No meio dos Gerais, lá pra cima de Belo Horizonte, depois de muita estrada adentro, vive Dona Fátima. Todos na região a conhecem como a Portuguesinha; apelido carinhoso que deram à lusitana.
No vilarejo a parcela de população idosa é grande, então eles bem se entendem juntos. Resmungos, risadas fanhas, e frases que não podem ser tão longas pois falta-se ar; quando chegamos ao fim da vida, somos mais reticentes. Por vezes intolerantes e ansiosos. Como quem sente o cheiro do fim de tudo, e alterna entre nostalgia dos bons tempos, e ansiedades de querer fazer o que nunca fizeram. Quem julga os adolescentes em fase de descobrimento, é porque nunca viu um velhinho ansioso pro almoço às onze e meia da manhã.
Pouco se sabe sobre Dona Fátima, exceto seu sotaque puxado de colonizadora. Às vezes tem de se pedir para repetir as frases, mas nada que sua grande paciência não permita. Aos noventa e cinco anos de idade, ela carrega consigo uma paciência equivalente a sua idade. Se lembra de pouca coisa de sua vida, mas vive o agora com uma vivacidade ímpar. É sincera e transparente como água fria. Ainda que tenha vindo de Portugal com somente 15 anos, de família muito humilde, e não tenha tido estudos, tem uma prosa de filósofa sabichona que poucas em sua idade têm.
Uma coisa curiosa que ninguém entende é um texto grande que está enquadrado em sua parede. Um texto escrito à mão com um papel já amarelado pelo tempo, em uma moldura mais velha ainda. Os amigos que vão visitá-la aos domingos e as irmãs de missa, sempre fazem a mesma pergunta:
- E esse monte de escritos aí nessa parede, Fátima. Você não sabe ler, por que deixa isso aí, uai?
E com uma voz cansada e reticente, sempre responde com orgulho:
- Foi um presente de um amigo famoso que tive em Portugal, já disse. Era um moço magro de óculos e bigode. Eu sempre brincava na porta de uma barbearia, e ele sempre me levava chocolates quando eu era criança. Um dia me entregou esse texto grande e nunca mais o vi. Neste último dia ele leu pra mim o que estava escrito. E eu achei tão bonito porque eu estava no meio das palavras. Me senti importante.
Ao perguntar o nome desse amigo famoso, ela não se recordava. Só dizia que era um tipo de poucas palavras e vivia escrevendo. A vizinhança adorava ouvir as histórias de Dona Fátima. Era como se a senhora estivesse sempre envolta em contos de fadas e conversas cheias de fábulas portuguesas. Ninguém de seus colegas da vizinhança sabia decifrar os escritos. Era quase como uma maldade do destino Dona Fátima não saber ler. Mas isso era um detalhe, pois ela se perdia contando suas histórias mesmo assim. A memória bastava.
Mas tudo na vida tem um momento certo, e o clímax uma hora vem, pra levar frios na barriga aos descrentes.
Há uns meses atrás, no aniversário de noventa e seis anos de Dona Fátima, um grupo de estudantes da Universidade de Minas visitou o vilarejo para estudos de caso e entrevistas com os moradores.
Diego, estudante de jornalismo, e que era apaixonado por literatura, entrou na humilde casa da portuguesinha com os olhos virgens e atentos a tanta vida. Olhou os mofos nas paredes, e o tempo a por cabelo branco nas senhoras. Mirou as janelas, e suas paisagens reais, observou um cinzeiro velho na ponta da cômoda, observou os cachorros, que também existem. Tudo aquilo lhe pesava e lhe parecia estrangeiro. Um excesso de metafísica.
Ao olhar o famoso papel enquadrado na parede, enrugou os olhos e se esforçou para ler alguns versos de uma letra um tanto exótica. Quando terminou de ler, deu uma gargalhada de criança que descobre algo novo. Não entendia o que estava acontecendo. Naquele papel amarelo estava um trecho do poema Tabacaria de Fernando Pessoa. Algumas quatro estrofes.
Chamou seus colegas para ver aquilo e todos ficaram surpresos. Não resistiram em fazer a pergunta à Dona Fátima:
- Então a senhora gosta de Fernando Pessoa! Olha que grata surpresa!
Dona Fátima não se recordava desse nome. Mas como perguntaram sobre o famoso papel na parede, ela não se importava em dizer a história toda, pelo contrário, se enchia de pompa ao dizer sobre o presente.
Ao fim do relato da senhora, todos os estudantes se entreolharam boquiabertos. Diego não se aguentou. Olhou novamente uma estrofe em específico. A que dizia:
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Jogo tudo para o chão, como tenho jogado a vida.)
Os olhos de Diego se encheram de lágrimas. A senhora era a própria menina dos chocolates do famoso poema, em carne e osso. O semblante dela enquanto todos a endeusavam era impagável. Dona Fátima não entendia nada. O grupo de estudantes fez questão de contar a história toda. A versão que o mundo todo conhecia, menos Dona Fátima. Contaram sobre Fernando Pessoa, sobre seu bigode, sobre sua fama, sobre Álvaro de Campos. Fizeram naquele momento uma troca de histórias.
A senhora que sempre foi apaixonada por chocolates desde pequena - e que hoje sofria com a diabetes e não come mais - se levantou com os olhos marejados. Foi até seu quarto, abriu uma gaveta escondida muito velha, e retirou uma caixinha. Ao chegar de novo à sala com os chinelinhos arrastando, abriu-a e disse:
- Essa caixinha guardei sempre. São todos os papéis dos chocolates que comi e ganhava de presente desse moço escritor. Guardei em minha memória o momento em que estive numa história de verdade. O momento em que mais existi.
O orgulho que Dona Fátima sentia naquela hora era único. E a devoção dos estudantes naquele momento era ímpar. Ao fim do encontro, todos fizeram questão de tirar uma foto com a “Menina dos chocolates” do Pessoa. Decidiram manter o segredo literário.
Os papéis de prata de folhas de estanho estavam bem guardados. Vivos na memória e ainda exalando poesia. A verdade com que dona Fátima comia os chocolates e levava a vida inspirou o poeta. E a vida daquela humilde Portuguesinha do interior de Minas, inspirou a todos.
Tudo isso, seja o que for, se pode inspirar, que inspire!
(Felipe Leonardo)

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