segunda-feira, 24 de junho de 2024

A casa cor de sol

 

   Depois de muito tempo distante voltei para a casa que me criou. A casa amarela em que cresci a vida, parece ter vida própria, e para mim posso jurar a todos vocês que tem. Ela me abraçou pela última vez quando saí. Ela foi a primeira a me abraçar quando cheguei, envergonhado com uma mão na frente e outra atrás, corado e sem graça. Ela me olhou nos olhos com aquelas telhas altas e me abraçou com as janelas de madeira.

As janelas me envolveram e me puseram no colo, e todas as madeiras daquela casa me conheciam. A casa sorriu de canto de boca e me deixou à vontade, puxando a cadeira para prosear, como sempre fez.

Eu costumo dizer que a casa é o quinto elemento da família. Meu pai, mãe, irmã, e a casa.

Por vezes me acho bobo de dar vida a um monte de concreto, duro e imóvel desde os anos noventa. Tijolos antigos que servem de abrigo a todo e qualquer tipo de inseto, bicho e fungo. 

Todos moraram ali. Todos chegaram e partiram, eu não fui diferente.

Que tipo de intenção meus pais tiveram quando juntos, fazendo dívidas, decidiram comprar aquela casa gigante, ainda sem móveis, ecoando sons e vozes ao longo dos largos corredores? Tinham a intenção de gestar uma família, você poderá dizer. Correto.

Mas mal sabiam eles que estavam gestando uma casa. Eles pariram também uma casa de concreto maciço.

O fusca do meu pai já era amarelo, quem sabe não foi ele quem inspirou que a casa fosse futuramente da cor do sol.

Eu amo amarelos. Amo a forma que a cor reluz quando o sol vem de encontro a ela, e faz tudo ao seu redor virar sol também. Aquele fusca também era um sol, e reluzia um sonho principiando.

Quando meu pai, sem camisa, naqueles sábados quentes de verão me punha no colo e me colocava a fingir dirigir o fusca, eu me tornava todo amarelo e era verdadeiramente feliz.

Eu suspeito que se a alegria tiver uma cor, ela seja amarela.


Depois de alguns anos o fusca foi embora, e seu amarelo passou para as paredes da enorme casa.

Ela naquele bairro destoava de tudo, era sem dúvidas a casa mais bonita da rua com suas janelas que observavam a vizinhança, além das telhas altas. Aquele telhado era um grande chapéu que fazia a casa ainda mais charmosa, como aqueles adornos que pomos quando vamos encontrar alguém muito especial.

O amarelo ultravioleta escorria pelas telhas, e pintavam suas paredes de sol.


Me lembro bem um dia quando criança,  fiquei muito feliz depois de minha mãe deixar eu dormir na casa de um amigo. Eu pulava de alegria, e no terceiro pulo, escorreguei e quebrei o dente.

Eu chorava de dor e desespero porque depois daquilo, eu sabia que não iria mais dormir na casa do meu amigo. Eu subi ao meu quarto chorando, desolado, rendido e triste. Subia as escadas, andava pelos corredores passando a mão pelas paredes e a casa me consolava. Posso jurar a vocês que a casa passava a mão nos meus cabelos e dizia que ficaria tudo bem.

E assim foi com todas as desilusões, dores, frustrações e tristezas que vivi sob aquele teto. 

Quando a tristeza me abatia, eu olhava pra cima, via os fungos do teto, via os gessos já não tão brancos com o passar do tempo, e tudo conversava comigo. Eles me consolavam e falavam que tudo ficaria bem, que a vida vale a pena, e que aqueles tijolos, madeiras, pisos, gessos e cimento já tinham vivido muita coisa bonita, portanto tinham argumentos para me tranquilizar.

Quando eu poderia imaginar que aquelas madeiras antigas, já começando a serem corroídas pelos cupins, fizeram parte de árvores mais antigas ainda. Ou que aquele granito do parapeito tinha visto mais coisas que muita gente nesse mundo…

Eu ficava até sem graça de se lamentar na frente dela. O mundo é muito maior, e a casa me dizia isso.


Com o passar dos anos a casa sofria reformas e foi mudando de forma, assim como a gente quando cresce e estica as pernas, ganhamos pelos no corpo ou alongamos o nariz parecendo adulto aos poucos. A casa foi ficando mais madura do que já era.

Quando os pedreiros quebravam seus pisos, destruíam paredes, me doía como se machucassem alguém que amasse. Mas quando recolocavam o chão, erguiam as paredes e a pintavam novamente, eu me apaixonava mais uma vez. A admirava como quando revemos aquelas namoradinhas de infância que cresceram e ficaram mais bonitas do que já eram. Assim me apaixonava sempre.


Por muito tempo pensei que a casa era mal assombrada. Quando criança via vultos, escutava barulhos, estalos em cômodos afastados, e aquilo me deixava perigosamente curioso. Na verdade aquela casa sempre foi bem-assombrada. Digo isso porque os assombros nunca me deram medo. Pra mim aquelas manifestações eram a casa falando por si só; cadeiras que balançavam sozinhas, portas que rangiam levemente sem vento…tudo isso era a forma que a casa tinha para se comunicar com alguém de carne e osso. Ela avisava quando tudo estava bem, ou quando algo deveria ser feito.

Certa noite estávamos contando piadas e casos engraçados na sala de jantar, rindo bastante. De repente uma colher escorregou do suporte de louças caindo no chão. A conversa na sala parou instantaneamente e olhamos uns aos outros e demos uma risada sem graça. Tivemos medo.

Aquela colher caindo no chão era a casa rindo dos nossos causos, querendo participar da conversa também. Ela também gargalhava conosco do jeito dela.


O quintal, longo e grande, sempre teve plantas que meu pai cultivava. Porém uma era a mais especial, ocupava um lugar privilegiado no meio; era o famoso pé de limão galego. Aquele pé de limão chegou primeiro que eu neste mundo. Ele ajeitava as caipirinhas do meu pai aos domingos, e na semana também ajudava a alegrar os bebuns da rua que por vezes paravam em frente de casa, me viam jogando bola no quintal, e pediam alguns limões emprestado.

Claro que a função do limoeiro não era só alcoólica, também temperava saladas, o pernil de natal, sucos geladinhos…


Aquele pé de limão foi um tipo de filho que a casa teve. Ele nasceu da terra da casa, logo, o pé de limão também era parente nosso. Depois de um tempo, o limoeiro mais famoso da rua morreu e foi uma perda para nós. Porém alguns anos depois, meu pai plantou um pé de acerola no mesmo lugar do finado limoeiro, e até hoje dá as acerolas mais doces que já provei. O pé de acerola é neto da casa e filho do limoeiro.


Eu por vezes fico imaginando como as árvores são próximas a nós. Elas cientificamente também devem ter lá o grau de parentesco conosco. O seu início é pela terra, o nosso fim é pela terra. Elas se erguem firmes e altivas da terra úmida, e nós somos comidos pela terra, caímos com a gravidade, frágeis e inertes. É um ciclo muito próximo, não?

As árvores tem muito mais de humanos do que nós pensamos. 


Nós humanos temos mania de dar vida a coisas inanimadas, e também tiramos humanidade de humanos com a mesma facilidade, quando cometem atrocidades, ou quando roubam comida do mercado. 

Damos humanidade a coisas para não nos sentirmos sozinhos. Detestamos ficar sozinhos. Até o mais introvertido do ser, no fundo, bem no fundo, detesta ficar sozinho. Temos medo de ficarmos em nossa própria companhia, porque somos nosso maior mistério.

Vemos olhos, bocas e sobrancelhas em todo lugar. Meu primo uma vez me disse que via rostos nos carros: os faróis eram olhos, as grades da frente eram o sorriso, o parabrisa era a testa, e a placa eram os dentes. O fusca amarelo do meu pai tinha um semblante terno, não porque eu queria, mas porque os faróis eram redondos e ternos. Ele estava sempre com cara de disposto a nos levar pra passear a hora que quiséssemos.


Eu suspeito que se a alegria tiver uma cor, ela seja amarela. 

Amarela da cor daquela casa.


5 comentários:

  1. Que lindooooooooo FELIPE, Parabéns. Ahh...eu lembro quando vc quebrou o dente kkkkkkkkkk

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  2. Maravilhoso! Com toda certeza minha leitura mais nostálgica e imersiva dos últimos tempos. Parabéns e obrigado por dividir essa arte conosco.

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  3. Olha Felipe fiquei muito emocionada com sua história que coisa mais linda que vc escreveu contando a história toda dessa casa e até das plantas e também do Fusca amei amei parabéns 😘😘

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  4. fiquei extremamente emocionada e tocada por esse texto, ele reflete bem o sentimento de acolhimento e importância que uma casa que se torna um lar tem. poucos textos olham com um carinho tão sincero pra uma coisa tão importante como uma casa, obrigada por isso!

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  5. Dá um quentinho no coração ler um texto assim.
    Tenho na minha vida uma casa amarela que posso chamar de lar. Posso rodar o mundo , mas lá sempre vai ser o meu lar.
    Lembro de quando pintamos a casa e escolhi a cor com a minha vó. Falamos que era cor de alegria... E assim segue 💛

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