sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Compadre João - O Centenário






- Bença vô!
- Çoe, meu filho!
   Era de lei. Sentado na varanda, em sua cadeira acolchoada de rendas xadrez, Compadre João emendava o descanso pós almoço com a janta. Olhava o céu e proseava com o primeiro que visse antes de pegar no sono. Em começo de verão, o sol do meio dia trazia o bafo quente até aquela cidadezinha do interior de São Paulo. Ele dizia que aquela quentura toda vinha das Minas Gerais – Os Gerais é grande, fio. O vento é que nem água de nascente. Nasce fresquinho, mas anda tanto que soa e chega quente na gente! - Exclamava.
    O horário da janta era sempre pontual. O despertador da bóia era as rolinhas Fogo-Apagou que rasgavam o silencio das dezessete horas, e piavam com a mesma tristeza com que o dia ameaçava acabar. Reticentes. Os pássaros em terras caipiras soam arrastado. Uma preguiça que parece tristeza.  Demoram a piar... Quem sabe o primeiro sotaque não foi deles!?
    Compadre João era até muito lúcido com a vida. Morava sozinho desde que a vó foi morar no céu. Deixara-o só com os passarinhos e a pequena horta que cuidavam os dois. A casa ficara grande, mas a alma grande de Compadre João preenchia todo o espaço.
    Os vizinhos boiadeiros que passavam de cavalo em frente aos mini-portões da casa, não resistiam em olhar. Viam tudo admirados!
  - Compadre João está melhor que a gente, moço! Espia lá como ele agacha pra pegar os coentros!
Ninguém sabia ao certo quantos anos tinha. Seu Pedro Egídio dizia que tinha cento e sete. Tião Elias afirmava que Compadre João já era grande quando seu pai era vivo, e jurava que tinha cento e quarenta anos. Já Zé Gatão, dono da mercearia, dizia que tinha ouvido que Compadre João conhecera Princesa Isabel e que tinha lá pelos duzentos anos de idade.
    A coisa que mais o animava era relembrar as histórias de quando era moço. Recordava-se com brilhos nos olhos suas montarias a cavalo, os bailes na cidade, e a maneira que conquistou o coração da vó! Acomodava-se na cadeira com suas pernas cruzadas. Ostentava as fotos amareladas e mostrava aos bisnetos com um orgulho de quem levanta um troféu. Tinha alma de menino travesso. Sempre teve. Perdia-se entre risadas e piadas irônicas, mas contava temeroso, a época em que serviu o exército e viveu as atrocidades da ditadura. Viveu as duas grandes guerras. Tinha medo de militar, ainda que tivesse foto com fuzil em riste.
  – As guerras são feitas com os homens todos cegos, fio. Eu via tudo. Ninguém enxergava nada. – Dizia

    Ao longo dos anos, se referia aos seus descendentes com um mistério nas palavras. Comentava de cada um como se pisasse em ovos. Como quem se referindo ao nome, evocasse a pessoa naquele momento exato. Somente grandes proseadores tinham esse dom! O dom do espetáculo!
    Falava que as pessoas eram todas iguais. Que o mundo era como uma grande família do mesmo sangue e do mesmo pai, e que os sobrenomes quem tinha inventado era o Diabo, a fim de dividir a gente.
    Passassem anos, passassem décadas, os costumes eram os mesmos, o que diferenciava era a maneira de prosear e a rapidez com que se olha no olho. – Entendemos a cabeça dos outros melhor quando olhamos no olho, fio. É como se a gente olhasse a alma pelada do caboclo. O olhar nunca mente! Repara! – Terminava.
    Em uma dessas vésperas de janta, em uma terça-feira qualquer, as Fogo-Apagou já davam seu alerta. Perguntei a ele o segredo de tudo. Depois de uma suspirada profunda, Compadre João se ajeitou na cadeira, tossiu duas vezes pra tirar o pigarro, e respondeu sereno, com um sorriso de criança de dez anos:
 -  Vamos comer, fio. Tenha paciência que eu tenho uma centena de anos pra viver ainda. E você o dobro!





(Felipe Leonardo)


4 comentários:

  1. Fiquei emocionada 😍 que conto poética fascinante. Fui transportada a outro espaço e pude contemplar a beleza do sertão, a história de um vozinho. Encantada 😱😍

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    1. Muito obrigado! Fico feliz de poder tocar outros corações :)

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  2. Nossa que história...este vizinho sábio de mais..Parabéns Felipe..

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