quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Queria ser Castro Alves







Meu lado galante
Sempre quis ser Castro Alves.
Tratar as palavras como quem carrega flores
Pensar no amor como embriaguez de licores,
Com canela e mel nas vogais.

Meu lado sofrido
Sempre quis ser Castro Alves
Desassossegado, inquieto,
Que acompanha as dores de perto,
Que quer rasgar o ar com consoantes fortes.

Seu livro impera em minha estante,
Do lado esquerdo, está Vinícius,
Suspeito que os dois saiam à noite a beber.
Do lado direito, Lispector,
Suspeito que vivam um amor escondido.

Suas páginas amareladas,
Leves como bíblia antiga,
Contam histórias sem lê-las;
Falam: folheiam amores,
Tecem: amores em teias

O livro gasto pelo tempo
É meu diálogo com Castro Alves.
Ouço conselhos e desabafos,
E juro que posso ouví-los ao pé do ouvido.
Os livros são espécies de médiuns,
Permitem-nos conversar com os mortos.




(Felipe Leonardo)

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