Meu lado galante
Sempre quis ser Castro
Alves.
Tratar as palavras como
quem carrega flores
Pensar no amor como
embriaguez de licores,
Com canela e mel nas
vogais.
Meu lado sofrido
Sempre quis ser Castro
Alves
Desassossegado, inquieto,
Que acompanha as dores de
perto,
Que quer rasgar o ar com
consoantes fortes.
Seu livro impera em minha
estante,
Do lado esquerdo, está
Vinícius,
Suspeito que os dois saiam
à noite a beber.
Do lado direito, Lispector,
Suspeito que vivam um amor
escondido.
Suas páginas amareladas,
Leves como bíblia antiga,
Contam histórias sem
lê-las;
Falam: folheiam amores,
Tecem: amores em teias
O livro gasto pelo tempo
É meu diálogo com Castro
Alves.
Ouço conselhos e desabafos,
E juro que posso ouví-los
ao pé do ouvido.
Os livros são espécies de
médiuns,
Permitem-nos conversar com
os mortos.
(Felipe Leonardo)

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