terça-feira, 31 de março de 2020

Pandemia de periferia




    Já tinha passado uma semana quando eu soube que todo mundo deveria ficar em casa. No caminho que levo de segunda a sábado pro apartamento de dona Sônia eu percebi a mudança. A movimentação da rua parecia como se fosse um eterno feriado, ou aqueles dias de jogo do Brasil na copa. Em dois mil e catorze foi bem assim.
Nem o seu Celso que vende amendoim em frente à estação estava mais lá. Eu fiquei é muito preocupada. Pensei que ele tivesse adoecido. Pensei que a cidade toda tivesse adoecido.
    O caminho que levo pra casa da patroa não é curto. Duas horas pra ir, duas pra voltar. Meus filhos dizem que eu já não tenho idade pra ficar trabalhando de doméstica na casa dos outros ainda mais longe do jeito que é, mas dona Sônia eu respeito e tenho apreço, nunca me desrespeitou ou destratou. Sempre pagou tudo certinho nesses dez anos que trabalho por lá, e enquanto eu estiver viva podendo andar, prefiro trabalhar. Ocupar a cabeça com algo útil é sempre bom, ainda mais nessa idade.

    Nesse dia quando cheguei no prédio dela até o próprio condomínio estava vazio. Cumprimentei o seu Alves com um aceno, esse sempre presente na portaria, me retribuiu com uma tristeza meio escondida. Um certo desânimo. De fato as coisas não pareciam estar normais.

    Ao abrir a porta naquela segunda silenciosa, os meninos dela ainda estavam dormindo. Aqueles acordam lá pelas onze horas. Dona Sônia e seu marido estavam sentados na mesa, os dois com máscara dessas que dentista usa antes de abrir nossa boca. Eu achei foi engraçado. Dei o bom dia e fui pra cozinha tocar meu serviço. A patroa percebeu meu cumprimento com um pouco de demora e me respondeu quando eu já estava longe. Pareciam muito ocupados. Fui respondendo da cozinha mesmo. 

   - Bom dia, Clarice! A senhora está boa?
   - Tô sim, dona Sônia. E vocês como vão?
   - Estamos trabalhando de casa a partir de hoje! Com essa pandemia não podemos dar mole não.

    Eu achei que tava ficando doida. Primeiro porque tinha visto os dois de máscara de dentista numa segunda feira em casa, segundo pois ela tinha falado uma palavra que nunca tinha ouvido. Trouxe o pão na chapa com café deles, e aproveitei pra fazer as perguntas:

   - Viu dona Sônia, por qual motivo vocês estão com essas máscaras aí. Na rua eu vi um povo também usando…

    Eles se entreolharam. O marido deu um gole no café, esperaram uns dois segundos e me disseram o que estava ocorrendo. Que uma gripe poderosa vindo da China estava no Brasil. Que já tinha gente morrendo até. Por esse motivo eles estavam com a máscara e trabalhando com o computador deles de casa. Me falaram também que em breve iriam ver o que fariam comigo, vai que eu tivesse que ficar em casa também, disseram.

    Me lembro de mobilizações assim. Na época da vaca louca, da gripe suína, até do medo que o PCC botou no povo uns tempos atrás impedindo de sairmos na rua. Confesso que naquela hora não liguei muito não. 
Ao longo do dia, conforme fui fazendo meus afazeres fui pensando mais nesse assunto. As paranóias foram surgindo. Os meninos dela acordaram, se vestiram, botaram a máscara e nem tomaram café direito.

   - Amor, vai lá ligando o carro, coloca os meninos dentro que já vamos! Clarice, a gente já volta - Gritava dona Sônia com uma pressa estranha.

    Eu olhava tudo calada observando aquela movimentação aleatória. Terminei de limpar a casa já era pra lá da hora do almoço, e eles ainda não tinham voltado. 
Fiquei pensando na minha cabeça sobre essa loucura de doença. E meu menino em casa como estaria? Por que lá no meu bairro continuava tudo mais normal do que aqui? Por que esse povo com dinheiro são os que sempre inventam moda?

Dona Sônia chegou já era quase fim do meu horário. Me disse que foi correndo deixar os meninos dela que são asmáticos pra uma tia que mora no interior. Eles ficariam por lá até que a tal pandemia acabasse. Me despedi deles com uma cara de dúvida.


- Até amanhã, Clarice. E cuidado com o trem. É cheio de gente no trem essa hora.


    Fechei meu expediente e voltei no trem pensando nas barbaridades que tinha ouvido e visto. Quando cheguei em casa, já de noitinha a rotina parecia ser a mesma. O bar do seu Ermelino cheio, as crianças jogando bola na rua. Parecia uma noite quente de domingo. Que tipo de realidade aquele povo da zona sul vive, que aqui ainda não chegou?

    Foi meu filho Júnior que me comentou também logo depois da janta sobre essa pandemia. Ele me explicou com mais calma o que era essa gripe perigosa e como ela é transmitida. Dona Sônia e o marido não me falaram metade do que Junior me disse. Às vezes até penso que esse povo rico pensa que a gente é besta, e encurta o assunto pensando que a gente não entende.
Junior tem bronquite. Ele se encaixa nesse tal grupo de risco que dizem. Eu nem dormi a noite preocupada com o menino. A diferença é que a gente que é pobre não tem cabeça pra esse tipo de preocupação. A gente se preocupa com o básico, se a Sabesp não vai cortar nossa água, se na janta vai ter uma mistura melhor, ou se vai ser só ovo. A gente se preocupa se o dinheiro do fim do mês vai dar pra pagar o aluguel. Não temos tempo de lembrar de por máscara de dentista. E isso nem é culpa nossa. A gente só sobrevive, e isso nem é culpa nossa.

    A semana correu normalmente, o transporte público estava ficando cada vez mais vazio e meu coração cada vez mais apertado. Na quarta feira enquanto eu preparava o almoço da Dona Sônia, eu comecei a tossir. Tossia atrás do cotovelo, como mandava nos jornais. Só ouvia a patroa cochichando com o marido. Pior que com a máscara nem ler os lábios a gente consegue. 

    Foi batata. No fim do expediente eles pediram pra eu ficar sem ir trabalhar. Disseram que não sabiam se ainda voltariam a me contratar porque o mundo era outro. Disseram que as questões salariais conversariam depois. Fiquei triste como se tivesse levado um tapa na cara. No fundo nem estavam preocupados comigo. Estavam preocupados mais com eles, senão eu já estaria usando máscara por lá. 
Eles por fim mostraram quem eram. De fato nunca pagaram nada atrasado nem nunca me trataram mal. Mas na hora do aperto é que conhecemos as pessoas. Fui pra casa depois de todo mundo, mas fui. Só não continuei trabalhando porque eles ainda não descobriram como faz comida home Office.

    Chegando em casa me preocupei com a tosse. Ela aparecia seca e funda. Meu filho fez questão de comprar uma máscara pra mim e pediu pra usar. A partir dali eu quase não fazia nada. Junior não me deixava. O sentimento de impotência me tomou conta. Eu daria tudo pra que meu filho estivesse isolado na casa de alguma tia, como os filhos asmáticos de dona Sônia. Perguntava a Deus se a bronquite de Junior era pior que a asma dos filhos da patroa. Por que meu filho continuava sem máscara, botando pão na mesa agora, e os dela isolados? Era como se os dez anos de trabalho pra dona Sônia desabassem com telhado e tudo em minha cabeça.

    Semanas se passaram e meu filho entrava em casa chorando comentando sobre mortes de seus amigos de infância e de senhores do bairro. A situação tomava controle desproporcional. O tempo deitada na cama voava, e já não sabia quando era sábado, quando era segunda...

    Quando eu achava que iria enlouquecer, abri os olhos. O sol na minha cara era tão forte que demorei a tomar consciência. Ouvia as pessoas gargalhando na rua, o carro do ovo com a gravação repetida passando lentamente em frente de casa. Parecia tudo tão normal e tranquilo, e realmente estava. Eu estava sem máscara, respirava tranquila e sem nenhum tipo de tosse. Meu filho gritava na janela perguntando quantos pães eu queria naquele dia... 
    Não era possível, eu havia sonhado o pesadelo mais sombrio e real da vida! Graças a Deus aquela loucura não era verdade. Despertei com a consciência mais sensata que pude ter. No mesmo dia no fim de tarde, como num impulso de quem tem uma certeza inata, pedi demissão à Dona Sônia. Ela não entendeu nada e até tentou me fazer mudar de idéia, disse que precisava de mim. Minha vida começou depois desse santo pesadelo.





(Felipe Leonardo)

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