'La luna pinta de plata
El grande rio y los valles,
Se oye el cantar del coyuyo
Escondido entre las ramas
Y los grillos suenan
tristes,
De quien es la falsa
calma?'
Eram sete da noite de um domingo quando Senhor Gonzalo
escutou um ronco ao longe. Parecia motor de carro. Seria normal se não fosse o
fato de que há cinco dias, nenhum carro de passeio circulava pelos arredores,
tirando as máquinas da lavoura da fazenda vizinha. O solitário morador daquela
casa abandonada na região, franziu as sobrancelhas e apoiou levemente na mesa o
mate que recém havia preparado. A água que pacientemente fervia no fogão à
lenha, descia à cumbuca de mate como a luva desce à mão. O frio pelas longas
noites nessa época do ano sempre é mais intenso em Cafayate, interior da
Argentina. Ao longo do domingo ventou muito e a poeira, que já era
característica o ano todo, deixava seus rastros nos móveis da pequena casinha.
Provavelmente essa mesma poeira ficaria no mesmo local até o sábado próximo.
Com exceção de suas medalhas da época do exército e seu fuzil Mauser, que
limpava a cada minuto para tentar preservar o amadeirado brilhante que ele
jurava que ainda existia. Mas a sujeira que incomodava Senhor Gonzalo era
outra.
O som do carro foi se aproximando e Juanito, seu cachorro,
começou a latir mais alto. O pobre cãozinho quem lhe presenteou foi um amigo,
para poder sanar a solidão e trazer um pouco de afago àquela alma já calejada com
a vida.
Sua respiração ficou mais agitada, como quem pressente uma
ameaça eminente por chegar. Ao levantar da cadeira, Gonzalo tropeçou na quina e
teve que se apoiar na poltrona velha pra não ir ao chão. Ao abrir a porta um
carro grande, desses utilitários, parou em frente. O farol de milha ligado
iluminava a poeira que, levantando, reforçou ainda mais o clima neblinoso e
duvidoso. Senhor Gonzalo olhava tudo do batente da porta e quando pensou em
dizer algo, o vidro filmado abaixou lentamente.
- Boa noite! O senhor sabe dizer pra que lado fica Tucumán?
Precisaria chegar por lá antes das dez...
- Siga sempre reto!
O morador solitário respondeu brevemente, de maneira firme e
desconfiada, e fechou a porta de supetão. Juanito continuou a latir até o carro
desaparecer pela estrada de terra.
Senhor Gonzalo chegou àquela cidade isolada por obrigação.
Seus sessenta e quatro anos de vida carregavam histórias, sangue e memórias que
nunca se foram. Quando mais jovem, foi um dos militares subordinados do General
Rafael Videla que comandou a ditadura no país portenho. Ao fim do regime
militar, vivia à base de fortes medicamentos e esporadicamente, tinha
alucinações. Ainda assim, tentou seguir a vida com naturalidade com sua esposa
e filha. Antes dos tempos sombrios tudo era mais calmo e tranquilo, mas o tempo
tende a mudar as pessoas. Ideologias para mentes cegas são venenosas e
rasteiras como um bicho peçonhento.
Segundo ele, sofria seguidas perseguições e ameaças de grupos extremos de
esquerda que o pressionavam. Dizia que todas as noites, telefones tocavam com mensagens
perturbadoras e vozes distorcidas pondo em cheque sua vida e de sua família;
- Boa noite, sargento. Dona Agustina está ansiosa por ver
seu filho desaparecido. Diga-nos onde estão todos. Diga-nos!
Gonzalo com medo do futuro e com um peso cutucando suas
entranhas, numa madrugada do ano de 1985, fez suas malas e saiu sozinho em disparada com seu Renault Torino ao encontro do nada. Partiu intuitivamente com a
intenção de enterrar as toneladas de consciência que afundavam sua cabeça no
travesseiro.
Pela estrada, se entupia de remédios com a intenção de
abreviar os maus momentos. Afinal, qual lado era o certo? Quem dizia a verdade?
Lembrou-se dos tempos áureos, dos quartéis de Buenos Aires,
época onde sentia o poder e a humanidade nas mãos. Este poder que o cegava da
realidade. O poder que a opressão arrebata sobre as multidões e cala a voz das
minorias. Lembrou-se também da oposição, dos baderneiros incansáveis que
implicavam com a ordem imposta, com protestos e causas “burras”.
Hoje, este senhor sexagenário, em qual lado jogaria?
O militar aposentado refez sua vida há quilômetros da
capital, naquele vilarejo que ninguém o reconheceria. Casas antigas de
alvenaria, poeira marrom da cor das montanhas que se via ao longe, bares,
mercearias pacatas, e o folclore local. Não sabia mais quem era. Levou consigo
dúvidas e doenças na alma que só o tempo curaria. Deixou pra trás sua família
deliberadamente com a intenção de não contaminá-los.
- Mas você é um tipo muito do durão mesmo né, Gonzalo. Todo
esse tempo por aqui, e mal sei sobre sua vida! – Perguntou Nicolás, seu único
amigo que fizera desde que chegou por essas terras arenosas. O mesmo amigo que
o presenteou com o cão Juanito.
- Bom que não saiba, amigo. Ainda estou a descobrindo.
Sua rotina diária era caminhar de sua casa até o bar todos
os dias ao fim da tarde. Conhecia todos da vila. Tarefa fácil tendo em vista de
que não eram muitos.
Certo dia enquanto tomava sua cerveja, solitário olhando o
pó da estrada, ouviu da mesa ao lado uma conversa estranha. Escutou que havia
um grupo de homens que buscava uma pessoa em especial. Ouviram dizer no
noticiário de que eram justiceiros em busca de vingança. Não sabiam ao certo
por quem procuravam, mas eram violentos e já haviam torturado uma pessoa. Nesse
exato momento Gonzalo tremia. Era como se as sensações da época das perseguições
voltassem.
Terminou sua cerveja, deixou o pagamento em cima da mesa de
aço e saiu em disparada para sua pequena casa. Foi caminhando de maneira rápida
ofegante, com os olhos fixos e arregalados no horizonte.
Ao chegar em casa, começou por fechar todas as janelas,
pegou seu cãozinho pelos braços, colocou para dentro e trancou as portas. O
cachorro não entendeu muito o que estava acontecendo e o olhava latindo com uma pose interrogativa.
Senhor Gonzalo passou a noite nessa situação. Não comeu e
nem o mate se propôs a tomar. Ficou todo o tempo sentado na poltrona olhando
para a porta fechada com seu fuzil carregado, tenso e em posição de combate.
Enquanto mirava a porta, filmes passavam em sua mente. Lembrou-se de sua
família como há tempos não lembrava e se permitiu sentir saudades, sentimento
que há tempos não se recordava. Chorou copiosamente.
O sol já raiava quando Juanito latia de fome. Gonzalo, já
cansado, permitiu deixar o fuzil encostado ao lado para alimentar o cachorro.
Recém havia terminado de sentar-se de volta,
quando escutou baterem fortemente em uma das janelas. Estava tão nervoso e
ansioso que sequer escutou o que a voz dizia depois das batidas. Na terceira
batida atirou contra a janela e ouviu gritos. Neste momento abriu a porta
levemente e viu dois garotos correrem em disparada assustados, ao olhar para
cima do telhado, viu uma pipa enroscada. Por sorte os meninos não foram atingidos.
Trancou-se novamente em sua casa e voltou a refletir sobre
tudo. Relembrou dos tempos de início na cidade de Cafayate quando um padre o
convidou para se confessar e participar das missas. Na época a proposta parecia
ser uma ajuda para a alma, talvez uma alento para o inexplicável. Um encontro
com Deus nessa fase atual em que vivia seria interessante, para talvez ter uma
luz ou quem sabe fugir do inferno. Voltou a avaliar a situação mas desistiu
rapidamente. Parecia estúpido.
Já haviam passado uma semana e Senhor Gonzalo mal comia. A
casa já começava a ficar em estado fétido e verdadeiramente suja, com garrafas
de cerveja largadas pelos cantos. Para Juanito, por sorte não faltava comida,
embora mal vissem a luz do dia.
Pela noite, enquanto dormia em sua cama suja de poeira,
sonhava que estava em guerra. Se via numa linha de frente no centro de buenos
Aires capturando pessoas e as jogando dentro de caminhões.
- Malditos comunistas, fora da Argentina, fora! Gritava a
puros pulmões sonâmbulo.
Foi em uma dessas gritarias à noite que Nicolás foi bater à
porta de seu amigo. Mesmo morando há uma distância considerável de Gonzalo, o
eco naquela região era alto e só competia com o som dos grilos. Nicolás chegou
tenso, estacionou sua camionete e chamou por seu amigo incansavelmente. Depois
de muito silêncio contínuo, só ouvia o latido do cachorro. Por fim arrombou a
porta da casa do solitário morador a pontapés.
Encontrou sua casa revirada completamente suja. Senhor Gonzalo
estava deitado ao lado do batente da cozinha com garrafas de bebidas e agarrado
a frascos de remédios. Estava morto.
Depois daquele incidente, o cachorro Juanito voltou ao seu
dono original, e Nicolás, por respeito, fez questão de fazer um velório digno
ao seu amigo que pouco conhecia, mas que tinha muito apreço. Semanas depois,
por fim, foram capturados os tais justiceiros assassinos que assombravam a
região. Eram matadores de aluguel que caçavam outro sujeito próximo de
Catamarca.
A loucura assombrou o então aposentado do exército Senhor
Gonzalo, morto pelo peso insuportável de sua consciência. Perseguido por
fantasmas e monstros vermelhos que nunca existiram. Não sabia, mas matava-se
aos poucos desde que se alistara. Ideologias para mentes cegas, são
venenosas e rasteiras como um bicho peçonhento.
Felipe Leonardo

Nenhum comentário:
Postar um comentário