Há uma semana atrás nada disso ocorria. A vida corria da maneira que sempre correu, com todos andando na rua com seus olhares esquivos, cumprimentos rasos e apressados. Depois que comecei a cursar universidade e trabalhar, surgiu a desculpa pra não ver meus pais. Há uma semana atrás eu saía com meu namorado. Todos os sábados e ocasionalmente algumas quintas e sextas bebíamos, nos abraçávamos e entrávamos em estado de transe conversando assuntos que só a nós interessava. Éramos cegos pra toda a realidade que acontecia a nossa volta, e o assunto da mesa ao lado pouco nos importava. O amor nos dias de hoje nos serve de afago aos problemas e caos da rotina.
Confesso que dentro de casa era o lugar que menos conseguia ficar. Meu pai sempre sonhou e pedia a Deus que eu fosse jogador de futebol. Me lembro quando pequeno, nas tardes de domingo, ele ajoelhado amarrando minhas mini chuteiras novas, que ele mesmo havia guardado dinheiro pra comprar. Eu olhava aqueles sapatos de chutar bola com uma curiosidade ímpar e desejava do fundo do coração ter a empolgação que meu pai tinha. Em vão, não conseguia.
O futebol talvez nunca tenha me chamado atenção pela forma agressiva e grosseira que ele era discutido nas rodas de conversa, com meu pai e seus amigos. Tudo o que nos é imposto, por mais incentivador que seja, tende a ferir-nos. - Se o futebol fosse criado por mulheres, talvez fosse mais atraente - Eu pensava.
Eu olhava as meninas da rua, todas juntas pulando corda, brincando de adoleta, ou “soco- soco, bate-bate” e aquilo me parecia muito mais leve e reluzente. Toda vez que meu pai entrava pra dentro de casa pra resolver algo, eu me juntava às meninas para pular corda. Eu era o menino que se juntava às meninas. Era o único da roda.
Certa vez meu pai me viu interagindo com elas e me repreendeu. Me falou que aquilo era brincadeira de bicha. O significado do termo sempre me pareceu pejorativo e medonho. Toda vez que essa palavra era posta nas conversas entre primos e tios, todos se riam. Eu não queria ser a piada da família, então, me adequei aos homens. Cresci enjaulado reprimindo minhas vontades e os primeiros momentos de felicidade surgiram só quando a adolescência bateu à porta, e conheci outras pessoas na escola. Pessoas atrofiadas como eu.
Ao longo dos anos os assuntos com meu pai foram ficando mais escassos ao ponto de crescer uma certa frieza em casa. Não nos abríamos a conversar, e os assuntos da puberdade preferia contar a amigos próximos, do que revelar ao meu pai. E se ele me reprimisse, risse, ou me batesse? Jamais, nem pensar!
Sempre me dei melhor com minha mãe. Quando meu pai saía eu procurava ajudar ela com os afazeres domésticos. Mãe sempre tem um sexto sentido que se sobressai aos outros mortais. No fundo ela sabia de minha orientação sexual, mas desconversava com a esperança de que, não tocando no assunto, eu pudesse esquecer a ideia.
Com o passar do tempo a família que mais me aproximava, eram os amigos. Busquei neles o afeto que em partes, era ignorado em casa. Sempre me perguntava se eu tinha culpa nisso tudo. Talvez eu também tivesse. Talvez não.
O mundo virou de cabeça pra baixo na quinta do dia dezoito de março. De uma hora pra outra a TV só falava da tal pandemia. No começo do mês, meus pais diziam que era só uma gripe. Quando eu chegava da faculdade, o único momento em que via televisão era de noite, enquanto comia com meu prato na mão.
- A TV fica assustando a gente. Nosso presidente falou que era só gripe. A mídia engana a gente, Neusa. Dizia meu pai com voz alta, apontando o dedo pra TV
Minha mãe observava tudo reticente. Ela sempre teve um olhar reticente e passivo, embora sempre me identifiquei com ela em sua sensibilidade. Ela emanava uma tristeza quieta. Algo que nunca tinha notado.
- Tem que tomar cuidado vocês na rua! - Respondeu ela com a voz mansa.
Pela primeira vez, depois de muito tempo eu olhava aquele diálogo e o escutava com atenção. Uma conversa em família acontecia novamente, e aquilo era raro como a pandemia.
Cinco dias depois o caos se tornava real. Aulas suspensas, trabalhos suspensos, todos em casa.
Aquilo pra mim era bem curioso. Jamais iria deixar de me encontrar com meu namorado só por isso.
No dia seguinte ao dia dezoito, combinamos de se encontrar em um bar perto da praça Roosevelt pra beber, conversar. Tomamos um susto quando vimos a maioria dos bares fechados, tudo trancado e silencioso. Só os mercadinhos próximos abertos. Pela primeira vez senti na pele o momento vivido. Não devia ser só uma gripinha.
Ao me despedir do namorado, o nosso beijo foi o mais longo de todos. Sinceramente não sabia quando poderia vê-lo novamente e foi um misto de incerteza e saudade antecipada. Me senti como naqueles filmes da Netflix melosos, com uma mistura de caos e romance. Sim, se fosse definir o tipo do filme vivido naquela hora, seria drama, suspense e romance.
O desafio maior seria ficar em casa. Algo novo estava prestes a acontecer. Era como se por fim, não tivessem mais escapatórias. De uma maneira romantizada, mas real; como se eu tivesse que escolher entre a morte, ou a reconciliação.
A segunda feira posterior foi a mais assustadora. Era como se o domingo se repetisse. Subi ao meu quarto e chorei. Tive que conter minha crise de ansiedade. Até quando isso duraria? Que tipo de castigo dos deuses seria esse? Isso que nem religioso eu era.
A sala de estar se tornou o centro da cidade. A cozinha o mercadinho. O quintal, o resto do mundo sem teto. E o meu quarto a minha casa. A sociedade havia se remoldado. Nas minhas horas mais otimistas, pensava que a vida me havia dado uma outra oportunidade para ficar bem com meus pais. Nas horas pessimistas, devia ser castigo mesmo.
Os cultos que meus pais participavam toda semana também haviam sido cancelados. Minha mãe que era bem religiosa decidiu fazer orações todas as quartas dentro de casa e me convidou. A última vez que tinha orado de fato eu devia ter uns dez anos. Aceitei ficar com ela por intuição e solidão, talvez. As orações sempre são feitas cheias de palavras, e o que precisava naquela hora era ouvir vozes, palavras e frases. Às dezenove horas, no horário marcado, começamos lendo salmos. Meu pai passou com o prato na mão reto e foi pra sala ligar no Datena. Depois de dez minutos ele deixou o prato pela metade, puxou uma cadeira e se sentou entre eu e minha mãe.
Ouvir a voz dos dois concentrados, dizendo em voz alta palavras que não eram reclamações ou xingamentos pra mim foi único. Era como se estivesse vendo um espetáculo, desses de ópera em que aquele povo culto levanta, bate palma e ficam com os olhos marejados. Fiquei a oração inteira calado. Com os olhos cheios d’água. Só abri a boca pra dizer o Amém no fim. Aquela casa voltava a ter oxigênio de novo. Conseguia respirar fundo depois de muito tempo.
Ao terminar, meu pai olhou pra mim e notou minha emoção. Era como se nos olhássemos com o mesmo olhar daquela vez quando ele colocou a chuteira em mim.
- Temos que se cuidar, filho - Disse meu pai, antes de se levantar da mesa.
Nos dias seguintes o clima ainda era pesado por tudo o que passava na TV. As mortes não paravam de subir devido ao vírus, mas eu conseguia ficar na sala com meus pais, por exemplo, por mais de meia hora sem precisar mexer no celular. Trocávamos diálogos monossilábicos e portas se abriam.
Mas meu coração ficou entalado na goela mesmo quando eu estava no quarto conversando com meu namorado via chamada de vídeo, e meu pai entrou pra pegar não sei o quê. Me pegou logo na hora em que eu dizia o Eu Te Amo Diogo. Fiquei estático. Meu pai me olhou por uns três segundos. Os mais longos da história, e se retirou do quarto sem demonstrar reações.
Pronto. Agora era oficial. Se ele desconfiava de algo, agora já tinha certeza. No fundo eu os amava. Não queria dar desgosto a eles de forma alguma, em compensação, me atrofiava em meus sentimentos cada vez que escondia esse segredo deles.
As semanas passavam e eu por vontade própria, me distanciava do meu pai. Não queria seus olhos de julgamento em mim de novo.
Numa tarde de domingo, dessas ensolaradas como as da infância, ele me chamou no quintal. Eu já não sabia o que sentia, se era raiva, mágoa ou ansiedade...ele pediu que eu esperasse e me entregou uma caixa que parecia ter um presente dentro. Eram as cordas de se pular mais bonitas que eu tinha visto.
- Toma, filho. Quero que você ensine o pai a pular também...

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