sexta-feira, 7 de março de 2025

Esmeralda benzedeira




    Há muito tempo na região de Curvelo, no começo dos Gerais de Minas, existiu uma bruxa de nome Esmeralda. Bonita dos olhos, como dessas ciganas que Machado descreveu bem; oblíquos e dissimulados. 

Me refiro àquela mulher como bruxa, mas podemos nomeá-la de feiticeira ou catimbozeira, dependendo do lugar. Normalmente ninguém se autodenomina feiticeira, as pessoas que dão essa alcunha ao sujeito, como se esse fosse dotado de poderes mágicos capazes de fazer ruindades ou bonanças. Na maioria das vezes sempre é de teor negativo pelo medo. O medo isola as pessoas em um lugar frio e úmido das ideias, impedindo de seguir seus amores.

No fundo aquela mulher misteriosa carregava consigo dons que séculos de ciência ainda não puderam decifrar. O instinto de enxergar com seus próprios olhos, coisas que ninguém via, mas que sim, com todas as forças, podemos admitir que estavam ali.


Dizem que Esmeralda nasceu de um casamento proibido entre dois primos, sua mãe fugiu com o parente de casa, se instalou em um povoado perto da cidade, e ali deu à luz a menina que, apesar dos agouros da família, nascera com saúde ao meio dia de um domingo. 

Desde pequena, Esmeralda demonstrou ser uma criança atípica, não me refiro a algum tipo de esquizofrenia, mas uma diferença nítida que saltava dos seus olhos. Esmeralda via pessoas e coisas com um ponto de vista distinto. Enxergava vibrações saindo de pedras, escutava a respiração das plantas, e até podia sentir sentimentos de animais. 

A menina nunca se esqueceu do dia em que seu pai matou um porco pela primeira vez no quintal para a ceia de fim de ano. Ao olhar o porco amarrado prestes a ser degolado, olhou no fundo dos olhos do bicho e sentiu o medo dele. O medo do porco era o mesmo medo que sentiu no dia em que quebrou a imagem de nossa senhora e sua mãe lhe bateu com chinelo. Era medo e desespero.



Desde muito pequena Esmeralda ouvia vozes, e via pessoas em seu quarto. Quando sua mãe perguntava, dizia que eram amigos antigos. Uma menina de seis anos com amigos antigos era no mínimo estranho.

Sua mãe notou esse fenômeno quando uma noite antes de dormir ouviu Esmeralda falar sozinha altas horas da noite, rindo e argumentando coisas que uma criança de seis anos argumenta. No dia seguinte ao ser perguntada sobre com quem falava:

- Eu tava falando com meu amigo grande do chapéu branco, mamãe.


A menina foi crescendo e o costume de falar sozinha a acompanhava pelos anos. Foi quando ela já adolescente, viu seu pai acamado e instintivamente foi no jardim buscar algumas ervas. Recolheu arruda, algumas folhas de guiné, uma raíz da época que parecia açafrão, e levou para o quarto. Ralou a raíz, juntou os galhos, se prostrou na frente do pai e iniciou uma reza. Percorria as folhas pelo corpo do pai enquanto assoprava a raiz ralada. Cochichava palavras repetidas e fazia gestos como uma magia muito antiga; a menina parecia que fazia aquilo há anos com tamanha precisão de movimentos. A enfermidade do pai aliviou bruscamente em poucos dias depois da reza. 

- De onde aprendeu isso, Esmeralda?

- Meus amigos me ensinaram, mamãe.


O costume de curar pessoas fazia fama no arraial, e aos poucos a menina começou a fazer rezas para pessoas acamadas e à beira da morte. O doente saía das orações com uma vitalidade mudada em minutos. A cena era no mínimo curiosa e intimidava suas amizades que por medo se afastavam.


A criança cresceu sem muitos amigos físicos. As amizades de outro mundo domaram sua rotina e afastaram seus possíveis amiguinhos da escola, que corriam de medo e tinham pesadelos de encontrá-la nos corredores do recreio.

Serginho por exemplo, filho de seu Manuel, uma vez encontrou a amiga no caminho de volta da escola, andando pelo estradão. Ele mantinha distância de meia légua, só observando seus passos. Numa curva, caminhando tranquilamente, algo pareceu chamar atenção da garota, Esmeralda virou e sumiu. O menino continuou a caminhada em direção de casa, porém a minutos dali, viu a menina em cima de um jatobá.

O menino custou a acreditar que era sua amiga da escola em cima do galho alto, olhou pra cima e pensou que fosse lobisomem. Serginho correu tão depressa que sem dúvidas preferia que fosse um.


Quando cresceu, a juventude assolou seus dias e Esmeralda sentia coisas novas da idade. Dizem os vizinhos que quando fez dezoito anos andava pelas ruas medindo todos os homens da cidade, olhava de cima a baixo, como quem escolhe uma presa para devorar. Cortejava homens com uma astúcia que deixavam eles próprios intimidados, sem contar a já fama de feiticeira que tinha desde a infância que afastava possíveis pretendentes.

Seu Teodoro, um de seus vizinhos, comentava que em noites frias de lua nova, onde tudo nada se via, e os galhos balançavam barulhentos, ouvia-se um gemido agudo no fundo da casa da menina, quase como uma onça no cio. Um cheiro de dama da noite pairava pelos quintais e assombrava todo o quarteirão. Esmeralda se retorcia na sua solitude guardando a fogueira dentro de si como um bicho feroz que anseia fugir da jaula.


Mas dessa angústia sofreu pouco. Meses dali um estrangeiro chegava para visitar parentes e observou Esmeralda conversando com sua mãe na janela da esquina. Era um homem alto, forte, sisudo, sem cabelos na cabeça, e um cavanhaque de pistoleiro. A moça olhava o homem, e o homem retribuía o olhar com a mesma voracidade, algo que ela nunca havia sentido. Em três meses, o forasteiro e a ciganinha estavam casados no papel.

No fundo a moça queria dominar aquele homem e se sentir mulher pela primeira vez. Mas o que ao certo seria se sentir mulher, se nem ao menos ela conseguia se sentir Esmeralda.

Ser mulher era poder ser ela própria, sem grandes julgamentos. Poder falar sozinha com suas vozes, rir de boca aberta, sentar sem fechar as pernas e fazer suas rezas.


Depois de sua primeira vez, Esmeralda ficou decepcionada com o homem. Dizia em voz alta todo dia pela manhã que seus próprios dedos eram melhores, e que se aquele homem não soube satisfazê-la, nenhum outro mais poderia fazer. A moça ficou condenada a renunciar ao mundo físico. Todo seu universo ficava do lado invisível.

Esmeralda era uma estrangeira em terras encarnadas, vagando como uma alma penada em corpo de mulher, sem saber seu rumo.



Após seis meses seu marido faleceu de causas misteriosas. Boatos de que não era um homem calmo, vivia agitado, ciumento e brigador. Foi encontrado no fundo do bar de olhos arregalados e com o cavanhaque mal feito, sujo de batom vermelho. 

Esmeralda se tornou a viúva mais conhecida dos Gerais. Tinha energia de pombo-gira, gargalhadas altas e espalhafatosas, aparecia nas missas de domingo vestida com saias despreocupadas, estava presente também nos terreiros e nas giras de quarta feira. 

Apesar de seu sorriso insinuante e olhar marcante, nenhum homem jamais se aproximou dela. Rezava a lenda que ela tinha uma armadilha de pegar tatu entre as pernas, e que havia matado seu marido depois de um coito emocionado. 


Eis o dilema em que a moça estava metida, a linha tênue entre a benzedeira que rezava em prol dos outros, e a misteriosa assombração que assustava o vilarejo.


Já com seus vinte e três anos, numa noite de neblina baixa onde só os vultos tomam conta, uma dessas nuvens lhe encontrou no seu quarto e sussurrou no seu ouvido. Era um velho amigo seu, o do chapéu branco que aparecia para a menina quando criança. 

Em sonho este amigo lhe disse que em breve sua vida mudaria da água para o vinho, e que era urgente ela se preparar. 


Esmeralda despertou do sono como de um grande coma, suspirou forte com os olhos estatelados, com uma ideia fixa na cabeça, como se fosse uma necessidade fisiológica.

Tomou um papel e escreveu de supetão sete páginas, todas em sequência como um gigantesco passo a passo. A moça terminou a escrita e soltou o lápis, caindo ao chão já mole como um prédio que desaba. Dizem que neste momento toda Curvelo estremeceu com um terremoto de segundos; era o fim da carne de Esmeralda em terra.


Em seis páginas desse papel, estavam escritos segredos e farsas de muitas pessoas do vilarejo que se faziam de santo. Uma lista completa de traições, vinganças enrustidas, falsas promessas, e intenções negativas de muitos. Na outra página que restou, estava uma reza de cura fortíssima, um passo a passo do trabalho que ela própria fazia. Não demorou para que seu legado fosse inspirador para outras meninas, e seu trabalho benzedor fosse passado para gerações.


Em seu túmulo, crescem flores vermelhas diariamente, e um funcionário do cemitério tem de aparar incessantemente o arbusto de rosas que termina por encobrir até os outros túmulos. Pela noite, quando a neblina está baixa, pode-se ver o homem de chapéu branco caminhando ao redor de sua lápide.

Nos dias atuais, todas as benzedeiras da região se dizem filhas de Esmeralda com orgulho. Rezadeiras, bruxas e mulheres.