Confesso que já vi de tudo
nessa vida. Homens com doenças de cabeça, mulheres que gostam de homens ruins,
filhos que nunca mais saem da saia da mãe, cachorros que conversam com gente e
até lobisomem, mas coisas igual as do Seu Carlos, nunca.
Aqui no Cariri a vida sempre foi a mesma. Cozinhar pro marido, filhos arteiros e os nervosos que passamos no dia a dia. Quando a internet chegou e o zap ficou mais popular, o arrudeio ficou maior, e
a gente se inteirou da vida dos outros com maior facilidade. Dona Nézinha
sempre ficava na porta da casa, toda abirobada olhando a movimentação da
cidade, e de uns meses pra cá nunca mais nem vi. Mas no celular espalha
conversa fiada da mesma forma. No fim das contas é como se ela ficasse na porta
da casa dela falando mal dos outros igual, mas virtualmente, como diz meu neto.
Mas o assunto que me intrigou, sem perder
o fio da meada, foi o de Seu Carlos. Sempre desconfiei que ele fosse meio
desmunhecado pelo jeito dele de andar, e a maneira como conversava com as
primas na praça depois da missa. Sujeito bonzinho, é verdade, nunca fez mal pra
ninguém, que eu saiba.
Participava da missa como coroinha de
confiança do Padre Robson, sempre muito participativo e conversador com as
irmãs. Carregava a hóstia na hora da comunhão com a ponta dos dedos com uma
fineza só. No fundo ele sempre foi cuidadoso. Talvez até demais pra um homem.
Digo isso como exemplo meu marido. Até
então nunca tive o que reclamar dele. Tá certo que volta e meia vai no bar do
Cido, mas sempre pôs comida na mesa e nunca deixou faltar nada. Tem firmeza na
voz, e passa uma brabeza típica de homem. Dia desses ele sem querer me empurrou
porque esqueci de fazer algo que ele tinha pedido e ficou aperreado! Sempre foi
sem muita conversa, direto e rápido no que tem que fazer. Às vezes até rápido
demais mas isso não vem ao caso.
Eu mais as senhoras da igreja sempre
desconfiamos do Seu Carlos e até já chegamos no Padre Robson pra conversar
sobre o rapaz. Vai saber se isso não é uma heresia aos olhos de Deus. O Padre tinha
que ter ciência. Pra mim era quase certeza que esse tal de zap tinha trazido
essas coisas mundanas todas aqui pra cidade.
Com o passar dos meses a coisa foi ficando
pior quando Seu Carlos trazia um homem pra dentro de sua casa. Tudo bem que a
casa é dele mas as crianças da cidade não eram obrigadas a ver. Cabra entrava
na hora do almoço e só saía de noitinha, sabe-se lá fazendo o quê lá dentro.
Certo dia meu marido chegava do bar depois
de ter voltado do serviço, esfomeado e perguntando da janta. Depois de comer e
a bebedeira passar, sentado na mesa ele me comentou:
- Arriegua, mulher! Sabe o
Seu Carlos aí da frente?
- Sei sim, pois diga.
- Tão dizendo que casou
com outro cabra e adotou um moleque pra criar junto com ele. Vê se pode!
- E é, é?
- Juro por meu Padim Pade
Ciço.
Daí danou-se de vez. Não sei se o povo se empolgava
com as coisas que aparecem na novela de noite, se andam com gente que não deve,
porque isso assim eu nunca vi. Agora por fim parece que ele assumiu o que
sempre foi. Eu pensava que isso era falta de Deus.
No dia seguinte
acordei cedo pra lavar a louça da janta e aproveitei pra fazer a feira de
manhã. Encontrei os três. Seu Carlos, seu namorado e o tal filho. Fiquei
olhando de canto vendo aquela heresia doida. Confesso que todos sorriam numa
alegria que nunca vi em ninguém na região. Levantavam o menino pro alto, faziam
cócegas. Contavam histórias e corriam até suar. Parecia propaganda de manteiga
mesmo.
Quando foi de noite todos participaram da
missa. Minhas amigas ficavam olhando de canto e a cidade toda comentava.
Chegavam até a fazer o sinal da cruz pra eles. Eu achei exagero no fundo. Eles
também são filhos de Deus.
Ao fim da missa
a lua estava bonita que só, e a homilía do padre me deixou tão bem que até
esqueci a família estranha. Não resisti e puxei conversa com os três.
- Boa noite,
Seu Carlos. Família bonita!
-Ah eu agradeço
Dona Vera! A gente aqui causa um pouco de estranheza pro povo. Olham a gente
como se fossemos E.Ts.
- Ah mas o
importante é estar feliz, né seu Carlos!
- Sim! Agradeço
as palavras. As pessoas deviam ser mais livres e fazer o que o coração manda.
Com essa frase ao fim ele se despediu de
mim. Fiquei matutando ela a noite inteira em casa. Pensei com mais profundidade
quando meu marido deixou de roncar e pude pensar melhor sem barulho. “Livres e
fazer o que o coração manda”. Fui tocada tão dentro quanto a palavra do padre.
Talvez mais fundo até. Me virei pro outro lado da cama e chorei. Não sabia de
onde vinha aquele choro. Seria a tal depressão e essas doenças novas que vêm
junto com a internet?
Precisava conversar com alguém. Pensei em
conversar com as irmãs pra desabafar. Chamei Dona Nézinha pra sair do zap e
fofocar pessoalmente comigo. Sentamos e começamos a tomar um café com cuscuz
com manteiga. Vi no noticiário esses dias que um cuscuz com manteiga ajuda a
liberar uma tal serotonina que deixa a gente mais feliz. Já comecei a conversa
preparada, visse!
Quando comentei que tinha conversado com
Seu Carlos e sua família, ela torceu o nariz, mas a conversa andou da mesma
forma que sempre andava. A gente sempre terminava por cutucar os outros. Sentia
falta que conversássemos coisas sobre nós. Coisas sobre eu, coisas sobre a Dona
Nézinha. Me sentia doente no fundo.
Ao terminar o
café, o susto. Minha amiga quando se levantou deixou algo cair de sua bolsa.
Fui perceber só quando ela já tinha fechado a porta e me virei de volta à
cozinha. Demorei pra acreditar no que eu estava vendo e, assustada, fiz três
sinais da cruz.
Era um objeto
de uns vinte centímetros, de primeira parecia uma cobra. Mas quando cheguei
perto vi que era o negócio que os homens levam entre as pernas, só que todo de
borracha e verde. Parecia o coiso de um E.T.
Naquela hora
tremi toda e corri pra esconder aquilo. Peguei um papel toalha e embrulhei o
negócio de modo que ninguém percebesse seu formato e escondi embaixo de minha
cama.
Como que a irmã
Nézinha trazia aquela coisa dentro da bolsa, gente? Naquele momento todos os
meus cinquenta e cinco anos de vida tinham ido pelo ralo. Afinal, quem eramos
todos nós?
Aquilo ficou debaixo da minha cama a
semana inteira, não tinha coragem de entregar na mão da irmã. No sábado
seguinte encontrei o Seu Carlos de novo na feira. Nos cumprimentamos e puxamos
outro assunto em seguida:
- Bom dia, Dona
Vera! Vai qualquer dia la´em casa pra tomarmos um café!
- Claro, Seu
Carlos!
Eu respondi
aquilo de surpresa mas não tinha certeza se iria de fato. Sem dúvidas ele
sempre foi um moço muito respeitoso e educado. Afeminado é verdade, mas
educado.
Eu estava
mudada ultimamente. Jamais que uns anos atrás eu entraria na casa de um sujeito
como o Seu Carlos. E pela primeira vez não vi mal algum em ir tomar um café em
sua casa.
Coisas novas nasciam
em mim. Ele e seu parceiro me deixavam muito à vontade. Seu filho corria e
brincava na esteira dando aqueles gritinhos que criança dá quando fica
empolgada. Algo naquela família me inspirava. A liberdade e leveza de todos
seguros com o que sentiam era de se perceber de longe. Pela primeira vez em
anos eu conversava sobre mim. Era bem diferente das conversas com a Dona
Nézinha. Me sentia viva novamente escutando as histórias deles.
A conversa era
boa e voava longe:
- Pois então
Dona Vera, como vai seu casamento?
- Ah vai bem.
Marido está lá dormindo. Por falar nisso preciso voltar pra lavar a louça, que
se eu deixar por lá, mais fácil criar bicho.
Eles riram e
voltaram a fazer a pergunta, só que com mais malícia. Entendi a intenção e respondi:
- Ahh mas essa
coisa é passado, fio. Não tenho mais idade pra fazer isso não. No fundo eu
nunca fui tão animada pra isso também.
Percebi logo
que respondi um espanto por parte dos dois.
- Mas então a
senhora não aproveita a melhor parte da vida?
Fiquei encucada com essa pergunta deles.
Pra mim esses assuntos fogosos não tinham graça. Uma porque era pecado mortal
falar disso, e segunda porque nunca me animou muito mesmo. Ao longo da prosa
eles me explicaram que na hora do vamo ver a mulher também fica alegrinha igual
o homem. Na época em que eu era jovem, meu marido ficava alegre igual um bicho,
e logo dormia. Eu nunca fiquei alegrinha como ele ficava...
- Dona Vera,
você tem que aproveitar a vida. Corra que ainda dá tempo. Seja feliz e livre!
Saí de lá com
esse sermão do Seu Carlos. Pronto, era só o que me faltava. Receber sermão
deles.
Confesso que
naquela hora nem sei o que passava na minha mente. Me sentia lesada no fundo.
Como se minha felicidade tivesse sido cortada com uma peixeira. Seria pecado tudo
isso?
Quando cheguei
em casa estava cansada. Mentalmente cansada como se um caminhão tivesse me
atropelado. Só tive tempo de requentar um pirão, tomar um banho e deitar.
A noite estava
quente como sempre e meu marido ainda não tinha voltado do serviço. Devia estar
no bar igual fazia todos os dias. Deitei na cama e fiquei olhando pro teto
pensando nas alegrias que perdi naquele local. Que tipo de alegrias eram aquelas?
Por que ninguém nunca me avisou dos prazeres que eu poderia alcançar? Me
podaram como um pé de mandacaru velho no sertão.
Me enraiveci e peguei o negócio de
borracha da Dona Nézinha que estava debaixo da cama. As horas a partir dali
foram as melhores que vivi naquele local. Sentia como quem desce aquelas
montanhas russas dos parques de diversão da cidade. Como um frio na barriga
gigante que parece não ter fim. Senti que poderia tocar o céu. Devo ter
conhecido meu Padim Ciço e voltado até!
Nas semanas seguintes as irmãs da igreja
me olhavam andando com a família de seu Carlos pra lá e pra cá. Me senti aos
poucos excluída do círculo de amizade das irmãs. Fiquei triste, mas alegre por
dentro. Redescobria o mundo de novo.
Naquela noite
em que descobri prazeres preferi dormir no sofá. Eu e o brinquedo da Dona
Nézinha.
Depois de
alguns dias a vi caminhando na vizinhança com um tristeza que doía. Um dia
tenho que devolver o negócio dela.
Felipe Leonardo

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