terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A casinha de Tanabi

Numa rua isolada e calma da cidade de Tanabi, interior de São Paulo, existe uma casinha respeitosa. É uma casa idosa, não de velha ou de antiga, feita nos anos setenta ou coisa assim, mas idosa no sentido de aromas, toques, sabores. A casa é recente na cidade, azulejos novos, batentes frescos, plantas bebês no jardim com abacaxis pequenos brotando, mas exala alfazema e cheiro de vó. 

Próximo das onze horas um cheiro de almoço refogado em banha de porco toma conta da cozinha, do quintal, do quarteirão. Arroz e feijão frescos, que de tão simples e cheirosos pareciam ter vida própria na louça de cor laranja escuro.

Quem come por aquelas bandas diz que senta-se à mesa para o almoço comer a gente, não o contrário. 

O banquete humilde surpreende a quem o aprecia. Como hipnose, a receita feita sobre a mesa enfeitiça qualquer um pelo cheiro e pelo gosto. Sensações psicoativas são proferidas a quem saboreia aquelas iguarias, como se uma viagem astral começasse. Um almoço entre amigos ou em família, se torna uma viagem psicodélica com facilidade. 

Há relatos de jantares entre primos que até hoje, nunca mais voltaram de tal destino, além de relatos de uma ceia de natal onde bisavós e tataravós por comerem demais, ficaram presos num tempo espaço paralelo a serem sempre bisavós e tataravós.

Cientistas da Universidade de Rio Preto fizeram estudos, e comprovaram que nenhuma substância psicoativa estava presente naqueles banquetes.


Os moradores humanos daquela casa são três. Dona Aparecida, Seu Ivo e Seu Palmiro. Os primeiros dois citados eram casados, já o último havia sobrado.

A magia acontecia pelas mãos da matriarca, feiticeira nata, fazia alquimia em suas refeições, e atraía toda a família para a mesa que mais parecia um buraco negro que sugava seus visitantes para o espaço.

Diz a lenda que Dona Cida tinha contatos diretos com o além. Conversava com o outro lado como quem conversa com o dono da quitanda comprando um alface. 

Um dia desses, Zé Pipoca passava com seu carrinho pela rua, e viu Dona Cida cochichando sozinha com a estátua da Preta Velha ao pé do oratório. Olhava no fundo dos olhos da imagem e oferecia café com pãozinho, pedindo conselhos e ouvindo queixas. As almas de lá também costumam desabafar, e Dona Cida era toda ouvidos.

Esse mesmo Zé Pipoca que passava com seu carrinho vendendo aos finais de semana, e que frequentava terreiros, tinha uma teoria de que Dona Cida era uma entidade encarnada em terra. De que do lado de cá, ela era a preta velha, e que do lado de lá, a imagem pedia intuição a ela. Ambas entidades em universos distintos. 


Os dois homens da casa eram meros coadjuvantes em relação a senhora. Seu Palmiro tinha toques absurdos. Andava pela vasta casa como um guarda, catava as folhas mortas do chão, uma a uma com a mão, com a paciência de quem ainda tem cem anos pela frente. Saía ao portão, olhava o marasmo da rua, conferia se seu Corcel II azul calcinha estava de fato trancado, cumprimentava os cachorros, e voltava.

Quando se entediava, ligava o rádio num volume alto, escolhia uma estação que estivesse tocando a moda de violão mais bonita, deitava no sofá e ali ficava.

Quando a frequência chiava e desaparecia, se levantava furioso, e puxava o fio da tomada.

- Cachorro louco. - Dizia.


Seu Ivo já tinha muita idade, e o Alzheimer o acometeu com violência. A memória nessa etapa da vida é uma das poucas coisas que se sobra, e perdê-la é um castigo tremendo. Certo dia ele sentou-se na cadeira, iniciou uma prosa relembrando os tempos de quando era jogador de futebol de várzea. No meio do assunto seu olhar se perdeu no vazio, e um silêncio encerrou o assunto. A ideia foi embora com o vento que soprava no início da tarde

O Alzheimer é como um fantasma que insiste em calar a boca do vivo. Um pêndulo entre um fantasma que apressa a morte, e um vivo que a rejeita.

Mas naquela casa muitas coisas tinham boca. Muitas coisas relembravam o que seu Ivo se esquecia.


O relógio ali, sem dúvidas era o patriarca. Somente ele vencia os moradores em termos de tempo de vida.

O mais antigo ser era feito de madeira, imponente e austero, olhava tudo de cima para baixo, tiquetaqueava o tempo há mais de cem anos, contando e marcando os minutos de vida de cada ser a sua volta. Ele marcava o compasso de tudo o que era vivo. Naquela casa, tudo vivia há muito tempo.

Os moradores se estapeavam entre objetos vivos, fotos antiquíssimas, rádios tagarelas e cadeiras espaçosas, sedentas por alguém que procurasse se espreguiçar nelas.

Cadeiras feiticeiras, agarravam suas presas pela preguiça e as abraçavam feito plantas carnívoras, aconchegando, acarinhando, e roubando horas do dia de quem cedesse aos encantos dela.

Há quem diga que tudo isso é mentira, que é invenção de gente maluca, ou efeito alucinógeno de algum cogumelo que só nasce por ali, mas a magia sempre existiu naquele lugar. Um dia que estiver livre posso te levar por aquelas bandas.

Quem saberá dizer quantas portas se abrem, quantos mistérios, e quantas vozes existem na profundidade daquela casinha de esquina em Tanabi.


Talvez todos os adultos sejam asmáticos

Conheci um menino que morava em Cajazeiras; não a cidade do interior da Paraíba, mas o bairro que tem esse mesmo nome na região metropolitana de Salvador.

  Ele era magrinho, franzino de tudo. Fui almoçar na casa de sua mãe num domingo quente de fevereiro a convite da família que conheci numa dessas viagens pelo sertão. 

Esse mês em específico na capital baiana, o espírito de carnaval sobrevoa a cidade como aquelas brisas que dão a volta no Farol da Barra, e traz pra orla da praia um cheiro de maresia e dendê que paira pela cidade. Minto, a magia deve começar lá pelo dia dois, quando Iemanja dá as boas vindas aos seus filhos, no dia da lavagem das escadarias.


Esse menino a quem me refiro, curiosamente nasceu também no dia dois de Fevereiro, dia da rainha do mar. Cheguei em sua casa no dia primeiro e já se via em seu semblante a ansiedade infantil de quem vai ficar mais velho no dia seguinte. 

- Tio, sabia que amanhã vou fazer dez anos?

E eu todo sem graça cheguei de mão abanando pro menino. Fiquei devendo.

Os aniversários para crianças são carregados de magia e euforia, me lembro bem quando eram os meus de menino. Que tipo de magia esses dias tem quando somos crianças? Que tipo de mágica ocorre quando crescemos e a tudo some, se esconde atrás da árvore e fica lá pra sempre. Nunca mais a vemos.

Os olhos brilhando do menino com a iminente presença do seu aniversário que se escondia no dia seguinte, me deixou nostálgico.


Depois de me cumprimentar, o garoto saiu num pinote correndo pelo quintal, abriu o portão e foi jogar bola na rua.

Entre tropeços, gritos, chutes no vento e uns arranhões, após duas horas, ele entrou todo sujo pra almoçar.

- Vá tomar banho antes de se sentar à mesa, não pense que vai comer todo afobado assim não. - Dizia sua mãe.


Me lembro da última vez que havia visitado aqueles amigos, o menino era mais novo e tinha ataques frequentes de asma.

- Olhe eu não sei o que se passa, já levei na médica e depois da última lua de janeiro, ele sempre começa a ficar espevitado, fica assim o mês todo respirando direito. é só acabar fevereiro que a falta de ar volta. - Replicou a mãe.

- Agora deu, Iemanja tira a asma do menino todo começo de fevereiro, só pode. - Disse eu na mesa ,e todos caíram no riso.


O papo de adulto seguiu normalmente durante esse dia, tudo muito agradável e caloroso, muitos sorrisos, lorotas, casos, comida boa e aromas de memórias. Mas os assuntos que mais me interessam sempre são os mágicos; desses que os adultos não conseguem explicar, ou na verdade já perderam a paciência de entender.

Enquanto os pais dos meninos conversavam comigo olhando em meus olhos, sobre negócios de adultos, minha cabeça estava no mistério do menino. Infelizmente não sei se é o tdah, mas este assunto da mesa estava menos interessante. 

Uma escritora famosa que agora me falha a memória, disse uma vez: O real dá-me asma.

Vivemos a vida toda sentindo tudo à carne, dores, arrepios e ventos frios. Quando fazíamos aniversário na infância, a mágica aparecia e nos tornavamos parte do vento, voávamos com a maresia ao encontro do que realmente somos, espíritos livres em liberdade. Por alguns dias nos permitíamos estar longe da realidade. A realidade nos deixa sem ar? 

As vezes penso que sim, é como uma mão de ferro que segura em nosso pescoço e asfixia nossos sonhos, mesmo depois de adultos. A rotina e o medo nos cegam por dentro nos obrigando a fugir pra algum lugar remoto dentro de nós, a fim de buscar essa infância escondida dentro de cada um. Quando a angústia nos enforca e tira nosso ar, fugimos pra esses lugares ensolarados da memória. Talvez todos os adultos tenham asma, só não sabem.


Queria ser aquele menino correndo descalço na rua, respirando fundo, sentindo no ar sua liberdade entrando nas bexigas coloridas dos seus pulmões, inflando e murchando, seguindo seu rumo numa eterna festa com coxinhas e balas de coco embaladas. Correr e pular, era a alegria daquele menino.

Depois de adultos, recriamos nossas festas de aniversários em outras tarefas. Ficamos o resto da vida a procurar essa liberdade que ficou escondida atrás da árvore da infância.


No dia seguinte, saí cedo pra comprar seu presente. Rapidamente reparei que no olhar brilhante do menino com aquele sorriso largo de dentinhos separados, notei que estava ansioso. O sorriso dele murchou quando abriu o pacote e viu que era uma camisa do Bahia. Seus pais não me avisaram que o menino era torcedor do Vitória.