domingo, 9 de dezembro de 2018

Teófilo, o menino embaraçado


    



    Teófilo Complexo era um menino embaraçado como o nome que carregava. Talvez sua mãe em sua gestação previsse o que trazia no ventre. Mães têm certos poderes paranormais que desconhecemos. Mas Embaraçado é palavra relativa quando todos a sua volta pareciam descomplicados demais. Pelo menos com o adjetivo acima, seus amigos e parentes o julgavam com respeito, nas rodas de conversas da rotina.
   Com seis anos sua mãe o pegou conversando sozinho ao pé da cama, parecendo estar em profundo diálogo com a parede. Balbuciando palavras como se o branco infinito da parede o cegasse da realidade. Era cego da verdade imediata em que vivia. Escrevia textos enormes sem nexo em dezenas de folhas seguidas, dialogava com vento, árvores, patos, e por onde passava recolhia pedrinhas do chão e as guardava no bolso, pois jurava que elas estavam perdidas no caminho.
    Ao longo dos anos sua mãe passou a chamá-lo de Téo. Descomplicar o nome foi uma atitude espontânea, como quem quer se reaproximar do ser que dividiu alma por nove meses.
Pelo menos os textos enormes sem nexo diminuíram de frequencia. Foram sendo trocados por linhas mais breves acompanhados de algumas estrofes. Mais confusas, é certo. Porém breves.
 - Olhe lá, Lourdes. Quando a gente pensa que melhora, piora...

    Em época de puberdade as esquisitices só aumentavam. Sua tia Lourdes dizia que o menino provocava calafrios com seus atos sinistros. Recomendou à mãe que o levasse a um psicólogo, mas a mãe altamente supersticiosa e mística de alma, não acreditava nestes tipos de bacharéis.
 - Para conversar, conversamos em casa, oras! Esse menino nasceu com a alma do avesso – Dizia.
   Conversas. Aí estava o grande dilema. Quem seria capaz de desembaraçar o menino complexo? Nas tentativas de diálogo, Teófilo parecia consciente e tranquilo de tudo. Ficava espantado que sua mãe não conseguisse ver alma nas pedrinhas e nos patos. Como se os esquisitos na realidade fossem os outros.
    Decidida, sua mãe resolveu levá-lo a Dona Nice. As crianças e jovens da região tremiam. As bocas ingênuas chamavam-na de bruxa, pois além da aparência, boatos diziam que ela passava ramos de arruda nas pessoas para curá-las. Todos da vila a conheciam por descomplicar pessoas complicadas. Era batata!
    - Seu filho nasceu com uns encostos, minha filha. Escuta voz de tudo quanto é lado.
Vou lhe passar alguns procedimentos. Faça o rapazinho tomar banho de sal grosso por seis dias. No sétimo banho, mate um pato jovem e jogue por cima do menino as penas.

     Teófilo, curioso, estava longe, escutou apenas alguns trechos. Estava apreensivo. Não entendia o que o pato tinha a ver com banho.
- A partir de agora você toma jeito! – Dizia a mãe fervorosa.

    Ainda era domingo quando o pato já estava selecionado, ainda vivo preso nos fundos da casa.
    Ao longo da semana o menino não entendia o porquê das pedrinhas salgadas que lhe eram jogadas por cima do box pela mãe quando ele se lavava...
- Por que raios a mãe quer que eu converse com elas agora? – Pensava.
  No sétimo dia, sua mãe se ausentou brevemente para tarefas cotidianas. Quando voltou, viu Teófilo conversando com as pedrinhas de sal grosso e dando banho no pato.




(Felipe Leonardo)

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