- Não posso te abraçar mais não, Cléo, agora em diante é todo mundo pro seu canto.
Assim me despedi da escola onde trabalho como professora. Recusando abraços de minhas companheiras de trabalho por causa da pandemia. E a gente era tão grudada. Abraço de cumprimento, abraço de despedida, abraço pra brincadeira. Dessa última vez quase que dou sem poder.
A prefeitura adiantou nossas férias, então o clima era de metade alegria, e metade tristeza. Um misto de liberdade encarcerada. Pra mim a apreensão era um pouco maior pois eu levava uma pessoinha no ventre. Estava grávida de 8 meses do Gabriel, e contava os dias pra ele nascer. Isso lá era hora de aparecer essa doença doida pra me preocupar mais ainda?
Preocupação dobrada quando me deparava com meu companheiro de vida que me esperava em casa.
- Boa noite, Denise. Por que você sempre demora pra chegar em casa?
Nossa relação ao longo dos anos foi se deteriorando aos poucos. Quando eu pensava seriamente em pedir o divórcio, a semente do Gabriel apareceu em mim. Minha cabeça não pensou duas vezes em continuar nessa prisão em que vivia. Quem sabe, ele não muda. Quem sabe com a chegada da criança ele fica mais compreensível. O Gabriel me encheu de esperanças.
Um mês antes desse reboliço todo de Covid eu cheguei na escola como todos os outros dias pela manhã. Sentei no refeitório e logo ouvi um comentário:
- Nossa, Denise, o que foi esse roxo no seu braço, pelo amor de Deus?
- Ah, menina, você sabe que eu esbarro em um monte de lugar e me aparecem os roxos… - eu disse com a voz mais sem graça do mundo. Por sorte elas não me perguntaram mais.
Existem momentos na nossa vida que temos que tomar decisões precisas. São horas decisivas que vão definir pra sempre o destino e nossas rotinas. Momentos que temos que escolher quem ficará do nosso lado. Momentos que teremos que escolher quem irá nos segurar quando o chão desabar. Em minha casa, o marido carinhoso e prestativo que beijei no dia do casamento, desmoronava em um tipo de pessoa que a cada dia, se tornava mais desconhecido. Isso me assustava.
Por incrível que pareça, a quarentena me obrigou a ficar mais tempo com meu marido, e o que deveria ser prazeroso, se tornou quase uma fobia antecipada.
Na sala de aula o ambiente era sempre lindo. Por mais que meus alunos gritassem e volta e meia eu tivesse que chamar atenção, eles deixavam eu falar. Se por algum motivo eu fosse interrompida, um grito meu, ou uma chamada de atenção e todos me olhavam com um olhar de assustado, um olhar de respeito ou até mesmo envergonhado.
Nas discussões em casa, quando eu tentava me impor, a voz dele sempre se sobressaía. Como era difícil falar. Como era difícil viver enjaulada. Como se minha voz fosse amarrada antes mesmo de sair da garganta. Minhas palavras eram descartadas e jogadas no lixo. Me sufocava cada vez mais.
Num desses domingos monótonos quando estava sentada no sofá eu olhava para o rosto dele esparramado no outro sofá, vendo futebol reprisado. Há quanto tempo eu não abraçava meu marido? Antes mesmo da pandemia já fazia muito tempo. O que aconteceria se eu abraçasse ele neste exato momento? Que poder um abraço tem?
Eu não tinha vontade de abraçá-lo, e isso era o que mais me preocupava. O problema maior era quando íamos dormir. Na cama se não obedecesse ao que ele quisesse, os gritos berrantes no meu ouvido se faziam aparecer, isso quando não se tornavam agressões físicas.
- Sorte sua que o moleque tá dentro de você! - Dizia.
Já tinha se passado quase um mês de quarentena, a barriga ficava cada vez maior, e as pontadas cada vez mais evidentes. Os momentos de luz era quando eu falava ao telefone com minha mãe. Ela é minha confidente. Desabafava a ela todas minhas angústias. Meu medo que meu marido escutasse era tão grande que eu falava quase cochichando.
- Você precisa olhar a sua volta, minha filha.Tome uma atitude e se liberte desse traste.
Ela dizia e parecia tão fácil. Mas pra mim não parecia, tinha um pouco dele dentro de mim. O Gabriel era um pouco do meu marido misturado comigo. Uma criança nova, ingênua que nasceria no meio do caos. A pandemia dentro da minha casa já ocorria fazia tempo.
Os dias se passavam e a barriga estava grande como nunca. Sentia os cotovelos do Gabriel a todo momento pra lá e pra cá. Na última consulta a médica me havia dito que poderia nascer a qualquer momento.
Numa dessas noites eu sentei no sofá e chorei muito. Chorava de soluçar. Às vezes choramos e nem sabemos, naquele momento me sentia sozinha como nunca, misturado com um sentimento de grande ansiedade. No meio dos meus olhos marejados, eu olhava meu marido. Ele me mirava com uma cara de assustado e impaciente. No início ele até perguntou o que era, mas quando eu desabafei, as discussões surgiram, e como uma bomba relógio previsível, sua voz se alterou e ele se irritou. Preferi subir e chorar sozinha. Como eu precisava de um abraço naquele momento. A quarentena me enlouquecia.
Naquela mesma noite a dor se estendeu. Parecia que tinha migrado do coração para o útero. O colchão ficou molhado. A bolsa havia estourado.
Gritei do quarto com uma voz de desespero e meu marido logo desconfiou. Subiu as escadas num salto, me pegou no colo e me levou ao hospital.
Ao chegar por lá, todas as enfermeiras de máscara, somente o andar da maternidade parecia tranquilo. Ao redor do hospital filas enormes e pessoas se agonizando em dor. Para gestantes haviam regalias. Pegamos o elevador por trás para evitar contatos. Um lugar calmo por fim.
Todo o processo de se trocar até chegar na sala de parto foi como um filme passando pela cabeça. Tudo se passava em câmera lenta. Imaginava meu filho crescendo, eu sozinha somente com minha mãe. Imaginava ele crescendo com o pai, brincando e correndo pelo quintal. Eu chorava de ansiedade e de dor. A respiração ofegante contrastava com a médica que segurava minha mão, e pedia que eu respirasse pelo nariz e soltasse pela boca.
Ao entrar na sala somente as conversas dos médicos. Meu marido que ficou lá fora resmungava algo e mesclava palavras de preocupação.
Decidi pelo parto normal. Na hora de se fazer força, pus toda minha raiva e ansiedade pra fora. Soltei tudo o que eu tinha por dentro num grito tão alto e estridente que o quarteirão inteiro deve ter ouvido. Todos me ouviram. Por fim todos me ouviram.
Junto do meu grito, o Gabriel aparecia. Junto do grito eu tirava um peso da alma.
As lágrimas rolavam pelas bochechas naturalmente como numa cena clichê ensaiada. O choro do Gabriel soava ecoante na sala enquanto os médicos sorriam todos juntos. Há quanto tempo eu não via tantos sorrisos num lugar só!
Por fim o Gabriel me foi entregue. Naquele oásis em meio à pandemia, colocaram-o ao lado do meu rosto. Ele veio de braços abertos, de mãozinhas estendidas procurando desesperadamente tatear algo, ansioso para me dar o abraço mais esperado da vida.
(Felipe Leonardo)

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