quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

O casal grudado

     





     Numa aldeia isolada no norte da Venezuela, onde o dia dura cerca de vinte e seis horas e o arco íris possui oito cores, vive um casal de nativos que de lá nunca saiu. A comida é farta o ano todo, e o deus do povoado são os aviões que vão e voltam de Caracas e sobrevoam o vilarejo como aves de rapina gigantes. Aprenderam a cultuar o objeto voador pelo tamanho e som estridente que faz, e o modo que levanta o vento, como quem protege algo sob asas.
     Miguel, que possui uma plantação de milho, aprendeu a extrair a farinha do vegetal e diz com convicção que inventou as tortinhas de milho. As batizou de Arepas. Segundo ele próprio confirmava, tinha diálogos constantes com deus, e que o pássaro gigante voador lhe havia dito a novidade. Era um sonhador e inventor de ofício. Há tempos atrás apavorou o povoado e quebrou uma perna ao subir no telhado e pular de lá, gritando aos quatro ventos de que podia voar com um lençol nas costas.Tinha Dom Quixote como seu livro de cabeceira no quarto. Seu próprio nome ele mesmo havia trocado em homenagem ao escritor de seu livro favorito.
     Carmen, sua esposa, sempre foi boa em finanças. Ela organizava as vendas e compras da família com  calma e maestria. Digo, família pois nos fundos da casa tinham o Dito, um porquinho que criavam há pouco tempo com a promessa de assá-lo no natal. Carmen apesar de ter a alma livre como seu companheiro, era racional e concentrada em quase tudo que fazia. Quando perdia o chão com o jeito avoado e romântico de Miguel, lia Dostoiévski para firmar os pés.
     São o casal mais diferente, misterioso e unido do vilarejo. Seus pontos em comum são o amor pela arte e pelas coisas indefinidas. - As coisas indefinidas são o charme da vida e o mistério está onde não podemos ver nem tocar. – diz Carmen, toda pomposa em tom de discurso.
A vizinhança de pouco mais de quarenta pessoas comentava com orgulho e inveja os feitos do casal, que no fundo, serviam de exemplo para aquele povo até então pálido e melancólico.
Todos os finais de tarde, Miguel se encontra com Carmen no alto da montanha que dá pra vista total da cidade, junto com os lagos todos. Ainda que morem na mesma casa, se encontram no mesmo local, como na época do namoro. Lá em cima trocam beijos, discutem filosofias, competem entre quais pensadores têm as melhores ideias. Miguel vota nos românticos. Carmen nos existencialistas. Sempre chegam a um consenso, se cansam, e fazem amor quando os grilos ameaçam cantar. Voltam pra casa e dormem com a certeza de terem colhido o dia. Talvez as vinte e seis horas diárias fossem um acréscimo dos deuses para poderem aproveitar o dia como gostariam.
     Quando namoravam, o casal passou pelo primeiro momento difícil. Carmen se afogou no rio do vilarejo enquanto lavava roupas. A correnteza a pegou desprevenida e ficou desaparecida por duas semanas. Miguel chorou na mesma intensidade que ela havia bebido de água. Ambos se afogaram a seu modo em locais diferentes. Miguel tentou por várias vezes tirar sua vida ingerindo plantas venenosas, pulando na frente de carros e até cometendo heresias dizendo os mais baixos palavrões e gritos ao deus avião, com a esperança que se revoltasse e descesse um raio em forma de castigo.
     Foram duas longas semanas de sofrimento quando numa quinta feira chuvosa de verão, Carmen apareceu ensopada, suja e magra na porta de casa. Ao se verem, ambos se abraçaram e choraram juntos por mais duas semanas. A partir desse momento, ambos começaram a valorizar a vida do outro em dobro.
     O povoado fofocava com frequência sobre a união do casal. Não se separavam e só discutiam entre sí quando jogavam cartas. Ambos eram muito competitivos.
     Dona Dolores, vizinha de casa colada, disse que presenciou a única discussão onde se ouviram gritos estridentes. Comentou que estava prestes a dormir quando ouviu batidas na mesa e ânimos exaltados. Já iria chamar a polícia quando percebeu que o casal decidia quem havia ganhado a partida de carteado que jogavam há horas.
Miguel comentava envergonhado e culposo nas rodas de conversa com alguns vizinhos sobre as brigas. – Quando falamos alto coisas feias, ninguém se escuta. A alma é delicada como membrana de ovo de galinha, e os gritos rasgam a alma de quem grita e de quem ouve. – Dizia.

     Todas as noites quando se abraçavam para dormir, ficavam unidos do começo ao fim. A posição aparentemente desconfortável, por incrível que pareça se tornava confortável e duradoura até o amanhecer. Acordavam grudados pela manhã exatamente como haviam deitado. Assunto esse era motivo de risos nas conversas de café da manhã. Eram como água dentro da cumbuca, onde se encaixavam e ficavam sem muito esforço. Não sentiam necessidade de distância. Eram uma alma só unidas, e o corpo compadecia do desejo.
     Certa noite, dessas calmas e silenciosas, onde só o vento das folhas das palmeiras e os sapos se ouviam, ocorreu algo nunca antes imaginado. Com o tocar do sol no rosto de Carmen entre a fresta do telhado quebrado, um simples espreguiçar pareceu bizarro.
Carmen esticou o braço para espantar o sono, e o corpo de Miguel também se moveu. Ao olhar pro lado, ela se assustou e gritou tão alto que seguramente se conseguiu escutar em Roraima.
Seu marido estava com o tronco do corpo parcialmente grudado ao seu. Exatamente junto, como se não houvessem dobras. Como se naquela noite os dois se tornassem siameses. Miguel acordou e só não conseguiu gritar mais alto porque não tinha potência pra isso. Acordaram e se levantaram os dois aos trupicões, esbarrando em cômodas e enroscando pés em tapetes, como aqueles cachorros que se grudam depois do coito.
     Depois de uma hora como doidos sem saber o que fazer, sentaram no sofá e olharam-se um ao outro com um desespero no olhar. Quem haveria de fazer tal feitiçaria? Aquilo sem dúvida era coisa de se suspeitar. Quem sabe no vilarejo existisse algum xamã ou bruxo de má índole que teria inveja de um casal feliz?
Na hora de se vestirem para tocarem suas vidas, conseguiram colocar suas calças de maneira tranquila, mas a camiseta tiveram que roubar do vizinho obeso da frente a fim de uma só caber nos dois corpos agora unidos. Olharam ao espelho e começaram a rir com um choro entalado na goela, mas aos poucos, o longo riso de lamentação foi se tornando riso de graça. Riso de quem sente graça na própria desgraça.
     Depois de três dias amedrontados sem sair de casa, quando a vizinhança já ficava preocupada com um possível sumiço, o casal grudado saiu à rua, tentando transpassar em gestos naturais a loucura que acabara de ocorrer.
Os moradores fechavam suas janelas e repreendiam quando viam o casal daquela forma. Ficaram mais monossilábicos e sem assunto nas conversas na praça. Dona dolores, a formadora de opinião, tinha certeza na teoria de que o deus avião os havia castigado por algo muito ruim que poderiam ter feito escondidos. Ou senão só pelo fato de serem tão unidos, talvez até deus não gostasse dessa união toda e o incomodasse também. O povo, ingenuamente, acostumou assemelhar os seres divinos a sua imagem e semelhança.
     Carmen e Miguel cogitaram então procurar algum xamã para desfazer o feitiço. Por mais que antes, sempre fossem muito próximos, o fato de estarem siameses agora atrapalhava até nas necessidades. Carmen nunca imaginava que de Miguel saíssem coisas tão fedorentas. O mesmo pensava Miguel de Carmen. Riam-se de tudo ao fim como crianças, sempre depois de todo desespero.

     Dona Dolores conhecia um índio que realizava trabalhos espirituais em uma cidade no meio da amazônia, e que estava como andarilho por aquelas terras. Não pensou duas vezes em contatá-lo para poder sanar o problema do casal, que do jeito que estavam, despertavam compadecimentos do povo. O xamã ao entrar na casa de Miguel e Carmen, trouxe consigo ramos de arruda, capim-limão e outros tipos de folhagens nativas, que segundo ele, curam e sugam todo mal. Depois de algumas horas falando palavras estranhas, cochichando e passando os vegetais no casal, ele disse o diagnóstico. Revelou com tranquilidade e segurança de que o casal estava perfeitamente bem, que ninguém havia feito malvadezas espirituais nem pragas lhes tinham rogado.
     Começaram a supor que alguma enfermidade nova estaria rondando o povoado. Como se uma epidemia de grudar corpos estivesse à solta. Essa hipótese fez com que cada vez mais, o povo se isolasse do casal. Mas o que Miguel e Carmen tinham, morador nenhum de lá possuía. Amor e união em um nível nunca visto.
     Os dias, meses e anos se passaram, e os moradores já nomeavam os dois como um só. “O casal grudado”. A hipótese de epidemia não vingou. Os dois viraram até cultura e folclore local.
Para os dois, naquela altura isso pouco importava. Se tivessem de estar grudados, que fossem eles dois. Se conheciam um ao outro como ninguém. A proximidade se elevou a tal nível que começaram a se comunicar somente por telepatia. O olhar de um ao outro já bastava para que se compreendessem.Faziam amor do jeito que as almas fazem, com olhares profundos, e sopros que causavam sensações divinas. Nos momentos em que careciam de discutir literatura e filosofia usavam a voz para alcançar explanações mais profundas. Eram completos sendo inteiros como sempre foram.
     Vivem até hoje no mesmo vilarejo em terras venezuelanas. Boatos dizem que o dia, que até então tinha vinte e seis horas, aumentou de tamanho. O amor os tornou eternos. 




(Felipe Leonardo)

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