedro visitou por aqui a região do São Francisco, a casinha da velha senhora já estava presente.

A casa de telhas altas, janelas pontualmente localizadas, e a portinha estreita - que escolhe quem entra - parece ter vida própria. É como uma fortaleza que protege e ilumina a cidade. Como o Farol da Barra lá de Salvador, que alumiava os navios em noites de lua nova. A casa de Dona Piedade alumia os sertanejos de Chorrochó.

Assim que o primeiro clarão do dia aparece no horizonte, cortando a escuridão da noite, os vendedores da feira se mexem; ferros de todos os tipos que se rangem, lonas que estapeiam o silêncio, e fofocas que começam baixas, mas que lá pras sete ficam altas e viram risadas frouxas. 

A feira rodeia a casa de dona Piedade, assim como a água do rio que rodeia uma pedra muito grande. A multidão de ambulantes contorna a casa da velha senhora num movimento todo natural e inconsciente. Se por algum motivo a casa de Dona Piedade sumisse dali de um dia pro outro, iria causar uma falta danada.

 - Oxe, que diabo de ideia é essa, menino? Como que de um dia pro outro aquele casarão sumiria?

 - Eu que sei!? Esses dias mesmo o papagaio de seu Eusébio não começou a falar tabuada com dois dias de treino? Uma casa sumir no espaço não me espantaria hoje em dia.

Totonho é o menino que tem andorinhas nas ideias, e voa longe sempre que dão muita trela. O povo pensa que talvez não bata bem da cabeça. Sua professora lhe disse uma vez que pode ser TDAH e que está na moda hoje em dia. Embora também não podemos descartar o sol na moleira que judia diariamente.

A rotina da feira é quase sempre parecida. Só não digo que é tudo igual porque cada dia uma novidade aparece para o povo. Conforme o dia amadurece, a feira parece tomar vida própria e tagarela sozinha. Grita oferecendo frutas, esperneia dizendo como o umbu está fresco, e nem tem receio de anunciar que a galinha botou tantos ovos, que está quase de graça. Faz lembrar até aquela bolsa de valores antigamente. Até estapeamento gratuito volta e meia acontece, quando algum espertinho resolve levar fiado e não paga. 

Totonho costuma ajudar seu tio na barraca do orégano, coentro e salsinha. Demorou nada uns cinco anos pra diferenciar coentro de salsinha, e até hoje fica perdido. Seu tio comenta que a raíz é diferente, que as folhinhas são diferentes, que até o cheiro é distinto, porém é mais fácil diferenciar pilantra de picareta, do que identificar essas duas plantas.

Próximo das dez e meia da manhã, Dona Piedade já inicia o almoço. Nesse costume diário,ela tem um acordo com o verdureiro, tio de Totonho. Um acordo inconsciente de longa data que não carece de explicação, como a mão esquerda e a direita; toda quinta feira sempre é deixado no parapeito de sua janela um punhado de coentro macerado e orégano, a fim de temperar certas receitas. O negócio é tão ensaiado que se numa quinta feira o transeunte passar embaixo da janela de Dona Piedade e não sentir o cheiro do baião de dois exalando coentro, tem alguma coisa errada. Dizem as línguas que seu João-barriga-de-mula que mora na rua de cima passou uma vez embaixo dessa janela, e sua barriga roncou tão alto que parecia um equino parindo. Aí já viu, agora todos só conhecem o homem pelo codinome citado.

Mas deixe estar. Numa quinta feira dessas, pertinho do horário do almoço ouviu-se um reboliço e uma meia dúzia de polícia saiu correndo atrás de um menino. Quando o moleque virou a esquina, deixou um pacote com algumas folhas maceradas em cima do parapeito da senhora, e saiu aperreado.

A situação deu a entender que o menino havia roubado o costume do verdureiro.

O tio de Totonho passou em frente ao muro de Dona Piedade alguns minutos mais tarde e viu que já havia um maço de ervas no local que sempre deixou, e por um segundo pensou que estava doido.

 - Oxe, e eu já passei por aqui foi? - Pensou alto

Nessa, como a rotina naquele dia estava desassossegada, o dia passou e o pacote misterioso continuou no parapeito da senhora, até dar a hora de temperar o baião.

Era quinze pra meio dia e Dona Piedade já estava saindo da cozinha secando as mãos no pano de prato. A boia estava pronta, e bocas se aguavam naturalmente com o cheiro.

Pontualmente nesse horário, Totonho adentrou a porta da senhora. Ele sempre fazia uma marmitinha para ele e seu tio, uma camaradagem por conta dos temperos cedidos.

 - Bom dia Dona Piedade, como a Senhora vai? 

 - Oi meu filho, tudo na paz de Deus. Só esse baião que ficou com cheiro estranho hoje.  

 - Coentro que teu tio deixou na janela pareceu mais escuro, me lembrou até orégano. Até o cheiro tá mais fresco. Depois tu prove pra ver se lhe agrada.

 - Carece não Dona Piedade, que esse baião aqui fica bom com o tempero que for.

O menino saiu aguado descendo as escadas da casa da senhora, caminhando a passos rápidos com as duas trouxinhas de panos de prato. Enquanto isso, Dona Piedade sentou-se no sofá, pra modo de ver o jornal da hora do almoço. Quase que caiu no chão pisando em um boneco de brinquedo que seu neto deixou largado na sala. Praguejou pros sete ventos, e continuou a pacata rotina.

O almoço de feirante é dinâmico. Vinte minutos pra comida chegar na barriga, uma laranjinha pra ajudar, mais cinco minutos de digestão que são acompanhados de uma prosa com a barraca ao lado, e dependendo do movimento, de volta à labuta.

A questão era que aquela tarde pós almoço não parecia ser uma tarde qualquer. Os fregueses foram chegando e tudo parecia diferente aos olhos de Totonho e seu tio.

 - Opa Totonho, como vai, menino?! Me vê um punhado dessa salsinha por favor. - Disse um vizinho, já pedindo e entregando o trocado ao tio.

O menino pegou o punhado de salsinha na mão e cheirou profundamente. Sentiu a textura das folhas e por um instante ficou paralisado olhando o horizonte, como se estivesse em um tipo de viagem astral.

 - Adiante aí por favor, menino, que preciso chegar em casa. 

Ele arregalou os olhos e entregou as folhas ao freguês.

Totonho decidiu olhar seu tio, a fim de perguntar se ele também estava levemente alterado. Quando virou-se, ele estava debruçado em cima do coentro gargalhando, contando um causo a outro freguês como se fosse a maior piada do universo.

Os dois estavam mais bobos do que nunca. Riso frouxo, falas lentas, olhares preguiçosos. A pergunta que não queria calar era; que presepada tinha naquele baião.

Nessa, Totonho sentou na cadeira e ligou o rádio. Lhe deu uma vontade grande de escutar música, ele nunca fez isso na hora do almoço. Ligou um piseiro que gostava de escutar e em seguida, seu tio já começou a dançar sozinho embaixo da barraca.

Nest’ante um freguês que passava perto mudou a estação, e agora tocava espumas ao vento de Fagner, em alto e bom som.

 - Deixe nessa, deixe nessa que agora eu choro de saudade! - Dizia o tio de Totonho.

 - Vôte! Que hoje vocês dois tão virados na moléstia hein - Dizia João-barriga-de-mula rindo ao ver a cena.

 - Seu João, deixe eu lhe fazer uma pergunta - Perguntou Totonho com o olho pequeno e vermelho.

 - Quando você passou embaixo da janela de Dona Piedade aquele dia, e sua barriga roncou igual uma mula, quem foi o descarado que lhe deu esse apelido?

De uma só vez, a roda em torno da barraca caiu em gargalhada. Era homem caindo no chão de tanto rir. Todos absolutamente rendidos. A energia mesclava entre viagens psicodélicas, conversas profundas, e gargalhadas estridentes. Uma grande zoada no meio da tarde.

Lá pelas três da tarde já era hora de recolher as lonas e preparar a volta pra casa. O descanso merecido teria de vir. O mais absurdo foi que depois de uma horinha do almoço, os dois já pensavam num café da tarde e lambiam o beiço só de imaginar um cuscuz e café com leite que poderia estar rolando em algum conhecido.

 - Meu tio, vou indo na casa de Dona Piedade pra ver o que tem de bom por lá. Chegando te passo um zap. 

Totonho caminhou até o fim da rua, passou em frente das barracas de seus amigos, cumprimentou todos, sorrindo pra Vila toda como se tivesse ganhado na loteria. Passou na banca de Seu Bento que sempre vendia jerimum azedo que ninguém gostava, e julgou como sempre. Passou na frente da granja de seu Manel, olhou as galinhas atrás das gaiolas e teve uma pena enorme. Sentiu vontade de chorar quando se aproximou da bichinha e olhou nos olhinhos dela; era como se ele sentisse a aflição do bicho de saber que, em alguns dias, viraria guisado na mesa de algum morador. 

Todo esse trajeto de aproximadamente trezentos metros parecia uma viagem interminável, quando finalmente virou a esquina e olhou pra cima, o susto; onde estava a casa de Dona Piedade?

Por Deus que o menino olhava pros quatro cantos e não encontrava a casa da mulher. Seria possível?

 - E a casa de Dona Piedade sumiu no espaço, foi? - Dizia o menino com os miolos dando nó.

Totonho decidiu sentar no meio fio e pensar a respeito. Talvez estivesse ficando louco de verdade. Talvez a professora tivesse razão e o TDAH estivesse mais forte do que se imagina. Ou talvez o menino tivesse de fato ido para uma outra dimensão depois de comer o baião da senhora.

Passou-se coisa de meia hora e seu tio topou de frente a rua vendo Totonho jogado na sarjeta.

 - Menino, tu não ía na casa de dona Piedade atrás de um cafezinho? Se eu soubesse tinha ido na frente.

Com esforço, o tio levantou o menino que aparentemente caía de leseira. Naquele momento ele não empurrava um prego num mamão maduro. Totonho tinha incrivelmente se perdido na vila de meia dúzia de habitantes.

Chegando os dois varados de fome na casa da mulher, repararam algo inusitado; subindo as escadas da varanda, foram adentrando a casa. Um silêncio tomava conta do lugar. Virando o cômodo onde tinha um altar em que a senhora fazia orações, o susto; Dona Piedade rezava com as duas mãozinhas juntas em direção a dois bonecos de brinquedo do Senhor dos Anéis, que eram de seu neto. Ela olhou pra trás e sorriu igual criança com os olhos vermelhos miúdos que nem pitanga, dizendo calmamente:


 - Rapaz, esse teu coentro é virado na peste, viu!?

2 comentários:

  1. Que conto maravilhoso!! Lembrou da minha cidade Natal e de minha tia, parabéns!!

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  2. Eita que o baião deu um reboliço gostoso! Desses que demora pra esquecer

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