Uma lenda Maia muito antiga explica que antes de criar os homens, os deuses criaram as árvores, a vida e os animais. Os animais, no entanto, não foram capazes de invocar os deuses, e por isso foram punidos, sua carne serviria de alimento. Posteriormente com uma mistura de milho e água, os deuses criaram os homens, e estes finalmente conseguiram contatar o sobrenatural e invocar seus deuses.
Poucas coisas no mundo físico são mais assustadoras do que se sentir nas nuvens. Já estive entre vocês. Tirar os pés do chão e se sentir voando, como se perdêssemos o controle dos movimentos e entrássemos em uma nuvem. O fato de olharmos o abismo abaixo dos pés e sentir o vento frio que sobe, dá um calafrio que remete a um instinto de sobrevivência.
Quando o homem sonha dormindo, também é possível voar e tirar os pés do chão, como naqueles sonhos misteriosos onde se cai em um buraco, e se sente um frio na barriga iminente. Mas o que me refiro ultrapassa o físico e o sonho.
Este relato é sobre o menino que conheceu seus deuses numa noite fria de sábado, dia de São João, com a fogueira de Xangô, no meio da mata atlântica.
A casa era mística, um tipo de galpão no meio do mato, rodeado de cadeiras daquelas de vó, ambiente todo enfeitado com bandeirinhas de São João, atabaques de todos tipos e tamanhos, uma fogueira gigante ao centro, e todos a rodeando. O fogo é sagrado, eles diziam. Naquela noite fria, aquele fogo tinha um poder muito mais do que metafísico, convenhamos.
A proposta era a de um ritual espiritual. No altar, imagens de santos africanos, entidades indígenas, e até hindus. A energia vagava entre algo muito brasileiro, e o menino se sentia em casa. Ele sempre teve sangue de terreiro, e bem sabe disso. Alfazema, defumações, os couros dos tambores se aquecendo e se afinando em volta do fogo de Xangô; homens e Deuses ensaiando sua orquestra que se apresentaria em breve numa noite de gala.
A protagonista da noite? uma bebida que já estava por essas terras muito antes dos ladrões portugueses chegarem; a Ayahuasca. Uma receita indígena amazônica que mescla um arbusto e um cipó. Por vezes reflito a sabedoria dos povos originários em mesclar certos ingredientes que resulta em algo divino. Assim como a maniçoba paraense, que guardada devidas proporções, se não cozida suficientemente pode matar uma pessoa adulta com facilidade.
Mas claro, uma sociedade pavimentada com dogmas europeus, desconhece profundamente a sabedoria da terra. Essa comunhão neste dia era uma tentativa de reconexão a esta ancestralidade, esquecida e boicotada pela geração das telas de vidro.
Formou-se uma roda, tudo remetia a um ritual indígena, e de fato boa porcentagem da intenção era essa. Nessa roda, todos iam em sentido horário em busca do pequeno cálice da bebida de coloração marrom, que uma médium orientadora segurava.
Quando chegou a vez do menino, ele tomou o cálice em suas mãos, a moça o olhou nos olhos e disse:
- Que Deus te guie.
Se pudessem ler a mente daquele menino naquele instante, era com certeza um turbilhão de pensamentos, todos ansiosos. Que tipo de viagem ou visita ocorreria depois daquele estágio?
Todos voltaram aos seus lugares, elevaram seus cálices aos céus, e tomaram todos juntos. Uma grande comunhão ancestral.
O menino refletia, enquanto a bebida com gosto de terra amarga descia pela sua goela pela primeira vez. Quantas gerações de tataravós com seu sangue participaram de rituais do tipo? Ora, se são todos filhos desta terra, são mais feitos disso do que de missas.
A bebida caiu no estômago como um veneno santo. Em poucos minutos o próprio organismo já preparava seu trabalho de expulsar aquela substância suspeita com algumas ânsias.
O som dos atabaques, as rezas, as cantorias, os aromas, o fogo, tudo isso era muito familiar ao menino. Era familiar a todos os que estavam presentes. A ancestralidade quando vista com respeito e sentida a flor da pele, é instintiva, é selvagem, e consome tudo como fogo.
Um misto de prazer e leveza consumia o menino, que sentado em sua cadeira, olhava o teto e suas bandeirinhas coloridas, se deixando levar pela força da medicina. Certo ponto ele reparou algo estranho caminhando pelo teto, parecia um inseto marrom que há poucos instantes não estava lá. Este inseto parecia dançar ao som da cantoria. Cores extremamente vibrantes se faziam perceber ao seu redor, e um sorriso espontâneo nasceu do menino. Em trinta minutos ele sentiu uma vontade imensa de levantar e ir ao ar livre, precisava muito tocar a terra.
Saiu ao relento como quem escuta o canto de uma sereia com uma voz muito linda, parou em frente ao cruzeiro e agachou. Pôs a mão sobre a terra e acariciou a grama como se fosse o mais terno animal de estimação. Sentia as folhas da grama como se fossem pelos. A terra conversava com ele por meio do coração, e ele se pôs a chorar copiosamente como uma criança de quatro anos. Soluçava e pedia desculpas a si mesmo. Naquele instante, a Ayahuasca se apresentava e o abraçava com uma dose cavalar de amor, como um abraço de mãe.
Ele tirou seus óculos, a miopia não importava. Agora ele enxergava como nunca na vida. Olhava o céu e sentia as estrelas, enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto. Respirava fundo e sentia o ar puro percorrendo todas as entradas do pulmão, e a limpeza sendo feita. A Ayahuasca o segurava no colo como uma mãe que segura o filho recém nascido enquanto dá um banho.
Ele se levantou, sentiu os ombros mais leves, enxugou as lágrimas como de praxe, deu um suspiro, e voltou novamente junto dos outros na fogueira.
Sentado na cadeira enquanto os pontos eram tocados, misturados com canções indígenas, ele sentia irradiações por todo corpo, as mãos tomavam vida própria e ele se limpava, como um passe em si mesmo. Naquele instante seu espírito antiquíssimo assumia o posto, e limpava seu envoltório corporal como quem se mostra muito experiente na tarefa.
Fazia riscos no vento, como quem desenha com uma pemba imaginária seus campos energéticos. Tudo aquilo para quem visse de fora parecia loucura, mas no fundo do menino, uma semente era plantada.
O menino dividia o corpo com essa energia. Por ora ele se situava, tocava seus braços, rostos, e notava que de fato estava presente, em seguida como um impulso, a força o tomava no colo e ele viajava em seus sonhos; nessa dança ele alternava pela noite. Viajava a outras épocas e dentro de si mesmo. Revivia emoções que sentiu alguma vez em situações específicas quando criança. Emoções essas que, no fundo de seu cérebro, ficaram guardadas com carinho. Sentiu definitivamente que o corpo se trata somente de um envoltório que guarda uma galáxia. Nesta momento, ele teve acesso a um por cento desse universo.
Nesta noite, eu apareceria para ele pela primeira vez. Foi quando o menino decidiu ir ver a noite e o quão bonita ela estava. Ele parou no parapeito de madeira, se apoiou e observou a escuridão brilhante que cintilava dentro dos seus olhos.
Como numa rajada de energia ele se posturou, cruzou as mãos para trás, e saudou com sua própria voz a minha vinda:
- Muito boa noite! Pensei que nunca iríamos nos falar. Se não fosse por este chá, as coisas seriam difíceis, não? Quero que escute com atenção o que digo, eu sou seu Exu, e vim te ensinar a falar!
Parecia algum ataque de dupla personalidade onde um homem fala sozinho mirando algo imaginário em sua frente, porém, era um estágio de incorporação, onde naquele instante, Eu usava seu envoltório corporal para expressar minha ideia.
Seus braços estavam arrepiados, seu coração batia com mais força, e sua respiração estava levemente alterada.
A incorporação é seguramente mais velha do que pensamos, em diversas culturas os deuses já se comunicavam por meio dessa avalanche energética que toma a fala do homem.
Não poupei palavras para dar conselhos ao jovem. Eu aguardava esse momento com ansiedade.
- Vamos lá, agora você vai me ouvir e deixar de ser esse teimoso filho da puta. Me espanta como você consegue guardar tanta coisa dentro de si. Inacreditável como pensa tanto nos outros, mas esquece de cuidar de si mesmo. Olha o tamanho do buraco que se meteu desrespeitando a si mesmo!
O menino inconscientemente entendia o que era dito, porém quem tomava a frente por ora era eu. Tudo que seria passado essa noite, seguramente não sairia de sua cabeça tão cedo.
Comecei a explicar a ele suas potencialidades, tudo o que ele deixa de fazer por preguiça, tudo o que empurra para debaixo do tapete e perde em ajudar.
Nesse instante o menino cedeu a suas vontades fisiológicas e se pôs a debruçar para vomitar. Naquele instante começava a limpeza que a medicina proporciona. Aproveitei:
- Isso, bote tudo isso pra fora! Nem que eu ficasse toda a noite com você aqui vomitando, eu limparia a merda toda que você colocou pra dentro!
Entre falas e sons de atabaques, minha risada clareava a escuridão daquele lugar. Por um instante enquanto eu conversava, um Egun se aproximou da energia e quis se intrometer no assunto como se não pensasse que não o perceberia. Mas dos olhos de Capa Preta nada foge. Este obsessor não teve espaço para encostar e quebrar a corrente energética, porém, o menino que estava lúcido, pôde notar tudo.
Sempre que a energia entre eu e o menino se abaixava e perdíamos conexão por alguma distração, um “Laroiè è Mojubá” em alto e bom som resolvia a questão.
- Veja só meu filho, tenha com as pessoas a mesma atenção com que escreve. Olhe nos olhos o máximo que puder. Estamos aqui nessa terra não é pra se orgulhar, ter essa puta vaidade, ou engolir ruindades. Vocês humanos estão aí pregados na terra com a única missão de servir. Sirvam ao próximo que sua missão estará cumprida, simples assim. Quem te diz isso é seu Exu. Veja só, venha por aqui, quero te mostrar uma coisa.
Afastei o menino por um tempo da música e da fogueira, e o levei à tronqueira ali próximo. Era por volta da uma e meia da madrugada, e o breu tomava conta da mata virgem. O vento daquela hora da noite penteava nossos cabelos e eu podia sentir todos os pelos do seu corpo eriçados. Naquele instante, nada nem ninguém ameaçava meu menino. Mostrei a ele na pele a sensação de suas potências. A sensação do poder nato que cada ser humano carrega dentro de si. A sensação de pertencer a um só todo. Éramos aqueles eucaliptos, as araucárias e todos os insetos que caminhavam naquela terra úmida de sereno. Éramos a floresta escura.
- Está vendo aquelas copas de árvores lá longe? - Eu dizia apontando seu dedo.
- Tá vendo essa escuridão, e a maneira como a lua prateia o verde deixando tudo mais melancólico? Eu estava aqui antes mesmo da luz. Eu amo as trevas, mas não me julgue mal por isso. Amo pois a profundeza da alma humana é escura, e eu gosto de cuidar da escuridão dos homens. Exu pisa onde ninguém quer pisar, meu filho.
Após a limpeza o menino ficou claramente mais leve e pude me aproximar mais de seu perispírito. As ideias puderam ser passadas com mais clareza por sua própria boca.
- Você sabe que eu estou falando desse jeito com você mas eu te amo. Só que Exu fala dessa forma mesmo, a gente trata vocês como aqueles pais ranzinzas onde o filho só escuta com esporro. Mas de uma coisa queria que soubesse. Daqui pra frente sua vida será diferente. Sempre que precisar, você pode pensar em mim que estarei ao seu lado em energia, te sustentando e te dando coragem, meu filho.
O menino se pôs a chorar levemente enquanto fungava de maneira calma. Certo instante a música que tocava no atabaque era conhecida por ele.
O menino começou a sentir uma energia subindo pelos seus pés, e teve vontade de cantar e dançar. Dançamos juntos até ele mostrar um largo sorriso pela boca.
A alegria nos move nessa vida, e nos livra da dor. Nos obriga a dançar e movimentar energias encostadas. Nos obriga a mexer o açúcar no fundo do copo.
Fiz um buraco em sua áurea, que estava escurecida com pesada tristeza, e ele pode sentir um fio de luz que entrava dentro de si. Aquilo era somente uma pequena vela de toda a luz que poderia irradiar.
Limpei seus olhos. Mostrei suas sombras, mostrei suas luzes. Faça o que quiser com elas.

Que incrível ver as medicinas sendo trabalhadas de forma saudável e mostradas de forma consciente. Obrigada pelo seu conto, pela sua sensibilidade e entrega!
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