- Bença vô!
- Çoe, meu filho!
Era de lei. Sentado na varanda, em sua cadeira acolchoada de rendas
xadrez, Compadre João emendava o descanso pós almoço com a
janta. Olhava o céu e proseava com o primeiro que visse antes de pegar no sono. Em começo de verão, o sol
do meio dia trazia o bafo quente até aquela cidadezinha do interior
de São Paulo.
Ele dizia que aquela quentura toda vinha das Minas Gerais – Os
Gerais é grande,
fio. O vento é que nem água de nascente. Nasce fresquinho, mas anda tanto que soa e chega
quente na gente! - Exclamava.
O horário da janta era sempre pontual. O despertador da bóia era
as rolinhas Fogo-Apagou que rasgavam o silencio das dezessete horas, e piavam
com a mesma tristeza com que o dia ameaçava acabar. Reticentes. Os pássaros
em terras caipiras soam arrastado. Uma preguiça que parece tristeza. Demoram a
piar... Quem sabe o primeiro sotaque não foi deles!?
Compadre João era até muito lúcido com a vida. Morava sozinho desde que a vó foi morar
no céu.
Deixara-o só com os passarinhos e a pequena horta que cuidavam os dois. A casa
ficara grande, mas a alma grande de Compadre João preenchia todo o espaço.
Os vizinhos boiadeiros que passavam de cavalo em frente aos mini-portões da
casa, não
resistiam em olhar. Viam tudo admirados!
- Compadre João está melhor que a gente, moço! Espia lá como
ele agacha pra pegar os coentros!
Ninguém sabia ao certo quantos anos tinha. Seu
Pedro Egídio
dizia que tinha cento e sete. Tião Elias afirmava que Compadre João já era
grande quando seu pai era vivo, e jurava que tinha cento e quarenta anos. Já Zé Gatão, dono
da mercearia, dizia que tinha ouvido que Compadre João
conhecera Princesa Isabel e que tinha lá pelos duzentos anos de idade.
A coisa que mais o animava era relembrar as histórias de
quando era moço. Recordava-se com brilhos nos olhos suas montarias a cavalo, os bailes na cidade, e a maneira que conquistou o coração da vó! Acomodava-se na cadeira com suas pernas cruzadas. Ostentava as
fotos amareladas e mostrava aos bisnetos com um orgulho de quem levanta um troféu. Tinha
alma de menino travesso. Sempre teve. Perdia-se entre risadas e piadas irônicas,
mas contava temeroso, a época em que serviu o exército e viveu as atrocidades da
ditadura. Viveu as duas grandes guerras. Tinha medo de militar, ainda que
tivesse foto com fuzil em riste.
– As guerras são feitas
com os homens todos cegos, fio. Eu via tudo. Ninguém
enxergava nada. – Dizia
Ao longo dos anos, se referia aos seus descendentes com um mistério nas palavras.
Comentava de cada um como se pisasse em ovos. Como quem se referindo ao nome,
evocasse a pessoa naquele momento exato. Somente grandes proseadores tinham
esse dom! O dom do espetáculo!
Falava que as pessoas eram todas iguais. Que o mundo era como uma grande
família do
mesmo sangue e do mesmo pai, e que os sobrenomes quem tinha inventado era o
Diabo, a fim de dividir a gente.
Passassem anos, passassem décadas, os costumes eram os
mesmos, o que diferenciava era a maneira de prosear e a rapidez com que se olha
no olho. – Entendemos a cabeça dos outros melhor quando olhamos no olho,
fio. É como se
a gente olhasse a alma pelada do caboclo. O olhar nunca mente! Repara! – Terminava.
Em uma dessas vésperas de janta, em uma terça-feira qualquer, as Fogo-Apagou
já davam
seu alerta. Perguntei a ele o segredo de tudo. Depois de uma suspirada
profunda, Compadre João se ajeitou na cadeira, tossiu duas vezes pra tirar o pigarro, e
respondeu sereno, com um sorriso de criança de dez anos:
- Vamos comer, fio. Tenha paciência que
eu tenho uma centena de anos pra viver ainda. E você o dobro!
(Felipe Leonardo)